[1937-1996]
[...]
Nunca pensava que pudesse e teve de deixar o cigarro. É o melhor dos vícios, nem é um vício. Chamar o cigarro de vício menor é outra impropriedade. Quando vivermos numa sociedade realmente civilizada, teremos cigarros de tudo: de proteínas, vitaminas, degustações variada, leves e pesadas. Haverá uma geração de homens e mulheres incrivelmente elegantes, nenhuma barriga, ombros largos, nenhuma celulite. Pois, cigarros alimentícios, motivarão a chamada digestão sem excrementos. Veja, a princesinha da Inglaterra comendo chocolate. Todos sabem que ela comerá e depois fará um cocê fedido na privada real. Mas um vagabundo da Galeria Alaska fuma um cigarro e não produzirá nenhum dejeto. Tomamos café, mas café é só boca de pito, para acender a vontade do cigarro. O bom da comida fina e ragalada é o cigarro que vem depois. Como é bom o cigarro, depois de duas horas no cinema em que não se pode fumar. O cigarro, como é bom. Trepar também é bom, o melhor dos esportes, o que exercita e mexe diretamente com tudo, músculos, cabeça, tronco e membro. Bobagem, essa história de agora se praticar judô, karatê, ioga. O exercício sexual é mais completo. Voltando ao cigarro, ele não é um vício, é um companheiro, uma segurança psicológica. [...]
Trepar é bom para a saúde. Mas o bem-bom é aquele espaço entre uma trepada e outra, longamente, na hora neutra em que não se sabe se continuar ou não e, então, fuma-se um cigarro. Ah, entre uma e outra, o cigarro. O mal é que contém nicotina. Nas civilizações futuras, o homem pensará cigarros de proteínas, vitaminas e sem barriga, maravilhosos e enxutos. O cigarro não mais um vício e, sim, um companheiro de utilidades.
[ANTÔNIO, João. Casa de loucos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2 ed., 1976. p. 11]