7.5.09

do diário do senhor G.


avaliação


há uns dias atrás pensei em matar meus alunos, mas a pedagoga, sempre procurando elevar a autoestima dos professores, me impediu de fazê-lo.



3.5.09

entrevista

[labirinto]

[...]

FOLHA - A dedicatória a tantos amigos mortos recentemente antecipa um estado de espírito que fica evidente na sua nota introdutória bastante desencantada. Faz sentido estudar literatura no Brasil?

LUIZ COSTA LIMA - A situação que você levanta é semelhante à de um homem que descobrisse ser uma embusteira a mulher pela qual está apaixonado (ou vice-versa). Ter consciência do embuste dela não refrearia sua paixão.


[Folha de São Paulo. Caderno Mais! Domingo, 3 de maio de 2009. p. 7]



2.5.09

dos grandes mestres

[1931-2009]

[...]

Sejamos democráticos e peçamos às nossas platéias que nos contem seus desejos, que nos mostrem suas alternativas. Vamos esperar que um dia - por favor, num futuro não muito distante - sejamos capazes de convencer ou forçar nossos governantes, nossos líderes, a fazer o mesmo: perguntar a suas platéias - nós, o povo! - o que devem fazer para tornar este mundo um lugar para se viver e ser feliz - sim, isto é possível! -, em vez de apenas um grande mercado onde vendemos nossos bens e nossas almas.
Vamos desejar.
Vamos trabalhar para isso!


[BOAL, Augusto. Jogos para atores e não-atores. 8 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p. 347]


1.5.09

surrealismo

[Déjeuner en fourrure, de Meret Oppenheim, 1936]

[...]

Segundo a artista, tudo começou com uma conversa com Picasso, que ela conheceu por acaso num café. Eles falaram sobre o papel especial do café, para o qual Pequeno-almoço de pêlo é uma referência muito directa, enquanto local de encontro. Para os surrealistas, o café não significava apenas convívio e a comunicação da tradição boémia, como também era o cenário ideal para conspirar e trabalhar em conjunto. (grifos meu)


[KLINGSÖHR-LEROY, Cathrin. Surrealismo. Taschen. 2004. p. 80]


30.4.09

dos grandes poetas

[Self-portrait in a group, de Almada Negreiros, 1925]

[...]

A Inteligência é o meu cancro:
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais: pode parar por aqui!


["A Cena do Ódio", de Almada Negreiros in: NEVES, João Alves das. Poetas portugueses modernos. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. 1967. p. 53]



25.4.09

O retrato de

Dorian Gray



[...]

- Você é terrível, Harry! Não sei por que o prezo tanto!
- E sempre me prezará, Dorian... Café, senhores? Garçom! Café, fine champagne e cigarros. Não, cigarros não. Trago alguns Basil. Não admito que fume charutos. Fumará um cigarro. O cigarro é o tipo consumado do prazer perfeito. É delicioso e deixa-nos insatisfeitos. Que mais se pode querer? Sim, Dorian, você há de gostar de mim sempre. Eu represento para você todos os pecados que você nunca se animou a cometer.


[WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Publifolha, 1998. p. 86]



dos grandes pensadores

[1892-1940]

[...]

"... De nada nos serve a tentativa patética ou fanática de apontar no enigmático o seu lado enigmático; só devassamos o mistério na medida em que o encontramos no cotidiano, graças a uma ótica dialética que vê o cotidiano como impenetrável e o impenetrável como cotidiano. Por exemplo, a investigação mais apaixonada dos fenômenos telepáticos nos ensina menos sobre a leitura (processo eminentemente telepático) que a iluminação profana da leitura pode ensinar-nos sobre os fenômenos telepáticos. Da mesma forma, a investigação mais apaixonada da embriaguez produzida pelo haxixe nos ensina menos sobre o pensamento (que é um narcótico eminente) que a iluminação profana do pensamento pode ensinar-nos sobre a embriaguez do haxixe. O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flâniere, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos. Para não falar da mais terrível de todas as drogas - nós mesmos - que tomamos quando estamos sós."


[BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política - Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume 1. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 33]


21.4.09

a cantora careca


-...

- o que foi?! me diga! por que esta cara?
- não viu também?
- hã?!



20.4.09

Cê não viu?

[homem tipicamente brasileiro
em sua propriedade privada
]



Aquele homem de chapéu de palha e alpercatas. A camisa aberta no peito. Dois botões abaixo. Sentado no meio fio:


- ... comia rapadura.


19.4.09

imaginemos todas as pessoas

[femme, por picasso]


[femme, por miró]


**

eu diria que recomeço a distorcer novamente as coisas.
as coisas. e a merda é de que isso é muito perigoso.

vai que qualquer dia, e aê, já imaginou,
deixa pra lá. esqueça.

a vida é assim mesmo, num dia podia pintar
noutro nem pensar.


18.4.09

A princípio não gostaria de levar isto a sério,

[?]

mas devido as circunstâncias as quais venho tentando ultrapassar, o surrealismo está sendo a minha maneira de observar o mundo e enxergar o belo



"..., Erich Auerbach escreve que 'todos os poetas do estilo novo têm amantes místicas. Todos experimentam aventuras de amor muito semelhantes, a todos o Amor concede ou recusa dádivas que mais se assemelham a uma iluminação que a um prazer sensual, e todos pertencem a uma espécie de sociedade secreta, que determina sua vida interna, e talvez também a externa.'"


[BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política - Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume 1. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 24-25]


17.4.09

estórias do senhor G.


O senhor G. ao voltar de ônibus pra casa, ufa!, que dia, pensou:

"Os professores de literatura e língua portuguesa, especificamente falando, não precisam doutrinar as crianças através do uso de textos, como fazem alguns professores. A fórmula está em trabalhar com o maior número de gêneros textuais para que assim cada aluno encontre sua própria voz neste mar social do qual fazemos parte e podemos ler num meio de comunicação em massa como, por exemplo, o Estadão."

O senhor G. preocupado - neurastênico, quem? o autor?, repensa o senhor G.: se será ou não será um funcionário público.

- Então
, senhor G. - pergunto-lhe.


"A estabilidade é boa, os interesses são mútuos, os casos abertos..." - divaga o senhor G., com leve traço de sorriso na boca que acabara de ser desenhado.

"Até que nada mal, né, senhor G." - pensa o autor, mui claramente puxando a lata de sardinha para o seu lado. Quero dizer, para o meu lado, senhor G.

"Hum, vejamos as possibilidades." - reflete como sempre - exaustivamente -, o senhor G.

O senhor G. Este.



14.4.09

pandora ou a invenção da mulher

[hefaistos fabricando pandora]

[...]

A primeira mulher está ali, diante dos deuses e dos homens ainda reunidos. É um estátua fabricada, mas não à imagem de uma mulher, posto que ainda não existe nenhuma. É a primeira mulher, o arquétipo da mulher. O feminino já existia, porquanto havia as deusas. Essa criatura feminina é modelada como uma parthénos, à imagem das deusas imortais. Os deuses criam um ser perfeito de argila e água, ao qual imprimem a força de um homem, sthénos, e a voz de um ser humano, phoné. Mas Hermes também põe em sua boca palavras mentirosas, dota-a de um espírito de cadela e de um temperamento de ladra. Essa estátua, que é a primeira mulher, da qual saiu toda a "raça das mulheres", tem uma aparência externa enganadora, tal como certa partes do touro sacrificado ou como o funcho. É impossível contemplá-la sem sentir maravilhado. Ela possui a beleza das deusas imortais, sua aparência é divina. Hesíodo conta isso muito bem. Ficamos extasiados com sua beleza, realçada pelas jóias, o diadema, o vestido e o véu. Dela irradia-se a kháris, um charme infinito, um brilho que submerge e doma quem a vir. Sua kháris é infinita, múltipla, pollè kháris. Homens e deuses dobram-se a seu encanto. Mas por dentro esconde-se outra coisa. Sua voz vai lhe permitir conversar e tornar-se a companheira do homem, seu dublê humano. Mas a palavra é dada a essa mulher não para dizer a verdade e expressar seus sentimentos, e sim para contar mentiras e esconder suas emoções.

[VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 69-70]


12.4.09

estórias do senhor G.

[salvador dali 1904-1989]


O senhor G. que esteve presente na noite de Sexta-Feira da Paixão, não viu a ressurreição de Cristo, mas leu uma passagem do Evangelho em homenagem ao filho de Deus:

- "Revesti-vos do senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para satisfazer os seus desejos." O senhor G. atenciosamente anota: romanos 13.

O senhor G. foi tentado ao pecado. Amém.

O senhor G. Este.


11.4.09

rapidinha

[a nose adjustment. eine nasenkorrektur. 1971]


a mini-narrativa a seguir foi devidamente elaborada com a companhia útil dos cigarros e cafes numa bela manhã de sábado, eis a questão

- talvez eu devesse mexer aqui - belisca a ponta do nariz.
- de certo modo uma plástica...
- cairia bem?
- well...


10.4.09

lembrança vaga


ribeirão preto

1980

não podíamos entrar na casa do bisavó.
era proibido ir lá nos fundos:
a casa com aquela portona de ferro azul
cascalho no chão

.................................... [pedras redondas que guardávamos no bolso pra atirar em passarinhos]

- você tinha mania de deixar migalhas de pão pelo caminho, não era?
- pareciamos joão e maria, naquela história que vovó nos contava.
- enquanto mamãe servia a mesa...

II

- lembra do morcego que habitava a casa do bisavô, e a gente o chamava de augusto dos anjos porque era o poeta preferido do papai? lembra?
- mas mamãe dizia que ele podia nos bulir.
- vovô também com aquelas mãos enormes...
- e boca de engolir o mundo.

III

- que tentação nos dava quando...
- de mãos dadas...
- passávamos pelo corredor comprido de infinito para ir ao banheiro.
- corredor comprido que não acabava mais.

IV

- você tinha medo do lobo mau?
- ...
- nem eu.



estórias do senhor G.


Quando certa altura o senhor G. acordou de sonhos estranhos, encontrou-se transformado num minúsculo mosquito no assento sanitário do banheiro. Porém, nesta mesma manhã fatídica, uma terrível e imensa bunda - óóó céus, não comigo, a parede branca! - acabou por esmagá-lo antes mesmo dele começar a sua história. O senhor G., que naquele momento tinha sido um inseto de banheiro (e agora nada mais era do que apenas uma manchinha preta na nádega esquerda) não teve nem tempo de discorrer sobre o seu pai facista, a sociedade burocrática, o desejo que ocultava pela irmã entre outros assuntos os quais o escritor judeu já tinha tocado antes - no bom sentido, é claro.


O senhor G. Este.


8.4.09

dos empregos

[francis bacon 1909-1992]


dois assaltos kafkianos

primeiro:
- o esforço da perfeição

segundo:
- o hábito tirânico


7.4.09

somente para loucos, somente para raros


eyes wide shut

os alunos que manjam o professor de literatura, e por que não também de cinema, não é, caros alunos?, compreendem a clandestinidade da profissão entre quatro paredes.


14.3.09

passagem das horas

[almada negreiros]

[...]

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.



[PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A. 1976. p. 341-354]


11.3.09

dos grandes mestres


[...]

Cabe uma ponderação: nós - o mundo dos intelectuais - consideramos-nos leitores e estamos conscientes das transformações que esse exercício provocou em nossas vidas. Queremos que outros partilhem dessa ventura. Mas, se formos sinceros, dando rápida olhada para trás, para nossos tempos de jovens, o que encontramos? Quando cursamos [...] a universidade, a maioria dos amigos, conhecidos e familiares lia continuamente? Ou éramos nós os alienígenas, curvados sob o peso de nossa aura? Se focalizarmos aquele tempo. veremos que a leitura não era ocupação popular. Nem por isso o mundo chegou ao juízo final. E existiria um país no mundo em que a maioria das pessoas dedica-se a tal exercício? Pensando em obras literárias, talvez sejamos obrigados a concordar com Enzensberger: "na verdade, ela (a literatura) sempre foi um tema para uma minoria. A quantidade dos que se dedicam a ela provavelmente se manteve constante no decorrer dos dois últimos séculos. O que mudou foi apenas a formação desse grupo. Já não é mais uma marca de privilégio de classe se interessar por ela, mas também não é mais um obrigação de classe fazer isso.
"

[...]


Ler não é mais produzir significado, entrar no texto para reescrevê-lo e por meio dele captar as sondas que o autor lançou sobre dores e alegrias humanas. Literatura, nas escola, é questão de enredo e personagem, título e características. É vista como se os autores tivessem uma fórmula mágica, a qual se submeteriam para produzir o texto. Linguagem, visão de mundo, diálogo com a tradição e com as outras produções não são levados em conta.


[VENTURELLI, Paulo. A leitura do literário como prática política. Revista Letras, Curitiba, n. 57. p. 149-172. jan/jun. 2002.]


que triste sina


para que querer viver numa sociedade culpada
medrosa em suas dimensões?

meus ombros também não suportam o mundo
carlos drummond.

os cidadãos hedonistas (cuidado com o solipcista)
estariam a tal ponto negando o corpo para o último prazer?

por que é que para a tristeza
infelizmente
estaríamos perdendo? estaríamos?

deus meu deus me ensine
unicamente a negar repetidas vezes o amor.

todos
ozamores.


9.3.09

estórias do senhor G.


O senhor G. eita!, sempre anotando no seu caderninho de viagem qualquer pensamento mais passageiro como este:


"Não sei porque os professores de Literatura (aliás, quem é ou o que é um professor de Literatura?) não adotam como leitura os seguinte livros de introdução para a poesia. Vamos enumerá-los:

[1] Poesia não é difícil, de Carlos Felipe Moisés;
[2] Como e por que ler a poesia brasileira do século XX, de Ítalo Moriconi.

O senhor G. tem consciência de que há outros livros do mesmo gênero. Livros de maior densidade, como por exemplo, A lira e o arco e O ser e o tempo da poesia. O senhor G. pensa:

"Basta!"

O autor está ficando preocupado, pois, afinal, o senhor G. pode estar quase que mais ou menos a ficar louco, não é mesmo, senhor G.?

- Senhor G., está me ouvindo?

E o que será, não do senhor G., prestem a atenção!, mas de mim, pobre do autor, hein? O moço pode me responder? A moça?


O senhor G. Este.


estórias do senhor G.


O senhor G. nem bem começou a lecionar numa escola por aí nas quebradas da região metropolitana, e em menos de uma semana, carambolas! já?, hoje, em plena sala dos professores, olha só no que o maldito do senhor G. andou pensando:

"Por que diabos me sinto um estrangeiro?"

O senhor G. Este.


8.3.09

por que ver os clássicos



[l'homme que aimait les femmes. françois truffaut. 1977]


O senhor G. no Dia Internacional da Mulher faz a sua homenagem, ora bolas. Mas o senhor G. pensou:

"Desta forma de tal maneira deus do céu!, já imaginou, linchado em plena luz do dia como o machista? O tarado? O maníaco sexual? Minha nossa senhora!"

O senhor G., em prol de sua auto-defesa, portanto, recita para o bom entendedor:

- Não diga que sou taradinho, no fundo de cada filho de família dorme...

O senhor G. Este.



7.3.09

estórias do senhor G.


O senhor G., que é um homem de espírito, há dois anos mais ou menos - não é mesmo senhor G.? -, conheceu e se relacionou com muitas mulheres das mais diversas idades. E o senhor G. ao se relacionar com muitas mulheres notou e anotou no seu caderninho de viagem - com um canetão - de forma centralizada nas páginas sem margem a seguinte sentença:

POR QUE AS MULHERES TÊM QUEDAS PELOS TOLOS?

O senhor G. até hoje pensa a respeito.

O senhor G. Este.


27.2.09

DOPS: censurado

[egon schiele]

a boca suja da noite
que exala o odor da sua bucetinha

a boca suja da noite
que sobre efeito do perfume me enlouqueço

não servirá de matéria para a
composição dos meus versos.

a sua bucetinha.

a boca suja da noite
que retira o véu da sua bucetinha
crisálida
....................................... e apraze o mel
....................................... e a urina
..................................... não será metáfora para o céu estrelado das minhas
..................................... contemplações.
......................................(constelações?)

a sua bucetinha

(raspada?)

(peluda?)

(ruiva?)


não será o eclipse raro das faces da lua
ou a elipse das cartas de amor.

mas por enquanto,

a sua bucetinha
a sua bucetinha
a sua bucetinha

a
sua
bucetinha

está se desenhando como
uma gengiva na boca suja da noite.