31.10.08

miniatura

[vivre sa vie. godard. 1962]

dois diálogos
sobre cigarros


- pozzo, todas as mulheres foram tuas?
- para homens raros mon vieux. somente para raros.



30.10.08

delícia de narrativa

[Katia leyendo, de Balthus, 1976]

- poetinha, dá um chup?

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

[NABOKOV, Vladimir. Lolita. São Paulo: Companhia das letras, 1994. p. 13]


29.10.08

[das anedotas]

[A mina de ouro da Serra Pelada - Brazil, de Sebastião Salgado, 1986]


das anedotas:
“a lata de lixo da história” e/ou minha “cidade de deus”

definitivamente as idéias estão fora do lugar
e o escritor não é mais o homem do seu tempo.

ao vencedor, as batatas!


28.10.08

[diálogos]

[Lee Miller e Tanja Ramm, de Theodore Miller, 1929 ?]


diálogos sob o prazer do texto
isto aparentemente seriam duas homenagens

se a filha do Pádua não traiu Bento,
Machadinho foi José de Alencar

[Dalton Trevisan]


- Janjão, chega’qui, me’lucida uma coisa.
- Pois sim.
- O pai é o menino do homem?



27.10.08

[prova teórica]

[arquivo : net]



Responda as questões levando em consideração o conceito de mimeses estudado em seus mais diferentes significados, os quais foram, de uma maneira ou de outra, marcados por algum contexto histórico
[poetinha que também já foi bolsista do cnpq]

- ih!, deu merda!


a) Tendo como ponto de partida a janela e utilizando o foco narrativo em primeira pessoa de forma instrospectiva que, normalmente, nós a denominamos de narrador subjetivo, com tempo e espaço fotografado pela perspectiva lente do autor - que não está morto - mergulhando-o, por fim, em uma determinada condição sócio-histórico-cultural, poderíamos, com o uso desses aspectos, inscrever um factual espelhamento da realidade através da utilização de uma linguagem verbal?

b) Defina realidade.

c) Espelho, espelho meu, quem és tú ó!, mais belo do que eu?



26.10.08

[Angeli night club]

[isto é uma fotografia]

- vai lá, poetinha.
sua vez. me revela um segredo

faz tempo que venho matutanto a idéia de postar essa tirinha. as poucas pessoas que me conhecem "senhor, são tantas", sabem que a carrego pra cima e pra baixo acomodada dentro de um caderno. qualquer dia, mando emoldurá-la junto com um tantão de outras.


evoé, angeli.



25.10.08

[jornada]

[Railroad sunset, de Edward Hopper, 1929]

jornada


o momento do dia mais esperado vem chegando. devagar, concentrado e calmo. como se todas as formas caissem no sono. em cores. a tarde dita o ritmo de muitas pessoas. os tubos de ônibus cheios. abarrotados. uma centopéia de filas quilométricas. cortando esquinas. trânsito engarrafado. na calçada, os passos lentos da velha senhora decrépita que carrega o cachorro como um filho. ao redor de dentro da gente, um mundo. a panificadora com o pãozinho fresco a espera pelo cliente.
quatro francês, bem branquinhos. o eterno retorno de chegar em casa. passar o fiel café que não reclama. tocar, no velho aparelho de discos, uma partitura doméstica. percorrer novos labirintos pelos quarenta e seis metros quadrados. novas perspectivas que se esvaem na porta do quarto. quem bate? nada transcende. dizer - sim! - bobagens que. mas pingar, antes do noturno, uma poesia em cada retina. caminhar os pés descalços até o limite da cama. deitar a cabeça suavemente no macio travesseiro. suspirar - que fundo - um acabado. e deixar que as pálpebras - shhhh! que dorme - encerrem o cotidiano teatro de sua vida.

- falem baixo, que tá dormindo.



23.10.08

[gota a gota]

[arquivo : net]

[p/ s. l.]

gota a gota



- abra a boquiiiiiiiinha:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
...................
...............pl!ck


22.10.08

[Miniatura]

[arquivo : net]


o homem que não soube como

adquiriu a fratura ezposta ?!?

.........................do
.............bin
su

estava o bêbado
caminhando ou

ca
.............in
.........................do


21.10.08

[cotidiano]

[Revoada I, de Assis de Mello, 2005]

cotidiano
[traço no bico da pena]

uma revoada
de pombos
na praça tiradentes

carrega para longe
os olhos do meu
horizonte


20.10.08

[puta merda!]


puta que o pariu! quem viu...

[com o perdão pelo abusivo uso de gordurosos adjetivos]

Não vou entrar em detalhes acerca do que se trata a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, ou refletir sobre os hiatos comunicativos entre os personagens, o eterno retorno nietzschiano, o absurdo da situação em sua eterna espera [Godot = God?], ou mesmo o nonsense dos diálogos, mas posso falar - superficialmente, senhores? - que todos os atores foram brilhantes, isso é igual a isto: fodas! No entanto com um ponto a mais para Mauro Zanatta, interpretando Gogô e Karina Pereira, no papel de Lucky e o garotinho. Foram du cá!

Uma peça que, com certeza, eu voltaria para ver mais vezes.
Só não dá pra voltar, porque ontem era o último dia em cartaz. Quem viu, viu, quem não viu...


19.10.08

[alvenaria]

[arquivo : net]


alvenaria

no meio do canteiro de obras
entre esqueletos de ferros e tábuas e sacos
de cimentos
e monte de cascalhos
e fumaça de cal:

tinha uma............pedra
sobre...................pedra


15.10.08

[distração]

[Persepolis, de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi, 2007]


distração

noite inclinada
o carro de bombeiros

passa

luzes piscam azuis
vibra sirene acústico

cor ação

da janela: chama
distância fumaça?

a caso

trago-me lembrança
no
aceso eixo do cigarro


13.10.08

[Clipping]

[Naked man, back view, de Lucian Freud, 1992]


Ponto de fuga
Monstros de pureza

Jorge Coli
Colunista da Folha

Oswaldo Martins, especialista em literatura erótica, é também poeta. Um ou outro de seus poemas, em livros e no blog http://osmarti.blogspot.com/, contém palavras mais fortes. Alguns elaboram desejos físicos de maneira delicada e sem evidência imediata. O blog é inteligente [1], carregado de amor pela literatura; os poemas são bons.
Essas qualidades bastaram para que a Escola Parque [no Rio], em que Oswaldo Martins lecionava português, o demitisse, como contou, no domingo passado, o Mais!.
A miopia moralista da escola, dos pais, de "psicólogos e juristas" evocados no texto, miopia que desencadeou o caso, assusta pelo "obscurantismo e a certeza dos censores", na expressão do próprio professor despedido.
Censura e obscurantismo, no caso, não são singulares e episódicos. Eles se inserem na mentalidade de nossos tempos regressivos, marcados por puritanismos, por fundamentalismos religiosos, pelo maniqueísmo das convicções, pelo gosto doentio em patrulhar, controlar, vigiar e punir.
É bem difícil lutar contra tudo isso porque essas manifestações se fazem com parcimônia, gota a gota, disfarçadas, em nome de álibis austeros.
Aqui, trata-se de proteger as crianças, que como todos sabem, são anjinhos imateriais, feitos de etérea e cândida substância, não de carne e osso.
Mas quem os protegerá, e a nós todos, do mal que existe na cabeça desses educadores, desses pais, desses psicólogos e juristas, que nunca disseram um palavrão, que estão incólumes de pulsões pecaminosas, e que, senhores da moral, transformaram-se em juízes? Quem nos protegerá dos puros?

[CADERNO MAIS! nº 862. Folha de São Paulo, 12 de outubro, de 2008]

[1] Basta ler o sintético texto sobre os Continhos galantes, de Dalton Trevisan.


11.10.08

[fragmento]

[Carlos Drummond de Andrade 1902-1987]

[...]

"A literatura estragou tuas melhores horas de amor."

[ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 73]


10.10.08

[manhã]

[Self-portrait, de Edward Hopper, 1930]

manhã

Não há mais união. Não há mais nada entre a gente. Foram doze anos juntos. Mas o dois últimos foram desastrosos. Terríveis. Calamitosos. Não havia mais comunicação quando nos encontrávamos. O silêncio entre corpos, cada qual mergulhado em pensamentos. Agarrados como víboras.

Pensei em voltar para a casa do meu pai. Ou ir passar uns dias em Paranaguá, junto de minha mãe. Há quanto tempo não nos falamos? Porque a distância? Chegar lá e reconhecê-la. Mais velha. Uma cicatriz invisível mas visível no rosto. Caminhar pela longa extensão da praia e tomar um banho de mar. Ver os pássaros. Os carregadores de camarões com suas caras vermelhas e roupa puída. Apenas ver. Pisar a areia e sentir que estou vivo. Poderia dormir na cama do meu pai. Deitar o corpo nela e reconhecer a velha cama construida de imbuia. Dar atenção às suas lamentações e vermos o quanto somos iguais, ou melhor, o quanto todos temos algo de semelhante. Que seja uma pequena ínfima mágoa.

A noite é longa e tenho um único cigarro. Doe-me o corpo. Cansam-me os pensamentos. Estou derreado. Olho para a imensa e confortante biblioteca que adquiri ao longo dos anos. A coleção de discos. Os quadros na parede. A roupa bem passada. Para que tudo isso? Este conforto que sinto na poltrona, talvez seja o mal. Talvez, não. O luxo. Não sei. Não possuo teorias cabíveis de me explicar o que digo. Não possuo idéias novas. Sobraram-me apenas as memórias. Distantes no espaço de Ribeirão Preto. Elas bastam? Elas são? Também não sei. Mesmo diante dessa solidão existencial, posso dizer que estive acompanhado de escritores em volta. Criadores de histórias amargas. Enredos de derrotas. Tramas de solidões. Tudo: era-me. Estive-me sendo através da leitura. Será a vida uma grande derrota? Um mal acabamento de nós mesmos? Uma perda?
Um sonho? Um suspiro? Gostaria tanto de me desfazer desses questionamentos. Tormentos. que estragam qualquer começo. Esmiuçam. Dão por fim o ínicio. Que início? As ideías pra tanta miséria.

Um som que vem do banheiro, prova-me que Ana levantou. Deus!, com todos os diabos, já é de manhã. Você está aí, pergunta-me ela enquanto lava o rosto. Acordado novamente? Não senti seu corpo por toda a noite. Deslizando, ela se aproxima, beija-me o rosto: bom dia, meu querido, diz Ana com uma fala conciliativa. E desaparece feito fantasma pelo corredor. Ana, não se vá. Fique mais um pouco. Ana! Pego-me contemplando a parede branca. Nunca uma parede fora tão branca como hoje.

São dez horas! Como passa o tempo.

Agora mesmo um amigo me telefonou. Queria me encontrar para almoçarmos. Não posso. Passei a noite insone, justifiquei para ele. Eram os pensamentos que me tomavam o corpo todo. Será que acendo e dou cabo desse último cigarro? Se ao menos eu estivesse bêbado para tanto me esquecer. Deixar-me só. Preciso repensar. Mas por quê? Sinto o pescoço duro. Uns nervos de aço. Acho que vou deitar. E dormir um pouco.


[Dos grandes prosadores]

[Lima Barreto 1881-1922]

"Quão santa me parece a prostituição. Se ela não existisse, minha juventude sem amor e sem o carinho de uma mulher nunca teria o raio claro de um sorriso e um olhar."


[
apud: ROSENFELD, Anatol. Letras e leituras. São Paulo: Perspectiva: Editora da Universidade de São Paulo, Campinas. 1994. p. 132]


9.10.08

[modo de usar]

[Balanced Pacific Sheets, de John Gannam, 1948]


modo de usar

[primeira aula]

sente-se. fique imóvel. não se mexa! quieto. acalme o seu corpo antes de iniciarmos. controle-se, vamos lá!

[ inspire ]
. . . . . . . .

[ respire ]
. . . . . . . .

repita esse processo mais dez vezes. serve para oxigenar o cérebro. agora ouça. pressente uma possibilidade, um desejo? cá está! cá está! produzindo
um sentido. isso, muito bem, mas não precisa se desesperar. nada de pânico. nada de rasgar, expor as vísceras. calma. espere. muita calma. seus neurônios estão ávidos, sedentos. eletrizantes! eu sei. escolha as palavras. paulatinamente. uma a uma. não se precipite. olha a postura. como é que eu te ensinei? já se esqueceu dos dez mandamentos? cadê aquela atitude de santo, hein? muito bem! voltemos. arre! você me faz perder todo fio. onde é que estávamos? ah!, pois bem. releia aquele trecho do romance que lhe emprestei. observe como o autor trabalhou bem com as palavras. como ele as escolheu. já te expliquei que existe a tal da lapidação. a partir de um bloco concreto, bruto, contrói-se, cria-se a escultura, não é? se dá a mesma coisa com a escrita. paciência. é dificil, eu sei. vamos devagar. não tenha pressa como os motoristas incautos, como os adolescentes em seus arroubos amorosos. muita lucidez nesta hora. sabe aquela relação incestuosa com a palavra que outro dia eu te contei? então. é o segredo. você não precisa ser um pudico. mas eu tenho que repetir toda hora?! cautela, não seja impaciente. mas assim não da para gente prosseguir! você não pára um segundo. olha, vai pensando nisso tudo que eu te disse. amanhã nós continuamos, porque hoje eu já me desgastei.


8.10.08

[aqui jaz]

[Death of a loyalist soldier, de Robert Capra, 1936]


aqui jaz
mas não morreu

certa hora
uma palavra
a : deus


7.10.08

[ocidentalismo]

[arquivo : net]

ocidentalismo

[ou the phallus in commedia em um único e básico solilóquio]

o rei phallus erectus e glandeoso conclama:

- aristokrathós de todos os castelos, uni-vos!

legenda:

phalo = pênis
krathós = poder


6.10.08

[O professor]

[Einstein, por Giulianoquase]

O professor

É inteiramente interessante ouvir numa sala de aula os professores com aquela capacidade de nos convencer em crer naquilo em que ele próprio acredita. A voz forte, as frases bem encadeadas, as mãos gesticulando como uma prece. Mas me pergunto (aliás, indagar é o que mais faço e por não encontrar respostas, acho o mundo um absurdo), será que os professores realmente crêem naquilo que discursam tão vivamente?
Existe de fato uma utopia que nos leva a ler livros, falar com desenvoltura, pregar uma certa moral, dizer que a vida vale a pena ser vivida? Eu não saberia responder, mas foi tudo o que me passou pela cabeça, enquanto o mestre – só no título – caminhava como um deus de um lado para o outro na sala de aula, até o momento em que entrava pela porta a minha direita uma companheira de turma com um decote para lá de exibicionista.


4.10.08

[táxi alucinatório]

[arquivo : net]

táxi alucinatório

ÊÊÊÊÊÊÊÊ!
ÊÊÊÊÊÊÊÊ!
ÊÊÊÊÊÊÊÊ!

Oô! Taxista! Avante!

destino
desenfreado
pé na tábua motorista alucinado
para o retorno de toda memória

passemos por entre
as reminiscências de ribeirão preto
rua da minha vida
minha vida avenida rangel
queridos amigos
uma paradinha na digressão da esquina em ladainha
direto pro núcleo sem sujeito de minas
subterrâneo
engenho interior
menino
que papai sonhou engenheiro nuclear
mas que havia tanto burro a dar coice carne seca chão batido buraco

um tatu! – admirava, eu, menino o primeiro encanto amoroso

os bares noturnos
mulheres esquinas
em riscos de cores
purpurinas!

a velocidade que vem de fora
para dentro de minha alma

retina louca!

ÊÊÊÊÊÊÊÊ!

cortes rajadas lufadas
corações solitários

Cinema mexicano apresenta:
uma balada na cruz machado
vegas
la honda
um grupo de putas! em cada esquina. Um beijo pra elas.

a loira
a negra
a ruiva
a caqui rosa amora
pernas pra que tantas pernas
eu quero todas

a roda da minha ciranda
roda roda roda com todas as prostitutas
Aoh!Aoh!Aoh!Aoh!

alucina mais motorista!
quero ver o asfalto derretido
pé na tábua a 200 Km/h
quero ver o asfalto fumegando entre as minhas sinapses

Alôôôôôôô!, memória.

bandeira dois
três quinhentas mil

até o regresso interior
do meu brazil



2.10.08

[divã]

[arquivo : net]

divã

após a sessão regressiva
o psicólogo
com o bloco de anotações na mão
explica:


seus complexos são a rima pobre
alguns erros ortográficos
a caligrafia ilegível
a ausência de coerência
a falta de coesão

e muita influência de sexus nexus plexus.

ou seja: seu mundo está repleto de sexo.


suas argumentações são válidas,
no entanto inconscientes.

e as orações subordinadas
são a causa de seus pesadelos.



1.10.08

[fixação ou sexdução?]

[The woman and the roses, de Marc Chagall, 1929]

para que algo se aloje na memória, é preciso que seja ali marcado a fogo;
somente aquilo que jamais pára de doer fica na memória

[Nietzsche]


fixação ou sexdução?

pré-figura em mim
uma ausência do seu retrato
emoldurada pela linguagem
da memória



30.9.08

[baba-de-moça]


baba-de-moça

o doce na língua:
saliva baba cremosa
que besunta calda o céu da boca
e goteja por entre os lábios pegajosos
um rio melado e viscoso o pescoço o tronco
gostoso


29.9.08

[análise de caracteres]

[Red-haired man on a chair, de Lucian Freud, 1963]

análise de caracteres

duas laudas e
1.575 dígitos

o revisor dispensa o divã.


27.9.08

[dois assaltos trevisanianos]


dois assaltos trevisanianos
[ou: assim, não, poetinha, assim, não]

I - o adolescente

- como não ter espinha na cara.

II - o homem maduro

- deus, porque fez da mulher o suspiro do moço e o sumidouro do velho.


26.9.08

[velha beata]


velha beata
tá vendo que feio, muito feio

Isto sim é lá, naquele pátio a céu aberto em pleno centro da cidade. Uns meninos descamisados chutando uma bolinha verde. E umas meninas descabeladas. Na turminha, tudo assim, daquele jeito, descalças. Com a unha vermelha. Sem vergonha alguma. Fumando maconha. A lá!, olha lá o negrinho. Aquele com violão. Me contaram que até pra reitor querem ele. Já imaginou?



24.9.08

[Miniatura]


Curta Temporada
Drama em um único ato

Desfecho: Em Busca de Um Tempo Perdido

Vovô disse:

- Cuidado (dedo fura bolo no bico da boca), o som... passa pela porta (em tom de sussurro o velho vira para o espectador). Os olhos fundos e a pele clara denotam um homem doente.

Nos pés, a umidade do ambiente. Neutro. Som: um arrastar de chinelos felpudos. Silêncio.
A luz morna que amarela amarela amarelo palco. Um círculo cada vez mais intenso vai diminuindo. Pequeno. Pequeno. Preto. Uma escuridão.
O rascar das cortinas fechando, o público explode em aplauso.

- Bravo! Bravo!


21.9.08

[jogos de armar]

[arquivo : net]

jogos de armar
primeiros passos


como dizer em palavras o arrepio que sinto pelo efeito da brisa, além de dizer que sinto uma brisa que faz arrepiar as penugens do meu braço?


20.9.08

[Miniatura]

[Coffee and cigarettes, de Jim Jarmuch, 2003]

dois diálogos sobre cafés

- e a tua monografia, como anda?
- que monografia?


19.9.08

[alguma poesia]

[Edward Munch]

alguma poesia:
quatro versos ralos


de tudo
ficou um pouco

uma bituca na janela
que não é nada inútil.


17.9.08

[picotes]

[Aracy com Guimarães]


picotes: eu diria que era o menino Rosa em seu melhor estilo. agora as cartas do James Joyce para a sua passarinha fodedora, eu não lhes conto. nenhum tiquinho. só as do Guima. mas só uma

ontem minha amiga Rosana que se expressa tão bem em público e por isso me faz morder de inveja, trouxe uma edição da revista IstoÉ, e pediu para que eu lesse a página que revelava as cartas que Guimarães Rosa escrevia para Aracy.
- você vai gostar, tem a sua cara, disse-me ela com um sorriso espontâneo no rosto.
ela estava certa, não sei se em relação com a minha cara, mas que eu iria gostar. gostei tanto que anotei no caderno alguns trechos como algo clandestino e quero compartilhar uma leitura. um fragmento de uma das cartas. leiamos:

“Antes e depois, beijar, longamente, a tua boquinha. Essa tua boca sensual e perversamente bonita, expressiva, quente, sabida, sabidíssima, suavíssima, ousada, ávida, requintada, ‘rafinierti’, gulosa, pecadora, especialista, perfumada, gostosa, tão gostosa como você toda inteira, meu anjo de Aracy bonita, muito minha, dona do meu coração.”

perguntei para Rosana, em tom de humor, depois de terminar a leitura do artigo da revista, como seria o Rosa na cama. acho que ela imaginou.


15.9.08

[cópula]

[Copula to the dusk, de Brady Romero Ricalde, s/d]

cópula
[ou o poetinha operador de fotocopiadora]

veio-me uma idéia
tão rápido como uma cópia
de uma antiga impressão esmaecida


14.9.08

[capitu sou eu]


capitu sou eu
[ou o poetinha que durante algum bocado de bons momentos acabara de se entreter com a narrativa maníaca do olho verde]
qualquer semelhança com a realidade é fruto de uma ficção: isto é uma mentira e o autor está morto


mãos para o alto, mocinha, é um assalto!
vai, me diz

certo dia com três cafezinhos logo depois do almoço:

(
essa barriguinha sexy, ó!, cuidado,
disse um homem com um olho na testa).

você queria, né, sua putinha.
três vezes
putinha.


[Miniatura]


bebida e poltrona confortável na casa dos sete gatinhos

- fica com a meia branca.
- quer que eu deixe?
- dois peitinhos. um para cada mão.
- ai, assim você me mata, joão.


13.9.08

[resumo]

[Foto - Este es el color de mis sueños, de Joan Miró, 1925]


resumo
atenção: isto não cai no vestibular

eu queria tomar de você: um estilo narrativo, retirar do seu jeito: uma imagem em preto e branco, do seu cheiro: uma idéia úmida, dos seus gestos: uma filosofia empirista, da sua voz: compor meu minueto. um quarteto de cordas. beber, beber e beber de você todo o êxtase do instante no palco de um balé onírico. sentir no fundo novos símbolos que bateriam na aorta do coração pulverizado.