Cartinha a um Velho Prosador
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Escrever bem é pensar bem, não uma questão de estilo. Os bons sabem de seus muito erros, os medíocres não sabem coisa alguma. O que há de ser, para você já foi. Não se finge o talento - falto de engenho, você é vento e pó. As letras roubadas são falsas. Fama, ó fama, eterna ladra de energias, farol negro de tanto mau passo. Para ver o nome no jornal você atropela uma doce velhinha e some com o picolé da criança. Corta essa, cara: contra o tempo nada pode, só o bom prevalece. Orgulha-se da facilidade de escrever, sim: de escrever mal. Copia a maneira de (só os defeitos, nem uma virtude), o boleio da frase, o mesmo vocabulário - e o espírito, como remedá-lo? Sem ele você nunca será o pé coxo e o olho do cego. Rasga, ó bicho, rasga o prepúcio do teu coração.
[TREVISAN, Dalton. Dinorá: novos mistérios. Rio de Janeiro: Record, 1994. p. 95-96]