19.8.09

da contemporaneidade

[1848-1903]


A paixão de Cristo



Primeiro, deu-lhe um murro de mão fechada que lhe quebrou os dentes. Antes que se levantasse, lhe chutou as ilhargas com brutalidade e força e, depois, o levantou pela gola da camisa. Esmurrou-o novamente tentando atingir o baço e, quando a vítima se dobrou, o carrasco acertou outro soco na ponta do queixo. Introduziu-lhe um cassetete ânus adentro. Envolveu o pênis em fio e lhe deu choques. Para completar, aplicou com força um golpe com mãos abertas nos dois ouvidos. O tímpano ainda zunia quando ele ouviu o tiro de misericórdia ser disparado. Sentiu a bala penetrar-lhe a nuca. Ei, você aí, leitor incauto, não pare de ler: isto é só literatura. Como cantou o Belchior, a vida é muito pior. E, como dizia minha avó, mais sofreu Jesus, que morreu na cruz.


[José Nêumanne Pinto. in: FERNANDES, Rinaldo de (org.). Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea. São Paulo: Geração Editorial, 2006. p. 209]


17.8.09

de la musique


Sextext composto por:
Miguel Malla: saxo tenor, Marco Cresci: clarinete, David Herrington: trompeta, Pascual Piqueras: piano, Pablo Navarro: contrabajo, Daniel Parra: batería.


16.8.09

valor e cultura


Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundo efeitos.


[Memórias póstumas de Brás Cubas]


IX



"Se há sempre um engodo?", penso nessa pergunta que certa vez um senhor tristonho me parecia confidenciar. Naquela noite, ela (a pergunta) tinha ares retóricos mas me fez seu cúmplice. Hoje, a interrogação está enraizada, cravada como uma flecha, e põe-me a pensar um pouco detidamente. Acendo o cigarro (como sempre. e não vou variar) e anoto, para além da busca da grande sabedoria, não perder a ideia espontânea:


**

Ofereceram-me, como remedio, o emplasto Brás Cubas para aliviação de todos os males; do qual sofri literalmente um engano.



14.8.09

você sabe bater um pênalti?


começar por aqui, como foco inicial,

mas sem dar no rodapé.

[citação tem limite boca de chulé]

defender idéias; minimizar outras.
erguer argumentos para o levantamento de muros.
circular; duvidar; enfatizar;

persuadir ao absoluto: o discurso.

[força neste chute]


conforme as normas do padrão
perder a coerência é anti-jogo e o orientador disse que não queremos nenhum Erasmo de Rotterdam em nossa grupo de estudos.

seja coesivo em suas palavras
mantendo a linha reta dos pensamentos longe das possíveis nuvens.

[atenção à bola, isto tem cara de metafísica, seu nefelibata?]

mas lembre-se, pois quem avisa amigo é:
há um porém antes dos objetivos
que é preciso problematizar.

resumindo,
concentre-se naquele ângulo e pimba na gorduchinha.




12.8.09

shhhhh

[Blinde Kinder beim Unterricht,
de August Sander, 1930]


Slides

Boa tarde aos senhores. Podem sentar. Pra quebrar o gelo e por uma certa insegurança inaugural, preparei um pequeno texto com o qual me apoiarei (não espero que inutilmente) para pensarmos o nosso objeto de estudo. Tenho quatro cópias. Uma para cada. Alvim, pode apagar a luz pra mim. Trouxe uma outra cópia a parte para ampliarmos no retroprojetor. Observemos primeiramente um bocado. Mano a mano, debruçado sobre a linguagem não-verbal, ou seja, a imagem. Antes interrompendo-os, gostaria de lhes dizer que podem ficar a vontade para fumar; beber: tem gim e conhaque na cozinha. Ah! e um vinho italiano para ser aberto. Agora, me deixem começar pela menina. A que está ao centro: enquanto as duas outras meninas cada qual na sua extremidade não tocam o chão com os pés (os quais se contarmos não passam de quatro), me remeteu, de imediato, a John Lennon. Quanto aos senhores, eu não sei. Tudo, bem? Estou indo rápido demais? O banheiro, qualquer mal-estar, é a direita aos fundos. Mas, como eu ia dizendo. Ao todo, percebam o detalhe do studium: são três cabulosas meninas cegas, das quais um desejo interno é elaborado do interior do spectador (que seríamos nós) para a fotografia; e essa subjetividade curiosa pode ser a chave com a qual penetraríamos na intimidade das três figuras. Entre outros segredos: que grau de parentesco haveria entre elas? Teriam sido molestadas pelo padastro? O que estariam lendo (que tipo de história os dedos ouviriam? Como seria o imaginário cego: uma caixa escura dentro da qual os irmãos Lumière manipulariam sombras?) São perguntas um tanto ilógicas, mas espero receber delas algumas respostas plausíveis dos componentes da mesa.

- Alguém... cigarros?

Por último, eu que tinha vindo aqui mais para ouvir do que falar, guardei mais umas palavrinhas de improvização. Nos fundos (da casa? da escola? da instituição para portadores de necessidades especiais?) deduzo um jogo da amarelinha pintado sobre o pequeno pavimento.

Sem mais para dizer: o tijolinho está à vista.



10.8.09

a cidade e o bilhete


Eu sei que espalharam um boato de boca em boca pelos quatro cantos dos ares.
Foi entre a gente. Maldito caso amoroso eu fui sustentar contigo. O que deu no exame? Negativo?

Beijos da tua sempre,
Dadá.



8.8.09

João

[1920-1999]


A PREGUIÇA

Que relação o bicho preguiça
poderá ter com a metafísica?

No Recife, um doutor chamou-o
de psicopata catatônico,

O que fez de imediato a igreja
condenar o doutor (a sua ovelha):

Deus não criaria um ser doente;
a doença é do pecadamente;

ela é do homem, que foi criado
para que existisse o pecado,

com seu horror e seu error,
como no diagnóstico do doutor.


[NETO, João Cabral de Melo. Museu de tudo e depois: (1967-1987) Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 89]



1.8.09

todo poeta é marginal, desde que foi expulso da república de platão

[Bachus et Ariane, de Gerar de Lairesse - 1711]


O JOGO GRATUITO DA POESIA

"HÁ CAMPOS PARA TODOS. CAMINHOS NÃO MARCADOS A NINGUÉM..."
[Hölderlin]

O fazer poético passa pelo corpo e pela cama. "A poesia se faz na cama como o amor...", isto para começar a conversa. A palavra registrada em livro é a mera extensão (sublimada) do que sobrou da Orgia. Todos nós somos labaredas provocadas pelo curto-circuito do Desejo. O resto é balacobaco, isto é, literatura. Dante é pra ser relido na sauna, rodeado de adolescentes. Não um escritório-abrigo-antiatômico. O vampirismo descobriu o desbunde, o marxisismo e a linguagem caricata. Henri Michaux já deu o recado: Conhecimento através dos abismos. Inferno, Purgatório e Paraíso são uma coisa só. Mastigue cogumelos e Veja. Nenhuma regra: Ver com os olhos livres. Assim o curumim aprendeu o gosto de todos os espíritos. O assassinato também pode ser a ordem do dia. A blasfêmia e o roubo. Veja o episódio Vanni Fucci no Inferno de Dante. Gíria da pesada de malandro medieval. Mimetismo. Para uma estética da crueldade. Como diz Edoardo Sanguinetti, "O Surrealismo é o fantasma que, com toda a justiça, persegue as vanguardas e lhes nega um sono tranquilo". Com a costela do Kapitalismo foi criada a Panacéia Socialista. O Forró Nuclear é a medida da Riqueza das Nações. As soluções em Poesia são individuais e não coletivas. Eu estou com Gilberto Vasconcelos: depois que joguei a obra completa de Marx pela janela, comecei a compreender o Brasil. Fora isto o seguinte: Poesia é uma forma de conhecimento que vê através de objetos opacos, como uma viagem de LSD e estados mediúnicos de levitação. Xamanismo, linguagem da Sibila de Cumas e cantos de caça de povos "primitivos", poesia é uma atividade lúdica em que está empenhada sua vida, sua morte, a felicidade e principalmente o jogo. O jogo gratuito de todas as coisas. Por acaso, eis a origem de todas as coisas, diz Nietzsche. Não devemos excluir autoritariamente, como censor barato, nem os que pensam que são marginais e são escrituarios. Os Hitlers e Castros da vida já fizeram isso com muito mais eficiência. A Poesia é a mais fascinante orgia ao alcance do homem. E como diz Hegel, "A Orgia báquica da história será vivida por cada um de seus membros".

[PIVA, Roberto. Estranhos sinais de Saturno, volume 3. Organização Alcir Pécora. - São Paulo: Globo, 2008. "Obras reunidas" p. 187/188]


31.7.09

7º distrito - vila hauer

[Peter Paul Rubens - 1618]



...

- Anot’issoaê, Zé. E aí, conta' mo foi o resto?

Me deu uma coisa não sabia do meu paradeiro mas logo que percebi tava dentro do terreno arrastando a garota no meio do mato úmido. Garoava. Eu vestia um blusão com toca por baixo da jaqueta de couro. Só lembro que ela tinha a cabeça ensangüentada de sangue com um caco de vidro atravessado. Deitei o corpo debaixo de uma árvore. Tudo isso no terrenão baldio. Fui tirando a roupa: primeiro a calça de brim. Depois a calcinha com toda a força que ficou em tiras. Não queria nem saber agora que tinha começado o lance. Deixei a meia branca. Fetiche essas coisas. Meia hora sem tirar. Quando gozei parecia uma mijada. Eu era um cavalo. Saí correndo com a calça ainda arriada. Olhei pra cima e tinha uma janela com cortina vulto no prédio da frente. A coisarada tudo e mais o resto do céu girou pensei que ia cair e pá! já tava em outra parada quando pulei o muro e dei direto pra rua. Não tinha ninguém. Era noitinha. Fim de tarde. Minha cabeça fervia, doutor. Me pegaram um dia na rua. Tomando conhaque com um amigo da quebrada. Vou fazer o quê? Agora aqui!! ferrado. Seria infelicidade demais prum dia de sol mas. Quando me pegaram os políciais me encheram de porrada na cara soco na nuca algumas coronhadas nem mal me jogaram como um saco plástico cheio de estopa no fundo do camburão pra dar ferro no cavalinho de pau. Quem te segurava? A cabeça cada galão que vixe!; e mire e veja o senhor mesmo doutor os ematomas espalhados por todo o corpo. Cada roxão que minha mãezinha lá no céu. Quase morri. Que foi qu’eu fiz, hein, doutor?



29.7.09

"Pular de um quinto andar?"

[Mergulho, de João Werner, 2004]



não seja ridículo.
olhe lá embaixo.
quantos metros cê acha que tem daqui lá?
é bem capaz mesmo. é muito pouco, não vê?

desta altura, cara, o máximo que vai te acontecer é quebrar uma perna. ou as duas. pode ser que o femur se esmigalhe uma costela fure o pulmão o joelho salte da parada e fratura exposta aquela sanguerada toda e você lá agonizando eu aqu’incima desesperado pronto morreu...

quem sou eu pra te dizer, cara,
o que pode e o que não pode se só tentando?

mas de ponta cabeça.
assim de coco no chão:

toc

pode que pode ser:

e bau bau.

g

26.7.09

valor e cultura

[Tiempos perdidos, de Miháy Bodó, 2007]



VIII



Igual aquele misterioso personagem borgiano, que carrega uma cicatriz odienta no rosto, habita, em cada leitor apaixonado em excesso por ficção, um ser covarde que se refugia na biblioteca.


14.7.09

das livrarias

[Brattle Book Shop - desde 1825]

[...]


Não, escrevendo mudei para melhor: consumi apenas um pouco de juventude ansiosa e inconsciente. De que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o vazio, não valerá mais do que você vale. Não há garantias de que a alma se salve ao escrever. Escreve, escreve, e sua alma já se perdeu.


[CALVINO, Ítalo. O cavaleiro inexistente. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 70]


estórias do senhor G.


Segundo consta, o senhor G. montou uma livraria, cujo nome fictício (conforme está lavrado e assinado no documento da pessoa jurídica) Brás Cubas, atrai tanoeiros ilustrados e demagogos para compor o conteúdo e a trama das inúmeras edições encadernadas em bordas de ouro e prata. U lá lá! Quanta luxúria! As linhas tipografadas pela pena da galhofa assinam o cheque que dá o tom orquestrado à opereta. Quem dá mais, fora o último lance: Vendido! As roletas giravam giravam e quem delirava? O senhor G. disse que agradece o comparecimento dos seus clientes fidelícimos. Eles vão. Veem. Não compram. Trocam algumas bugigancas. Souvenirs. Moedeiros. Costumam fumar horas a fio entre o balcão e um ah! que belo, que estandarte soneto camoniano; piscando; bocejando entre outras coisitas passageiras. E porra nenhuma de consumir como verdadeiros consumidores. O senhor G. não aguenta mais; puta sacanagem essa cambada de.

O senhor G. - percebe-se claramente, não é, leitorzinho de mierda - não muito quer se estender no assunto. Então, senhor G., fiau!

O senhor G. Este.



12.7.09

não vem com papo de amor, não

[pam! crás! pum!]


ai se eu encontrar ela na rua, por deus eu juro que a esgano, encurralo ela contra o muro, cuspo na sua cara, furo o seu rim com este canivetinho ó!ó! espeto com os dois dedos assim, cara...

- cuidado meu, quase me cega caralho!


11.7.09

fellini



[1965 - interview BBC]


9.7.09

valor e cultura

[é interessante observar, alunos, como a imagem da estátua simboliza a justiça. O que vocês enxergam?]


VII


Há um personagem pelo qual nutro uma grande simpatia. O nome dele é Lord Henry, um dos personagens secundários do romance mais popular de Oscar Wilde, mas que possui uma boa dinâmica no enrendo influenciando Dorian Gray com suas terribles doses homeopáticas do advento de um novo hedonismo. E a literatura, parafraseando um diálogo de Henry, tem daquilo que ele discorre sobre o cigarro: uma doce insatisfação. Às vezes pensamos com certa indiferença: só isso? A arte literária nos prende por alguns instantes os quais podem durar horas, ou nem tanto mais por alguns minutos; mexe com os nossos neurônios, de vez em quando com o nosso corpo, revela-nos o belo impregnado de crueldade; muito entretanto, ao chegar o final, nos surpreendemos: mas era só isto? E acaba. Para o bem ou para o mal, encerramos aquelas outroras páginas e, enfim, fechamos o livro - esse companheiro psicológico - indignados, mas notamos que fica algo de estranho pairando no ar; o mundo ao redor volta. As coisas em seus devidos lugares por justiça ou injustiça.



8.7.09

estórias do senhor G.

[Tarsila do Amaral]


O senhor G. tem cada uma. Ficou por lá. No bairro portátil de Gonçalo. Que não volta mais. Chutou o balde. Vejam só como o caboclo é enrolado. Pra pagar a conta de gás do casebre alugado, aqui, segundo ele, na esquina a dez passos, a moça do senhor G. teve que se emperequetar toda. Está dito, ipsis litteris, no postal recebido pelo autor hoje a tardinha.


O senhor G. Este.


6.7.09

dos grandes prosadores

[1926 - ]

[...]

Se a linguagem é um meio de comunicação, é preciso haver um acordo não só sobre as definições mas sobre os julgamentos. Não sei se essa última frase é genuinamente minha ou um pensamento de Wittgenstein. O hábito das leituras vadias, como são as minhas, em que não tomo nota, apenas procuro apreender o assunto como um esponja, leva-me a esse perigo. O que não é um mal em si, pode até se transformar numa virtude. Não diziam que o estilo mais eficiente e valioso é aquele capaz de transmudar os defeitos em qualidade?

[DOURADO, Autran. O meu mestre imaginário. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. p. 37]


3.7.09

dobrand' aesquina

[Laerte]


- joão, trocou de óculos?

parar você para?


2.7.09

conversa de pindureta


ouçam, camaradas

uma rima que vou lhes contar

o mito na esquina,
um grito.

a sombra de um lado,
fadado.

o silêncio no beco
de bico calado.


29.6.09

O ex-mágico da Taberna Minhota

[Biofa]

[...]

A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob meu olhar distante.

[Murilo Rubião]



28.6.09

valor e cultura

[Cinemas fantasma in Candyland]


VI



Você já notou como os espaços mudam abruptamente? Às vezes eu passo em tal esquina e, epa!, não havia um barzinho aqui? E ali, não ficava uma panificadora? Cadê aquela casa de disco? O sebo cujo dono aceitava as minhas pechinchas, para onde se mudou? Quem se lembra do Ritz, pagava meia-entrada e tinhamos uma sessão para o sábado todo. Era uma educação cinematográfica. Normalmente os lugares fecham pela simples falta de crédito das pessoas com o ambiente. Não encontramos com mais ninguém, não nos familiarizamos, não criamos uma tradição, ou mesmo uma intimidade. Nada. O que vai nascendo e se transformando como ideologia dominante é a imagem do pequeno burguês hedônico. E sob esse aspecto social do ponto de vista desse infeliz, a cidade ganha uma cor acinzentada, uma atmosfera escura e vazia. Fria como as relações humanas contemporâneas. Com isso, além daquilo que é sólido, os sentimentos, também, se desmancham no ar.

- E tudo o resto.

- Pô!




27.6.09

crônica em jornal

[A man reading in a garden, de Honoré Daumier - 1868]

[...]

Ontem, esbarrei com um cão sem dono e cego, que mancava de uma das patas, os olhos vazados não me viram, mas ele deve ter sentido o meu cheiro, a minha catinga humana. Vagava sem rumo aqui na Lagoa. Não o trouxe para casa. Quem é mais miserável?

[Carlos Heitor Cony - Sem olhos e sem dono. Gazeta do povo: 16 de outubro de 2003.Arquivo particular]


26.6.09

valor e cultura


V


Ser categórico ao afirmar que literatura se faz com ajuda de números fatores externos e, principalmente, do sentimento íntimo de repugnância, cuja sensibilidade é a face da mesma cartada amorosa.


22.6.09

a cidade e as mulheres

Erguer o vestido, ó que delícia, no tempo do vestido.

[Dalton Trevisan - Chorinho brejeiro]


NA CIDADE SEM NOME, porque tinha sido um sonho, todas as mulheres usavam vestidos de seda com estampas floridas. Os pés delicados e nus calçavam sandálias de couro. Os tornozelos ostentavam correntinha de ouro ou de prata. Algumas mulheres saiam à rua com flores adornando o penteado. Eram tantas as cores que ficava impossível distingui-las das próprias flores que enfeitavam os jardins da praça imperial. Os odores das glicínias e azaléias exalavam a ponto de se misturar com a fumaça do cigarro.
A cidade se abria como uma rosa.


21.6.09

dos grandes prosadores


O seio nu


**

O senhor Palomar caminha ao longo da praia solitária. Encontra raros banhistas. Uma jovem está estendida na areia tomando banho de sol com os seios à mostra. Palomar, homem discreto, volve o olhar para o horizonte marinho. Sabe que, em tais circunstâncias, a aproximação de um desconhecido leva não raro as mulheres a se cobrirem depressa, e isso não lhe parece bom: porque é desagradável para a banhista que tomava seu sol tranquila; porque o homem que passa se sente um elemento perturbador; porque o tabu da nudez fica implicitamente confirmado; e porque as convenções respeitadas pela metade propagam insegurança e incoerência no comportamento em vez de liberdade e franqueza.


[CALVINO, Ítalo. Palomar. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 12]


20.6.09

valor e cultura

[Os sonhadores]

IV

Em que lugar está nossa libertação revolucionária acima de todos os valores morais? Apenas no plano discursivo? Quando muito! E o mundo às avessas, seria o modelo de uma sociedade endiabrada? Mas e no baile de máscaras que dançamos para o ganha pão nosso de cada dia, como explicar? Em que categoria o encaixar? Lembro-me de ter lido algo a respeito de uma revolução sexual engendrada na década de 1960. (Engendrada?, tou ficando preocupado.) No entanto, para onde foi parar a ideologia dos estudantes e ativistas daquela época? Nas imagens do diretor Bertolucci?


- Bah! Qual?



19.6.09

rapidinha


- Carlo! Carlo!
- O que é?
- Quem roeu o meu queijo?


18.6.09

valor e cultura


III


Naturalmente frequentamos os lugares públicos ou temos que nos curvar às apresentações formais para sermos aceitos pelas companhias? "Deixa a coisa acontecer", é o recado de um amigo. Mas não vacile, porque no meio do bando sempre aparece um idiota querendo fazê-lo de tolo. Cuide-se.


17.6.09

sob cigarros e cafés

[1937 - ]

leitores sedutores
Se vocês tiverem o hábito de ler, vão ingressar em um mundo tãos fascinante que, de imediato, os fará se tornarem criaturas sedutoras. Porque a leitura também nos dá uma condição erótica. Com as palavras na mão, você se torna uma pessoa sedutora. Uma pessoa afásica tem que ter um rosto belíssimo para poder seduzir. Já um feinho, ou uma feinha, se tiver o dom da palavra, se for capaz de imantar platéias, pessoas ou amores com as palavras... Não é forçoso dizer que a leitura nos obriga a abrir os olhos. Com ela, você vê o que não tinha visto até então, você se torna muito mais crítico. No entanto, através da leitura, você vai criando o seu conceito, o seu código de consciência. Eu, por exemplo, pude entender o que era a minha consciência - mesmo que de forma precária - quando li Crime e castigo, de Dostoiévski. Foi um choque profundo na minha vida. Então, quem somos nós sem a leitura, sem folhear a intimidade de um livro? E essa é uma intimidade imensa, como a intimidade da cama, talvez. Ou talvez não, pois a cama se divide, e o livro não. É só você e ele: o livro, os ditames do livro, a imaginação do livro. Você voa enquanto o texto voa com você.
daniel e o anagrama
"Meu avô me ensinou até a preparar o charuto dele. Eu o cortava e servia para ele com um conhaque, para que ele o mergulhasse nele. Às vezes, depois de meio caminho já andando, fumando meio charuto, ele o mergulhava num conhaque". Aí, me ocorreu pela primeira vez o seguinte: há aquele livro, Gigi, da escritora francesa Colette. Era a história das grandes cortesãs de Paris, que vão educando as suas filhas e sobrinhas para que venham a ser grandes cortesãs também. Então eu lhes disse: "De certo modo, meu avô, sem saber, me ensinou a ser uma grande cortesã"
amizade não é terremoto
Eu gostaria de entoar um hino à amizade. Acho que a amizade é um patrimônio excepcional. Acho a amizade mais importante que o amor. Porque os amores se sucedem. Infelizmente, o amor não é eterno - mas a amizade pode ser. A amizade tem certos desprendimentos que o amor não tem. Na amizade, não há interesse na carne. E a carne é muito revolucionária e perturbadora. O desejo que permeia a relação amorosa é uma coisa de você não saber como se situar no mundo. É um terremoto. E a amizade não é um terremoto. Ela pode ser serena e intensa, mas, de algum modo, lhe oferece estabilidade. É uma aposta que você faz no outro, sem maiores interesses. Não está em pauta o dinheiro, não está em pauta a satisfação sexual, a procriação, nada. Sempre acreditei na amizade. E quis a vida que, desde muito cedo, fui conhecendo pessoas fascinantes.

[Nélida Piñon, convidada da edição de maio do Paiol Literário. in: Rascunho - o jornal de literatura do Brasil. Curitiba, junho de 2009. Ano 10. p. 4-5]


16.6.09

sabe de uma coisa

[Sísifo, de Tiziano - 1549]

é.

é sempre assim:

eu nunca sei se o mito de sísifo
está representado no eterno girar de chaves de volta

à casa.

arre! tamanha consciência trágica essa.


13.6.09

valor e cultura

[s/ créditos]

II


O círculo do capitalismo fala de forma figurativa para os cidadãos "beberem saúde", o que é bem diferente de "tomar água" para matar a sede. Sede esta a do desejo.



11.6.09