11.2.09

fenômenos de interferência

[... a "realidade" que me ocupa subsiste em estado de sonho, que ela não desaparece no imemorial, por que não concederia eu ao sonho o que, as vezes, recuso à realidade, seja este valor de certeza em si mesma que, a seu tempo, não se expõe a minha negação? Por que não haveria eu de esperar do indício do sonho mais do que espero de uma grau de consciência cada dia mais elevado? O sonho não pode ser ele também aplicado à solução das questões fundamentais da vida? Essas questões são as mesmas num caso e noutro e, no sonho, essas questões já existem? O sonho é menos cheio de sanções do que o resto? Eu envelheço e, mais do que a esta realidade à qual eu penso me adstringir, talvez seja o sonho, a indiferença a que eu o relego que me faz envelhecer.
André Breton - Manifesto do surrealismo, 1924]


ezpehlo

[que roubada, hein, poeta?]

- quem é você?
- você

- eu? ¿ue -


10.2.09

grau zero da escrita


quando o autor esfria como uma faca
sem lâmina


9.2.09

em coma


uma notinha de jornal

ao vê-la dobrar a esquina, o garoto tomou coragem, saltou a poça d'água - a mochila pendia como uma capa heróica - e... cuidado moleque! não!, não é verdade, ai meu deus!, um automóvel o acertou em cheio, na altura do rim, arremessando-o a mais de cem metros de distância do local do acidente.

o estado é grave, gravíssimo

o médico de plantão que acompanha o estado do garoto escalavrado disse que ele transpirou suores noturnos causado pela hemorragia interna de um tal amor líquido em ebulição.


8.2.09

XV de novembro

[
[...]
O praticante, não. Este sabe que o Surrealismo, como tudo o mais, não é, mas está sendo. A lógica do praticante é irrepreensível. Para ele, o que é só atingiu tal condição porque estacionou, foi congelado, como quando se aperta a tecla Pausa, [...] o praticante realiza uma espécie muito peculiar de biópsia -
Carlos Felipe Moisés
]


boca maldita


os homens de terno e gravata
afundam-se nos cafés

os homens de terno e gravata
religiosamente sangram o contrato social

- meu bem, meu bem capital! - infla-se
o homem de terno e gravata

os homens de terno e gravata
vestidos em outra língua

ruminam
arabescos de árabes


6.2.09

mensagem

["SAMO shit" 1960-1988]

I

meus caros,

não quero tomar o seu emprego sua posição social
ou mesmo então testar sua vaidade intelectual

quero antes, antes mesmo, tomar o chopp
para sermos pornográficos ab-so-lu-ta-men-te pornográficos

cantaremos asneiras
beberemos besteiras

ah!, meus caros e caríssimos e quando não mais der
pra viver
morreremos sem dizer adeus ou até

- inté


II

o mundo era pequeno e cabia na palma da minha mão
o mundo é como esta bolinha de papel de prata
o mundo foi quatro homens sentados no café

mais a cerveja que
gentilmente
um senhor pagou


ao canto uma moça bonita que muito olhei
me ofereceu um lugar pra fumarmos juntos

ela tinha certeza de não querer mudar o mundo
mas os três homens reunidos (um bacharel o outro contador somando o arquiteto urbano) - esses sim! - com projetos e planos decididos testavam a

inteligentsia brasileira

- ó grande homem ideal dono
do sorriso irônico.



5.2.09

dos grandes prosadores

[1937-1996]

[...]

Nunca pensava que pudesse e teve de deixar o cigarro. É o melhor dos vícios, nem é um vício. Chamar o cigarro de vício menor é outra impropriedade. Quando vivermos numa sociedade realmente civilizada, teremos cigarros de tudo: de proteínas, vitaminas, degustações variada, leves e pesadas. Haverá uma geração de homens e mulheres incrivelmente elegantes, nenhuma barriga, ombros largos, nenhuma celulite. Pois, cigarros alimentícios, motivarão a chamada digestão sem excrementos. Veja, a princesinha da Inglaterra comendo chocolate. Todos sabem que ela comerá e depois fará um cocê fedido na privada real. Mas um vagabundo da Galeria Alaska fuma um cigarro e não produzirá nenhum dejeto. Tomamos café, mas café é só boca de pito, para acender a vontade do cigarro. O bom da comida fina e ragalada é o cigarro que vem depois. Como é bom o cigarro, depois de duas horas no cinema em que não se pode fumar. O cigarro, como é bom. Trepar também é bom, o melhor dos esportes, o que exercita e mexe diretamente com tudo, músculos, cabeça, tronco e membro. Bobagem, essa história de agora se praticar judô, karatê, ioga. O exercício sexual é mais completo. Voltando ao cigarro, ele não é um vício, é um companheiro, uma segurança psicológica. [...]
Trepar é bom para a saúde. Mas o bem-bom é aquele espaço entre uma trepada e outra, longamente, na hora neutra em que não se sabe se continuar ou não e, então, fuma-se um cigarro. Ah, entre uma e outra, o cigarro. O mal é que contém nicotina. Nas civilizações futuras, o homem pensará cigarros de proteínas, vitaminas e sem barriga, maravilhosos e enxutos. O cigarro não mais um vício e, sim, um companheiro de utilidades.

[ANTÔNIO, João. Casa de loucos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2 ed., 1976. p. 11]


3.2.09

dos sérios problemas


[p/ a. s. uma mini-narrativa
e eu não conto mais
]


- nãooooooooo! não acredito...
ela babou?
- assim, meu. na minha cara, cara.
- ui, que nojo!


1.2.09

dos grandes poetas

[em flagrante delitro]

[531]

Sinto uma simpatia por essa gente toda, sobretudo quando não merece simpatia. Sim, eu sou também vadio e pedinte, e sou-o também por minha culpa. Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: é estar ao lado da escala social, é não ser adaptável às normas da vida, às normas reais ou sentimentais da vida - não ser juiz do supremo, empregado certo, prostituta, não ser pobre a valer, operário explorado, não ser doente de uma doença incurável, não ser sedento da justiça ou capitão da cavalaria, não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas, e se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão! Tudo menos importar-me com a humanidade! Tudo menos ceder ao humanitarismo! De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vaido e pedinte, como eu sou, não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: é ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, é ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Gorki. Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir. E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, e estou-me rebolando numa grande cariadade por mim.

[PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A., 1976. p. 413]


31.1.09

três estrofes trêbadas


p/
rodolfo jarugua e gustav-ô!



meus distintos cavalheiros,
claro que um poema não é um dogma
com bandeira erguida e espada da justiça.

o poeta, antes de tudo,
é um ser empírico.
e jamais! - com o dedo em riste -
pode estar acima do alcóolico
perdido.

a doce triste vida de ser e não ser
- ic! - com o perdão da palavra -
em pensar em tudo que está sentindo.


25.1.09

ciao!


alguns amigos estão indo

embora.
partindo.

- partirão?
- quando?


um, aguarda a data de sua passagem aérea pra amazônia
outro, já fugiu pra argentina
aquele mais triste viajou pra fazer pós doc
em barcelona

e eu estou a caminho
- a mala pronta -
rumo a paris texas

por não ter um amigo
com quem repartir um punhado de morangos que,
senão me engano, estão mofados.


21.1.09

un verso


caderno de aluno
[alguma poesia
de sentimento brejeiro]

como é triste de não caber mais

o desencontro

a bebida que - nada!
embriagou-me
enquanto os amantes saiam abraçados
e rindo do bar amarelo

as portas ficaram cerradas
para sempre

que triste é de não morrer
caminhar ru'acima pedregosa
molhada de chuva com o passo trôpego

[clap clap clap]

e a dor ausente de um amigo
de uma vontade leve
de morrer


19.1.09

conversa de poetas

[sabe, mafalda, eu só não gosto de ouvir isso de
"minha geração". e cê viu a histórinha que claudia roquette pinto nos contou? não ouviu?
era a do ovo que você 'soprava e o ovo se transformava num pinto.
foi ela quem disse.]



pedra de toque

[orelha de livro]

pra quem não anda ligadão no que anda acontecendo num certo pedaço da literatura contemporânea, põe o dedo a

com o incentivo do banco itaú o jornalista e poeta ademir assunção entrevistou 14 outros poetas, entre eles glauco mattoso e sebastião nunes pelos quais tenho uma apreciação maior. aquela identificação mais íntima que não dou não dou não dou pra ninguém, viu?

- evoé, ademir!


17.1.09

miniatura



Ah, é?


- vê se te manca, cara.
cê vai ver quando eu te pegar e arrancar teu pinto com o alicate do meu pai.



15.1.09

e aí, carinha?

[zorro]

então?

você tem a mania te meter teoria em tudo que fala escreve e pensa. na verdade, carinha, você se esqueceu da sua vida banana, da sua vida estacionamento de carro com mensalidades mensais em débito no cartão de crédito, da sua vida café com leite. você sabe, e somente você, que não vale a pena registrar seus fatos amarelos e tontos e cheirosos de bocejo. e mesmo assim, você faz. sua qualidade literária, embora muito bem definida - tem certeza, carinha, ou você copia os outros? - não é reconhecida. cadê sua bola de cristal? fique sabendo, carinha, que as pessoas não irão te amar porque você escreve e diz que diz o que pensa, ou usa de certos artifícios aprendidos em oficinas literárias para a criação de sua narrativa. seu estilo de artista, óculos da moda, tênis descolado, carinha, não paga a encenação. você tem salvação, carinha, acredite. basta querer. basta voltar à vida normal. mas... não era tudo ilusão, carinha?

vai me dizer que você não esperou a visita? sentado, olhava o aparelho de telefone mudo enquanto pensava em uma nova narrativa, não é, carinha? a imagem veio. o telefone preto de sua situação circunstanciada de presente não tocou. você pressentiu, carinha. porém, não soube esperar. ficou ansioso. e a realidade? ela faz tempo que não te visita, não é, carinha? mas não entremos nesta de realidade. afinal: o que é real, não é mesmo carinha?

fantasia, desejos não concretizados fazem parte do seu cotidiano. sei muito bem que você sente saudades, carinha. sei também o quanto você é triste, carinha. notei isso nos seus olhos, da última vez, naquele fim do baile de máscara. você se escondeu e, agora, tem medo da vida, mas vai sobrevivendo: pensando como os outros irão te olhar. cuidado, sobre o olhar feroz, carinha, não somos objetos? como é duro viver, não é mesmo, carinha?


12.1.09

dos grandes prosadores

[james joyce 1882 - 1941]

8 de dezembro de 1909
44 Foutenory Street, Dublin.

.... Minha doce putinha Nora, fiz como você me pediu, menininha suja, e bati duas punhetas enquanto lia a sua carta. Adoro ver que você faz como se eu fodesse por trás. Sim, consigo lembrar daquela noite em que fodi você por trás por muito tempo. Foi a foda mais suja que tivemos, querida. Por horas e horas meu sexo ficou duro dentro de você, entrando e saindo do seu traseiro virado para cima. Eu sentia suas nádegas roliças suadas embaixo da minha barriga e via o seu rosto e seus olhos enlouquecidos. A cada uma de minhas investidas a sua língua sem vergonha saía de seus lábios e, se eu arremessava com mais força do que o habitual, grandes e sujos gases surgiam balbuciantes do seu traseiro. Você tinha um cu cheio de peidos naquela noite, querida, e com a foda vieram todos para a fora, grandes camaradas, outros mais ventosos, rápidos e pequenos requebros alegres e uma grande quantidade de peidinhos sujos que acabaram num grande jorro demorado por teu buraco. É delicioso foder uma mulher com peidos, quando cada investida provoca um. Tenho a certeza de que poderia reconhecer os dela num quarto cheio de mulheres flatulentas. É um ruído muito mais juvenil, que em nada se parece com os gases úmidos que devem ter as esposas gordas. É mais repetitivo e seco e sujo como o que imagino faria à noite, para se divertir, numa garota nua no dormitório da escola. Espero que Nora deixe escapar seus gases em meu rosto para que eu também possa conhecer seu cheiro.
.... Você diz que na volta vai me chupar e quer que eu lamba o seu sexo, pequena bandida depravada. Espero que você algum dia me surpreenda dormindo vestido e me ataque com um brilho de puta em seus olhos sonolentos, me desabotoe com suavidade, botão por botão da braguilha de minhas calças, e tire gentilmente o grosso caralho do seu amante, o morda em sua boca úmida e o mame até que fique duro e ereto em sua boca. Algumas vezes também vou surpreender você dormindo, levantarei sua camisola e abrirei suavemente suas coxas quentes, suavemente me recostarei e começarei a lamber com calma ao redor do seu sexo. Você se agitará perturbada, então lamberei os lábios do sexo da minha querida. Você começará a grunhir e gemer, a suspirar e peidar, ávida em seu sono. Então eu a lamberei mais depressa, como um cão voraz, até que o seu sexo seja uma massa de sujeira e seu corpo um corcovear selvagem.
....Boa noite, minha Norinha peidadora, minha suja passarinha fodedora! Há uma palavra amável, querida, que sublinhaste para que eu me masturbasse melhor. Escreva-me mais a respeito daquilo e de você mesma, com doçura, totalmente suja, totalmente suja.

Jim


9.1.09

cinza das horas

[bum! bum! bum!]

retrospectiva

definitivamente 2008
não sofreu nenhum investimento ousado por mim.

- nem mesmo as mulheres? - perguntou um amigo.

- as mulheres, meu companheiro, que me esperem com a chegada do carnaval. loucas com docinho na boca!
na boca!



22.12.08

miniatura

[passeio público em lisboa?]

vinte e duas e quarenta e nove
horário de brasília

a rua tinha uma obsessão de passeio público.


21.12.08

lido grandes poetas

[Leminski 1944-1989]

gosto de ler alguns poetas desfalcado de mim, por isso não costumo fazer nenhuma grande análise a respeito dos versos lidos, escandir e o diabo a quatro. também não me sobra nada, nem mesmo um breve comentário, uma introdução. é porque sou daqueles que pegam o poema pelos ares, e como tal o peguei, deixo-o ir, pouco a pouco, fragmentar em outro lugar. vaquear outras paragens. um poema é um suspiro e diz por si muito. está aí, na cara. tudo tão claro: esta amargura no peito. morna como uma

PARADA CARDÍACA


......Essa minha secura
essa falta de sentimento
......não tem ninguém que segure
vem de dentro

......Vem da zona escura
donde vem o que sinto
......sinto muito
sentir é muito lento

[LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 56]



20.12.08

por que ver os clássicos



[uccellacci e uccellini, de pier paolo pasolini, 1966]

sem ítalo calvino
e sem legendas


18.12.08

snif!

[chagall, 1887-1985]


era um ladrão

eis senão quando ele chegou com
seus passos furtivos
pulou a
janela
tuc!

e levou para sempre
teu saquinho de veludo.


15.12.08

ao sul do equador

[pele macia]

nuvens de manga rosa
delírios aroma amora jabuticaba
saliva de mel caju sabores do meu amor

eu quero a morena curitibana
a morena que não é curitibana

calor de sexo em laranja
corpo de cacau úmido
uva pera morango beijo na boca

eu quero a morena curitibana
a morena que não é curitibana

maçã do amor caqui kiwi
açaí entre outros odores
gosto de pele em primavera

eu quero a morena curitibana
a morena que não é curitibana

onde estará, a uma hora destas,
a morena que não é curitibana?

no tropical dos meus sonhos?
no desejo ardente do olho do sol?
nas vestais do meu pijama?

eu quero a morena curitibana
a morena que não é curitibana

pendurada naquele cacho de banana


14.12.08

rapidinha

[do tempo perdido na escola]


quadro negro
das aulas de educação cívica e moral

satisfação sexual relação monogâmica

- professora, por quê?
- ora, joãozinho...

12.12.08

miniatura

[paulo buchinho, 2002]

vi, mas não sei de nada

o rapaz cabeludinho recebeu o pacote do homem sombrio da esquina, que lhe sapecou um piparote: se manda! entrega nas mãos do rivaldo. o cabeludinho sumiu esquina acima com o pacote. pra lá. não sei o que continha dentro do pacote que o rapazinho levou embora. não sei para onde ele foi. não sou o seu narrador onipresente. eis tudo.


10.12.08

comilão adaptado

meu grande amigo douglas thomaz, mais conhecido no mundo virtual como homo luddens, adaptou uma das minhas compozissõis infantiz. com traços ligeiros, o comilão ganhou cara, corpo e uma barrigoooona que minha nossa senhora!
o resultado ficou legal pra caráio!

evoé, thomaz!


6.12.08

angeli night club

[chiclete com banana : coleção particular]


5.12.08

dos grandes prosadores

[1914-1984]


[...]

Vou ajustar o despertador para as três da manhã, suspender a minha vida conjugal e as outras espécies que conheço para que só me restem as que não conheço, e quem sabe pouco a pouco um dia estaremos juntos outra vez, tia, e será tão bom dizer: "Agora vamos ao centro tomar sorvete, o meu de morango, o seu com chocolate e um biscoitinho."

[CORTÁZAR, Julio. A volta ao dia em oitenta mundos, tomo I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. p. 66-67]


4.12.08

tá na hora de dormir

[arcimboldo]


o comilão que era grande e ocupava dois lugares sentado no banco comprido de madeira era enorme


tinha braços pesados
tinha uma barriga protuberante
tinha bigodes enferrujados

o comilão era comilão e nossa! como comia
seu prato era uma montanha deste tamanho até o topo

- minha nossa senhora! – exclama o garotinho com os olhos fantasiosos em sua cama de linho e travesseiro de pena

o comilão que comia era comilão
muito comilão

nesta noite de festa
o comilão comeu
o comilão bebeu
o comilão arrotou
o comilão também dançou

o comilão que depois da farta refeição se esfaltelou
fumou
fumou
fumou
e morreu

era uma vez um comilão


3.12.08

amarelinha

[pozzo]

sempre há uma relação de limite muito próximo às pessoas. eu sabia quando que aquele dia, lembra-se? estávamos próximos tão próximos que. não sei. não sei por que? por quê? o que houve daquela vez?

pernas em passo faixa
amarela

sinal vermelho
céu de sky blue

o que foi que aconteceu?


2.12.08

relações suspeitas

[aquino]

maiakóvski


quando de seus sonhos estranhos acordou,
o poeta havia se transformado em um tédio

no dia seguinte,
afogou-se no copo de vodca.


1.12.08

rapidinha

penso, logo existo

[René Descartes]


metadiálogos

- que correria, cara.
- ufa! nem me diga.
- cem páginas percorridas.
- fora as notas de rodapé.
- e aqueles trechos obscuros?
- foram tantos obstáculos que acabei pulando vários capítulos
- conclui-se...
- haja saco para tanta tese.


28.11.08

capitu é você

[carolina]


Você pode julgar uma pessoa pela opinião sobre Capitu. Acha que sempre fiel? Desista, ô patusco: sem intuição literária. Entre o ciúme e a traição da infância, da inocência, do puro amor, ainda se fia que o bruxo do Cosme Velho escolhesse o efeito menor? Pô, qual o grandíssimo tema romanesco de então, as fabulosas Ema Bovary e Ana Karenina. A um pessimista, viciado no Eclesiastes, toda mulher ("mais amarga do que a morte") não é coração enganoso e perverso, nó cego de "redes e laços"?
Inocentar Capitu é fazê-la uma pobre criatura. Privá-la do seu crime, assim a perfídia não fosse própria das culpadas? Já sem mistério, sem fascínio, sem grandez. Morreu Escobar não das ondas do Flamengo e sim dos olhos de cigana oblíquos e dissimulados. Por que os olhos de ressaca, me diga, senão para você neles se afogar?

[Capitu sem enigma - Dalton Trevisan]

Dar ao Bentinho como "o nosso Otelo" é pura fantasia. Bestialógico mesmo. Um disparate indigno de pisar no vestíbulo da universidade. Refinadíssimo escritor, mestre do subentendido, virtuose da meia palavra, do understatement, Machado jamais desabaria numa grosseria cena de alcova, como num flagrante policial de adultério. Mas, se querem, o flagrante está no capítulo 113, "Embargos de terceiros". No anterior capítulo 106, "Dez libras esterlinas", Capitu revela os escondidos encontros com Escobar. Bentinho era estéril - precisa prova maior? De onde então essa idéia pateta de um Bentinho ingênuo e ciumento? Não é uma simples suspeita que está no capítulo 99, "O filho é a cara do pai". D. Glória, avó amantíssima, rejeita o neto putativo. Está na cara que nenhuma razão justifica virar o romance e o Machado pelo avesso. Ensinar errado é pecado capital. Ouçam o Dalton. Quem insistir na tese do "enigma" não lhe dirija a palavra. E de lambujem não me cumprimente. Machado merece respeito!

[Não traiam o Machado - Otto Lara Resende]

re capitu lando:
um caso encerrado

indubitavelmente,
o juiz sentencia
,
ela traiu


ponto.


25.11.08

miniatura

[pulp fiction. 1994]

ficção


pra mim, pico na veia!


23.11.08

entorpecido

[me deixa gozar me deixa gozar]

papoulas


que flores são estas que se abrem
como três lagartas sobre a superfície lisa do espelho?


22.11.08

sob suspeita

[abaixo a infâmia]



não meus caros


que bom se o poema
tivesse o cheiro do bife a cavalo com batata frita e arroz
[com feijão

que bom se o poema
fosse amargo como uma paixão não correspondida

que bom se o poema
tivesse a textura do chopp gelado

que bom se o poema
fosse doce lambido como um pirulito

que bom se o poema
bomba: explodisse na cara do leitor

no entanto, meus caros

um poema é um poema
mera construção linguística cuja matéria prima

as palavras [e as palavras
] que não possuem sentimentos ou punho cerrado revolta no peito ou cheiro de pólvora

são inúteis como qualquer idéia

revolucionária de estômago invisível

inútil tentar homem com cérebro
inútil tentar qualquer resolução

o poema é símbolo e aparência
não alimenta a boca faminta
dos meninos abandonados
tampouco faz a reforma agrária

o poeta funcionário público em seu gabinete
come amendoim descasca banana coça o saco
boceja enorme o tédio o bafo de álcool
o poeta funcionário público como um homem qualquer é um grande sacana de um
[mentiroso

debruçado em sua janela
como conter a guerra a fome a morte a injustiça social
o tráfico de crack na rua saldanha marinho atrás da sua casa?

de que te vale pensar nisso tudo se daqui a pouco
guloso o poeta funcionário público estará comendo uma batata suiça num bairro nobre de sua cidade iluminada
com a barriga embriagada de vinho importado por um salário mínimo a garrafa?

que indignação pode ter em suas palavras?
quais sonhos pode guardar o seu corpo?

por hora,
bem, por hora já não está mais aqui

o autor do escrito - sem convicção


21.11.08

adeus

[suicídio. manet. 1877]


o bilhete

curitiba vinte um de novembro
09:45 am

a paixão dos suicídas que se matam sem explicação

[“o último poema” – manuel bandeira]

sob o sol colorido
vento alvo arrepiava

longe

cá tomava o meu último

comprimido


20.11.08

acontecimentos

[automóvel, início do século XX]


o carro pifou na travessa


poucos uns três carros
atrás pararam

nada de congestionamento
ou buzinadas

o carro pifou na travessa
parou no meio da rua

o motorista mais que ligeiro

abriu a capota do motor

engatou a gambiarra
verificou correia óleo água e tal

partida na chave de ignição
vrum! vrum!
e se mandou

o carro tinha pifado.



19.11.08

dos grandes prosadores


Cartinha a um Velho Prosador

[...]

Escrever bem é pensar bem, não uma questão de estilo. Os bons sabem de seus muito erros, os medíocres não sabem coisa alguma. O que há de ser, para você já foi. Não se finge o talento - falto de engenho, você é vento e pó. As letras roubadas são falsas. Fama, ó fama, eterna ladra de energias, farol negro de tanto mau passo. Para ver o nome no jornal você atropela uma doce velhinha e some com o picolé da criança. Corta essa, cara: contra o tempo nada pode, só o bom prevalece. Orgulha-se da facilidade de escrever, sim: de escrever mal. Copia a maneira de (só os defeitos, nem uma virtude), o boleio da frase, o mesmo vocabulário - e o espírito, como remedá-lo? Sem ele você nunca será o pé coxo e o olho do cego. Rasga, ó bicho, rasga o prepúcio do teu coração.

[TREVISAN, Dalton. Dinorá: novos mistérios. Rio de Janeiro: Record, 1994. p. 95-96]


18.11.08

diálogos

[menino]

permanentemente em
férias

diferentemente eu envelheci não estou envelhecendo
eu sei que para o bem para o mal eu envelheci
tenho plena consciência desta quantia de realidade

criei uma rotina disciplinei as leituras
botei o cuco em sua devida coerência

refletir grifar rabiscar trechos decisivos
do romance que estuda da filosofia que pesquisa

horas a fio de leitura e releitura faz nascer um desejo
de fumar ah! fumar fumar até acabar nunca mais

começo a reconhecer a passagem das horas
pela cor da cicatriz que tenho no braço esquerdo

assim, cansado, ufa - não é que tinha um montueiro de fotocópias -
botar os livros dentro da mochila ajeitar a jaqueta
suspirar bom fim de dia para o resto que fica na biblioteca

lá fora, a tarde cai melancólica como a existência
morna do hábito que faz o monge

acenar para cima sentado nas escadinhas do pátio
pro vulto de uma pessoa que tira notas do seu velho violão

esfria e vou me preparar vestido de pijama irreal
pra ir dormir como no tempo de eu menino.



rapidinha

[vendedor de pão do século retrasado]

óia o pãnzinho quente,
tá fresquinho,
quem vai querer?

- ei, guri!

mas

cuidado moooooçaaaaa
ólhaaaaa pooooorta
aaaa

ops! quase, eu hein
era de vidro



15.11.08

da contemporaneidade


samir mesquita

- poetinha, cê viu meu exemplar?

como um cara pensa em algo genial. uma sacada que poderia nascer de um simples estalido.
ao riscar o fósforo
:
eureka!


14.11.08

resumindo

[estava disponível]

cachorrada

o pior tipo de leitor é aquele que carrega um livro
igual a um osso.


13.11.08

miniatura

[eis, entretanto, um chagall.
e não me pergunte sobre a relação das coisas]



poetinha esquizofrênico

- hunpf!

ser o cara mais esquisito.
não ambientado.

não ser.
apenas
ser qualquer coisa
longe do alcance das minhas mãos

um mosquito um mosquito

[aaaaaahhhhhhhh!
socorrooooooo!
estou enlouquecendo
me tirem daquiiiiiiii!]

- pelo jeito, doutor
caso pra ensanamento

qu'estou puto! puto!


das tarefas por fazer

[mornign sun. hopper. 1952]

lembrei que


tenho um artigo pendente. escrevi quatro páginas, faltam seis. eu sei que não vou terminá-lo. há uma força que não me deixa por um fim. uma energia sobrenatural que não me deixa concretizá-lo. e preciso escrever essas parcas linhas para tentar buscar um ponto de equilíbrio. vinte e cinco mil caracteres é o limite. não exceder. não se conter. no artigo estabeleço o diálogo entre o filme o cheiro do ralo, marxisismo, niilismo e sociedade da cultura do consumo no contexto da pós-modernidade. são várias leituras, muitos pensamentos opostos, paradoxais que me sobrecarregam. não sei dar fim. dar por acabado. encontrar o fio coerente. meu tempo ocioso me atrapalha. tenho todo o tempo do mundo para anotar, reler passagens, citar. mas para quê? quem me lerá? que função há em escrever um artigo com toda essa bagagem referencial? o fluxo de pensamento é alavancado, truncado. e vertiginoso. sério e desleixado. pensei em distraidos venceremos, título de um livro de poesia de paulo leminski. distraídos. como vencer? preciso me distrair. levar as coisas mais na esportiva, como diriam.

vou à janela e vejo, lá embaixo, o seu joaquim arrumando o jardim de entrada do prédio. seu joaquim faz. eu projeto. possibilito minha racionalidade em campo discursivo. e não faço.

hoje dormi, depois de muitas tentativas, muito bem. um pouco a mais do normal. fazia tempo que não descansava a consciência. com os olhos apagados, como a um filme que termina.

tenho de encerrar o artigo o mais depressa. as idéias dentro do lugar. sistematizadas. recortadas. recortar. embasar-me teoricamente para escrever. fazer surgir idéias novas. parágrafos importantes. verdades viscerais.

penso que me transformei numa representação. um personagem plano. sem idéias, preso no tempo da memória. trechos que foram marcados a fogo. eles dariam bons enredos, estórias, reflexões. será que dariam mesmo? mas quero deixá-los. acabados no terreno do pretérito. como seria, no entanto, revisitá-los tendo como objetivo final refazer uma vontade antiga de?



12.11.08

liquidificador


batida com ingredientes
subjetivos

você pensa assim debruçado em cima de todas as possibilidades metafísicas com planos surreais traçados sobre a pluralidade de utópicos mundos possíveis os quais estão habitados por sujeitos sócio-histórico-econômicos como você não gosta de mim?

por favor, arara bêbada, cala tua boca de vaidades
a dissimulada sou eu

[olha o docinho! olha o docinho! grita o garoto descendo a travessa]

- cê tem aquela co'a carinha cínica?


=]


11.11.08

s/ título provisório

[tesão. hommoluddens. 2008]

[p/ rodrigo pallú,
com baitas saudades.
assim!]


advertência:
uma regência torta
- marmota! marmota!

desconsidere o autor e a frase, desconsidere tudo, porque tivemos uma pane geral tipico de conseqüentes leituras teóricas, além do nosso índice de alcoolismo, que estava acima do permitido por lei, senhor, acho que acabei
recalcando estes digitos tortos,

pelos quais meus neurônios passeiam em times new roman

em coma no mais tardar


- eu não disse que era grave, doutor?
- deixa eu ver o coração.


10.11.08

com a licença poética

[apenas marc chagal]

trip-pira I
das séries para algumas pessoas estranhas muito muito estranhas

por quê
por quê


a desrazão
de
estar só.
só.
a razãodes

o boi, muuuuu
passô.

- pai?
(ecos)
(ecos)
viu, ivan
(ecos)
(ecos)
efeito ma-ne-ro
yeah! cow boy
do espaço


póin...
.........
.........
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.....................................................................
......................................................................... ...
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........ fui!