29.9.09

valor e cultura

[Liliane Busby - sem título]


XII

Pensei que tinha gente mais corajosa do que eu. No mundo dito real. Não tinha.
Do mundo ficcional, quanto mais uma fuga efêmera. Quem se transformou num inseto: Eu ou você?
Realmente.


27.9.09

vida modo de usar


domingo: quase diário
15:00 em ponto

Os turistas gritam e erguem os braços ao passar sob o viaduto.
Um motociclista desce, a moto desligada, a alameda Dr. Muricy.
A ferinha pela qual não caminhei para um cigarrinho tinha o seu público muito antes das três. Lá no alto do Largo. E ninguém sentiu a minha falta.

15:32

Sustenta-se no ar uma harmonia de sol e chuva casamento de viúva. Embora o movimento coletivo que antecede a parada esteja pra lá de agitada no batuque do mundo exterior. Que barulho é este? Alguém? Que bate na porta?

15:39

O coletivo aproxima-se. Mergulharei no meio da multidão para não retornar. Me diluirei nela. Depois, se caso a matéria voltar com a alma limpa, venho aqui dizer como estava bom. Mesmo dissolvido por completo no bloco em homenagem a Baco.

15:45

Ai! que preguiça!...


26.9.09

epílogo

[...]

No mucambo se alguma cunhatã se aproximava dele para fazer festinha,Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava.

[mário de andrade]

**


acabou-se a história e morreu a vitória.
Não havia mais ninguém lá. Dera tangolomangolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia ninguém lá. Aqueles lugares aqueles campos furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aquêles matos misteriosos, tudo era solidão e deserto. Um silêncio imenso dormia à beira-rio do Uraricoera.
Nenhum conhecido sôbre a terra não sabia nem falar na fala da tribo nem contar aquêles casos tão pançudos. Quem que podia saber do herói? Agora os manos virados na sombra leprosa eram a segunda cabeça do Pai do Urubu e Macunaíma era a constelação da Ursa Maior. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribo acabada. Um silêncio imenso dormia à beira-rio do Uraricoera.
Uma feita um homem foi lá. Era madrugadinha e Vei mandara as filhas visar o passe das estrêlas. O deserto tamanho matava os peixes e os passarinhos de pavor e a própria natureza desmaiara e caíra num gesto largado por aí. A mudez era tão imensa que espichava o tamanhão dos paus-no-espaço. De repente no peito doendo do homem caiu uma voz da ramaria:
- Curr-pac, papac! curr-pac, papac!...
O homem ficou frio de susto feito piá. Então veio brisando um guanumbi e o boleboliu no beiço do homem:
- Bilo, bilo, bilo, lá... tetéia!
E subiu apressado pràs árvores. O homem seguindo o vôo do guanumbi, olhou pra cima.
- Puxa rama, boi! o beija-flor se riu. E escafedeu.
Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado espiando pra êle. Falou:
- Dá o pé, papagaio.
O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel de pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato.
A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porém ficara o aruaí do séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fôra o grande Macunaíma imperador. E só papagaio no silêncio do Uraicoera preservava dos esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitas do herói.
Tudo êle contou pro homem e depois abriu asa rumo Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba desta fôlhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a bôca no mundo cantando na fala impura as frases e casos de Macunaíma, herói de nossa gente.
Tem mais não.

[ANDRADE, Mário de. Macunaíma (o herói sem nenhum caráter). Copyright by Livraria Martins Editôra S. A., São Paulo. 5 ed. n. 2225. p. 235-236]


25.9.09

na sala de aula

[Magritte, 1935]


Não sou de dormir muito na pontaria, não.

[Carlos Heitor Cony]

O morcego

Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

[ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martins Fontes, 1994. p. 11]


[...]


O animal grotesco puro e simplesmente é o morcego. O nome (Fledermaus, em alemão) sugere a mistura antinatural dos domínios que se concretizou neste ente sinistro. E, ao lado desta cultura estranhadora, há um modo estranho de vida: um animal crepuscular, de voo silencioso, com inquietante agudeza perceptiva e de segurança infalível nos rápidos movimentos – não caberia suspeitar que ele suga o sangue de outros animais enquanto estão dormindo? É estranho, até no estado de repouso, quando permanece envolto nas asas como num manto, dependurado de uma trave com a cabeça para baixo, mais parecido a um pedaço de matéria morta do que a um ser vivo.

[KAYSER, Wolfgang. O grotesco – configuração na pintura e na literatura. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003. p. 158]


24.9.09

bestiário


I


Vacas sobrevoaram hoje à tarde, segundo as imagens registradas pelo cinegrafista a cerca de mil pés do chão, a Cidade Industrial, diz a âncora do telejornal.

- Balões, para ser mais exato.

O céu fechado e previsão de chuva. Vai cair o mundo.

II

O cão cego e sem dono levou uma pedrada do guri. Vi com os meus próprios olhos.

III

A ave da qual me foge o nome está empalhada.

IV

Ouço um agouro de nunca mais.




e agora, como o personagem se limpa?


I

o homem volta afiar a navalha

e a navalha ficava afiada.

II

agora ela estava definitivamente
e novamente afiada na mão do homem.

III

o homem caminha até a sala e põe-se no chão para agarrar o pescoço da galinha, que se escondia debaixo da mesa, e a ergue no ar. penas voam no seu debater submisso. e com a direita - fatal - o homem talha um corte fundo que esguichou sangue em toda a porra da minha roupa que estava um brinco.

IV

[o autor rouba a cena]

- buceta!

V

sem contar as paredes da casa do traíra.


20.9.09

secretário dos amantes


I


Acabei de jantar um excelente jantar
116 francos
Quarto 120 francos com água encanada
Chauffage central
Vês que estou bem de finanças
Beijos e coices de amor

II

Bestão querido
Estou sofrendo
Sabia que ia sofrer
Que tristeza este apartamento de hotel

III

Granada é triste sem ti
Apesar do sol de ouro
E das rosas vermelhas

IV

Mi pensamiento hacia Medina del Campo
Ahora Sevilla envuelta en oro pulverizado
Los naranjos salpicados de frutos
Como una dádiva a mis ojos enamorados
Sin embargo que tarde la mía

V

Que alegria teu rádio
Fiquei tão contente
Que fui à missa
Na igreja toda a gente me olhava
Ando desperdiçando beleza
Longe de ti

VI

Que distância!
Não choro
Porque meus olhos ficam feios

[ANDRADE, Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do livro, 1976. p. 129-130]


15.9.09

Se eu fosse Nabokov


[Com o apetitoso detalhe da figura de linguagem na qual espetamos o substantivo obra no rabo do próprio autor]

O personagem? O narrador? minha mãezinha lá no céu, será ele: o autor? tomado por pensamentos pevertidos refletia:

“... minhas aluninhas de catorze e quinze anos...”

- No que você está pensando, Lobo mau? - interrompe chapeuzinho vermelho que acabara de pular o muro do subúrbio.



13.9.09

todo homem

[Menina com bandolim, de Pablo Picasso, 1912?]

[...]

o tema de Picasso continua sendo a mulher. Suas garrafas, cachimbos ou bandolins não passam de exercícios condescendentes, que marcam o passo à espera das mulheres. E as mulheres de Picasso, quando por fim aparecem, entregam-se a uma dança frenética para escapar da tela, reviram-se como loucas em todas as direções, até que os dois olhos vão parar de um lado do nariz, o nariz na orelha, o umbigo nas costas, o pé no ombro. No paroxismo impossível dessas danças, ao completar-se a torção, o corpo sai do suporte (e é bom lembrar que o pensamento também pode ser um suporte).

[AIRA, César.
A trombeta de vime. São Paulo: Editora Iluminuras, 2002. p. 15]


12.9.09

telegrafando


a mochila com livros


Por estas bandas de cá do pantanal, eu não recebo indicações de leitura porque minha raiva contra todos vocês é maior ainda e a minha convivência com os livros é mais intensa do que com as pessoas. Então procuro criar um vínculo, um elo transcendente apenas com as obras de cunho literário, com as ideias do autor (pronunciadas através de um narrador/eu-lírico) para saber que, através das frases bifurcadas pela ausência, não estou sozinho e que não sou o único a alimentar sentimento parecido.
Já não me servem livros indicados, porque simplesmente vou às livrarias e aos sebos garimpar autores que me eram até então desconhecidos.
Procura-se. Encontra-se. E lê, é claro. Paga-se, do bolso com dinheiro que é dinheiro, no fim das contas.

devaneios de um caminhante solitário

Sobre o vínculo estabelecido entre o livro e o leitor não pode haver identificação, mas sim estranhamento, ou melhor, um estranhamento que deve se apossar de mim para que eu me identifique com a obra. Obscuramente. Aí, sim.

da leitura

César Aira em seu texto intitulado Diário de um demônio nos diz que "agora em diante só posso escrever em nome do Mal. É uma expressão, uma confirmação, uma revelação; é uma atitude nova e automática, sem reverso, sem fundo. Somente no Mal o ato de escrever ganha sentido", e as flores cheiram a moribundo.
André Gide, outro escritorzinho maldito, numa frase pra lá de batida, já dizia, também, que não é com bons sentimentos que se faz uma obra. E o escritor argentino, acima citado, arremata: "O Mal permite que a vida continue, deprecia as supostas hierarquias de importância, dá a medida exata da banalidade necessária para que o homem percorra seu caminho no mundo."
Quem quer ser o Luís da Silva, de Graciliano Ramos? Ou o nocivo e patológico funcionário público naquele romancinho que nem acabado está do Dostoiévski? Sim, é preciso ler e reler alguns - poucos - escritores.

E chega de lero-lero.


8.9.09

rapidinha


troca-troca

- o anel de ouro pelo anel de couro?!

- é só de brincadeira, não dói.
- ...


7.9.09

d'engenho de dentro


dia 7/10

um recorte no meu bolso, escrito ontem cedo, ainda em casa: "quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. é difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. é chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo".

[NETO, Torquato. Os últimos dias de paupéria. Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca LTDA, 1973 p. 59]


4.9.09

free lance


[...]


Para que se vá deitar um pouco mais próximo de si mesmo, sem gastar suas energias inutilmente na tentativa de ser sociável e mulherengo como seus companheiros de batalhão, pois ele sabe faz tempo que é diferente de todos eles e já concluiu que um dia, cedo ou tarde, uma mulher passará por sua vida. Para que seja capaz de abrir mão. Podemos surpreender sua decisão, mas ela é inevitável.


[GALERA, Daniel. Folha de S. Paulo, domingo, 16 de agosto de 2009. Caderno Mais! p. 6 - arquivo particular]


29.8.09

epístola

[1893-1945]

S. Paulo 10 de novembro, 1924
Meu caro Carlos Drummond

Já começava a desesperar da minha resposta? Meu Deus! comecei esta carta com pretensão... Em todo caso de mim não desespere nunca. Eu respondo sempre aos amigos. Às vezes demoro um pouco, mas nunca por desleixo ou esquecimento. As solicitações da vida é que são muitas e as da minha agora muitíssimas e... Quer saber quais são? Tenho o meu trabalho cotidiano, é lógico. Lições no Conservatório, lições particulares. Mas atualmente as minhas preocupações são as seguintes: escrever dísticos estrambóticos e divertidos prum baile futurista que vai haver na alta roda daqui (a que não pertenço, aliás) Escolher vestidos extravagantes mas bonitos pra mulher dum amigo que vai ao tal baile. E escrever uma conferência sem valor mais que divirta pra uma festa que damos, o pianista Sousa Lima e eu, no Automóvel Clube, sexta-feira que vem. São as minhas grandes preocupações do momento. Serão desprezíveis pra qualquer idiota antiquado, aguado e simbolista. Pra mim são tão importantes como escrever um romances ou sofrer uma recusa de amor. Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocada de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impassível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste.

[...]

Um abraço do
Mário de Andrade


27.8.09

valor e cultura

[La Gioconda - 1503?]

A denúncia de tudo quanto mutila a espécie humana e impede sua felicidade nasce da confiança no homem (...)


[Horkheimer]

XI


Fazemos perante os outros, no tempo da madureza, implicitamente um trato, não o seu contrário, o contrato. Confie em mim que eu confio em você. Mas acima de tudo em mim.


24.8.09

glauco

[1930]


Esse desenho do Almada Negreiros...!
Na tentativa de um o olhar ensaístico, sou tomado vertiginosamente pela mão - de uma beleza sutil - que por hora se move como uma torpe aranha. Os olhos esvaziados do leitor, que analisa o livro (entre a vigilia e a leitura?), o que leem, afinal? A cena do ódio? O tufo de cabelo, meu deus! a direita ao alto; a sobrancelha arqueada como se as palavras o elevasse à indiferença. (Que feição é esta que me perturba?) O anel, o livro de brochura: quais mãos foram responsáveis pela feitoria do objeto de arte?
O corpo debaixo do tecido adormece
. Pouco a pouco.


Emudeço-me.


22.8.09

valor e cultura


... como era teimoso esse camponês!


[Guinsburg - O queijo e os vermes]

X



História ou Literatura? Esses dois gêneros discursivos se mesclam no cotidiano de um moleiro turrão, que vivia numa pequena aldeia, em Friuli. A começar pelo quixotesco nome pelo qual era mais conhecido: Menocchio.


20.8.09

o ensalamento da sala ficará colorido nesta seguinte disposição:


(era uma aula metafísica, que nunca existiu)

atenção todos.
ô ô fundão! e o miolinho ali!
ô pessoal!

cabeludinho, sentaê!
qualé galera!!

agora que a turma aparentemente se acalmou,
faremos o novo ensalamento.

ó, e a pedagoga já já passaí.
veremos como botar isto em ordem.
cooperem e sigam os meus comandos.

ei, psiu, sem pirulito na boca.

hum... vejamos por onde começar:

você. de gorro com cara de pão. pra cá.

o de touca azul. brigou com o pente? aqui pra esquerda. atrás do amarelão.
mickey mouse. vem.


você, garoto.
é.
você de máscara.
aqui.
no meio.

as três meninas da parede,
espalhem-se como pólens entre as abelhas.
porque percebo tudo na cara da malandragem.


(isto seria uma metáfora?
ariel, anota pra mim: pesquisar)


a ruiva de batom vermelho pode sentar a minha frente.

ô garoto, e aê, que é que tá pegando na mão do outro?


(a turma vaia)

"donde saiu aquela bolinha de papel?
quem foi o pilantrinha?"

putas grilo!



19.8.09

da contemporaneidade

[1848-1903]


A paixão de Cristo



Primeiro, deu-lhe um murro de mão fechada que lhe quebrou os dentes. Antes que se levantasse, lhe chutou as ilhargas com brutalidade e força e, depois, o levantou pela gola da camisa. Esmurrou-o novamente tentando atingir o baço e, quando a vítima se dobrou, o carrasco acertou outro soco na ponta do queixo. Introduziu-lhe um cassetete ânus adentro. Envolveu o pênis em fio e lhe deu choques. Para completar, aplicou com força um golpe com mãos abertas nos dois ouvidos. O tímpano ainda zunia quando ele ouviu o tiro de misericórdia ser disparado. Sentiu a bala penetrar-lhe a nuca. Ei, você aí, leitor incauto, não pare de ler: isto é só literatura. Como cantou o Belchior, a vida é muito pior. E, como dizia minha avó, mais sofreu Jesus, que morreu na cruz.


[José Nêumanne Pinto. in: FERNANDES, Rinaldo de (org.). Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea. São Paulo: Geração Editorial, 2006. p. 209]