7.6.09

valor e cultura

[Cristal, de João Werner, 2007]

I

O copo de cristal em si não é belo. Pode ser um objeto. Talvez sua beleza esteja na moldura do contexto.


5.6.09

a cidade e a mímese

[s/título, do senhor G - 2008.]

exercício


A cidade tem seu fluxo interno. Lixeiros, que vestem roupas alaranjadas contra acidentes de trânsito e bonés na cabeça para proteger-se das intempéries do tempo com botas de plástico para a água da sarjeta não umidecer os pés, limpam do chão bitucas de cigarros, folhas de árvores, copos de plásticos e sonhos esquecidos no papel rasgado por algum nômade ou um vagabundo qualquer. Os homens ao café da praça central da cidade efetuam tráfico de rubis e esmeraldas, movimento suspeito feito em plena luz do meio dia. Os homens são árabes e estão refugiados no Ocidente.
Foram dois breves movimentos a girar de fora para dentro do viajante, que começou a sentir materialmente a sua cidade.



3.6.09

dos grandes prosadores

[1912-1980]


[...]

É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje que eu me lembre, todos os canalhas que conheci, são, fatalmente, magros.


[RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol; seleção e notas Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 47]



2.6.09

a banana

[Minas Gerais]


Vou lhe ensinar uma coisa, menininha suja,
uma grande experiência:
Dentro do cesto de frutas existe um cacho de banana com várias bananas reais
oriundas da Natureza e que agora está na sua casa para, a princípio, alimentá-la: e a banana não é uma imitação ou uma representação dela. Da Natureza.

Ela está lá.
Acredite.
Confie.
Você pagou por ela. Gastou dinheiro. Ela existe tanto quanto você. Vamos, caminhe até a cozinha e tire suas próprias impressões.

Viu, não te falei?

Apanhe-a com qualquer uma das mãos. E não pense maliciosamente, acredite no que você segura: não é um pênis, mas se você a esquentar um pouquinho na brasa do fogão e introduzi-la na sua vagininha poderá sentir as...

nu
ve
ns?

Mas nos concentremos na banana.
A banana.

Na ponta dela, da banana, que você pode imaginar como sendo uma cabecinha - e aí, a imaginação é exclusivamente sua -, aquele pedaço o qual está preso ao cacho, sabe?, fica um buraquinho. Comece por puxar, com as pontas dos dedos, a casca.

Mas menininha suja, você não lavou as mãos?

Na maioria das vezes a casca se divide em quatro partes. Não, para o momento não é necessário contar quantas pintinhas deixa a banana mais madura. Descasque-a!

Um.
Ele não me ama.
Dois.
Ele me ama.
Três.
Ele não me ama.
Quatro.
Ele me ama.

Logo em seguida, depois de despi-la, deixando a casca sobre um prato sujo do almoço, ou da janta de ontem; ou largando-a displicentemente em cima da pia, ao lado de copos e talheres; ou arremessando ao cesto de lixo,

como, vejamos como

um jogador profissional da liga masculina de basquete americano, agora você pode fazer a inclusão bocadentro. Desça os dentes superiores em direção à mandíbula e mordisque um pedacinho da banana, normalmente a pontinha, para descer, deliciosamente, pela língua pastosa em direção à gargantua e já já pelo esôfago até o estômago.

Não seja louca de enfiar goela abaixo toda a banana, que não é e nunca será uma espada. Porque não há espadas.

Só há bananas e bananas.
Melhor dizendo: a banana.

A minha frita na manteiga coberta de canela e açúcar.

- Vai um pê?


1.6.09

dos grandes prosadores


- Toda mulher é uma assassina em série de corações - sempre te oferecendo, grandes ou pequenos, duros ou fofinhos, esses dois peitos com todos os frutos da terra prestes a serem teu.
Ai, que são teus, só teus - e te matam, ai e sim, docemente de gozo.

[TREVISAN, Dalton. Pico na veia. Rio de Janeiro:
Record, 2002. p. 145]




31.5.09


Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

[Manuel Bandeira - Os sapos]


Primeira Instituição

O garoto, que estava em meus ombros olhou para o céu e gritou:
– “Olha lá! Para cima! Adiante de você!”.
Olhei para o céu, e apenas isso alcancei.
Então o garoto disse:
– “Não! Olhe mais adiante, olhe para mim e me veja como seu presente.”

Segunda Instituição

O sapo Hume perguntou para o Sábio Locke.
– “Senhor Locke, eu não concordo com este governo e ainda assim ele é legítimo, – o Senhor não seria uma fábula?”
O sapo Kant acordou, – ficou piscando os olhos e disse:
– “Devemos coaxar por determinação natural da razão pura prática cujo objeto é a procriação...”
O sapo Hegel ficou espantado.
O sapo Nietzsche explodiu.
O sapo Voltaire virou um anjo.
E todos coaxaram juntos, no grande charco da filosofia.

Terceira Instituição

Enfim,
Somos aquilo que fomos criados para ser.
Somos aquilo que o flagelo da natureza nos impele a ser.
Somos outra coisa daquilo que gostaríamos que fosse...
Viva o Capitalismo! Viva Karl Marx!


26.5.09

dos grandes prosadores

[1923-1985]


AS CIDADES
E O DESEJO
3

***


Há duas maneiras de se alcançar Despina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, os sobressaltos das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas, ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro, e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam nos cais, as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça uma das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma da corcunda de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas a imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro veem Despina, cidade de confim entre dois desertos.


[CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 21-22]


24.5.09

o homem tolo que é sempre mulher

p/ g. n.

Esta coisa de sentir desejos

um dia me detona.

É assim. Se conheço uma mulher
pimba: desejo.

Estou com uma mulher – qualquer mulher –
ai!, de novo.

Uma mulher me ligou,
ei!, vem cá
, desejo danado.


Recebi um e-mail, fodeu,
psiu!, deseeeeejuuuuu!.

Desejos & desejos.
Sou um garotão dado a desejos,
e por isso meto os pés pela camiseta, o tronco dentro da calça jeans, a cabeça no sapato. Mas não entra. E fico besta, tonto. Por causa delas, das mulheres.

E daí elas riem do meu modo estranho e desengonçado. E mostram os dentes. Lindos dentes. (Aliás, como as mulheres possuem lindos dentes, não é?, sem falar da boca, dos olhos, dos cabelos e de tudo mais que vai descendo.) E mostram os dentes. E se aproximam. Pegam-me a mão, estremeço, fico reticente epa! - smack! - pronto: roubo-lhes um beijo.
Às vezes demora.
Porém, costuma sair,
afoitado
e sem jeito mesmo.


Depois do beijo,
corro, corro com ventos nos pés como um menino que acaba de ganhar o presente mais bonito e o doce mais doce do planeta.

Mas então eis que chega o fim do dia, e as mulheres me mandam embora com tapinha na bunda e um piparote.

Menino, volta pra casa. Já!

E o desejo encolhe. Murcha. Xô.
E sou outra vez o garotão teimoso em não querer viver, mas que é um corpo inteiro tomado por um só pensamento.
Cheio de gracejos.


22.5.09

era uma vez...

"Um rei!, dirão de imediato meus pequenos leitores. Não, crianças, estão enganadas."

[Umberto Eco -
Seis passeios pelos bosques da ficção]


Era uma vez um cocÔ.
Marronzinho e sem vida.

Mas superando seus traumas da fase anal,
o autor empírico, tipo Gepetto, o moldou à sua imagem e semelhança.

E deu no que deu:
o cocô se transformou (agora sim, meus leitores mirins)
num rei.


21.5.09

dos grandes pensadores

[Angelus Novus, de Paul Klee, 1932]


"Minhas asas estão prontas para o voo,
se pudesse, eu retrocederia
pois eu seria menos feliz
se permanecesse imerso em tempo vivo."

[Gerhard Scholem, Saudação do anjo]


Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.


[BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política - Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume 1. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 226]


20.5.09

para além do circundante

[edward hopper 1882-1967]


estão todos esperando. todos. nem mais, nem menos. sento-me no coffe shop arabesco e detenho-me a observar uma única mulher, mesmo antes da sua opção pela prostituição, esperando. uma mulher bonita, jovem, dona de cintilantes olhos negros, de pele morena e rabo de cavalo, mas magoada, triste e cansada. ela espera, em pé, impacientemente. mas por que nenhum homem é capaz de se aproximar e dizer: vamos sair daqui. por que eu mesmo não a chamo para compartilhar uma xícara de expresso e um pão de queijo? o resto da humanidade também espera: na praça pública os amantes se amam sob lençois invisíveis de carne, esperando o momento mágico. os namorados, os casais, os amigos. uns trocam carícias, outros se olham cada qual a sua maneira silenciosos. uma outra mulher, que paro para observar no meio do caminho de volta para casa, sentada num banco gasto debaixo do pinheiro lê; no entanto, esperando que possivelmente o herói romanesco a assalte e a leve embora montados na cavalgadura do corcel negro, como naquele filme americano. o traficante vestido de casaca escura espera o usuário de pó, da maconha, do crack. e o usuário, viciado em si mesmo, espera, mutuamente, o amanhecer para encontrar-se com o traficante. o suicida espera a capacidade de suportar o inesperado diante do copo de cianureto como um pêndulo indeciso a marcar o tempo. o homem sóbrio, mas com distúrbios mentais ainda recônditos, os quais veem percorrendo sua linhagem desde sempre, espera o cérebro embeber-se de vertigem para apanhar a passagem sem volta sobre o balcão do guichê imaginário. todos esperam. nem mais, nem menos. todos esperam um dia em que tomados de coragem façam a viajem realizável da partida irrealizável. e muito mais aqueles dois. muito mais ele e ela. esperando. ambos esperando.


17.5.09

por que ver os clássicos



[Terra em Transe, de Glauber Rocha, 1967]

Não conseguiu firmar o nobre pacto
entre o cosmo sangrento e a alma pura
................................................................
................................................................
gladiador defunto, mas intacto
(tanta violência, mas tanta ternura)

[Mario Faustino
]


16.5.09

é ou não é?

[Os amantes, de Rene Magritte, 1928]

Eis aí a versão repressiva de Eros e Psique: dois seres, enclausurados num cubículo e em suas vestes, sem corpo e sem rosto, enlaçados pelas convenções. Encontro sem contato (as bocas não se beijam, beijam trapos) e sem intimidade, pois, no cubículo fechado e sob os panos que cobrem seus corpos e rostos, se descobre a presença da sociedade inteira, vigiando e controlando o pobre par.

[Marilena Chauí]


**

O verdadeiro intercâmbio de experiências, neste mundo cheio de desamor chamado Curitiba, está concentrado na leitura dos livros.



14.5.09

rapidinha

[Harpo Marx, Horse Feathers, Norman Z. McLeod 1932]


"matamos o tempo, o tempo nos enterra"

[Machado de Assis]


Momento em um café:
o funeral - pequeno aforisma

perfazem o caminho os eremitas na marcha para o enterro.
um dois feijão com arroz!



13.5.09

estórias do senhor G.

[Portrait de Paul Verlaine 1844-1896]


Certa manhã bem cedo, antes do galo cantar, o senhor G. saiu para fazer sua caminhada matutina e filosófica habitual. Aos redores d’O bairro existi um abismo que faz fronteira entre a realidade e a ficção, entre o imaginário e o real; e foi por l'aquelas bandas à beira do precipício onde senhor G. avistou o senhor Rimbaud bêbado e marginalizado arremessando barquinhos de papel cujo conteúdo, ele, o senhor G., não pode desvendar. A princípio, o senhor G. deduz que os barquinhos seriam aquelas ridículas cartas de amor à Verlaine.
O senhor G. refletiu:

"Será que n'O bairro encontrarei algum curso de origami?"

O senhor G. Este.


11.5.09

estórias do senhor G.

[do senhor Walser]

O personagem imigrou:
- tchau!

O senhor G. decidiu.
Convicto de que a realidade é nada e de que ele não passa de um personagem quadrado, resolveu imigrar para o estrangeiro. Juntou suas economias, vestiu seu terno italiano, botou o chapéu coco e se encaminhou para a plataforma de embarque da sua metafísica. Todos os passageiros última chamada, destino muito aquém da sua imaginação, o trem vai partiiiiiiiiiir! O senhor G. tomou a comitiva das onze horas e se escafedeu. Sem deixar rastros. E dúvidas.
Agora o senhor G., que se encontra sozinho, mas definitvamente instalado, observa, da janelinha do seu casebre feito de madeira, O bairro portátil de Gonçalo M. Tavares em seu imenso fluxo fictício. Lá no fim da vila onde habita, próximo à casa do senhor Proust, o senhor G. aprecia o sabor de seu cachimbo com fumo de chocolate e entra em diversos devaneios. Mergulhado em suas memórias, lembranças e derivados, o senhor G. traça planos adequados para - desta vez não errar - se inserir socialmente no mundo da fantasia, não o da Disney, mas no do escritor português.
"Tome tento, senhor G., vê lá, hein!" - é a recomendação da sua consciência incerta.

O senhor G. Este.


9.5.09

rapidinha


Há leitores e leitores


[Machado de Assis]

Formulário

Preencha a lacuna, leitor precoce.



8.5.09

sistema

[Adeus burocracia, de Ricardo Filomeno]

Os burocratas subalternos, insatisfeitos com as ordens estabelecidas, decidiram, por votação democrática, quebrar o protocolo e começaram, distintamente, a utilizar a oralidade informal para fugir à rotina. Sendo assim, o atendimento ao público ganhou mais alegria e os dias se coloriram. Indefinidamente.
Até que, certo dia, chegou a gíria e, formalmente, os devorou.



7.5.09

do diário do senhor G.


avaliação


há uns dias atrás pensei em matar meus alunos, mas a pedagoga, sempre procurando elevar a autoestima dos professores, me impediu de fazê-lo.



3.5.09

entrevista

[labirinto]

[...]

FOLHA - A dedicatória a tantos amigos mortos recentemente antecipa um estado de espírito que fica evidente na sua nota introdutória bastante desencantada. Faz sentido estudar literatura no Brasil?

LUIZ COSTA LIMA - A situação que você levanta é semelhante à de um homem que descobrisse ser uma embusteira a mulher pela qual está apaixonado (ou vice-versa). Ter consciência do embuste dela não refrearia sua paixão.


[Folha de São Paulo. Caderno Mais! Domingo, 3 de maio de 2009. p. 7]



2.5.09

dos grandes mestres

[1931-2009]

[...]

Sejamos democráticos e peçamos às nossas platéias que nos contem seus desejos, que nos mostrem suas alternativas. Vamos esperar que um dia - por favor, num futuro não muito distante - sejamos capazes de convencer ou forçar nossos governantes, nossos líderes, a fazer o mesmo: perguntar a suas platéias - nós, o povo! - o que devem fazer para tornar este mundo um lugar para se viver e ser feliz - sim, isto é possível! -, em vez de apenas um grande mercado onde vendemos nossos bens e nossas almas.
Vamos desejar.
Vamos trabalhar para isso!


[BOAL, Augusto. Jogos para atores e não-atores. 8 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 347]


1.5.09

surrealismo

[Déjeuner en fourrure, de Meret Oppenheim, 1936]

[...]

Segundo a artista, tudo começou com uma conversa com Picasso, que ela conheceu por acaso num café. Eles falaram sobre o papel especial do café, para o qual Pequeno-almoço de pêlo é uma referência muito directa, enquanto local de encontro. Para os surrealistas, o café não significava apenas convívio e a comunicação da tradição boémia, como também era o cenário ideal para conspirar e trabalhar em conjunto. (grifos meu)


[KLINGSÖHR-LEROY, Cathrin. Surrealismo. Taschen. 2004. p. 80]


30.4.09

dos grandes poetas

[Self-portrait in a group, de Almada Negreiros, 1925]

[...]

A Inteligência é o meu cancro:
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!


["A Cena do Ódio", de Almada Negreiros in: NEVES, João Alves das. Poetas portugueses modernos. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. 1967. p. 53]



25.4.09

O retrato de

Dorian Gray



[...]

- Você é terrível, Harry! Não sei por que o prezo tanto!
- E sempre me prezará, Dorian... Café, senhores? Garçom! Café, fine champagne e cigarros. Não, cigarros não. Trago alguns Basil. Não admito que fume charutos. Fumará um cigarro. O cigarro é o tipo consumado do prazer perfeito. É delicioso e deixa-nos insatisfeitos. Que mais se pode querer? Sim, Dorian, você há de gostar de mim sempre. Eu represento para você todos os pecados que você nunca se animou a cometer.


[WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Publifolha, 1998. p. 86]



dos grandes pensadores

[1892-1940]

[...]

"... De nada nos serve a tentativa patética ou fanática de apontar no enigmático o seu lado enigmático; só devassamos o mistério na medida em que o encontramos no cotidiano, graças a uma ótica dialética que vê o cotidiano como impenetrável e o impenetrável como cotidiano. Por exemplo, a investigação mais apaixonada dos fenômenos telepáticos nos ensina menos sobre a leitura (processo eminentemente telepático) que a iluminação profana da leitura pode ensinar-nos sobre os fenômenos telepáticos. Da mesma forma, a investigação mais apaixonada da embriaguez produzida pelo haxixe nos ensina menos sobre o pensamento (que é um narcótico eminente) que a iluminação profana do pensamento pode ensinar-nos sobre a embriaguez do haxixe. O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flâniere, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas - nós mesmos - que tomamos quando estamos sós."


[BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política - Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume 1. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 33]


21.4.09

a cantora careca


-...

- o que foi?! me diga! por que esta cara?
- não viu também?
- hã?!



20.4.09

Cê não viu?

[homem tipicamente brasileiro
em sua propriedade privada
]



Aquele homem de chapéu de palha e alpercatas. A camisa aberta no peito. Dois botões abaixo. Sentado no meio fio:


- ... comia rapadura.


19.4.09

imaginemos todas as pessoas

[femme, por picasso]


[femme, por miró]


**

eu diria que recomeço a distorcer novamente as coisas.
as coisas. e a merda é de que isso é muito perigoso.

vai que qualquer dia, e aê, já imaginou,
deixa pra lá. esqueça.

a vida é assim mesmo, num dia podia pintar
noutro nem pensar.


18.4.09

A princípio não gostaria de levar isto a sério,

[?]

mas devido as circunstâncias as quais venho tentando ultrapassar, o surrealismo está sendo a minha maneira de observar o mundo e enxergar o belo



"..., Erich Auerbach escreve que 'todos os poetas do estilo novo têm amantes místicas. Todos experimentam aventuras de amor muito semelhantes, a todos o Amor concede ou recusa dádivas que mais se assemelham a uma iluminação que a um prazer sensual, e todos pertencem a uma espécie de sociedade secreta, que determina sua vida interna, e talvez também a externa.'"


[BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política - Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume 1. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 24-25]