XII
Pensei que tinha gente mais corajosa do que eu. No mundo dito real. Não tinha.
Do mundo ficcional, quanto mais uma fuga efêmera. Quem se transformou num inseto: Eu ou você?
Realmente.
- rádio linha de fuga - agenciamento teoria - vida - prática - grupo - sexo - solidão - máquina - ternura - Cê entende, cara, a batalha semiológica -
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O animal grotesco puro e simplesmente é o morcego. O nome (Fledermaus, em alemão) sugere a mistura antinatural dos domínios que se concretizou neste ente sinistro. E, ao lado desta cultura estranhadora, há um modo estranho de vida: um animal crepuscular, de voo silencioso, com inquietante agudeza perceptiva e de segurança infalível nos rápidos movimentos – não caberia suspeitar que ele suga o sangue de outros animais enquanto estão dormindo? É estranho, até no estado de repouso, quando permanece envolto nas asas como num manto, dependurado de uma trave com a cabeça para baixo, mais parecido a um pedaço de matéria morta do que a um ser vivo.
[Menina com bandolim, de Pablo Picasso, 1912?][...]o tema de Picasso continua sendo a mulher. Suas garrafas, cachimbos ou bandolins não passam de exercícios condescendentes, que marcam o passo à espera das mulheres. E as mulheres de Picasso, quando por fim aparecem, entregam-se a uma dança frenética para escapar da tela, reviram-se como loucas em todas as direções, até que os dois olhos vão parar de um lado do nariz, o nariz na orelha, o umbigo nas costas, o pé no ombro. No paroxismo impossível dessas danças, ao completar-se a torção, o corpo sai do suporte (e é bom lembrar que o pensamento também pode ser um suporte).
dia 7/10
um recorte no meu bolso, escrito ontem cedo, ainda em casa: "quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. é difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. é chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo".
[...]
Para que se vá deitar um pouco mais próximo de si mesmo, sem gastar suas energias inutilmente na tentativa de ser sociável e mulherengo como seus companheiros de batalhão, pois ele sabe faz tempo que é diferente de todos eles e já concluiu que um dia, cedo ou tarde, uma mulher passará por sua vida. Para que seja capaz de abrir mão. Podemos surpreender sua decisão, mas ela é inevitável.
A paixão de Cristo
Primeiro, deu-lhe um murro de mão fechada que lhe quebrou os dentes. Antes que se levantasse, lhe chutou as ilhargas com brutalidade e força e, depois, o levantou pela gola da camisa. Esmurrou-o novamente tentando atingir o baço e, quando a vítima se dobrou, o carrasco acertou outro soco na ponta do queixo. Introduziu-lhe um cassetete ânus adentro. Envolveu o pênis em fio e lhe deu choques. Para completar, aplicou com força um golpe com mãos abertas nos dois ouvidos. O tímpano ainda zunia quando ele ouviu o tiro de misericórdia ser disparado. Sentiu a bala penetrar-lhe a nuca. Ei, você aí, leitor incauto, não pare de ler: isto é só literatura. Como cantou o Belchior, a vida é muito pior. E, como dizia minha avó, mais sofreu Jesus, que morreu na cruz.