[Dueto - Chico Buarque]
7.12.09
6.12.09
o canoeiro o autor e o menino
[para montar mesmo uma estória é preciso ter uma terceira pessoa para a qual narraríamos (o autor e o menino) a história do canoeiro metafísico que construiu um muro sobre as águas do rio]
pousou na ideia
Era no distante de tantas léguas na ponta do cume da montanha onde desaguava a nascente que vivia um canoeiro. Outro dia, ninguém tem noção da data, o canoeiro tomou o rumo errado na asa do urubu e se engosmou com a escama do peixe. Chispou! Lá em cima, mas não se sabe se na montanha ou no céu, talvez no fundo do mar, onde o rio desova um passado, o autor desiludido riscou no traço o voo torto e cego de tal modo que quem voava era um peixe, e peixe fora d'água, filho de peixe peixinho é, diante do poste do fio elétrico descuidou-se, não percebeu, desatento bateu e tombou. Um galo enorme brotou no cuco do personagem protagonista.
pulando o meio fio
Um menino de rua, eis, ouviu o ocorrido assim que avistou no rés do chão o animal morto. Com a boca mordeu o bicho sujo de terra e como caroço de manga cuspiu longe a cabecinha que perpendiculou uma curvatura plac! certeiro na lata de lixo.
O menino era muito bom de pontaria e mocava no matinho debaixo do viaduto o seu estilingue pra matar passarinho e quebrar vidraça de casa abandonada.
O menino faminto do umbigo saltado juntou uma quantia de gravetos e tascou fogo.
O menino tinha fósforos.
Uma panelinha amassada cheia de água ferveu pra fazer sopinha. O menino tomou todinha ao ponto de lamber a vasilha e foi dormir pois já era alta da noite e ele nunca bebeu biotônico fontoura.
quem quiser que conte outra
Assim, meus leitores mirins, se foi o canoeiro fora da asa. Da casa e da narrativa.
3.12.09
ao pé da letra
bola murcha
Aquiles em meu imaginário jogava futebol. O semi-deus tenta um lance, salta, corre, voa. Todavia, ao passar a bola de calcanhar para Pátroclo, que infiltrava pela meia direita na direção ao gol de Heitor em posição legal, num lance cheio de firulas com direito a chapéus, canetas e parará, Aquiles esqueceu-se da flecha atravessada: a bola furou e o heróizinho acabou com o contra ataque dos gregos.
segundo tempo
O filho de Tétis, substituído por Ajax, saiu sob uma saraivada de vaias curvando-se para não ser atingido pela chuva de miolo de pão atirada pela plebe que tinha pago o espetáculo circense.
2x1
Tróia reverte o placar e celebra a vitória com a manjada volta olímpica.
Aquiles em meu imaginário jogava futebol. O semi-deus tenta um lance, salta, corre, voa. Todavia, ao passar a bola de calcanhar para Pátroclo, que infiltrava pela meia direita na direção ao gol de Heitor em posição legal, num lance cheio de firulas com direito a chapéus, canetas e parará, Aquiles esqueceu-se da flecha atravessada: a bola furou e o heróizinho acabou com o contra ataque dos gregos.
segundo tempo
O filho de Tétis, substituído por Ajax, saiu sob uma saraivada de vaias curvando-se para não ser atingido pela chuva de miolo de pão atirada pela plebe que tinha pago o espetáculo circense.
2x1
Tróia reverte o placar e celebra a vitória com a manjada volta olímpica.
2.12.09
diga lá poeta
simples assim, não tem nem que vem: só pra degustar dois pedacinhos da entrevista que Paulo Leminski cedeu ao Caderno 2, do Estadão, nos idos de oitenta e seis:
[...]
Seu primeiro livro, Catatau, já chegou provocando, dinamitando os limites. Não é conto, não é romance, não é poesia. Nele, o personagem central é nada menos que Descartes. E ele tem uma luneta em uma mão e um cachimbo de maconha em outra. São dois símbolos?
leminski É, são dois símbolos elementares. Um, de distanciamento crítico e outro de integração. A luneta é o distanciamento. E o cachimbo de maconha é a integração. A maconha gera integração. Numa roda de gente queimando fumo gera-se um tipo de comunicação diferente daquele gerado em um simpósio, por exemplo, sobre metafísica e a psicologia de Jung. É uma comunicação via substância, não via palavra.
[...]
É tudo aqui e agora?
leminski É. Tudo é milagre. Não precisa curar leprosos. Não preciso de milagres desse tipo. A cor amarela, para mim, é um milagre. A percepção é um grande milagre. Poder ouvir um som, mi bemol, é um milagre. O azul, as experiências biológicas, o gosto da batata frita, são milagres. Dar três trepadas numa noite é um milagre. O mundo é cheio de milagres. E as pessoas ficam procurando... As pessoas querem circo. Não preciso de circo, o zen não precisa de circo. O zen diz: "é aqui e agora".
[Um poeta além do porquê, outubro de 86 - arquivo particular]
1.12.09
sobre o cotidiano
tirar o corpo da cama, calçar os chinelos, tomar o café com açúcar, provar um afeto, lamber a colher de mel, aguçar a úlcera lendo as manchetes de jornal, rir da coluna de política, travestir-se para o mundo, enfrentar o trânsito, estacionar o carro, entrar em cena, a performance do trabalho, os risos, os silêncios, as palavras comedidas, o almoço com sobremesa, o café sem aspartame, as reuniões da tarde, os chinelos nos pés à noite, as saudades, o chá mate quente, o barulho dos carros, as árvores dobrando-se na noite de ventos e trovoadas, a cabeça sobre o travesseiro que cochicha sonhos e a vida no ponto a partir do qual, realmente, começa.
24.11.09
cartão-postal
Maria,
a grana tá curta e o exílio mais foda que comer cu de grilo. Do lado de cá rola uma insatisfação muito grande no meu peito. Choro, choro muito mas nem por isso deixo de ser homem. Também tenho saído muito à noite, vou ao boteco mais próximo. Bebo. Você não imagina a minha conta como anda. Durmo com algumas mulheres, mas todas elas me parecem estúpidas quando os dedos róseos da aurora despertam a manhã. E acordo mais vazio que saco de papai noel em noite de véspera natalina numa região menos favorecida.
Agorinha mesmo, andei pensando no retorno, porém o teu silêncio, Maria, o teu silêncio... Fique sabendo que um homem sozinho não é o mais forte, não. Ibsen cagou no final da peça.
Promete me escrever uma resposta?
Um beijo do fundo do poço sem canto do teu sempre
Ulissezinho.
21.11.09
valor e cultura
tudo o que perde a função vira arte
[Ferreira Gullar]
[Ferreira Gullar]
XIV
As palavras arte e artista entraram em desuso, ou melhor, tornaram-se banais na boca dos estudantes de design. O que estes acadêmicos fazem é, no pior dos sentidos, utilizar ideias alheias para rechear um discurso vazio em prol de um canudo e, por fim, incrementar seus futuros produtos de venda.
Como podemos apreender, o símbolo anárquico vira broche de mochila e a língua dos stones sintetiza, no mínimo, a liberdade sonhada pelos jovens estudantes.
19.11.09
descanonizando
[...]
O narrador provém de uma família de latifundiários e donos de escravos: automaticamente é o dono da palavra. O seu direito não é questionado. Ele é o senhor do dinheiro, dos destinos, do discurso. Embora se procure, atendendo a recomendações da teoria literária, não confundir o autor com o narrador e a postura de um com a posição do outro, o fato de Machado não desmontar a fala senhorial é algo que pode levar o establishment a tentar provar o contrário. Este exige que o escritor seja visto como supraclasse e porta-voz de todos, para que melhor se repasse a ideologia e a postura política postuladas em sua obra. Não se pode separar um do outro, como se nada tivessem entre si. Aí se mostra de modo representativo o gesto semântico do cânone brasileiro, a sua coesa perspectiva senhorial. Não é um momento ocasional de um romance, mas condição também para a obra ser consagrada, ser ensinada nas escolas como grande literatura: é amostra de uma estrutura judicativa. Aqui se tem uma convergência do autor com o narrador. O próprio Machado - assim como os narradores por ele criados - não negou que queria fazer parte da elite oligárquica. Pelo contrário, dedicou a sua vida a isso.
[KOTHE, Flávio R. O cânone imperial. UNB, 2000.
p. 473]
p. 473]
18.11.09
16.11.09
limpando a cabeça de velhos preconceitos
"Um erro irreparável cometido na idade da ignorância.""Sim."
"É a idade em que casamos, em que temos nosso primeiro filho, em que escolhemos nossa profissão. Um dia saberemos e compreenderemos muitas coisas...
[Milan Kundera - A ignorância]
[...]
A instituição do casamento pressupõe uma certa estabilidade, uma certa rotina no desempenho dos papéis convencionais de marido e mulher, ou pai e mãe, esvaziando afetivamente as relações dentro dela.
Na maioria das vezes, as pessoas envolvidas, em lugar de reagirem a isso, acabam encontrando na reprodução da "família tradicional" um recanto para sua inércia ou parasitismo afetivo...
Os casais costumam objetivamente encarnar este parasitismo. Um bom exemplo é o descuido dos homens e mulheres casados com o seu próprio corpo e com o ato físico do amor.
[...]
A família existe não só para garantir a reprodução da sociedade burguesa através da difusão do autoritarismo, mas também como correria de transmissão de um dos suportes do capitalismo: a propriedade privada.
O papel da família é tão forte neste sentido que seus membros acabam por se julgar proprietários uns dos outros. Adquire-se o mesmo medo compulsivo de perder o outro, menos pela necessidade do amor e mais pela "tranqulidade psicológica" que ser proprietário (ou a propriedade) lhe dá. Esconder um do outro (ou até de si mesmo) algo novo e transformador, com o receio do risco da mudança, é a prática mais comum dos casais.
[...]
Muitas pessoas valorizam o casamento como um sistema de "concessões mútuas" ou de sacrifícios recíprocos". Ceder ou "fazer sem gostar" geralmente acabam se transformando em cobranças futuras, estimuladas por mágoas e ressentimentos. Entretanto o fundamental do acasalamento é a solidariedade, a cumplicidade, isto é, dar e receber prazerosamente segundo as necessidades, e, sobretudo, com originalidade. Coisa difícil e, por isso mesmo, fascinante. Como o amor.
[...]
Há um estímulo muito grande por parte da sociedade, não só para sermos autoritários, mas também para nos subordinarmos cegamente a algum tipo de autoridade. Começamos com uma fé para o Estado e, muitas vezes, reproduzimos esta mitificação nas nossas relações pessoais e afetivas. Endeusamos, colocamos no altar e, depois, a convivência vai ser a ferramenta que usaremos para destruir a imagem e fazer do ídolo um monstro indestrutível.
... os problemas das relações familiares funcionam como um bueiro enxugando nossa energia vital e provocando desempenhos insatisfatórios em outras atividades.
[...]
As rupturas afetivas com a familia são causadas mais pelos ressentimentos e mágoas atuais por coisas vividas no passado junto a ela, do que por razões ideológicas.
[...]
Sem uma familia nova, o exercício da nossa originalidade fica comprometido. Mas não é fácil construir experiências novas, são muitos os obstáculos impostos pela sociedade burguesa. Alguns são óbvios: a sobrevivência econômica no capitalismo limita muito os grande voos inovadores. Entretanto, a maioria dos obstáculos a novas experiências familiares seria derrubada se os movimentos de libertação da mulher alcançassem êxito.
A instituição do casamento pressupõe uma certa estabilidade, uma certa rotina no desempenho dos papéis convencionais de marido e mulher, ou pai e mãe, esvaziando afetivamente as relações dentro dela.
Na maioria das vezes, as pessoas envolvidas, em lugar de reagirem a isso, acabam encontrando na reprodução da "família tradicional" um recanto para sua inércia ou parasitismo afetivo...
Os casais costumam objetivamente encarnar este parasitismo. Um bom exemplo é o descuido dos homens e mulheres casados com o seu próprio corpo e com o ato físico do amor.
[...]
A família existe não só para garantir a reprodução da sociedade burguesa através da difusão do autoritarismo, mas também como correria de transmissão de um dos suportes do capitalismo: a propriedade privada.
O papel da família é tão forte neste sentido que seus membros acabam por se julgar proprietários uns dos outros. Adquire-se o mesmo medo compulsivo de perder o outro, menos pela necessidade do amor e mais pela "tranqulidade psicológica" que ser proprietário (ou a propriedade) lhe dá. Esconder um do outro (ou até de si mesmo) algo novo e transformador, com o receio do risco da mudança, é a prática mais comum dos casais.
[...]
Muitas pessoas valorizam o casamento como um sistema de "concessões mútuas" ou de sacrifícios recíprocos". Ceder ou "fazer sem gostar" geralmente acabam se transformando em cobranças futuras, estimuladas por mágoas e ressentimentos. Entretanto o fundamental do acasalamento é a solidariedade, a cumplicidade, isto é, dar e receber prazerosamente segundo as necessidades, e, sobretudo, com originalidade. Coisa difícil e, por isso mesmo, fascinante. Como o amor.
[...]
Há um estímulo muito grande por parte da sociedade, não só para sermos autoritários, mas também para nos subordinarmos cegamente a algum tipo de autoridade. Começamos com uma fé para o Estado e, muitas vezes, reproduzimos esta mitificação nas nossas relações pessoais e afetivas. Endeusamos, colocamos no altar e, depois, a convivência vai ser a ferramenta que usaremos para destruir a imagem e fazer do ídolo um monstro indestrutível.
... os problemas das relações familiares funcionam como um bueiro enxugando nossa energia vital e provocando desempenhos insatisfatórios em outras atividades.
[...]
As rupturas afetivas com a familia são causadas mais pelos ressentimentos e mágoas atuais por coisas vividas no passado junto a ela, do que por razões ideológicas.
[...]
Sem uma familia nova, o exercício da nossa originalidade fica comprometido. Mas não é fácil construir experiências novas, são muitos os obstáculos impostos pela sociedade burguesa. Alguns são óbvios: a sobrevivência econômica no capitalismo limita muito os grande voos inovadores. Entretanto, a maioria dos obstáculos a novas experiências familiares seria derrubada se os movimentos de libertação da mulher alcançassem êxito.
[FREIRE, Roberto e BRITO, Fausto. Utopia e paixão - a política do cotidiano. 9 ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan SA, 1991. p. 82-89]
15.11.09
do que eu gosto?
Foi o que uma tia de Minas Gerais me perguntou ontem na festa de aniversário de outra tia, que completava meio século de existência. Respondi pelo simples gostar de conversar com as outras pessoas, mesmo que tal resposta nos leve a especulações inimagináveis, da seguinte maneira. Como estou num processo de muita leitura, tia, debruçado obssessivamente sobre um tema (o ser enamorado), o que mais anda me chamando a atenção, além de outros autores, é o pensamento selvagem do poeta do Pilarzinho. O pensamento, a prosa, os ensaios, os voos transparentes e não o lado sem margem do universo poético no qual seu fim é a palavra. Me identifico com o pensador feroz, utópico e apaixonado, que nos leva não só a pensar, mas agir de forma diferente, como neste trecho filosófico de Poesia: a paixão da linguagem, o qual tentarei aplicar a minha vida:
"Por que a palavra paixão está na moda? Acho que não é a paixão que está na moda, é a palavra paixão que está na moda. Como detetive, cheguei à conclusão, às avessas, de que não é que a nossa época seja muito apaixonada. Se a gente está valorizando tanto isso aí, é porque está faltando."
Questionando a época da sensação na qual estamos vivendo, embora o texto tenha sido escrito no fim da década de oitenta, a paixão para Leminski "parece incompatível com o tempo urbano-industrial", pois,
"a nível de performance profissional, imaginem, por exemplo, um programador de computadores apaixonado. Isso só pode conduzir a erros incríveis. Já se o sujeito trabalhar na construção civil e estiver apaixonado, arrisca-se a cair do oitava andar. É bem mais grave do que um erro contábil. Enfim, erros contábeis e cair do oitavo andar são coisas que podem acontecer a um trabalhador apaixonado dentro da sociedade urbano-industrial."
Assim, inserido em tal sociedade, cujo fim é enriquecer e pensar conforme o dinheiro depositado na nossa inteligência bancária, talvez, para efeito de entendimento, o turbilhão da cidade, de seus signos em rotações, apontem novos caminhos (os quais refazem o trajeto perdido na memória) calculados no taxímetro do automóvel, visto que tem gente que não sabe dirigir um veículo, mas sabe conduzir a sua vida.
Acho que a tia ficou perplexa.
13.11.09
o esquema é o seguinte
p/ felipe, vulgo nero
primeiras letras vernáculas
Interessante pensar como adquirimos uma educação humana e o quanto ela aparenta um palco de teatro na prática. Ilusão dogmática da escrita, só pode ser. Se a palavra não nos levar para a ação, restaremos, fisicamente falando, uns pernetas de paus, o que pressupõe todo um time comandado por um caolho. E o sãopaulão, hein, lá nas cabeça!
- Vê esta mosca?, se eu esmagá-la, serei um ditador?
onde está o erro?
Somos comprados facilmentes pelas instituições particulares em troca de qualquer viagenzinha pro exterior, assim como garoto propaganda? De qual homem a imgem do Boné Positivo na cabeça? Abandonamos a aldeia sem saber conviver socialmente e depois saciados de nada lá fora, voltamos inspirados por um ar coletivo? Políticos, administradores, professores e mais uma carrada de zé ninguéns diplomados os quais, em todo o conjunto, pegando cada qual da sua área específica, seriam nada mais nada menos um bando de asno de ouro? Sem contar o restinho das pessoas, sombras de outros destaques. Mas nem vou começar a me estender porque elas estão seduzidas pelo sucesso de um futuro jabuti, cagando de tão devagar.
É fato que, veja bem, segundo meu empirismo, costuma sair uma leva de bonequinhos de barros para a rede privada do Liceu Sem Ofícios aqui da região. E eu te pergunto, companheiro de guerra, quero ver se você está por dentro: quem era o trio parada dura do Medianeira que estampava o autdoor publicitário e mamava na teta? Ética mais colocação social: uma questão cheia de dúvidas que tenho. E cê manja que rola por aí um dito não popular: Faça propaganda e não reclame. Esta frase só pode soar como tédio e uma acomodação cheia de convenções e tapinhas nas costas. É bicho, a macacada está velha.
bem frito!
Meu irmão costuma recitar um ditado que é um barato: camarão que dorme a onda leva. Se ficarmos obcecados pela ideia de que é somente a religião abocanhadora de fiéis, olha meu camarada, estaremos vendidos. Tomemos cuidado, meu chapa, pois a cada esquina, qualquer instituição aponta-lhe uma faca. E a seleção desse camarão é feita por quilos de merda saindo dos olhinhos negros sem derramento de lágrimas.
Viu?
O erro está na própria cabeça intelectualizada, mas sem ação! Portanto, uma última deixa, não se martirize por nenhum mito feminino que lhe algemar, pois a revolução tende a acontecer, o que é outra balela.
12.11.09
elaboração
[...]
Quem, no entanto, haveria de definir o certo ou o errado? Nem mesmo o artista poderia explicar para si o porquê de suas ações e decisões, ou talvez defini-los em conceitos (é claro que não há necessidade de fazê-lo, pois na obra do artista se define inteiramente). Propondo, optando, prosseguindo, ele parece impulsionado por alguma força interior a induzi-lo e a guiá-lo, como se dentro dele existisse uma bússola. Esta lhe diz: vá adiante, revise, ajunte, tire, acentue, diminua, interrompa! São ordens que, ao recebê-las, o artista sente como imperativas, às quais deve irrestrita obediência, tão absolutamente essenciais se revelam ao seu próprio ser. Trabalhando, ele continuará até um dado momento que a bússola interna possa indicar-lhe: pare, as alternativas se abreviaram, as coisas não são possíveis apenas; ao contrário, tornaram-se necessárias.
É o momento final do trabalho. Somente a própria pessoa pode estabelecê-lo para si, momento crítico este onde o indivíduo sente ter logrado aproximar-se de uma resolução inequívoca, sem reduções e sem redundâncias. A resolução refletirá em tudo o seu equilíbrio interno pois a bússola não era senão ele mesmo. É um momento de entendimento de si. No processo de trabalho, entre a abertura e o fechamento da obra, o indivíduo se determinou e veio a reconhecer-se. E, se o caminho muitas vezes foi acompanhado de ansiedade, de impaciências e de conflitos interiores que pareciam nunca mais querer resolver-se, vivenciar esse momento de determinação é viver um momento de profunda felicidade.
[OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1978. p. 71-72]
10.11.09
a vida de carlos em um dois três quatro pedacinhos

a partida
Carlos tinha emagrecido, a pele sobre ossos, depois da separação, sem ter para onde ir. A princípio perdidaço, comeu o pão que o diabo amassou pelos três meses que vieram a seguir: janeiro, fevereiro e março. Para voltar no tempo da história, caro leitor, era sua mulher quem não aguentava mais. E, portanto, os dois não se bicavam. A barba mal feita, a preguiça como companheiro de cama, o sorriso engolido não davam mais para ela e tampouco para ele. Para sorte do homem no auge dos seus quarenta anos, ele mantinha, a muito custo, uma lojinha de discos e livros usados onde poderia, ao menos, dormir e ver o que fazer dali pra frente. Até o fim do ano, o contrato de locação com a imobiliária, lhe dava a garantia de se estabelecer sob um teto, cuja semântica nós conhecemos como casa. No mesanino da lojinha, Carlos jogou umas almofadas, trouxe a televisão portátil - na casa da esposa, o casal tinha adquirido dois desses aparelhos domésticos -, uma mala de roupas e algumas fotografias de tempos outrora: simulação de uma antiga felicidade. Quem sorria na foto, era ele mesmo?
a fisionomia
Meio que indo acostumando ao ambiente, a barba cresceu como uma floresta romântica, vá lá, como diria o bruxo do Cosme Velho, cansado da busca por uma imagem melhor. Mas voltando a Carlos, que vivia este novo período, ele obteve, contra o desejo do autor, o aspecto de um bom selvagem. Porém, o medo que lhe havia comido o rosto no começo dessa sua nova trajetória estava substituido: espinhas pipocaram ao longo das horas de dedicação onanista.
Os pêlos surgidos nas mãos espantavam a clientela.
o esquecimento
Carlos agora outro homem só cor de solidão e meio animalesco, abandonou os amigos, esqueceu dos dois filhos e mais o resto da família: um tio louco, pelo qual era assaz apegado e a avó paterna, para a qual contava-lhe seus projetos e ideias jamais consumados. A avó, no entanto, era surda e há mais de uma década vivia num asilo lá nos cafundós de Pinhais. O cachorro, seu fiel companheiro, comeu o próprio rabo até a morte ao cheirar - instintivamente - a partida do seu dono. Carlos não chorou. Carlos, na verdade, desde os seus trinta anos, não chorava mais.
bau bau
As horas foram passando tic-tac tic-tac pelo cuco habitante da cabecinha desse personagem, os dias somaram-se no calendário riscado com x em tons vermelhos e os anos, por fim, aleluia, completaram-se até que, diferentão, outro, nem aí pra nada, resolveu se enforcar utilizando os cadarços dos sapatos. Obra sem efeito, por causa da força máscula, os cordões de algodão arrebentaram e deixaram um risco na carne viva do seu pescoço. Carlos ficou mais puto, fudido, enfezado, espumando pelos cantos da boca a raiva do fracasso. Porém, mesmo assim, consciente da grande cagada de ter se transformado no homem atual, uma coisa entre nada, apático e bunda mole, espetou nos olhos dois parafusos desparafusados da porta de alumínio da lojinha (doeu pacas!); tomou raticida misturado ao resto de guaraná sem gás da garrafa de dois litros e meio; cortou os pulsos com uma serrinha que trouxera da oficina do tio maluco e, morrendo morrendo, para terminar a história, graças a deus!, bateu as botas.
Mas Carlos não tinha botas.
a fisionomia
Meio que indo acostumando ao ambiente, a barba cresceu como uma floresta romântica, vá lá, como diria o bruxo do Cosme Velho, cansado da busca por uma imagem melhor. Mas voltando a Carlos, que vivia este novo período, ele obteve, contra o desejo do autor, o aspecto de um bom selvagem. Porém, o medo que lhe havia comido o rosto no começo dessa sua nova trajetória estava substituido: espinhas pipocaram ao longo das horas de dedicação onanista.
Os pêlos surgidos nas mãos espantavam a clientela.
o esquecimento
Carlos agora outro homem só cor de solidão e meio animalesco, abandonou os amigos, esqueceu dos dois filhos e mais o resto da família: um tio louco, pelo qual era assaz apegado e a avó paterna, para a qual contava-lhe seus projetos e ideias jamais consumados. A avó, no entanto, era surda e há mais de uma década vivia num asilo lá nos cafundós de Pinhais. O cachorro, seu fiel companheiro, comeu o próprio rabo até a morte ao cheirar - instintivamente - a partida do seu dono. Carlos não chorou. Carlos, na verdade, desde os seus trinta anos, não chorava mais.
bau bau
As horas foram passando tic-tac tic-tac pelo cuco habitante da cabecinha desse personagem, os dias somaram-se no calendário riscado com x em tons vermelhos e os anos, por fim, aleluia, completaram-se até que, diferentão, outro, nem aí pra nada, resolveu se enforcar utilizando os cadarços dos sapatos. Obra sem efeito, por causa da força máscula, os cordões de algodão arrebentaram e deixaram um risco na carne viva do seu pescoço. Carlos ficou mais puto, fudido, enfezado, espumando pelos cantos da boca a raiva do fracasso. Porém, mesmo assim, consciente da grande cagada de ter se transformado no homem atual, uma coisa entre nada, apático e bunda mole, espetou nos olhos dois parafusos desparafusados da porta de alumínio da lojinha (doeu pacas!); tomou raticida misturado ao resto de guaraná sem gás da garrafa de dois litros e meio; cortou os pulsos com uma serrinha que trouxera da oficina do tio maluco e, morrendo morrendo, para terminar a história, graças a deus!, bateu as botas.
Mas Carlos não tinha botas.
8.11.09
primeiras palavras
[...]
A capa deste livro tem uma história que merece ser contada. As pessoas ali fotografadas são minha sogra, Alice Francisca, meu sogro, José Alexandre, e meu cunhado mais novo, Sóstenes, cerca de vinte anos atrás. Como este é um livro que trata de discriminação e exclusão, decidi homenagear meus sogros que são, como costumo dizer, um "prato cheio" para alguns dos preconceitos mais vigorosos da nossa sociedade: negros, nordestinos, pobres, analfabetos. Alice Francisca também carrega o estigma de ser mulher numa cultura entranhadamente machista. Aprender a amar estas pessoas pelo que elas são, deixando de lado todos os rótulos discriminadores que tentam classificá-los em categorias supostamente inferiores às que eu e pessoas de minha extração social ocupamos, tem sido uma lição fundamental para toda a minha vida pessoal e profissional.
A capa deste livro tem uma história que merece ser contada. As pessoas ali fotografadas são minha sogra, Alice Francisca, meu sogro, José Alexandre, e meu cunhado mais novo, Sóstenes, cerca de vinte anos atrás. Como este é um livro que trata de discriminação e exclusão, decidi homenagear meus sogros que são, como costumo dizer, um "prato cheio" para alguns dos preconceitos mais vigorosos da nossa sociedade: negros, nordestinos, pobres, analfabetos. Alice Francisca também carrega o estigma de ser mulher numa cultura entranhadamente machista. Aprender a amar estas pessoas pelo que elas são, deixando de lado todos os rótulos discriminadores que tentam classificá-los em categorias supostamente inferiores às que eu e pessoas de minha extração social ocupamos, tem sido uma lição fundamental para toda a minha vida pessoal e profissional.
[BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico - o que é, como se faz. 25 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2003. p. 11-12]
7.11.09
piu piu
quem pia?
o passarinho empalhado na janela.
no que se transformou?
em olhos de acquarius.
em olhos de acquarius.
isto é um quê?
chouriço pra comer no serviço.
6.11.09
da contemporaneidade
o bom marido
Sob a mesa, seus joelhos se tocavam. O homem olhou a boca muito próxima - cereja fresca. Inclinou-se na direção da mulher e beijou seus lábios. Ela consentiu por um instante muito pequeno. Quando ele esboçou abrir a boca e passar a língua entre seus dentes, ela já havia se afastado e virado o rosto com uma expressão de desagrado.
- Por que você fez isso?
- Por quê? Porque me deu vontade.
- Você não devia.
- Por que não?
- Porque eu mal conheço você, porque você é casado, tem uma família.
- Olha, querida, nós levamos duas horas pra tomar uma xícara de café. E, assim mesmo, sobrou um pouco.
- Eu nem sei por que aceitei tomar este café com você...
- Você sabe sim.
- Tá bem, eu sei.
Ela baixou o olhar. Ele segurou sua mão. Estava suada.
- Agora, tenho de ir - disse ela, recolhendo a mão. - Por que você não vai pra casa? Vai ficar com sua família, vai.
A mulher levantou-se com uma certa indecisão, pegou a bolsa, disse tchau e saiu devagar.
O homem ficou observando ela serpentear entre as mesas. Ao chegar à porta do bar, deteve-se, voltou-se para ele e sorriu - como se lhe concedesse uma chance a mais.
Ele pensou: "O que é uma família comparada a isto?". E foi atrás dela.
[MANTELLI, Fernando. Raiva nos raios de sol. Porto Alegre: Não Editora, 2008. p. 11-12]
4.11.09
valor e cultura
XIII
O livro de poesia e prosa Inéditos e dispersos, de Ana Cristina Cesar, é a playboy dos intelectuais. Ora pois.
28.10.09
livro de ocorrência
"Dê onde vêm esses seres?"
Vêm de mim. Sou eu mesmo, uns quarenta por cento. Tem vez que é bem mais: sessenta, setenta, cem por cento. Depende da piração.
[Ignácio Loyola Brandão]
Vêm de mim. Sou eu mesmo, uns quarenta por cento. Tem vez que é bem mais: sessenta, setenta, cem por cento. Depende da piração.
[Ignácio Loyola Brandão]
III
como aconteceu
O personagem em construção de repente ficou mudo. Assim, do nada. O autor, por sua vez, desconhece as origens do ocorrido.
um nove zero
Ele acionou a polícia. Imediatamente.
definição
Então, na casa do autor, os peritos verificaram os originais, analisaram as margens anotadas nas folhas soltas marcadas de café, os borrões, pastas de rascunhos, cadernos, esboços, bonecos e nenhum vestígio que poderia incriminar o personagem foi encontrado. No local de averiguação, do acontecido, ou seja, do crime de mentira, o personagem esteve submetido ao interrogatório de praxe e, conforme o parecer dos especialistas, este ser ficcional só poderia ser plano.
passa o alicate
Sob tortura, os técnicos conseguiram arrancar, além de dois dentes, algumas palavrinhas plagiadas da personagem de ficção, que não queria envolvimento algum - pelo que tudo indica - com o enredo da narrativa rocambolesca do autor:
- Prefiro não fazê-lo.
na delegacia
- Marcão, arquiva a parada porque há uma certa introdução à problemática da literatura. Especificamente falando deste conto.
O personagem em construção de repente ficou mudo. Assim, do nada. O autor, por sua vez, desconhece as origens do ocorrido.
um nove zero
Ele acionou a polícia. Imediatamente.
definição
Então, na casa do autor, os peritos verificaram os originais, analisaram as margens anotadas nas folhas soltas marcadas de café, os borrões, pastas de rascunhos, cadernos, esboços, bonecos e nenhum vestígio que poderia incriminar o personagem foi encontrado. No local de averiguação, do acontecido, ou seja, do crime de mentira, o personagem esteve submetido ao interrogatório de praxe e, conforme o parecer dos especialistas, este ser ficcional só poderia ser plano.
passa o alicate
Sob tortura, os técnicos conseguiram arrancar, além de dois dentes, algumas palavrinhas plagiadas da personagem de ficção, que não queria envolvimento algum - pelo que tudo indica - com o enredo da narrativa rocambolesca do autor:
- Prefiro não fazê-lo.
na delegacia
- Marcão, arquiva a parada porque há uma certa introdução à problemática da literatura. Especificamente falando deste conto.
Dito assino e dou fé.
27.10.09
da contemporaneidade
Sabe aquele gordinho de óculos que ficava no fundo da classe cobiçando as menininhas que seus colegas surfistas catavam?...[Ronaldo Bressane]
[...]
Então, já que cheguei à lama mais ou menos civilizado, vou citar (de memória) um trecho de "Sete noites". Jorge Luis Borges discorria sobre Schopenhauer e Buda. Tanto Sidharta (ou Buda, dá na mesma) como o sombrio filósofo acreditavam que o mundo era sonho e que seria muito bom se, de vez em quando, deixássemos de sonhá-lo. Buda tinha uma questão: o que é viver? "Viver é nascer, envelhecer, adoecer e morrer". Ele acreditava que não era só isso. Tem mais. Um dia abandonaríamos nossas quitinetes de marfim (Sidarta abandonou a sua) e teríamos que necessariamente sofrer de outros males, dentre os quais um que ele, Buda, considerava dos mais patéticos: "não estar com quem queremos". Pois é: na mosca.
O tal buda sabia das coisas. Ou o sujeito enche a cara, ou entra prum mosteiro... Ou pede pra ela voltar, mesmo sabendo que a mina vai lhe enfiar chifres, rir da sua cara. Mesmo sabendo que sua Antônia não tem nenhum tesão por você, e que você é um trouxa incorrigível. Que chora até com Caetano Veloso cantando Feelings.
[MIRISOLA, Marcelo. O homem da quitinete de marfim. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 174-75]
25.10.09
pega, rex!
Mas que bela cagada esse – puta merda – bebê foi me sair. Olha a melequeira nas perninhas. Eu é que não vou lavar nenhuma bundinha tenra e imunda. Tou por aqui! Quem paga a penca de pampers que tenho gastado com este projetinho de gente? Pois é. Não sei porque não enfiei, da outra vez, a agulha de crochê da vovó Rita na buceta. Já aproveitava e furava as trompas-útero-tudo. Não tinha erro. Ai-que-nojo! como pode sair tanta merda de uma criatura que ainda não sabe amar? Este bebê, do jeito que caga, um dia vira um grande artista. Veja você, amada leitora, que belo cocô. Mas bem que. Uma modelada na bostarada e pronto! ficava que ficava uma linda escultura assinada com o sobrenome do pai, que nem sei quem é.
23.10.09
mini galeria do elogio mútuo

Depois de Guimarães Rosa e Manoel de Barros, quem apareceu para endemoniar a linguagem foi João Filho com o seu monstruoso Encarniçado (Baleia, 2004). Agora, numa edição batuta, em formato de envelope, parte da coleção Cartas Bahianas, o escritor de Bom Jesus da Lapa nos presenteia com o excelente Ao longo da linha amarela. Para mais saberes, Ricardo Domeneck já andou caminhando ao longo dos sete contos reunidos.
Aqui, destaco um fragmento do conto "Cicerone Cego", que me pegou na hora neutra da madrugada. E eis que é tudo da parte deste humilde e servo leitor.
***
A insônia muitas vezes é um tipo de lucidez onde nos engolfa não aos borbotões, mas incisiva e parcimoniosamente a explicação de tudo. O mover-se na terrena. O que não evita a estranheza, um extenuar-se, alma-neurônio, ou o que nos dois pensa que alcança. Posso falar para os fantasmas, já que fisiologicamente ninguém me acompanha.
[FILHO, João. Ao longo da linha amarela. Salvador: P55, 2009. p. 34-35 (Coleção Cartas Bahianas)]
22.10.09
16.10.09
entrevista
[...]
Houve em sua vida uma encruzilhada, um acontecimento, um desses grandes marcos?
Sim, minha vida sempre foi uma coisa muito tumultuada, talvez pelo meu temperamento, pela maneira como eu encaro as coisas. Um deles foi um amor, uma paixão de juventude que me marcou muito e que talvez sido decisivo na minha opção pela literatura: depois dessa decepção amorosa, cheguei à conclusão de que a única coisa em que eu podia confiar era a literatura.
[...]
Por que você escreve? O que é escrever?
Eu escrevo por essa necessidade de me comunicar. Se eu consigo de fato acender essa luz na linguagem, esse relâmpago, isso é uma coisa que não é só pros outros, pra mim significa uma "viagem" no sentido da maconha... Saí do real, saí das limitações, é uma experiência de liberdade, na verdade.
Tenho um certo tédio da literatura; a cada dia que passa, eu leio menos, escrevo menos, porque, de fato, se eu tiver de escolher, eu prefiro a vida.
[...]
Peço que escolha três palavras entre as seguintes e diga alguma coisa sobre elas: amor, cidade, poder, povo, solidão, solidariedade, prazer, violência, amizade, noite e silêncio.
A palavra que mais me fala é cidade, porque é nela que acontece tudo. A cidade é o grande convívio, é a comunidade e é, ao mesmo tempo, a própria experiência de vida coletiva. A uma hora dessas, nos mais diferentes pontos da cidade, está acontecendo tudo: o amor, a luta pelo poder, a solidão, a solidariedade, a violência.
Rio de Janeiro, setembro de 1988
[RICCIARDI, Giovanni. Auto-retratos. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p. 264-277]
15.10.09
conhecimentos gerais
Temos que tomar certos cuidados na aspiração à literatura. Digo, em certo sentido, na tentativa de se tornar um escritor. A cadeia de inexperiência com a vida acaba criando seres letrados incapazes da transmissão fabular com o leitor. Aqui por estes pântanos tem mais sapo comendo mosca à milanesa e muito escritorzinho (pasmem!) trocando as bolas pelas letras.
Outra tendência ficcional da baixa literatura é a perpetuação estereotipada da cópia da natureza. Tradição que se eterniza há séculos na busca pela verossimilhança. Cidade de Deus, por exemplo. Conhecemos o texto adaptado para a tela de cinema e só conhecemos as imagens do retroprojetor. Somos, hoje, leitores ou espectadores? Ou espectadores do texto?
E quem sabe responde: o autor do romance que retomou o cinema nacional foi:
a) Paulo Lins
b) Roberto Scharwz
c) Alternativas a e b
14.10.09
de la musique
[Zélia Duncan - Eu me transformo em outras, 2004
Capitu - Luiz Tati]
[ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p.247, versículo LIV]
Capitu - Luiz Tati]
[...]
Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas, mas era cortesia, era quase caridade recordar alguma lauda.
13.10.09
comissário de bordo
movimentos sorrateiros
Interrogo-me se os dois homens que retocam a pintura do viaduto seriam policiais a paisana verificando a atividade.
transpiração
Eles pararam o serviço. Um sinaliza pro outro, que vem ao seu encontro. Conversam algo. Viram-se e olham em minha direção. Estão apontando pra cá. Escondo-me.
suspiro
Não era nada, apenas a pipa do guri que tinha enroscado no terraço do andar debaixo. Os dois homens, dos quais inicialmente eu suspeitara, ajudaram o garoto a resgatar o papagaio. O moleque ficou feliz.
12.10.09
por quê, meu filho
Eu comecei a ter fome. Foi assim, pai, que tudo começou. Pé de moleque no bar da esquina não matava as bichas. Não mais. O senhor sabia que cedo ou tarde eu ia partir por essa bandas aí acima com o peito aberto de cicatrizes ao vento, desbravando o morro de Vera Cruz. O que foi que encontrei pelo caminho, ainda me pergunta. Onde tu, pai, foi que me jogastes? Eu te pergunto. Euzinho! Num oásis imenso feito por encruzilhadas que nunca mais acabava. Fui simbora, sim, convicto, não conto ao senhor? Caminhei léguas alternando a noite e o dia, um após o outro, sol, chuva, frio, intempéries; dormindo sobre paralelepídedos, catando o que comer, fumando bitucas, até chegar ao cume do que ambicionava. Lá, os dez mandamentos como o senhor prescreveu. Habitei-me na escuridão da noite de dentro das cavernas vazias de estrelas entre lobos, ursos, chacais e morcegos. E habituei-me sem as palavras. De quem é o coração mais selvagem? Por ti, pai, para provar a sua morte e a minha glória, sangrei os dedos ao escalar a colina, cuspi no cálice pra ter o que beber; comi até o Bambi, numa das noites de lua cheia e uivos caninos, pai. O senhor não acredita? Pois não? Eu blasfemo e muito sabe o senhor enganado que com esta taça de barro, esta mezona de carvalho trincado ao meio, este cachimbo, o fogão a lenha mais a tentação de Maria do Rabo Rico na cozinha, podem me comprar. Engana-te, velho! Seu eu conseguisse me despregar daqui de cima, ah! se eu conseguisse, eu mostraria ao senhor com quantos paus se faz uma cruz de ponta cabeça e riscaria no chão, em nome do Capeta, o Curumim. É.
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