25.11.08
23.11.08
entorpecido
papoulas
que flores são estas que se abrem
como três lagartas sobre a superfície lisa do espelho?
22.11.08
sob suspeita
não meus caros
que bom se o poema
tivesse o cheiro do bife a cavalo com batata frita e arroz
[com feijão
que bom se o poema
fosse amargo como uma paixão não correspondida
que bom se o poema
tivesse a textura do chopp gelado
que bom se o poema
fosse doce lambido como um pirulito
que bom se o poema
bomba: explodisse na cara do leitor
no entanto, meus caros
um poema é um poema
mera construção linguística cuja matéria prima
as palavras [e as palavras] que não possuem sentimentos ou punho cerrado revolta no peito ou cheiro de pólvora
são inúteis como qualquer idéia
revolucionária de estômago invisível
inútil tentar homem com cérebro
inútil tentar qualquer resolução
o poema é símbolo e aparência
não alimenta a boca faminta
dos meninos abandonados
tampouco faz a reforma agrária
o poeta funcionário público em seu gabinete
come amendoim descasca banana coça o saco
boceja enorme o tédio o bafo de álcool
o poeta funcionário público como um homem qualquer é um grande sacana de um
[mentiroso
debruçado em sua janela
como conter a guerra a fome a morte a injustiça social
o tráfico de crack na rua saldanha marinho atrás da sua casa?
de que te vale pensar nisso tudo se daqui a pouco
guloso o poeta funcionário público estará comendo uma batata suiça num bairro nobre de sua cidade iluminada
com a barriga embriagada de vinho importado por um salário mínimo a garrafa?
que indignação pode ter em suas palavras?
quais sonhos pode guardar o seu corpo?
por hora,
bem, por hora já não está mais aqui
o autor do escrito - sem convicção
21.11.08
adeus
o bilhete
curitiba vinte um de novembro
09:45 am
a paixão dos suicídas que se matam sem explicação
[“o último poema” – manuel bandeira]
[“o último poema” – manuel bandeira]
sob o sol colorido
vento alvo arrepiava
longe
cá tomava o meu último
comprimido
20.11.08
acontecimentos
o carro pifou na travessa
poucos uns três carros
atrás pararam
nada de congestionamento
ou buzinadas
o carro pifou na travessa
parou no meio da rua
o motorista mais que ligeiro
abriu a capota do motor
engatou a gambiarra
verificou correia óleo água e tal
partida na chave de ignição
vrum! vrum! e se mandou
o carro tinha pifado.
19.11.08
dos grandes prosadores

Cartinha a um Velho Prosador
[...]
Escrever bem é pensar bem, não uma questão de estilo. Os bons sabem de seus muito erros, os medíocres não sabem coisa alguma. O que há de ser, para você já foi. Não se finge o talento - falto de engenho, você é vento e pó. As letras roubadas são falsas. Fama, ó fama, eterna ladra de energias, farol negro de tanto mau passo. Para ver o nome no jornal você atropela uma doce velhinha e some com o picolé da criança. Corta essa, cara: contra o tempo nada pode, só o bom prevalece. Orgulha-se da facilidade de escrever, sim: de escrever mal. Copia a maneira de (só os defeitos, nem uma virtude), o boleio da frase, o mesmo vocabulário - e o espírito, como remedá-lo? Sem ele você nunca será o pé coxo e o olho do cego. Rasga, ó bicho, rasga o prepúcio do teu coração.
[TREVISAN, Dalton. Dinorá: novos mistérios. Rio de Janeiro: Record, 1994. p. 95-96]
18.11.08
diálogos
permanentemente em
férias
diferentemente eu envelheci não estou envelhecendo
eu sei que para o bem para o mal eu envelheci
tenho plena consciência desta quantia de realidade
criei uma rotina disciplinei as leituras
botei o cuco em sua devida coerência
refletir grifar rabiscar trechos decisivos
do romance que estuda da filosofia que pesquisa
horas a fio de leitura e releitura faz nascer um desejo
de fumar ah! fumar fumar até acabar nunca mais
começo a reconhecer a passagem das horas
pela cor da cicatriz que tenho no braço esquerdo
assim, cansado, ufa - não é que tinha um montueiro de fotocópias -
botar os livros dentro da mochila ajeitar a jaqueta
suspirar bom fim de dia para o resto que fica na biblioteca
lá fora, a tarde cai melancólica como a existência
morna do hábito que faz o monge
acenar para cima sentado nas escadinhas do pátio
pro vulto de uma pessoa que tira notas do seu velho violão
esfria e vou me preparar vestido de pijama irreal
pra ir dormir como no tempo de eu menino.
rapidinha
óia o pãnzinho quente,
tá fresquinho, quem vai querer?
- ei, guri!
mas
cuidado moooooçaaaaa
ólhaaaaa pooooortaaaaa
ops! quase, eu hein
era de vidro
15.11.08
da contemporaneidade
samir mesquita
- poetinha, cê viu meu exemplar?
como um cara pensa em algo genial. uma sacada que poderia nascer de um simples estalido.
ao riscar o fósforo
:
eureka!
14.11.08
13.11.08
miniatura
poetinha esquizofrênico
- hunpf!
ser o cara mais esquisito.
não ambientado.
não ser.
apenas
ser qualquer coisa
longe do alcance das minhas mãos
um mosquito um mosquito
[aaaaaahhhhhhhh!
socorrooooooo!
estou enlouquecendo
me tirem daquiiiiiiii!]
socorrooooooo!
estou enlouquecendo
me tirem daquiiiiiiii!]
- pelo jeito, doutor
caso pra ensanamento
qu'estou puto! puto!
das tarefas por fazer
lembrei que
tenho um artigo pendente. escrevi quatro páginas, faltam seis. eu sei que não vou terminá-lo. há uma força que não me deixa por um fim. uma energia sobrenatural que não me deixa concretizá-lo. e preciso escrever essas parcas linhas para tentar buscar um ponto de equilíbrio. vinte e cinco mil caracteres é o limite. não exceder. não se conter. no artigo estabeleço o diálogo entre o filme o cheiro do ralo, marxisismo, niilismo e sociedade da cultura do consumo no contexto da pós-modernidade. são várias leituras, muitos pensamentos opostos, paradoxais que me sobrecarregam. não sei dar fim. dar por acabado. encontrar o fio coerente. meu tempo ocioso me atrapalha. tenho todo o tempo do mundo para anotar, reler passagens, citar. mas para quê? quem me lerá? que função há em escrever um artigo com toda essa bagagem referencial? o fluxo de pensamento é alavancado, truncado. e vertiginoso. sério e desleixado. pensei em distraidos venceremos, título de um livro de poesia de paulo leminski. distraídos. como vencer? preciso me distrair. levar as coisas mais na esportiva, como diriam.
vou à janela e vejo, lá embaixo, o seu joaquim arrumando o jardim de entrada do prédio. seu joaquim faz. eu projeto. possibilito minha racionalidade em campo discursivo. e não faço.
hoje dormi, depois de muitas tentativas, muito bem. um pouco a mais do normal. fazia tempo que não descansava a consciência. com os olhos apagados, como a um filme que termina.
tenho de encerrar o artigo o mais depressa. as idéias dentro do lugar. sistematizadas. recortadas. recortar. embasar-me teoricamente para escrever. fazer surgir idéias novas. parágrafos importantes. verdades viscerais.
penso que me transformei numa representação. um personagem plano. sem idéias, preso no tempo da memória. trechos que foram marcados a fogo. eles dariam bons enredos, estórias, reflexões. será que dariam mesmo? mas quero deixá-los. acabados no terreno do pretérito. como seria, no entanto, revisitá-los tendo como objetivo final refazer uma vontade antiga de?
12.11.08
liquidificador

batida com ingredientes
subjetivos
você pensa assim debruçado em cima de todas as possibilidades metafísicas com planos surreais traçados sobre a pluralidade de utópicos mundos possíveis os quais estão habitados por sujeitos sócio-histórico-econômicos como você não gosta de mim?
por favor, arara bêbada, cala tua boca de vaidades
a dissimulada sou eu
[olha o docinho! olha o docinho! grita o garoto descendo a travessa]
- cê tem aquela co'a carinha cínica?
=]
11.11.08
s/ título provisório
[p/ rodrigo pallú,
com baitas saudades.
assim!]
com baitas saudades.
assim!]
advertência:
uma regência torta
- marmota! marmota!
desconsidere o autor e a frase, desconsidere tudo, porque tivemos uma pane geral tipico de conseqüentes leituras teóricas, além do nosso índice de alcoolismo, que estava acima do permitido por lei, senhor, acho que acabei
recalcando estes digitos tortos,
recalcando estes digitos tortos,
pelos quais meus neurônios passeiam em times new roman
em coma no mais tardar
- eu não disse que era grave, doutor?
- deixa eu ver o coração.
10.11.08
com a licença poética
das séries para algumas pessoas estranhas muito muito estranhas
por quê
por quê
a desrazão
de
estar só.
só.
a razãodes
o boi, muuuuu
passô.
- pai?
(ecos)
viu, ivan(ecos)
(ecos)
(ecos)
efeito ma-ne-royeah! cow boy
do espaço
póin...
.........
.........
...........
.....................................................................
......................................................................... ...
....................................................................................... fui!
7.11.08
salve! salve!
ontem à noite na gravação do programa radio caos, no tuc, pude ouvir os poemas dionísiacos de jorge barbosa do irajá. sua performance que, rapidamente, me remeteu a chacal e a fausto fawcett, empolgou por alguns segundos a tímida platéia de curitiba. mas chego à conclusão de que a capital social não é afeita a esse tipo de modalidade artística.
destaco um poema pela delirante imagem de um céu constelado de bucetas. evoé.
samba
golfadas de fantasia despindo a lucidez...
escolas-de-samba percorrendo as minhas veias,
a chuva de prazer...
golfadas de fantasia despindo a lucidez...
escolas-de-samba percorrendo as minhas veias,
a chuva de prazer...
e a certeza de um céu constelado de bucetas.
mulatas rebolando úmidas em minhas línguas,
seios em sensual desespero escorrendo
em meu peito como morros e favelas.
piratas saqueando o ouro de minhas palavras
e as enterrando sem mapas
em algum canto de tantos carnavais.
sons e visões da negritude...
um pierrot decreta cambaleante
a eterna Quarta-feira de Cinzas...
e um ser...
um ser fantasiado de cachorro,
lambe a minha cara:
não foi cultura e nem raça,
foi coca-cola com cachaça.
[Jorge Barbosa Filho]
6.11.08
preliminar
[bathtub 3. tom wesselmann. 1963]
pornografia, erotismo
ou das obras libidinosas
‘fim de fazer aquela cópula repleta
de lugares-comuns?
uma sacanagenzinha gostosa
sob as malhas das letras?
ao menos um porrinho, ah!, vai
deixa em cima do seu i.
5.11.08
da contemporaneidade
taí uma bichinha lá de pelotas que escreve que é uma coisa. para os desavisados, ela se chama angélica freitas e publicou pela cosac naif o saborosíssimo rilke shake [ei!, pra mim uma mistura com pouco leite]. já havia postado um poema dela com imagens de fusca e bala soft. li ele, certa vez, para os meus alunos do ensino médio. eu gostei, eles gostaram. foi unânime. delírio geral [na boca!, fêssor, na boca!]. pois bem, aí vão mais dois. evoé.
FLIPERAMA às margens do tâmisa
jogo basquete indoors com minhas irmãs
no primeiro arremesso
- não meço bem a distância
entre a mão e a cesta -
a bola some atrás do aparelho
minhas irmãs gargalham
eu também
a bola sumiu atrás do aparelho
e então é a vez delas
e elas jogam e acertam e jogam de novo
e da máquina sai uma tripa de bônus
que depois trocamos por balas
ou um brinquedinho -
não lembro
february mon amour
janeiro não disse a que veio
mas fevereiro bateu na porta
e prometeu altas coisas
'como o carnaval', ele disse.
(fevereiro é baixinho,
tem 1,60 m e usa costeletas
faria melhor propaganda
do festival de glastonbury.)
pisquei ligeira nas almofadas:
'nem tô, fevereiro
abandonei o calendário'.
'você é um saco', ele disse
e foi cheirar no banheiro.
[FREITAS, Angélica. Rilke shake. Cosac Naify, Rio de Janeiro: 7 letras, 2007. (Coleção Ás de colete) p. 10 e 12]
4.11.08
B.O.
contrabando
operação pássaro de cinco asas
numa rápida e ligeira atuação da polícia federal, no centro histórico de curitiba, foram apreendidos cem quilos de argumentos falsificados, uma porrada de discursos retóricos vencidos, teses mal fundamentadas, estética parnasiana, um sofista perdido no tempo e mais dois intelectuais da área de ciências humanas com baixa produção acadêmica.
3.11.08
picote
sorvete de cheesecake
antonio prata
[...]
quando você acha calcinhas onde buscava Hitchcock, só pode concluir que o mercado está completamente desregulado, não?
[estadão. cidades/metrópole. c10. domingo, 2 de novembro de 2008]
2.11.08
das releituras
trim! trim! trim!
domingo na praça
- alô, quem fala?
- ronaldo.
- ronaldo, sou amigo do robby rodrigo. cê ainda tem aquele barato?
- tenho uma cara. tá afim?
- ô!
- às oito na praça do gaúcho então?
- no pudim?
- beleza, cara. tou de blusão vermelho.
- eu com boné amarelo.
domingo na praça
- alô, quem fala?
- ronaldo.
- ronaldo, sou amigo do robby rodrigo. cê ainda tem aquele barato?
- tenho uma cara. tá afim?
- ô!
- às oito na praça do gaúcho então?
- no pudim?
- beleza, cara. tou de blusão vermelho.
- eu com boné amarelo.
1.11.08
mini galeria do elogio mútuo
A literatura não é um produto de laboratório e os leitores não são máquinas de digerir e regurgitar livros. Essas são idéias simples, que parecem talvez muito banais, mas que sempre tenho em vista.
[José Castello, em cartas de um aprendiz]
nota de rodapé[José Castello, em cartas de um aprendiz]
bobok [sic!], de otto winck
um enfadonho professor universitário de literatura (ver verossimilhança e mímesis; espaço: departamento de letras; biografismo).
o ponto alto consiste na bela paisagem de estilos com uma lauda e meia de citações da sua plêiade de autores literários.
para maiores explicações, entrar diretamente em contato com o autor.
o ponto alto consiste na bela paisagem de estilos com uma lauda e meia de citações da sua plêiade de autores literários.
para maiores explicações, entrar diretamente em contato com o autor.
31.10.08
miniatura
dois diálogos
sobre cigarros
- pozzo, todas as mulheres foram tuas?
- para homens raros mon vieux. somente para raros.
30.10.08
delícia de narrativa
- poetinha, dá um chup?
Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
[NABOKOV, Vladimir. Lolita. São Paulo: Companhia das letras, 1994. p. 13]
29.10.08
[das anedotas]
das anedotas:
“a lata de lixo da história” e/ou minha “cidade de deus”
“a lata de lixo da história” e/ou minha “cidade de deus”
definitivamente as idéias estão fora do lugar
e o escritor não é mais o homem do seu tempo.
ao vencedor, as batatas!
e o escritor não é mais o homem do seu tempo.
ao vencedor, as batatas!
28.10.08
[diálogos]
[Lee Miller e Tanja Ramm, de Theodore Miller, 1929 ?]
diálogos sob o prazer do texto
isto aparentemente seriam duas homenagens
se a filha do Pádua não traiu Bento,
Machadinho foi José de Alencar
[Dalton Trevisan]
Machadinho foi José de Alencar
[Dalton Trevisan]
- Janjão, chega’qui, me’lucida uma coisa.
- Pois sim.
- O pai é o menino do homem?
27.10.08
[prova teórica]
Responda as questões levando em consideração o conceito de mimeses estudado em seus mais diferentes significados, os quais foram, de uma maneira ou de outra, marcados por algum contexto histórico
[poetinha que também já foi bolsista do cnpq]
- ih!, deu merda!
a) Tendo como ponto de partida a janela e utilizando o foco narrativo em primeira pessoa de forma instrospectiva que, normalmente, nós a denominamos de narrador subjetivo, com tempo e espaço fotografado pela perspectiva lente do autor - que não está morto - mergulhando-o, por fim, em uma determinada condição sócio-histórico-cultural, poderíamos, com o uso desses aspectos, inscrever um factual espelhamento da realidade através da utilização de uma linguagem verbal?
b) Defina realidade.
c) Espelho, espelho meu, quem és tú ó!, mais belo do que eu?
[poetinha que também já foi bolsista do cnpq]
- ih!, deu merda!
a) Tendo como ponto de partida a janela e utilizando o foco narrativo em primeira pessoa de forma instrospectiva que, normalmente, nós a denominamos de narrador subjetivo, com tempo e espaço fotografado pela perspectiva lente do autor - que não está morto - mergulhando-o, por fim, em uma determinada condição sócio-histórico-cultural, poderíamos, com o uso desses aspectos, inscrever um factual espelhamento da realidade através da utilização de uma linguagem verbal?
b) Defina realidade.
c) Espelho, espelho meu, quem és tú ó!, mais belo do que eu?
26.10.08
[Angeli night club]
- vai lá, poetinha.
sua vez. me revela um segredo
faz tempo que venho matutanto a idéia de postar essa tirinha. as poucas pessoas que me conhecem "senhor, são tantas", sabem que a carrego pra cima e pra baixo acomodada dentro de um caderno. qualquer dia, mando emoldurá-la junto com um tantão de outras.
evoé, angeli.
25.10.08
[jornada]
jornada
o momento do dia mais esperado vem chegando. devagar, concentrado e calmo. como se todas as formas caissem no sono. em cores. a tarde dita o ritmo de muitas pessoas. os tubos de ônibus cheios. abarrotados. uma centopéia de filas quilométricas. cortando esquinas. trânsito engarrafado. na calçada, os passos lentos da velha senhora decrépita que carrega o cachorro como um filho. ao redor de dentro da gente, um mundo. a panificadora com o pãozinho fresco a espera pelo cliente. quatro francês, bem branquinhos. o eterno retorno de chegar em casa. passar o fiel café que não reclama. tocar, no velho aparelho de discos, uma partitura doméstica. percorrer novos labirintos pelos quarenta e seis metros quadrados. novas perspectivas que se esvaem na porta do quarto. quem bate? nada transcende. dizer - sim! - bobagens que. mas pingar, antes do noturno, uma poesia em cada retina. caminhar os pés descalços até o limite da cama. deitar a cabeça suavemente no macio travesseiro. suspirar - que fundo - um acabado. e deixar que as pálpebras - shhhh! que dorme - encerrem o cotidiano teatro de sua vida.
- falem baixo, que tá dormindo.
23.10.08
[gota a gota]
[p/ s. l.]
gota a gota
- abra a boquiiiiiiiinha:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
.....................................:
..................................pl!ck
22.10.08
[Miniatura]
o homem que não soube como
adquiriu a fratura ezposta ?!?
.........................do
.............bin
su
estava o bêbado
caminhando ou
ca
.............in
.........................do
21.10.08
[cotidiano]
cotidiano
[traço no bico da pena]
uma revoada
de pombos
na praça tiradentes
carrega para longe
os olhos do meu
horizonte
20.10.08
[puta merda!]

puta que o pariu! quem viu...
[com o perdão pelo abusivo uso de gordurosos adjetivos]
Não vou entrar em detalhes acerca do que se trata a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, ou refletir sobre os hiatos comunicativos entre os personagens, o eterno retorno nietzschiano, o absurdo da situação em sua eterna espera [Godot = God?], ou mesmo o nonsense dos diálogos, mas posso falar - superficialmente, senhores? - que todos os atores foram brilhantes, isso é igual a isto: fodas! No entanto com um ponto a mais para Mauro Zanatta, interpretando Gogô e Karina Pereira, no papel de Lucky e o garotinho. Foram du cá!
Uma peça que, com certeza, eu voltaria para ver mais vezes. Só não dá pra voltar, porque ontem era o último dia em cartaz. Quem viu, viu, quem não viu...
19.10.08
[alvenaria]
no meio do canteiro de obras
entre esqueletos de ferros e tábuas e sacos
de cimentos e monte de cascalhos e fumaça de cal:
tinha uma............pedra
sobre...................pedra
15.10.08
[distração]
distração
noite inclinada
o carro de bombeiros
passa
luzes piscam azuis
vibra sirene acústico
cor ação
da janela: chama
distância fumaça?
a caso
trago-me lembrança
no aceso eixo do cigarro
no aceso eixo do cigarro
13.10.08
[Clipping]
Ponto de fuga
Monstros de pureza
Jorge Coli
Colunista da Folha
Oswaldo Martins, especialista em literatura erótica, é também poeta. Um ou outro de seus poemas, em livros e no blog http://osmarti.blogspot.com/, contém palavras mais fortes. Alguns elaboram desejos físicos de maneira delicada e sem evidência imediata. O blog é inteligente [1], carregado de amor pela literatura; os poemas são bons.
Essas qualidades bastaram para que a Escola Parque [no Rio], em que Oswaldo Martins lecionava português, o demitisse, como contou, no domingo passado, o Mais!.
A miopia moralista da escola, dos pais, de "psicólogos e juristas" evocados no texto, miopia que desencadeou o caso, assusta pelo "obscurantismo e a certeza dos censores", na expressão do próprio professor despedido.
Censura e obscurantismo, no caso, não são singulares e episódicos. Eles se inserem na mentalidade de nossos tempos regressivos, marcados por puritanismos, por fundamentalismos religiosos, pelo maniqueísmo das convicções, pelo gosto doentio em patrulhar, controlar, vigiar e punir.
É bem difícil lutar contra tudo isso porque essas manifestações se fazem com parcimônia, gota a gota, disfarçadas, em nome de álibis austeros.
Aqui, trata-se de proteger as crianças, que como todos sabem, são anjinhos imateriais, feitos de etérea e cândida substância, não de carne e osso.
Mas quem os protegerá, e a nós todos, do mal que existe na cabeça desses educadores, desses pais, desses psicólogos e juristas, que nunca disseram um palavrão, que estão incólumes de pulsões pecaminosas, e que, senhores da moral, transformaram-se em juízes? Quem nos protegerá dos puros?
[CADERNO MAIS! nº 862. Folha de São Paulo, 12 de outubro, de 2008]
[1] Basta ler o sintético texto sobre os Continhos galantes, de Dalton Trevisan.
11.10.08
[fragmento]
[...]
"A literatura estragou tuas melhores horas de amor."
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 73]
10.10.08
[manhã]
manhã
Não há mais união. Não há mais nada entre a gente. Foram doze anos juntos. Mas o dois últimos foram desastrosos. Terríveis. Calamitosos. Não havia mais comunicação quando nos encontrávamos. O silêncio entre corpos, cada qual mergulhado em pensamentos. Agarrados como víboras.
Pensei em voltar para a casa do meu pai. Ou ir passar uns dias em Paranaguá, junto de minha mãe. Há quanto tempo não nos falamos? Porque a distância? Chegar lá e reconhecê-la. Mais velha. Uma cicatriz invisível mas visível no rosto. Caminhar pela longa extensão da praia e tomar um banho de mar. Ver os pássaros. Os carregadores de camarões com suas caras vermelhas e roupa puída. Apenas ver. Pisar a areia e sentir que estou vivo. Poderia dormir na cama do meu pai. Deitar o corpo nela e reconhecer a velha cama construida de imbuia. Dar atenção às suas lamentações e vermos o quanto somos iguais, ou melhor, o quanto todos temos algo de semelhante. Que seja uma pequena ínfima mágoa.
A noite é longa e tenho um único cigarro. Doe-me o corpo. Cansam-me os pensamentos. Estou derreado. Olho para a imensa e confortante biblioteca que adquiri ao longo dos anos. A coleção de discos. Os quadros na parede. A roupa bem passada. Para que tudo isso? Este conforto que sinto na poltrona, talvez seja o mal. Talvez, não. O luxo. Não sei. Não possuo teorias cabíveis de me explicar o que digo. Não possuo idéias novas. Sobraram-me apenas as memórias. Distantes no espaço de Ribeirão Preto. Elas bastam? Elas são? Também não sei. Mesmo diante dessa solidão existencial, posso dizer que estive acompanhado de escritores em volta. Criadores de histórias amargas. Enredos de derrotas. Tramas de solidões. Tudo: era-me. Estive-me sendo através da leitura. Será a vida uma grande derrota? Um mal acabamento de nós mesmos? Uma perda? Um sonho? Um suspiro? Gostaria tanto de me desfazer desses questionamentos. Tormentos. que estragam qualquer começo. Esmiuçam. Dão por fim o ínicio. Que início? As ideías pra tanta miséria.
Um som que vem do banheiro, prova-me que Ana levantou. Deus!, com todos os diabos, já é de manhã. Você está aí, pergunta-me ela enquanto lava o rosto. Acordado novamente? Não senti seu corpo por toda a noite. Deslizando, ela se aproxima, beija-me o rosto: bom dia, meu querido, diz Ana com uma fala conciliativa. E desaparece feito fantasma pelo corredor. Ana, não se vá. Fique mais um pouco. Ana! Pego-me contemplando a parede branca. Nunca uma parede fora tão branca como hoje.
São dez horas! Como passa o tempo.
Agora mesmo um amigo me telefonou. Queria me encontrar para almoçarmos. Não posso. Passei a noite insone, justifiquei para ele. Eram os pensamentos que me tomavam o corpo todo. Será que acendo e dou cabo desse último cigarro? Se ao menos eu estivesse bêbado para tanto me esquecer. Deixar-me só. Preciso repensar. Mas por quê? Sinto o pescoço duro. Uns nervos de aço. Acho que vou deitar. E dormir um pouco.
Não há mais união. Não há mais nada entre a gente. Foram doze anos juntos. Mas o dois últimos foram desastrosos. Terríveis. Calamitosos. Não havia mais comunicação quando nos encontrávamos. O silêncio entre corpos, cada qual mergulhado em pensamentos. Agarrados como víboras.
Pensei em voltar para a casa do meu pai. Ou ir passar uns dias em Paranaguá, junto de minha mãe. Há quanto tempo não nos falamos? Porque a distância? Chegar lá e reconhecê-la. Mais velha. Uma cicatriz invisível mas visível no rosto. Caminhar pela longa extensão da praia e tomar um banho de mar. Ver os pássaros. Os carregadores de camarões com suas caras vermelhas e roupa puída. Apenas ver. Pisar a areia e sentir que estou vivo. Poderia dormir na cama do meu pai. Deitar o corpo nela e reconhecer a velha cama construida de imbuia. Dar atenção às suas lamentações e vermos o quanto somos iguais, ou melhor, o quanto todos temos algo de semelhante. Que seja uma pequena ínfima mágoa.
A noite é longa e tenho um único cigarro. Doe-me o corpo. Cansam-me os pensamentos. Estou derreado. Olho para a imensa e confortante biblioteca que adquiri ao longo dos anos. A coleção de discos. Os quadros na parede. A roupa bem passada. Para que tudo isso? Este conforto que sinto na poltrona, talvez seja o mal. Talvez, não. O luxo. Não sei. Não possuo teorias cabíveis de me explicar o que digo. Não possuo idéias novas. Sobraram-me apenas as memórias. Distantes no espaço de Ribeirão Preto. Elas bastam? Elas são? Também não sei. Mesmo diante dessa solidão existencial, posso dizer que estive acompanhado de escritores em volta. Criadores de histórias amargas. Enredos de derrotas. Tramas de solidões. Tudo: era-me. Estive-me sendo através da leitura. Será a vida uma grande derrota? Um mal acabamento de nós mesmos? Uma perda? Um sonho? Um suspiro? Gostaria tanto de me desfazer desses questionamentos. Tormentos. que estragam qualquer começo. Esmiuçam. Dão por fim o ínicio. Que início? As ideías pra tanta miséria.
Um som que vem do banheiro, prova-me que Ana levantou. Deus!, com todos os diabos, já é de manhã. Você está aí, pergunta-me ela enquanto lava o rosto. Acordado novamente? Não senti seu corpo por toda a noite. Deslizando, ela se aproxima, beija-me o rosto: bom dia, meu querido, diz Ana com uma fala conciliativa. E desaparece feito fantasma pelo corredor. Ana, não se vá. Fique mais um pouco. Ana! Pego-me contemplando a parede branca. Nunca uma parede fora tão branca como hoje.
São dez horas! Como passa o tempo.
Agora mesmo um amigo me telefonou. Queria me encontrar para almoçarmos. Não posso. Passei a noite insone, justifiquei para ele. Eram os pensamentos que me tomavam o corpo todo. Será que acendo e dou cabo desse último cigarro? Se ao menos eu estivesse bêbado para tanto me esquecer. Deixar-me só. Preciso repensar. Mas por quê? Sinto o pescoço duro. Uns nervos de aço. Acho que vou deitar. E dormir um pouco.
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