15.9.09

Se eu fosse Nabokov


[Com o apetitoso detalhe da figura de linguagem na qual espetamos o substantivo obra no rabo do próprio autor]

O personagem? O narrador? minha mãezinha lá no céu, será ele: o autor? tomado por pensamentos pevertidos refletia:

“... minhas aluninhas de catorze e quinze anos...”

- No que você está pensando, Lobo mau? - interrompe chapeuzinho vermelho que acabara de pular o muro do subúrbio.



13.9.09

todo homem

[Menina com bandolim, de Pablo Picasso, 1912?]

[...]

o tema de Picasso continua sendo a mulher. Suas garrafas, cachimbos ou bandolins não passam de exercícios condescendentes, que marcam o passo à espera das mulheres. E as mulheres de Picasso, quando por fim aparecem, entregam-se a uma dança frenética para escapar da tela, reviram-se como loucas em todas as direções, até que os dois olhos vão parar de um lado do nariz, o nariz na orelha, o umbigo nas costas, o pé no ombro. No paroxismo impossível dessas danças, ao completar-se a torção, o corpo sai do suporte (e é bom lembrar que o pensamento também pode ser um suporte).

[AIRA, César.
A trombeta de vime. São Paulo: Editora Iluminuras, 2002. p. 15]


12.9.09

telegrafando


a mochila com livros


Por estas bandas de cá do pantanal, eu não recebo indicações de leitura porque minha raiva contra todos vocês é maior ainda e a minha convivência com os livros é mais intensa do que com as pessoas. Então procuro criar um vínculo, um elo transcendente apenas com as obras de cunho literário, com as ideias do autor (pronunciadas através de um narrador/eu-lírico) para saber que, através das frases bifurcadas pela ausência, não estou sozinho e que não sou o único a alimentar sentimento parecido.
Já não me servem livros indicados, porque simplesmente vou às livrarias e aos sebos garimpar autores que me eram até então desconhecidos.
Procura-se. Encontra-se. E lê, é claro. Paga-se, do bolso com dinheiro que é dinheiro, no fim das contas.

devaneios de um caminhante solitário

Sobre o vínculo estabelecido entre o livro e o leitor não pode haver identificação, mas sim estranhamento, ou melhor, um estranhamento que deve se apossar de mim para que eu me identifique com a obra. Obscuramente. Aí, sim.

da leitura

César Aira em seu texto intitulado Diário de um demônio nos diz que "agora em diante só posso escrever em nome do Mal. É uma expressão, uma confirmação, uma revelação; é uma atitude nova e automática, sem reverso, sem fundo. Somente no Mal o ato de escrever ganha sentido", e as flores cheiram a moribundo.
André Gide, outro escritorzinho maldito, numa frase pra lá de batida, já dizia, também, que não é com bons sentimentos que se faz uma obra. E o escritor argentino, acima citado, arremata: "O Mal permite que a vida continue, deprecia as supostas hierarquias de importância, dá a medida exata da banalidade necessária para que o homem percorra seu caminho no mundo."
Quem quer ser o Luís da Silva, de Graciliano Ramos? Ou o nocivo e patológico funcionário público naquele romancinho que nem acabado está do Dostoiévski? Sim, é preciso ler e reler alguns - poucos - escritores.

E chega de lero-lero.


8.9.09

rapidinha


troca-troca

- o anel de ouro pelo anel de couro?!

- é só de brincadeira, não dói.
- ...


7.9.09

d'engenho de dentro


dia 7/10

um recorte no meu bolso, escrito ontem cedo, ainda em casa: "quando uma pessoa se decide a morrer, decide, necessariamente, assumir a responsabilidade de ser cruel: menos consigo mesmo, é claro. é difícil, pra não ficar teorizando feito um idiota, explicar tudo. é chato, e isso é que é mais duro: ser nojento com as pessoas a quem se quer mais bem no mundo".

[NETO, Torquato. Os últimos dias de paupéria. Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca LTDA, 1973 p. 59]


4.9.09

free lance


[...]


Para que se vá deitar um pouco mais próximo de si mesmo, sem gastar suas energias inutilmente na tentativa de ser sociável e mulherengo como seus companheiros de batalhão, pois ele sabe faz tempo que é diferente de todos eles e já concluiu que um dia, cedo ou tarde, uma mulher passará por sua vida. Para que seja capaz de abrir mão. Podemos surpreender sua decisão, mas ela é inevitável.


[GALERA, Daniel. Folha de S. Paulo, domingo, 16 de agosto de 2009. Caderno Mais! p. 6 - arquivo particular]


29.8.09

epístola

[1893-1945]

S. Paulo 10 de novembro, 1924
Meu caro Carlos Drummond

Já começava a desesperar da minha resposta? Meu Deus! comecei esta carta com pretensão... Em todo caso de mim não desespere nunca. Eu respondo sempre aos amigos. Às vezes demoro um pouco, mas nunca por desleixo ou esquecimento. As solicitações da vida é que são muitas e as da minha agora muitíssimas e... Quer saber quais são? Tenho o meu trabalho cotidiano, é lógico. Lições no Conservatório, lições particulares. Mas atualmente as minhas preocupações são as seguintes: escrever dísticos estrambóticos e divertidos prum baile futurista que vai haver na alta roda daqui (a que não pertenço, aliás) Escolher vestidos extravagantes mas bonitos pra mulher dum amigo que vai ao tal baile. E escrever uma conferência sem valor mais que divirta pra uma festa que damos, o pianista Sousa Lima e eu, no Automóvel Clube, sexta-feira que vem. São as minhas grandes preocupações do momento. Serão desprezíveis pra qualquer idiota antiquado, aguado e simbolista. Pra mim são tão importantes como escrever um romances ou sofrer uma recusa de amor. Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocada de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impassível eternidade da impressão. Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste.

[...]

Um abraço do
Mário de Andrade


27.8.09

valor e cultura

[La Gioconda - 1503?]

A denúncia de tudo quanto mutila a espécie humana e impede sua felicidade nasce da confiança no homem (...)


[Horkheimer]

XI


Fazemos perante os outros, no tempo da madureza, implicitamente um trato, não o seu contrário, o contrato. Confie em mim que eu confio em você. Mas acima de tudo em mim.


24.8.09

glauco

[1930]


Esse desenho do Almada Negreiros...!
Na tentativa de um o olhar ensaístico, sou tomado vertiginosamente pela mão - de uma beleza sutil - que por hora se move como uma torpe aranha. Os olhos esvaziados do leitor, que analisa o livro (entre a vigilia e a leitura?), o que leem, afinal? A cena do ódio? O tufo de cabelo, meu deus! a direita ao alto; a sobrancelha arqueada como se as palavras o elevasse à indiferença. (Que feição é esta que me perturba?) O anel, o livro de brochura: quais mãos foram responsáveis pela feitoria do objeto de arte?
O corpo debaixo do tecido adormece
. Pouco a pouco.


Emudeço-me.


22.8.09

valor e cultura


... como era teimoso esse camponês!


[Guinsburg - O queijo e os vermes]

X



História ou Literatura? Esses dois gêneros discursivos se mesclam no cotidiano de um moleiro turrão, que vivia numa pequena aldeia, em Friuli. A começar pelo quixotesco nome pelo qual era mais conhecido: Menocchio.


20.8.09

o ensalamento da sala ficará colorido nesta seguinte disposição:


(era uma aula metafísica, que nunca existiu)

atenção todos.
ô ô fundão! e o miolinho ali!
ô pessoal!

cabeludinho, sentaê!
qualé galera!!

agora que a turma aparentemente se acalmou,
faremos o novo ensalamento.

ó, e a pedagoga já já passaí.
veremos como botar isto em ordem.
cooperem e sigam os meus comandos.

ei, psiu, sem pirulito na boca.

hum... vejamos por onde começar:

você. de gorro com cara de pão. pra cá.

o de touca azul. brigou com o pente? aqui pra esquerda. atrás do amarelão.
mickey mouse. vem.


você, garoto.
é.
você de máscara.
aqui.
no meio.

as três meninas da parede,
espalhem-se como pólens entre as abelhas.
porque percebo tudo na cara da malandragem.


(isto seria uma metáfora?
ariel, anota pra mim: pesquisar)


a ruiva de batom vermelho pode sentar a minha frente.

ô garoto, e aê, que é que tá pegando na mão do outro?


(a turma vaia)

"donde saiu aquela bolinha de papel?
quem foi o pilantrinha?"

putas grilo!



19.8.09

da contemporaneidade

[1848-1903]


A paixão de Cristo



Primeiro, deu-lhe um murro de mão fechada que lhe quebrou os dentes. Antes que se levantasse, lhe chutou as ilhargas com brutalidade e força e, depois, o levantou pela gola da camisa. Esmurrou-o novamente tentando atingir o baço e, quando a vítima se dobrou, o carrasco acertou outro soco na ponta do queixo. Introduziu-lhe um cassetete ânus adentro. Envolveu o pênis em fio e lhe deu choques. Para completar, aplicou com força um golpe com mãos abertas nos dois ouvidos. O tímpano ainda zunia quando ele ouviu o tiro de misericórdia ser disparado. Sentiu a bala penetrar-lhe a nuca. Ei, você aí, leitor incauto, não pare de ler: isto é só literatura. Como cantou o Belchior, a vida é muito pior. E, como dizia minha avó, mais sofreu Jesus, que morreu na cruz.


[José Nêumanne Pinto. in: FERNANDES, Rinaldo de (org.). Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea. São Paulo: Geração Editorial, 2006. p. 209]


17.8.09

de la musique


Sextext composto por:
Miguel Malla: saxo tenor, Marco Cresci: clarinete, David Herrington: trompeta, Pascual Piqueras: piano, Pablo Navarro: contrabajo, Daniel Parra: batería.


16.8.09

valor e cultura


Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundo efeitos.


[Memórias póstumas de Brás Cubas]


IX



"Se há sempre um engodo?", penso nessa pergunta que certa vez um senhor tristonho me parecia confidenciar. Naquela noite, ela (a pergunta) tinha ares retóricos mas me fez seu cúmplice. Hoje, a interrogação está enraizada, cravada como uma flecha, e põe-me a pensar um pouco detidamente. Acendo o cigarro (como sempre. e não vou variar) e anoto, para além da busca da grande sabedoria, não perder a ideia espontânea:


**

Ofereceram-me, como remedio, o emplasto Brás Cubas para aliviação de todos os males; do qual sofri literalmente um engano.



14.8.09

você sabe bater um pênalti?


começar por aqui, como foco inicial,

mas sem dar no rodapé.

[citação tem limite boca de chulé]

defender idéias; minimizar outras.
erguer argumentos para o levantamento de muros.
circular; duvidar; enfatizar;

persuadir ao absoluto: o discurso.

[força neste chute]


conforme as normas do padrão
perder a coerência é anti-jogo e o orientador disse que não queremos nenhum Erasmo de Rotterdam em nossa grupo de estudos.

seja coesivo em suas palavras
mantendo a linha reta dos pensamentos longe das possíveis nuvens.

[atenção à bola, isto tem cara de metafísica, seu nefelibata?]

mas lembre-se, pois quem avisa amigo é:
há um porém antes dos objetivos
que é preciso problematizar.

resumindo,
concentre-se naquele ângulo e pimba na gorduchinha.




12.8.09

shhhhh

[Blinde Kinder beim Unterricht,
de August Sander, 1930]


Slides

Boa tarde aos senhores. Podem sentar. Pra quebrar o gelo e por uma certa insegurança inaugural, preparei um pequeno texto com o qual me apoiarei (não espero que inutilmente) para pensarmos o nosso objeto de estudo. Tenho quatro cópias. Uma para cada. Alvim, pode apagar a luz pra mim. Trouxe uma outra cópia a parte para ampliarmos no retroprojetor. Observemos primeiramente um bocado. Mano a mano, debruçado sobre a linguagem não-verbal, ou seja, a imagem. Antes interrompendo-os, gostaria de lhes dizer que podem ficar a vontade para fumar; beber: tem gim e conhaque na cozinha. Ah! e um vinho italiano para ser aberto. Agora, me deixem começar pela menina. A que está ao centro: enquanto as duas outras meninas cada qual na sua extremidade não tocam o chão com os pés (os quais se contarmos não passam de quatro), me remeteu, de imediato, a John Lennon. Quanto aos senhores, eu não sei. Tudo, bem? Estou indo rápido demais? O banheiro, qualquer mal-estar, é a direita aos fundos. Mas, como eu ia dizendo. Ao todo, percebam o detalhe do studium: são três cabulosas meninas cegas, das quais um desejo interno é elaborado do interior do spectador (que seríamos nós) para a fotografia; e essa subjetividade curiosa pode ser a chave com a qual penetraríamos na intimidade das três figuras. Entre outros segredos: que grau de parentesco haveria entre elas? Teriam sido molestadas pelo padastro? O que estariam lendo (que tipo de história os dedos ouviriam? Como seria o imaginário cego: uma caixa escura dentro da qual os irmãos Lumière manipulariam sombras?) São perguntas um tanto ilógicas, mas espero receber delas algumas respostas plausíveis dos componentes da mesa.

- Alguém... cigarros?

Por último, eu que tinha vindo aqui mais para ouvir do que falar, guardei mais umas palavrinhas de improvização. Nos fundos (da casa? da escola? da instituição para portadores de necessidades especiais?) deduzo um jogo da amarelinha pintado sobre o pequeno pavimento.

Sem mais para dizer: o tijolinho está à vista.



10.8.09

a cidade e o bilhete


Eu sei que espalharam um boato de boca em boca pelos quatro cantos dos ares.
Foi entre a gente. Maldito caso amoroso eu fui sustentar contigo. O que deu no exame? Negativo?

Beijos da tua sempre,
Dadá.



8.8.09

João

[1920-1999]


A PREGUIÇA

Que relação o bicho preguiça
poderá ter com a metafísica?

No Recife, um doutor chamou-o
de psicopata catatônico,

O que fez de imediato a igreja
condenar o doutor (a sua ovelha):

Deus não criaria um ser doente;
a doença é do pecadamente;

ela é do homem, que foi criado
para que existisse o pecado,

com seu horror e seu error,
como no diagnóstico do doutor.


[NETO, João Cabral de Melo. Museu de tudo e depois: (1967-1987) Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. p. 89]



1.8.09

todo poeta é marginal, desde que foi expulso da república de platão

[Bachus et Ariane, de Gerar de Lairesse - 1711]


O JOGO GRATUITO DA POESIA

"HÁ CAMPOS PARA TODOS. CAMINHOS NÃO MARCADOS A NINGUÉM..."
[Hölderlin]

O fazer poético passa pelo corpo e pela cama. "A poesia se faz na cama como o amor...", isto para começar a conversa. A palavra registrada em livro é a mera extensão (sublimada) do que sobrou da Orgia. Todos nós somos labaredas provocadas pelo curto-circuito do Desejo. O resto é balacobaco, isto é, literatura. Dante é pra ser relido na sauna, rodeado de adolescentes. Não um escritório-abrigo-antiatômico. O vampirismo descobriu o desbunde, o marxisismo e a linguagem caricata. Henri Michaux já deu o recado: Conhecimento através dos abismos. Inferno, Purgatório e Paraíso são uma coisa só. Mastigue cogumelos e Veja. Nenhuma regra: Ver com os olhos livres. Assim o curumim aprendeu o gosto de todos os espíritos. O assassinato também pode ser a ordem do dia. A blasfêmia e o roubo. Veja o episódio Vanni Fucci no Inferno de Dante. Gíria da pesada de malandro medieval. Mimetismo. Para uma estética da crueldade. Como diz Edoardo Sanguinetti, "O Surrealismo é o fantasma que, com toda a justiça, persegue as vanguardas e lhes nega um sono tranquilo". Com a costela do Kapitalismo foi criada a Panacéia Socialista. O Forró Nuclear é a medida da Riqueza das Nações. As soluções em Poesia são individuais e não coletivas. Eu estou com Gilberto Vasconcelos: depois que joguei a obra completa de Marx pela janela, comecei a compreender o Brasil. Fora isto o seguinte: Poesia é uma forma de conhecimento que vê através de objetos opacos, como uma viagem de LSD e estados mediúnicos de levitação. Xamanismo, linguagem da Sibila de Cumas e cantos de caça de povos "primitivos", poesia é uma atividade lúdica em que está empenhada sua vida, sua morte, a felicidade e principalmente o jogo. O jogo gratuito de todas as coisas. Por acaso, eis a origem de todas as coisas, diz Nietzsche. Não devemos excluir autoritariamente, como censor barato, nem os que pensam que são marginais e são escrituarios. Os Hitlers e Castros da vida já fizeram isso com muito mais eficiência. A Poesia é a mais fascinante orgia ao alcance do homem. E como diz Hegel, "A Orgia báquica da história será vivida por cada um de seus membros".

[PIVA, Roberto. Estranhos sinais de Saturno, volume 3. Organização Alcir Pécora. - São Paulo: Globo, 2008. "Obras reunidas" p. 187/188]


31.7.09

7º distrito - vila hauer

[Peter Paul Rubens - 1618]



...

- Anot’issoaê, Zé. E aí, conta' mo foi o resto?

Me deu uma coisa não sabia do meu paradeiro mas logo que percebi tava dentro do terreno arrastando a garota no meio do mato úmido. Garoava. Eu vestia um blusão com toca por baixo da jaqueta de couro. Só lembro que ela tinha a cabeça ensangüentada de sangue com um caco de vidro atravessado. Deitei o corpo debaixo de uma árvore. Tudo isso no terrenão baldio. Fui tirando a roupa: primeiro a calça de brim. Depois a calcinha com toda a força que ficou em tiras. Não queria nem saber agora que tinha começado o lance. Deixei a meia branca. Fetiche essas coisas. Meia hora sem tirar. Quando gozei parecia uma mijada. Eu era um cavalo. Saí correndo com a calça ainda arriada. Olhei pra cima e tinha uma janela com cortina vulto no prédio da frente. A coisarada tudo e mais o resto do céu girou pensei que ia cair e pá! já tava em outra parada quando pulei o muro e dei direto pra rua. Não tinha ninguém. Era noitinha. Fim de tarde. Minha cabeça fervia, doutor. Me pegaram um dia na rua. Tomando conhaque com um amigo da quebrada. Vou fazer o quê? Agora aqui!! ferrado. Seria infelicidade demais prum dia de sol mas. Quando me pegaram os políciais me encheram de porrada na cara soco na nuca algumas coronhadas nem mal me jogaram como um saco plástico cheio de estopa no fundo do camburão pra dar ferro no cavalinho de pau. Quem te segurava? A cabeça cada galão que vixe!; e mire e veja o senhor mesmo doutor os ematomas espalhados por todo o corpo. Cada roxão que minha mãezinha lá no céu. Quase morri. Que foi qu’eu fiz, hein, doutor?



29.7.09

"Pular de um quinto andar?"

[Mergulho, de João Werner, 2004]



não seja ridículo.
olhe lá embaixo.
quantos metros cê acha que tem daqui lá?
é bem capaz mesmo. é muito pouco, não vê?

desta altura, cara, o máximo que vai te acontecer é quebrar uma perna. ou as duas. pode ser que o femur se esmigalhe uma costela fure o pulmão o joelho salte da parada e fratura exposta aquela sanguerada toda e você lá agonizando eu aqu’incima desesperado pronto morreu...

quem sou eu pra te dizer, cara,
o que pode e o que não pode se só tentando?

mas de ponta cabeça.
assim de coco no chão:

toc

pode que pode ser:

e bau bau.

g

26.7.09

valor e cultura

[Tiempos perdidos, de Miháy Bodó, 2007]



VIII



Igual aquele misterioso personagem borgiano, que carrega uma cicatriz odienta no rosto, habita, em cada leitor apaixonado em excesso por ficção, um ser covarde que se refugia na biblioteca.


14.7.09

das livrarias

[Brattle Book Shop - desde 1825]

[...]


Não, escrevendo mudei para melhor: consumi apenas um pouco de juventude ansiosa e inconsciente. De que me valerão estas páginas descontentes? O livro, o vazio, não valerá mais do que você vale. Não há garantias de que a alma se salve ao escrever. Escreve, escreve, e sua alma já se perdeu.


[CALVINO, Ítalo. O cavaleiro inexistente. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 70]


estórias do senhor G.


Segundo consta, o senhor G. montou uma livraria, cujo nome fictício (conforme está lavrado e assinado no documento da pessoa jurídica) Brás Cubas, atrai tanoeiros ilustrados e demagogos para compor o conteúdo e a trama das inúmeras edições encadernadas em bordas de ouro e prata. U lá lá! Quanta luxúria! As linhas tipografadas pela pena da galhofa assinam o cheque que dá o tom orquestrado à opereta. Quem dá mais, fora o último lance: Vendido! As roletas giravam giravam e quem delirava? O senhor G. disse que agradece o comparecimento dos seus clientes fidelícimos. Eles vão. Veem. Não compram. Trocam algumas bugigancas. Souvenirs. Moedeiros. Costumam fumar horas a fio entre o balcão e um ah! que belo, que estandarte soneto camoniano; piscando; bocejando entre outras coisitas passageiras. E porra nenhuma de consumir como verdadeiros consumidores. O senhor G. não aguenta mais; puta sacanagem essa cambada de.

O senhor G. - percebe-se claramente, não é, leitorzinho de mierda - não muito quer se estender no assunto. Então, senhor G., fiau!

O senhor G. Este.



12.7.09

não vem com papo de amor, não

[pam! crás! pum!]


ai se eu encontrar ela na rua, por deus eu juro que a esgano, encurralo ela contra o muro, cuspo na sua cara, furo o seu rim com este canivetinho ó!ó! espeto com os dois dedos assim, cara...

- cuidado meu, quase me cega caralho!


11.7.09

fellini



[1965 - interview BBC]


9.7.09

valor e cultura

[é interessante observar, alunos, como a imagem da estátua simboliza a justiça. O que vocês enxergam?]


VII


Há um personagem pelo qual nutro uma grande simpatia. O nome dele é Lord Henry, um dos personagens secundários do romance mais popular de Oscar Wilde, mas que possui uma boa dinâmica no enrendo influenciando Dorian Gray com suas terribles doses homeopáticas do advento de um novo hedonismo. E a literatura, parafraseando um diálogo de Henry, tem daquilo que ele discorre sobre o cigarro: uma doce insatisfação. Às vezes pensamos com certa indiferença: só isso? A arte literária nos prende por alguns instantes os quais podem durar horas, ou nem tanto mais por alguns minutos; mexe com os nossos neurônios, de vez em quando com o nosso corpo, revela-nos o belo impregnado de crueldade; muito entretanto, ao chegar o final, nos surpreendemos: mas era só isto? E acaba. Para o bem ou para o mal, encerramos aquelas outroras páginas e, enfim, fechamos o livro - esse companheiro psicológico - indignados, mas notamos que fica algo de estranho pairando no ar; o mundo ao redor volta. As coisas em seus devidos lugares por justiça ou injustiça.



8.7.09

estórias do senhor G.

[Tarsila do Amaral]


O senhor G. tem cada uma. Ficou por lá. No bairro portátil de Gonçalo. Que não volta mais. Chutou o balde. Vejam só como o caboclo é enrolado. Pra pagar a conta de gás do casebre alugado, aqui, segundo ele, na esquina a dez passos, a moça do senhor G. teve que se emperequetar toda. Está dito, ipsis litteris, no postal recebido pelo autor hoje a tardinha.


O senhor G. Este.


6.7.09

dos grandes prosadores

[1926 - ]

[...]

Se a linguagem é um meio de comunicação, é preciso haver um acordo não só sobre as definições mas sobre os julgamentos. Não sei se essa última frase é genuinamente minha ou um pensamento de Wittgenstein. O hábito das leituras vadias, como são as minhas, em que não tomo nota, apenas procuro apreender o assunto como um esponja, leva-me a esse perigo. O que não é um mal em si, pode até se transformar numa virtude. Não diziam que o estilo mais eficiente e valioso é aquele capaz de transmudar os defeitos em qualidade?

[DOURADO, Autran. O meu mestre imaginário. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. p. 37]


3.7.09

dobrand' aesquina

[Laerte]


- joão, trocou de óculos?

parar você para?


2.7.09

conversa de pindureta


ouçam, camaradas

uma rima que vou lhes contar

o mito na esquina,
um grito.

a sombra de um lado,
fadado.

o silêncio no beco
de bico calado.


29.6.09

O ex-mágico da Taberna Minhota

[Biofa]

[...]

A platéia, em geral, me recebia com frieza, talvez por não me exibir de casaca e cartola. Mas quando, sem querer, começava a extrair do chapéu coelhos, cobras, lagartos, os assistentes vibravam. Sobretudo no último número em que eu fazia surgir, por entre os dedos, um jacaré. Em seguida, comprimindo o animal pelas extremidades, transformava-o numa sanfona. E encerrava o espetáculo tocando o Hino Nacional da Cochinchina. Os aplausos estrugiam de todos os lados, sob meu olhar distante.

[Murilo Rubião]



28.6.09

valor e cultura

[Cinemas fantasma in Candyland]


VI



Você já notou como os espaços mudam abruptamente? Às vezes eu passo em tal esquina e, epa!, não havia um barzinho aqui? E ali, não ficava uma panificadora? Cadê aquela casa de disco? O sebo cujo dono aceitava as minhas pechinchas, para onde se mudou? Quem se lembra do Ritz, pagava meia-entrada e tinhamos uma sessão para o sábado todo. Era uma educação cinematográfica. Normalmente os lugares fecham pela simples falta de crédito das pessoas com o ambiente. Não encontramos com mais ninguém, não nos familiarizamos, não criamos uma tradição, ou mesmo uma intimidade. Nada. O que vai nascendo e se transformando como ideologia dominante é a imagem do pequeno burguês hedônico. E sob esse aspecto social do ponto de vista desse infeliz, a cidade ganha uma cor acinzentada, uma atmosfera escura e vazia. Fria como as relações humanas contemporâneas. Com isso, além daquilo que é sólido, os sentimentos, também, se desmancham no ar.

- E tudo o resto.

- Pô!