10.4.09

lembrança vaga


ribeirão preto

1980

não podíamos entrar na casa do bisavó.
era proibido ir lá nos fundos:
a casa com aquela portona de ferro azul
cascalho no chão

.................................... [pedras redondas que guardávamos no bolso pra atirar em passarinhos]

- você tinha mania de deixar migalhas de pão pelo caminho, não era?
- pareciamos joão e maria, naquela história que vovó nos contava.
- enquanto mamãe servia a mesa...

II

- lembra do morcego que habitava a casa do bisavô, e a gente o chamava de augusto dos anjos porque era o poeta preferido do papai? lembra?
- mas mamãe dizia que ele podia nos bulir.
- vovô também com aquelas mãos enormes...
- e boca de engolir o mundo.

III

- que tentação nos dava quando...
- de mãos dadas...
- passávamos pelo corredor comprido de infinito para ir ao banheiro.
- corredor comprido que não acabava mais.

IV

- você tinha medo do lobo mau?
- ...
- nem eu.



estórias do senhor G.


Quando certa altura o senhor G. acordou de sonhos estranhos, encontrou-se transformado num minúsculo mosquito no assento sanitário do banheiro. Porém, nesta mesma manhã fatídica, uma terrível e imensa bunda - óóó céus, não comigo, a parede branca! - acabou por esmagá-lo antes mesmo dele começar a sua história. O senhor G., que naquele momento tinha sido um inseto de banheiro (e agora nada mais era do que apenas uma manchinha preta na nádega esquerda) não teve nem tempo de discorrer sobre o seu pai facista, a sociedade burocrática, o desejo que ocultava pela irmã entre outros assuntos os quais o escritor judeu já tinha tocado antes - no bom sentido, é claro.


O senhor G. Este.


8.4.09

dos empregos

[francis bacon 1909-1992]


dois assaltos kafkianos

primeiro:
- o esforço da perfeição

segundo:
- o hábito tirânico


7.4.09

somente para loucos, somente para raros


eyes wide shut

os alunos que manjam o professor de literatura, e por que não também de cinema, não é, caros alunos?, compreendem a clandestinidade da profissão entre quatro paredes.


14.3.09

passagem das horas

[almada negreiros]

[...]

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.



[PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A. 1976. p. 341-354]


11.3.09

dos grandes mestres


[...]

Cabe uma ponderação: nós - o mundo dos intelectuais - consideramos-nos leitores e estamos conscientes das transformações que esse exercício provocou em nossas vidas. Queremos que outros partilhem dessa ventura. Mas, se formos sinceros, dando rápida olhada para trás, para nossos tempos de jovens, o que encontramos? Quando cursamos [...] a universidade, a maioria dos amigos, conhecidos e familiares lia continuamente? Ou éramos nós os alienígenas, curvados sob o peso de nossa aura? Se focalizarmos aquele tempo. veremos que a leitura não era ocupação popular. Nem por isso o mundo chegou ao juízo final. E existiria um país no mundo em que a maioria das pessoas dedica-se a tal exercício? Pensando em obras literárias, talvez sejamos obrigados a concordar com Enzensberger: "na verdade, ela (a literatura) sempre foi um tema para uma minoria. A quantidade dos que se dedicam a ela provavelmente se manteve constante no decorrer dos dois últimos séculos. O que mudou foi apenas a formação desse grupo. Já não é mais uma marca de privilégio de classe se interessar por ela, mas também não é mais um obrigação de classe fazer isso.
"

[...]


Ler não é mais produzir significado, entrar no texto para reescrevê-lo e por meio dele captar as sondas que o autor lançou sobre dores e alegrias humanas. Literatura, nas escola, é questão de enredo e personagem, título e características. É vista como se os autores tivessem uma fórmula mágica, a qual se submeteriam para produzir o texto. Linguagem, visão de mundo, diálogo com a tradição e com as outras produções não são levados em conta.


[VENTURELLI, Paulo. A leitura do literário como prática política. Revista Letras, Curitiba, n. 57. p. 149-172. jan/jun. 2002.]


que triste sina


para que querer viver numa sociedade culpada
medrosa em suas dimensões?

meus ombros também não suportam o mundo
carlos drummond.

os cidadãos hedonistas (cuidado com o solipcista)
estariam a tal ponto negando o corpo para o último prazer?

por que é que para a tristeza
infelizmente
estaríamos perdendo? estaríamos?

deus meu deus me ensine
unicamente a negar repetidas vezes o amor.

todos
ozamores.


9.3.09

estórias do senhor G.


O senhor G. eita!, sempre anotando no seu caderninho de viagem qualquer pensamento mais passageiro como este:


"Não sei porque os professores de Literatura (aliás, quem é ou o que é um professor de Literatura?) não adotam como leitura os seguinte livros de introdução para a poesia. Vamos enumerá-los:

[1] Poesia não é difícil, de Carlos Felipe Moisés;
[2] Como e por que ler a poesia brasileira do século XX, de Ítalo Moriconi.

O senhor G. tem consciência de que há outros livros do mesmo gênero. Livros de maior densidade, como por exemplo, A lira e o arco e O ser e o tempo da poesia. O senhor G. pensa:

"Basta!"

O autor está ficando preocupado, pois, afinal, o senhor G. pode estar quase que mais ou menos a ficar louco, não é mesmo, senhor G.?

- Senhor G., está me ouvindo?

E o que será, não do senhor G., prestem a atenção!, mas de mim, pobre do autor, hein? O moço pode me responder? A moça?


O senhor G. Este.


estórias do senhor G.


O senhor G. nem bem começou a lecionar numa escola por aí nas quebradas da região metropolitana, e em menos de uma semana, carambolas! já?, hoje, em plena sala dos professores, olha só no que o maldito do senhor G. andou pensando:

"Por que diabos me sinto um estrangeiro?"

O senhor G. Este.


8.3.09

por que ver os clássicos



[l'homme que aimait les femmes. françois truffaut. 1977]


O senhor G. no Dia Internacional da Mulher faz a sua homenagem, ora bolas. Mas o senhor G. pensou:

"Desta forma de tal maneira deus do céu!, já imaginou, linchado em plena luz do dia como o machista? O tarado? O maníaco sexual? Minha nossa senhora!"

O senhor G., em prol de sua auto-defesa, portanto, recita para o bom entendedor:

- Não diga que sou taradinho, no fundo de cada filho de família dorme...

O senhor G. Este.



7.3.09

estórias do senhor G.


O senhor G., que é um homem de espírito, há dois anos mais ou menos - não é mesmo senhor G.? -, conheceu e se relacionou com muitas mulheres das mais diversas idades. E o senhor G. ao se relacionar com muitas mulheres notou e anotou no seu caderninho de viagem - com um canetão - de forma centralizada nas páginas sem margem a seguinte sentença:

POR QUE AS MULHERES TÊM QUEDAS PELOS TOLOS?

O senhor G. até hoje pensa a respeito.

O senhor G. Este.


27.2.09

DOPS: censurado

[egon schiele]

a boca suja da noite
que exala o odor da sua bucetinha

a boca suja da noite
que sobre efeito do perfume me enlouqueço

não servirá de matéria para a
composição dos meus versos.

a sua bucetinha.

a boca suja da noite
que retira o véu da sua bucetinha
crisálida
....................................... e apraze o mel
....................................... e a urina
..................................... não será metáfora para o céu estrelado das minhas
..................................... contemplações.
......................................(constelações?)

a sua bucetinha

(raspada?)

(peluda?)

(ruiva?)


não será o eclipse raro das faces da lua
ou a elipse das cartas de amor.

mas por enquanto,

a sua bucetinha
a sua bucetinha
a sua bucetinha

a
sua
bucetinha

está se desenhando como
uma gengiva na boca suja da noite.


estórias do senhor G.


O senhor G. estaria se transformando nalgum símbolo? O senhor G. refletiu a respeito sobre ele mesmo, o senhor G. O senhor G., acredita o autor, logicamente eu, servirá um dia de catálogo ou será usado como análise por clínicas altamente psiquiátricas. O senhor G. a priori já pensou aonde isso tudo vai acabar.

- Senhor G., mas e o autor? - pergunto eu, o próprio autor, como eu já dizia.
- Fudeu! - responde objetivamente o senhor G.

- Senhor G., Senhor G., cuidado com o que dizes porque posso ver-te quem é. Senhor G. ouça-nos! Senhor G!
- Céus!, com mil diabos!, esbraveja o senhor G., malditas criaturinhas fantasiosas! Larguem-me!! Larguem-me suas criaturinhas ignominiosas!

O senhor G. chuta as criaturinhas. O senhor G. chuta mais outra criaturinha.

O senhor G. seriamente possui uma verdade que é coisa rara como matar um homem. O senhor G. matou certa vez um homem. O senhor G. caminhou até o bosque. O senhor G. penetrou na tarde escura e úmida. O senhor G. se enlameou todo obrigado.

O senhor G. parecia (desculpem o lapso, a consciência do autor reconhece) um bode!

O senhor G., não se preocupem, ele sabe que não sabe mais o que sabe que fala.

O senhor G. Este.


26.2.09

cartão-postal

[Cuca. Tarsila do Amaral. 1924]


E aí, como andas? Recebi sua carta, sabia? Dia desses. Estamos todos tristes por estas bandas afetadas pela crise, eu bem sei. Você notou como o preço do gás aumentou? E o arroz? O feijão preto? O café a que custo compramos? O pão francês passou a ter gosto de chumbo. Uma pedra para cada mão. Mas quem atira primeiro? Não é que alguém nos calunia, ou serão percepções de uma mente atormentada? Sabe que outro dia bateram batido na minha porta, talvez ontem. Anteontem. Quem poderia ser, dispara, não é?, o coração. Por que as pessoas necessitam desaparecer sem deixar rastros? A sina calcinada na carne? Qual foi mesmo último filme que viste? Aquele da década de 1930, imagino. Ei!, vou ter de me despedir porque o tempo das horas, o tempo... você sabe. Apareça qualquer dia para conversarmos, tenho algumas idéias frutíferas ou podemos nos reencontrar e consumar de vez aquele pacto: você corta aqui, e eu aqui. Nossos corpos estariam, assim, talhados em carne em cheiro e em suores. O estilo, a metáfora, o niilismo façamos o seguinte, guardemos dentro de nossas mentes porque são elas que não se entendem. E os corpos, se não forem de vidro, quem sabe.


25.2.09

estórias do senhor G.

[natureza morta. vincent van gogh. 1889]

O senhor G. comprou um cachimbo. E com ele agora também deu pra andar com um poema de Fernando Pessoa anotado num de seus caderninhos de viagens. O senhor G. pergunta:

- Querem que eu leia?

O próprio senhor G. responde:

- Pois bem

Segue o teu destino,/ Rega as tuas plantas,/ Ama as tuas rosas./ O resto é a sombra/ De árvores alheias.//A realidade sempre é mais ou menos/ Do que nós queremos./ Só nós somos sempre/ Iguais a nós-próprios.// Suave é viver só./ Grande e nobre é sempre/ Viver simplesmente/ Deixa a dor nas aras/ Como ex-voto aos deuses.// Vê de longe a vida./ Nunca a interrogues./ Ela nada pode/ Dizer-te. A resposta/ Está além dos deuses// Mas serenamente/ Imita o Olimpo/ No teu coração./ Os deuses são deuses/ Porque não se pensam.

O senhor G. construiu um altar para cada heterônimo e aprendeu a cuidar do seu jardim. O senhor G. aconselha todos a cultivarem o seu pequeno mundo. O senhor G., no entanto, para terminar, pede licença para regar suas plantas.

O senhor G. Este.


24.2.09

estórias do senhor G.


O senhor G. irritadissimo porque acabara de sair de um momento de transição, apanhou o poetinha desprevinido e socou-lhe a barriga, arrancou-lhe os olhos, decepou-lhe as orelhas, amputou-lhe as pernas, comeu-lhe as tripas:

- Tome isto e mais isto e isto! – cuspindo, por fim, na cara do poetinha, o senhor G. Malvado.

- Mas por quê, por quê, senhor G., qual o motivo para tamanha violência?, perguntam as mocinhas desesperadas por uma justificativa.

Só há uma verdade, pensa o senhor G., nunca mais o poetinha pra contar estórias.

O senhor G. Este.


21.2.09

60 s


isto não é um poema-minuto,
ou será que
é?


20.2.09

lero-lero


a cosac & naif publicou em 2002 as poesias completas de cacaso numa edição que ai! como é fofinha. toda arranjada em seu vermelho paixão, a antologia foi batizada de lero-lero. hoje por acaso lendo alguns versos encontrei o seguinte poema:

SOBRE A PRÁTICA

Passamos a vida lutando com demônios
que a própria vida criou.
A única maneira de derrotar tais demônios
é parar de criá-los.
Mas, já que estão criados, a melhor maneira de
parar de criá-los é derrotá-los.

Viva a luta
viva a luta viva a revolução

[BRITO, Antonio Carlos de. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2002. p. 34]

cacaso dedica esses versos à miúcha, eu não, dedico para a sabrina. viva!!!


16.2.09

estórias do senhor G.


Qualquer dia destes, o senhor G. pensava, qualquer dia destes
(eu juro! prometo! querem ver?), saio peladão pela Rua XV e dou o maior vexame.


Ó céus!, assustam-se as moças, por que tamanha boca é esta, senhor G.?

O senhor G. Este.


15.2.09

estórias do senhor G.


Quando o senhor G. atravessou a rua, possivelmente ele poderia ter pulado, como um jogo da amarelinha, a faixa, uma a uma, de pedestre. Mas não. O senhor G. não poderia nem sequer esboçar esse gesto tresloucado que evocaria sua mais remota infância. Indignado, o senhor G. pergunta:

- Querem saber por quê?

O próprio senhor G. responde:

- Por causa da minha posição sócio-econômica.

Já imaginaram o senhor G., funcionário do mais alto escalão do panteão dos funcionários públicos da sua cidade pagando um mico daqueles?

O senhor G. Este.


13.2.09

estórias do senhor G.


O senhor G. ao retirar o livro de poesia da autoria de Pablo Neruda, uma edição italiana dos seus 20 poemas de amor – o preço bem modesto na contracapa – viu-se, para talvez sua infelicidade, diante de um grande dilema abstrato e, com o dedo na ponta da boca, pensou:

“Lerei-o?”

O senhor G. Este.


12.2.09

estórias do senhor G: quando tudo começou

[3º) O espírito do homem que sonha se satisfaz plenamente com o que lhe acontece. A angustiante questão da possibilidade não se lhe apresenta mais. Mate, roube mais depressa, ame tanto quanto quiser. E se você morrer, não tem você a certeza de despertar dentre os mortos? Deixe-se levar, os acontecimentos não toleram que você os retarde. Você não tem nome. A facilidade de tudo é inestimável.
André Breton, Manifesto do Surrealismo, 1924]



O senhor G. ao utilizar as escadas de incêndio
do inferninho
interior

A senhora Z. encontrou-se com o senhor G. O senhor G. e a senhora Z. entraram no café. O senhor G. por conhecer-se prestigioso diante da senhora Z. combinou com certa anterioridade o relógio do encontro. A senhora Z. e o senhor G. escolheram um lugar e sentaram no café. O senhor G. educado conhece as técnicas do manuseio dessas jovens damas, como a senhora Z. O senhor G. e a senhora Z. ambos pediram café puro. A senhora Z. admirava-
se objeto do senhor G. A senhora Z. e o senhor G. beberam café. O senhor G. cobiçava a senhora Z. O senhor G. pediu mais um expresso forte.

Não tendo meios de explicação racional, o senhor G., mesmo assim, temeu o perigo. A senhora Z. para o senhor G. se configurou no próprio outro. Logo o senhor G. passou a ver a senhora Z. como o senhor O.

O senhor G. arrepiou-se.

O senhor G.
então! jamais! inimaginável cresceu colossal como um semideus e num impulso voou pra roubar o fogo do Olimpo.

O senhor G. Este.


qüestionário

[introdução à semiótica]


Senhora Z., me responda uma coisa: quem foi o pai da sentença que fez a seguinte indagação: o que é a semiótica senão uma ótica zarolha?

a) Peirce
b) O caolho
c) Wittgenstein

d)
Ciclope
e) Pignatari

Se a senhora Z. assinalar a alternativa correta, na próxima eu compro o sorvete e lhe forneço a referência toda. To - di - nha. E de brinde, como uma boa aluninha merece, lhe sapeco uma estelinha na testa.


11.2.09

fenômenos de interferência

[... a "realidade" que me ocupa subsiste em estado de sonho, que ela não desaparece no imemorial, por que não concederia eu ao sonho o que, as vezes, recuso à realidade, seja este valor de certeza em si mesma que, a seu tempo, não se expõe a minha negação? Por que não haveria eu de esperar do indício do sonho mais do que espero de uma grau de consciência cada dia mais elevado? O sonho não pode ser ele também aplicado à solução das questões fundamentais da vida? Essas questões são as mesmas num caso e noutro e, no sonho, essas questões já existem? O sonho é menos cheio de sanções do que o resto? Eu envelheço e, mais do que a esta realidade à qual eu penso me adstringir, talvez seja o sonho, a indiferença a que eu o relego que me faz envelhecer.
André Breton - Manifesto do surrealismo, 1924]


ezpehlo

[que roubada, hein, poeta?]

- quem é você?
- você

- eu? ¿ue -


10.2.09

grau zero da escrita


quando o autor esfria como uma faca
sem lâmina


9.2.09

em coma


uma notinha de jornal

ao vê-la dobrar a esquina, o garoto tomou coragem, saltou a poça d'água - a mochila pendia como uma capa heróica - e... cuidado moleque! não!, não é verdade, ai meu deus!, um automóvel o acertou em cheio, na altura do rim, arremessando-o a mais de cem metros de distância do local do acidente.

o estado é grave, gravíssimo

o médico de plantão que acompanha o estado do garoto escalavrado disse que ele transpirou suores noturnos causado pela hemorragia interna de um tal amor líquido em ebulição.


8.2.09

XV de novembro

[
[...]
O praticante, não. Este sabe que o Surrealismo, como tudo o mais, não é, mas está sendo. A lógica do praticante é irrepreensível. Para ele, o que é só atingiu tal condição porque estacionou, foi congelado, como quando se aperta a tecla Pausa, [...] o praticante realiza uma espécie muito peculiar de biópsia -
Carlos Felipe Moisés
]


boca maldita


os homens de terno e gravata
afundam-se nos cafés

os homens de terno e gravata
religiosamente sangram o contrato social

- meu bem, meu bem capital! - infla-se
o homem de terno e gravata

os homens de terno e gravata
vestidos em outra língua

ruminam
arabescos de árabes


6.2.09

mensagem

["SAMO shit" 1960-1988]

I

meus caros,

não quero tomar o seu emprego sua posição social
ou mesmo então testar sua vaidade intelectual

quero antes, antes mesmo, tomar o chopp
para sermos pornográficos ab-so-lu-ta-men-te pornográficos

cantaremos asneiras
beberemos besteiras

ah!, meus caros e caríssimos e quando não mais der
pra viver
morreremos sem dizer adeus ou até

- inté


II

o mundo era pequeno e cabia na palma da minha mão
o mundo é como esta bolinha de papel de prata
o mundo foi quatro homens sentados no café

mais a cerveja que
gentilmente
um senhor pagou


ao canto uma moça bonita que muito olhei
me ofereceu um lugar pra fumarmos juntos

ela tinha certeza de não querer mudar o mundo
mas os três homens reunidos (um bacharel o outro contador somando o arquiteto urbano) - esses sim! - com projetos e planos decididos testavam a

inteligentsia brasileira

- ó grande homem ideal dono
do sorriso irônico.



5.2.09

dos grandes prosadores

[1937-1996]

[...]

Nunca pensava que pudesse e teve de deixar o cigarro. É o melhor dos vícios, nem é um vício. Chamar o cigarro de vício menor é outra impropriedade. Quando vivermos numa sociedade realmente civilizada, teremos cigarros de tudo: de proteínas, vitaminas, degustações variada, leves e pesadas. Haverá uma geração de homens e mulheres incrivelmente elegantes, nenhuma barriga, ombros largos, nenhuma celulite. Pois, cigarros alimentícios, motivarão a chamada digestão sem excrementos. Veja, a princesinha da Inglaterra comendo chocolate. Todos sabem que ela comerá e depois fará um cocê fedido na privada real. Mas um vagabundo da Galeria Alaska fuma um cigarro e não produzirá nenhum dejeto. Tomamos café, mas café é só boca de pito, para acender a vontade do cigarro. O bom da comida fina e ragalada é o cigarro que vem depois. Como é bom o cigarro, depois de duas horas no cinema em que não se pode fumar. O cigarro, como é bom. Trepar também é bom, o melhor dos esportes, o que exercita e mexe diretamente com tudo, músculos, cabeça, tronco e membro. Bobagem, essa história de agora se praticar judô, karatê, ioga. O exercício sexual é mais completo. Voltando ao cigarro, ele não é um vício, é um companheiro, uma segurança psicológica. [...]
Trepar é bom para a saúde. Mas o bem-bom é aquele espaço entre uma trepada e outra, longamente, na hora neutra em que não se sabe se continuar ou não e, então, fuma-se um cigarro. Ah, entre uma e outra, o cigarro. O mal é que contém nicotina. Nas civilizações futuras, o homem pensará cigarros de proteínas, vitaminas e sem barriga, maravilhosos e enxutos. O cigarro não mais um vício e, sim, um companheiro de utilidades.

[ANTÔNIO, João. Casa de loucos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2 ed., 1976. p. 11]


3.2.09

dos sérios problemas


[p/ a. s. uma mini-narrativa
e eu não conto mais
]


- nãooooooooo! não acredito...
ela babou?
- assim, meu. na minha cara, cara.
- ui, que nojo!


1.2.09

dos grandes poetas

[em flagrante delitro]

[531]

Sinto uma simpatia por essa gente toda, sobretudo quando não merece simpatia. Sim, eu sou também vadio e pedinte, e sou-o também por minha culpa. Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: é estar ao lado da escala social, é não ser adaptável às normas da vida, às normas reais ou sentimentais da vida - não ser juiz do supremo, empregado certo, prostituta, não ser pobre a valer, operário explorado, não ser doente de uma doença incurável, não ser sedento da justiça ou capitão da cavalaria, não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas, e se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão! Tudo menos importar-me com a humanidade! Tudo menos ceder ao humanitarismo! De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vaido e pedinte, como eu sou, não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: é ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, é ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Gorki. Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir. E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, e estou-me rebolando numa grande cariadade por mim.

[PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar S.A., 1976. p. 413]


31.1.09

três estrofes trêbadas


p/
rodolfo jarugua e gustav-ô!



meus distintos cavalheiros,
claro que um poema não é um dogma
com bandeira erguida e espada da justiça.

o poeta, antes de tudo,
é um ser empírico.
e jamais! - com o dedo em riste -
pode estar acima do alcóolico
perdido.

a doce triste vida de ser e não ser
- ic! - com o perdão da palavra -
em pensar em tudo que está sentindo.