27.6.09

crônica em jornal

[A man reading in a garden, de Honoré Daumier - 1868]

[...]

Ontem, esbarrei com um cão sem dono e cego, que mancava de uma das patas, os olhos vazados não me viram, mas ele deve ter sentido o meu cheiro, a minha catinga humana. Vagava sem rumo aqui na Lagoa. Não o trouxe para casa. Quem é mais miserável?

[Carlos Heitor Cony - Sem olhos e sem dono. Gazeta do povo: 16 de outubro de 2003.Arquivo particular]


26.6.09

valor e cultura


V


Ser categórico ao afirmar que literatura se faz com ajuda de números fatores externos e, principalmente, do sentimento íntimo de repugnância, cuja sensibilidade é a face da mesma cartada amorosa.


22.6.09

a cidade e as mulheres

Erguer o vestido, ó que delícia, no tempo do vestido.

[Dalton Trevisan - Chorinho brejeiro]


NA CIDADE SEM NOME, porque tinha sido um sonho, todas as mulheres usavam vestidos de seda com estampas floridas. Os pés delicados e nus calçavam sandálias de couro. Os tornozelos ostentavam correntinha de ouro ou de prata. Algumas mulheres saiam à rua com flores adornando o penteado. Eram tantas as cores que ficava impossível distingui-las das próprias flores que enfeitavam os jardins da praça imperial. Os odores das glicínias e azaléias exalavam a ponto de se misturar com a fumaça do cigarro.
A cidade se abria como uma rosa.


21.6.09

dos grandes prosadores


O seio nu


**

O senhor Palomar caminha ao longo da praia solitária. Encontra raros banhistas. Uma jovem está estendida na areia tomando banho de sol com os seios à mostra. Palomar, homem discreto, volve o olhar para o horizonte marinho. Sabe que, em tais circunstâncias, a aproximação de um desconhecido leva não raro as mulheres a se cobrirem depressa, e isso não lhe parece bom: porque é desagradável para a banhista que tomava seu sol tranquila; porque o homem que passa se sente um elemento perturbador; porque o tabu da nudez fica implicitamente confirmado; e porque as convenções respeitadas pela metade propagam insegurança e incoerência no comportamento em vez de liberdade e franqueza.


[CALVINO, Ítalo. Palomar. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 12]


20.6.09

valor e cultura

[Os sonhadores]

IV

Em que lugar está nossa libertação revolucionária acima de todos os valores morais? Apenas no plano discursivo? Quando muito! E o mundo às avessas, seria o modelo de uma sociedade endiabrada? Mas e no baile de máscaras que dançamos para o ganha pão nosso de cada dia, como explicar? Em que categoria o encaixar? Lembro-me de ter lido algo a respeito de uma revolução sexual engendrada na década de 1960. (Engendrada?, tou ficando preocupado.) No entanto, para onde foi parar a ideologia dos estudantes e ativistas daquela época? Nas imagens do diretor Bertolucci?


- Bah! Qual?



19.6.09

rapidinha


- Carlo! Carlo!
- O que é?
- Quem roeu o meu queijo?


18.6.09

valor e cultura


III


Naturalmente frequentamos os lugares públicos ou temos que nos curvar às apresentações formais para sermos aceitos pelas companhias? "Deixa a coisa acontecer", é o recado de um amigo. Mas não vacile, porque no meio do bando sempre aparece um idiota querendo fazê-lo de tolo. Cuide-se.


17.6.09

sob cigarros e cafés

[1937 - ]

leitores sedutores
Se vocês tiverem o hábito de ler, vão ingressar em um mundo tãos fascinante que, de imediato, os fará se tornarem criaturas sedutoras. Porque a leitura também nos dá uma condição erótica. Com as palavras na mão, você se torna uma pessoa sedutora. Uma pessoa afásica tem que ter um rosto belíssimo para poder seduzir. Já um feinho, ou uma feinha, se tiver o dom da palavra, se for capaz de imantar platéias, pessoas ou amores com as palavras... Não é forçoso dizer que a leitura nos obriga a abrir os olhos. Com ela, você vê o que não tinha visto até então, você se torna muito mais crítico. No entanto, através da leitura, você vai criando o seu conceito, o seu código de consciência. Eu, por exemplo, pude entender o que era a minha consciência - mesmo que de forma precária - quando li Crime e castigo, de Dostoiévski. Foi um choque profundo na minha vida. Então, quem somos nós sem a leitura, sem folhear a intimidade de um livro? E essa é uma intimidade imensa, como a intimidade da cama, talvez. Ou talvez não, pois a cama se divide, e o livro não. É só você e ele: o livro, os ditames do livro, a imaginação do livro. Você voa enquanto o texto voa com você.
daniel e o anagrama
"Meu avô me ensinou até a preparar o charuto dele. Eu o cortava e servia para ele com um conhaque, para que ele o mergulhasse nele. Às vezes, depois de meio caminho já andando, fumando meio charuto, ele o mergulhava num conhaque". Aí, me ocorreu pela primeira vez o seguinte: há aquele livro, Gigi, da escritora francesa Colette. Era a história das grandes cortesãs de Paris, que vão educando as suas filhas e sobrinhas para que venham a ser grandes cortesãs também. Então eu lhes disse: "De certo modo, meu avô, sem saber, me ensinou a ser uma grande cortesã"
amizade não é terremoto
Eu gostaria de entoar um hino à amizade. Acho que a amizade é um patrimônio excepcional. Acho a amizade mais importante que o amor. Porque os amores se sucedem. Infelizmente, o amor não é eterno - mas a amizade pode ser. A amizade tem certos desprendimentos que o amor não tem. Na amizade, não há interesse na carne. E a carne é muito revolucionária e perturbadora. O desejo que permeia a relação amorosa é uma coisa de você não saber como se situar no mundo. É um terremoto. E a amizade não é um terremoto. Ela pode ser serena e intensa, mas, de algum modo, lhe oferece estabilidade. É uma aposta que você faz no outro, sem maiores interesses. Não está em pauta o dinheiro, não está em pauta a satisfação sexual, a procriação, nada. Sempre acreditei na amizade. E quis a vida que, desde muito cedo, fui conhecendo pessoas fascinantes.

[Nélida Piñon, convidada da edição de maio do Paiol Literário. in: Rascunho - o jornal de literatura do Brasil. Curitiba, junho de 2009. Ano 10. p. 4-5]


16.6.09

sabe de uma coisa

[Sísifo, de Tiziano - 1549]

é.

é sempre assim:

eu nunca sei se o mito de sísifo
está representado no eterno girar de chaves de volta

à casa.

arre! tamanha consciência trágica essa.


13.6.09

valor e cultura

[s/ créditos]

II


O círculo do capitalismo fala de forma figurativa para os cidadãos "beberem saúde", o que é bem diferente de "tomar água" para matar a sede. Sede esta a do desejo.



11.6.09

10.6.09

a colecionadora



Numa aldeia não muito distante do imaginário do leitor, morava uma mulher diferente das demais mulheres. Dizem os habitantes do pueblito que essa mulher colecionava manuscritos e por isso qualquer homem que aquela mulher tocasse, meses depois, falecia.



7.6.09

valor e cultura

[Cristal, de João Werner, 2007]

I

O copo de cristal em si não é belo. Pode ser um objeto. Talvez sua beleza esteja na moldura do contexto.


5.6.09

a cidade e a mímese

[s/título, do senhor G - 2008.]

exercício


A cidade tem seu fluxo interno. Lixeiros, que vestem roupas alaranjadas contra acidentes de trânsito e bonés na cabeça para proteger-se das intempéries do tempo com botas de plástico para a água da sarjeta não umidecer os pés, limpam do chão bitucas de cigarros, folhas de árvores, copos de plásticos e sonhos esquecidos no papel rasgado por algum nômade ou um vagabundo qualquer. Os homens ao café da praça central da cidade efetuam tráfico de rubis e esmeraldas, movimento suspeito feito em plena luz do meio dia. Os homens são árabes e estão refugiados no Ocidente.
Foram dois breves movimentos a girar de fora para dentro do viajante, que começou a sentir materialmente a sua cidade.



3.6.09

dos grandes prosadores

[1912-1980]


[...]

É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje que eu me lembre, todos os canalhas que conheci, são, fatalmente, magros.


[RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol; seleção e notas Ruy Castro. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 47]



2.6.09

a banana

[Minas Gerais]


Vou lhe ensinar uma coisa, menininha suja,
uma grande experiência:
Dentro do cesto de frutas existe um cacho de banana com várias bananas reais
oriundas da Natureza e que agora está na sua casa para, a princípio, alimentá-la: e a banana não é uma imitação ou uma representação dela. Da Natureza.

Ela está lá.
Acredite.
Confie.
Você pagou por ela. Gastou dinheiro. Ela existe tanto quanto você. Vamos, caminhe até a cozinha e tire suas próprias impressões.

Viu, não te falei?

Apanhe-a com qualquer uma das mãos. E não pense maliciosamente, acredite no que você segura: não é um pênis, mas se você a esquentar um pouquinho na brasa do fogão e introduzi-la na sua vagininha poderá sentir as...

nu
ve
ns?

Mas nos concentremos na banana.
A banana.

Na ponta dela, da banana, que você pode imaginar como sendo uma cabecinha - e aí, a imaginação é exclusivamente sua -, aquele pedaço o qual está preso ao cacho, sabe?, fica um buraquinho. Comece por puxar, com as pontas dos dedos, a casca.

Mas menininha suja, você não lavou as mãos?

Na maioria das vezes a casca se divide em quatro partes. Não, para o momento não é necessário contar quantas pintinhas deixa a banana mais madura. Descasque-a!

Um.
Ele não me ama.
Dois.
Ele me ama.
Três.
Ele não me ama.
Quatro.
Ele me ama.

Logo em seguida, depois de despi-la, deixando a casca sobre um prato sujo do almoço, ou da janta de ontem; ou largando-a displicentemente em cima da pia, ao lado de copos e talheres; ou arremessando ao cesto de lixo,

como, vejamos como

um jogador profissional da liga masculina de basquete americano, agora você pode fazer a inclusão bocadentro. Desça os dentes superiores em direção à mandíbula e mordisque um pedacinho da banana, normalmente a pontinha, para descer, deliciosamente, pela língua pastosa em direção à gargantua e já já pelo esôfago até o estômago.

Não seja louca de enfiar goela abaixo toda a banana, que não é e nunca será uma espada. Porque não há espadas.

Só há bananas e bananas.
Melhor dizendo: a banana.

A minha frita na manteiga coberta de canela e açúcar.

- Vai um pê?


1.6.09

dos grandes prosadores


- Toda mulher é uma assassina em série de corações - sempre te oferecendo, grandes ou pequenos, duros ou fofinhos, esses dois peitos com todos os frutos da terra prestes a serem teu.
Ai, que são teus, só teus - e te matam, ai e sim, docemente de gozo.

[TREVISAN, Dalton. Pico na veia. Rio de Janeiro:
Record, 2002. p. 145]




31.5.09


Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

[Manuel Bandeira - Os sapos]


Primeira Instituição

O garoto, que estava em meus ombros olhou para o céu e gritou:
– “Olha lá! Para cima! Adiante de você!”.
Olhei para o céu, e apenas isso alcancei.
Então o garoto disse:
– “Não! Olhe mais adiante, olhe para mim e me veja como seu presente.”

Segunda Instituição

O sapo Hume perguntou para o Sábio Locke.
– “Senhor Locke, eu não concordo com este governo e ainda assim ele é legítimo, – o Senhor não seria uma fábula?”
O sapo Kant acordou, – ficou piscando os olhos e disse:
– “Devemos coaxar por determinação natural da razão pura prática cujo objeto é a procriação...”
O sapo Hegel ficou espantado.
O sapo Nietzsche explodiu.
O sapo Voltaire virou um anjo.
E todos coaxaram juntos, no grande charco da filosofia.

Terceira Instituição

Enfim,
Somos aquilo que fomos criados para ser.
Somos aquilo que o flagelo da natureza nos impele a ser.
Somos outra coisa daquilo que gostaríamos que fosse...
Viva o Capitalismo! Viva Karl Marx!


26.5.09

dos grandes prosadores

[1923-1985]


AS CIDADES
E O DESEJO
3

***


Há duas maneiras de se alcançar Despina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, os sobressaltos das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas, ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro, e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam nos cais, as tabernas em que tripulações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça uma das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira, o marinheiro distingue a forma da corcunda de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas a imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforjes de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro veem Despina, cidade de confim entre dois desertos.


[CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 21-22]


24.5.09

o homem tolo que é sempre mulher

p/ g. n.

Esta coisa de sentir desejos

um dia me detona.

É assim. Se conheço uma mulher
pimba: desejo.

Estou com uma mulher – qualquer mulher –
ai!, de novo.

Uma mulher me ligou,
ei!, vem cá
, desejo danado.


Recebi um e-mail, fodeu,
psiu!, deseeeeejuuuuu!.

Desejos & desejos.
Sou um garotão dado a desejos,
e por isso meto os pés pela camiseta, o tronco dentro da calça jeans, a cabeça no sapato. Mas não entra. E fico besta, tonto. Por causa delas, das mulheres.

E daí elas riem do meu modo estranho e desengonçado. E mostram os dentes. Lindos dentes. (Aliás, como as mulheres possuem lindos dentes, não é?, sem falar da boca, dos olhos, dos cabelos e de tudo mais que vai descendo.) E mostram os dentes. E se aproximam. Pegam-me a mão, estremeço, fico reticente epa! - smack! - pronto: roubo-lhes um beijo.
Às vezes demora.
Porém, costuma sair,
afoitado
e sem jeito mesmo.


Depois do beijo,
corro, corro com ventos nos pés como um menino que acaba de ganhar o presente mais bonito e o doce mais doce do planeta.

Mas então eis que chega o fim do dia, e as mulheres me mandam embora com tapinha na bunda e um piparote.

Menino, volta pra casa. Já!

E o desejo encolhe. Murcha. Xô.
E sou outra vez o garotão teimoso em não querer viver, mas que é um corpo inteiro tomado por um só pensamento.
Cheio de gracejos.


22.5.09

era uma vez...

"Um rei!, dirão de imediato meus pequenos leitores. Não, crianças, estão enganadas."

[Umberto Eco -
Seis passeios pelos bosques da ficção]


Era uma vez um cocÔ.
Marronzinho e sem vida.

Mas superando seus traumas da fase anal,
o autor empírico, tipo Gepetto, o moldou à sua imagem e semelhança.

E deu no que deu:
o cocô se transformou (agora sim, meus leitores mirins)
num rei.


21.5.09

dos grandes pensadores

[Angelus Novus, de Paul Klee, 1932]


"Minhas asas estão prontas para o voo,
se pudesse, eu retrocederia
pois eu seria menos feliz
se permanecesse imerso em tempo vivo."

[Gerhard Scholem, Saudação do anjo]


Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.


[BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política - Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume 1. 3 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. p. 226]


20.5.09

para além do circundante

[edward hopper 1882-1967]


estão todos esperando. todos. nem mais, nem menos. sento-me no coffe shop arabesco e detenho-me a observar uma única mulher, mesmo antes da sua opção pela prostituição, esperando. uma mulher bonita, jovem, dona de cintilantes olhos negros, de pele morena e rabo de cavalo, mas magoada, triste e cansada. ela espera, em pé, impacientemente. mas por que nenhum homem é capaz de se aproximar e dizer: vamos sair daqui. por que eu mesmo não a chamo para compartilhar uma xícara de expresso e um pão de queijo? o resto da humanidade também espera: na praça pública os amantes se amam sob lençois invisíveis de carne, esperando o momento mágico. os namorados, os casais, os amigos. uns trocam carícias, outros se olham cada qual a sua maneira silenciosos. uma outra mulher, que paro para observar no meio do caminho de volta para casa, sentada num banco gasto debaixo do pinheiro lê; no entanto, esperando que possivelmente o herói romanesco a assalte e a leve embora montados na cavalgadura do corcel negro, como naquele filme americano. o traficante vestido de casaca escura espera o usuário de pó, da maconha, do crack. e o usuário, viciado em si mesmo, espera, mutuamente, o amanhecer para encontrar-se com o traficante. o suicida espera a capacidade de suportar o inesperado diante do copo de cianureto como um pêndulo indeciso a marcar o tempo. o homem sóbrio, mas com distúrbios mentais ainda recônditos, os quais veem percorrendo sua linhagem desde sempre, espera o cérebro embeber-se de vertigem para apanhar a passagem sem volta sobre o balcão do guichê imaginário. todos esperam. nem mais, nem menos. todos esperam um dia em que tomados de coragem façam a viajem realizável da partida irrealizável. e muito mais aqueles dois. muito mais ele e ela. esperando. ambos esperando.