9.10.09

batman


I

o que foi aquilo que passou,
o que foi
?
pulando pelo corredor da casa
?

II

me deixa ver.
- eu já volto.

III

será que entrou por aqui?
caminhos faço por entre o corredor narrativesco, quando desponto no falso horizonte, perto da janelinha, por onde entra ar e barulho, uma bolinha de carne e pêlo grudada ao teto de pvc do banheirinho.
por acaso, seria aquilo que outrora pulava? que coisa mais asquerosa.

IV

quero observar mais atentamente. quem era o mais curioso dos dois? subo num banquinho de madeira pintado por mim mesmo. me aproximo com curiosidade. constato: é uma coisa grotesca. desço do banquinho e próximo da porta, atiro um chinelo. não cai. outro, o esquerdo, maldição, erro. pego no cabo da vassoura. cutuco. parece que se mexe. me prontifico pra recuar. tento novamente. cutuco. está vivo. é uma coisa e está viva. o que será? o que será? ainda com o cabo da vassoura, vou espremendo contra o teto espremendo até que

pluc!

V

que sensação é esta que em mim inunda a vida
e bate na bunda?


VI

ou era, portanto, o olho
mergulhando ao infinito do ralo?



8.10.09

livro de ocorrência


I

p. 05 folha 10

Embebido de ciúmes, Joaquim Estraga-Prazeres matou brutalmente sua noiva com três tiros no peito e uma cuspida, conforme confessou o réu, que já tinha passagem pela polícia.

O autor do crime, explicando o acontecido, disse que ela o havia traído e apontava-a como o verdadeiro Judas.

Segundo o Tenente, "ainda há suspeitas".

Dito, assino e dou fé.


7.10.09

batendo em retirada


vru vru vru vru vru vru vru

o helicóptero que plainava lento sobre os prédios
poderia ter sido um deus ex machina


6.10.09

livro dos seres imaginários


I



- Sabia que papai, lá próximo das bandas onde Simão Bacamarte se perdeu, tinha uma cabritinha com a qual se embrenhava mato a dentro, cê acredita?
- Acredito, sim. Mas e sua mãe o que dizia?
- Que o velho era teimoso como uma mula.


5.10.09

qualé, tá m'estranhando?


Procuramos, num momento precário de nossas vidas ou simplesmente pelo passar do tempo, estudos mais centralizados: por exemplo, seguir certa vertente crítica de cunho sociológico, pois, como podemos perceber, literatura ruim faz uma sociedade pior, isso sem dúvida alguma. Levar em conta também as leituras voltadas ao estudo da verossímilhança de que podemos descascar métodos e sistemas para levar (no entendimento) a vida e o trabalho conforme as regras do tabuleiro social. Ao vencedor...? Quem comia a última? Mas, como eu ia dizendo, as leituras de entretenimento foram substituídas por ensaios e artigos sobre literatura. Antonio Candido e Fábio Lucas encabeçam a ponta de lança dos estudiosos literários que disponho da biblioteca; correndo por fora, filosofia niilista e ciência pós-moderna saltam os paradoxos contemporâneos. Já ouviu falar em hipermodernidade? E Vinícus Dantas, por acaso o conhece?

Então mira e veja:




vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

[...]

Querem ver nisto Zen e influência da poesia oriental; creio, contudo, ser mais um artifício de quem trabalhou em publicidade e conhece demais seu ofício, além de visar principalmente o leitor médio.

e fechando o balanço:

[...]

A graça fácil e infantilizada de sua poesia, com seu faz-de-conta revolucionário, rebelde ou vanguardista, nutre sonhos adolescentes e tem ouvidos moucos para o desmentido da realidade. Chegando tarde e cansado para a vanguarda e a revolução, só restou ao poeta curitibano se entregar à fantasia compensatória de suas brincalhonas palavrinhas.

[A nova poesia brasileira e a poesia. Novos estudos - CEBRAP, n. 16. Dezembro de 1986. p 50-51]


3.10.09

why not sneeze?

[Duchamp como Rrose Sélavy, 1920
Man Ray]


Duchamp fundou uma sociedade de jogo de azar - roleta - e vendia obrigações de 500 francos cada para financiar o jogo. Ele tinha criado um sistema especial que julgava possibilitar a obtenção de lucros. A frente de cada obrigação tinha uma fotografia de Duchamp, tirada por Man Ray, onde ele surge com a cara coberta de espuma de barbear e a cabeça esculpida em forma de cabeça alada de Mercúrio, deus romano do comércio e da ciência e protetor dos ladrões e dos vagabundos.

[MINK, Janis. Marcel Duchamp. 1887-1968 - A arte como Contra-Arte. Taschen: 2000. p. 73]


2.10.09

bildungsroman



[Dali & Buñuel, 1928]


Cego corre perigo maior é em noite de luares...

[João Guimarães Rosa]

[...]


O cego da pistola retirou o sexo que ainda vinha a pingar e disse com voz vacilante, enquanto estendia o braço para a mulher do médico, Não tenha ciúmes, já vou tratar de ti, e depois subindo o tom, Eh, rapazes, podem vir buscar esta, mas tratem-na com carinho, que ainda posso precisar dela. Meia dúzia de cegos avançaram de rebolão pela coxia, deitaram mãos à rapariga dos óculos escuros, levaram-na quase de rastos, Primeiro eu, primeiro eu, diziam todos. O cego da pistola tinha-se sentado na cama, o sexo flácido estava pousado na beira do colchão, as calças enroladas aos pés. Ajoelha-te aqui, entre as minhas pernas, disse. A mulher do médico ajoelhou-se. Chupa, disse ele, Não, disse ela, Ou chupas, ou bato-te, e não levas comida, disse ele, Não tens medo de que to arranque à dentada, perguntou ela, Podes experimentar, tenho as mãos no teu pescoço, estrangulava-te antes que chegasses a fazer-me sangue, respondeu ele. Depois disse, Estou a reconhecer a tua voz, E eu a tua cara, És cega, não me podes ver, Não, não te posso ver, Então por que dizes que reconheces a minha cara, Porque esta voz só pode ter esta cara, Chupa, e deixa-te de conversa fina, Não, Ou chupas, ou na tua camarata nunca mais entrará uma migalha de pão, vai lá dizer-lhes que se não comerem é porque te recusaste a chupar-me, e depois volta para me contares o que sucedeu. A mulher do médico inclinou-se para diante, com as pontas de dois dedos da mão direita seguru e levantou o sexo pegajoso do homem, a mão esquerda foi apoiar-se no chão, tocou nas calças, tacteou, sentiu a dureza metálica e fria da pistola, Posso matá-lo, pensou. Não podia. Com as calças assim como estavam, enrodilhadas aos pés, era impossível chegar ao bolso onde a arma se encontrava. Não o posso matar agora, pensou. Avançou a cabeça, abriu a boca, fechou-a, fechou os olhos para não ver, começou a chupar.

[SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das letras, 1995. p. 177]


1.10.09

panis et circense

joga bosta na Geni

[chico buarque]

não era dalton trevisan que já assinalava no seu estilo preciso e categórico que o conto é e sempre será maior que o autor? octavio paz - por que não? - em seu cuadrivio num ensaio à parte sobre o el desconocido de si mismo, pensando em fernando pessoa e seus heterônimos, diz que los poetas no tienen biografía. para pegar voo com o vampiro, paz complementa: su obra es su biografia. E para mim está de bom tamanho.

agora, com muito pesar - pois guardo uma admiração no peito pelas composições do tio lema - eu pergunto, e é aí que o bicho pega: o que é aquela imagem do polaco? afinal, como se constrói uma figura? que valores carregá-la para o olhar do espectador? uma fotografia, sem legenda, diria tudo? a imagem que nos foi criada para dar a impressão do quê? a que mito queremos nos render? um exemplo? mas do quê? Para quê?

o ensaio fotográfico gira por trás de um homem das letras, como é obviamente visível em seu escritório com vista pro quintal. um ser da linguagem distraído no cotidiano do seu atrapalhado trabalho, assim se pode deduzir lendo suas traduções. sua profissão: poeta. era mesmo, ou pura jogada de malandro samurai? por que a respiração presa para a formatação do porte físico do ex-judoca; e me diz, para quem era o olhar?

também festejaram, em londrix, com programação para as crianças - pura ironia do destino - o tributo ao pau d'água chamado as mulheres de leminski. isso seria alguma besteira de mau gosto, ou desde sempre tudo não passou de uma palhaçada? porque essa eterna curiosidade pela intimidade chinesa de cada um? aqui não acontece o fenômeno decadente da arte à fofoca? de olho na fotinha.

ontem comemorou-se a vida de leminski em sampa. convite do ademir para os amigos, segundo eu li; não para os seus leitores. e quase terminando, uma última pergunta: porque alguns querem ser donos até do filho da puta que se converteu em arquivo para os cofres do banco Itaú?

ocupação-exposição?
- brrrrrrrrr!

quando os discursos mudam, quando se vira a bancada para o bolso de alguém, a língua se verga às instituições capitais.


29.9.09

valor e cultura

[Liliane Busby - sem título]


XII

Pensei que tinha gente mais corajosa do que eu. No mundo dito real. Não tinha.
Do mundo ficcional, quanto mais uma fuga efêmera. Quem se transformou num inseto: Eu ou você?
Realmente.


27.9.09

vida modo de usar


domingo: quase diário
15:00 em ponto

Os turistas gritam e erguem os braços ao passar sob o viaduto.
Um motociclista desce, a moto desligada, a alameda Dr. Muricy.
A ferinha pela qual não caminhei para um cigarrinho tinha o seu público muito antes das três. Lá no alto do Largo. E ninguém sentiu a minha falta.

15:32

Sustenta-se no ar uma harmonia de sol e chuva casamento de viúva. Embora o movimento coletivo que antecede a parada esteja pra lá de agitada no batuque do mundo exterior. Que barulho é este? Alguém? Que bate na porta?

15:39

O coletivo aproxima-se. Mergulharei no meio da multidão para não retornar. Me diluirei nela. Depois, se caso a matéria voltar com a alma limpa, venho aqui dizer como estava bom. Mesmo dissolvido por completo no bloco em homenagem a Baco.

15:45

Ai! que preguiça!...


26.9.09

epílogo

[...]

No mucambo se alguma cunhatã se aproximava dele para fazer festinha,Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava.

[mário de andrade]

**


acabou-se a história e morreu a vitória.
Não havia mais ninguém lá. Dera tangolomangolo na tribo Tapanhumas e os filhos dela se acabaram de um em um. Não havia ninguém lá. Aqueles lugares aqueles campos furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos, aquêles matos misteriosos, tudo era solidão e deserto. Um silêncio imenso dormia à beira-rio do Uraricoera.
Nenhum conhecido sôbre a terra não sabia nem falar na fala da tribo nem contar aquêles casos tão pançudos. Quem que podia saber do herói? Agora os manos virados na sombra leprosa eram a segunda cabeça do Pai do Urubu e Macunaíma era a constelação da Ursa Maior. Ninguém jamais não podia saber tanta história bonita e a fala da tribo acabada. Um silêncio imenso dormia à beira-rio do Uraricoera.
Uma feita um homem foi lá. Era madrugadinha e Vei mandara as filhas visar o passe das estrêlas. O deserto tamanho matava os peixes e os passarinhos de pavor e a própria natureza desmaiara e caíra num gesto largado por aí. A mudez era tão imensa que espichava o tamanhão dos paus-no-espaço. De repente no peito doendo do homem caiu uma voz da ramaria:
- Curr-pac, papac! curr-pac, papac!...
O homem ficou frio de susto feito piá. Então veio brisando um guanumbi e o boleboliu no beiço do homem:
- Bilo, bilo, bilo, lá... tetéia!
E subiu apressado pràs árvores. O homem seguindo o vôo do guanumbi, olhou pra cima.
- Puxa rama, boi! o beija-flor se riu. E escafedeu.
Então o homem descobriu na ramaria um papagaio verde de bico dourado espiando pra êle. Falou:
- Dá o pé, papagaio.
O papagaio veio pousar na cabeça do homem e os dois se acompanheiraram. Então o pássaro principiou falando numa fala mansa, muito nova, muito! que era canto e que era cachiri com mel de pau, que era boa e possuía a traição das frutas desconhecidas do mato.
A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subira pro céu, porém ficara o aruaí do séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fôra o grande Macunaíma imperador. E só papagaio no silêncio do Uraicoera preservava dos esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitas do herói.
Tudo êle contou pro homem e depois abriu asa rumo Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba desta fôlhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a bôca no mundo cantando na fala impura as frases e casos de Macunaíma, herói de nossa gente.
Tem mais não.

[ANDRADE, Mário de. Macunaíma (o herói sem nenhum caráter). Copyright by Livraria Martins Editôra S. A., São Paulo. 5 ed. n. 2225. p. 235-236]


25.9.09

na sala de aula

[Magritte, 1935]


Não sou de dormir muito na pontaria, não.

[Carlos Heitor Cony]

O morcego

Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

[ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. São Paulo: Martins Fontes, 1994. p. 11]


[...]


O animal grotesco puro e simplesmente é o morcego. O nome (Fledermaus, em alemão) sugere a mistura antinatural dos domínios que se concretizou neste ente sinistro. E, ao lado desta cultura estranhadora, há um modo estranho de vida: um animal crepuscular, de voo silencioso, com inquietante agudeza perceptiva e de segurança infalível nos rápidos movimentos – não caberia suspeitar que ele suga o sangue de outros animais enquanto estão dormindo? É estranho, até no estado de repouso, quando permanece envolto nas asas como num manto, dependurado de uma trave com a cabeça para baixo, mais parecido a um pedaço de matéria morta do que a um ser vivo.

[KAYSER, Wolfgang. O grotesco – configuração na pintura e na literatura. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003. p. 158]


24.9.09

bestiário


I


Vacas sobrevoaram hoje à tarde, segundo as imagens registradas pelo cinegrafista a cerca de mil pés do chão, a Cidade Industrial, diz a âncora do telejornal.

- Balões, para ser mais exato.

O céu fechado e previsão de chuva. Vai cair o mundo.

II

O cão cego e sem dono levou uma pedrada do guri. Vi com os meus próprios olhos.

III

A ave da qual me foge o nome está empalhada.

IV

Ouço um agouro de nunca mais.




e agora, como o personagem se limpa?


I

o homem volta afiar a navalha

e a navalha ficava afiada.

II

agora ela estava definitivamente
e novamente afiada na mão do homem.

III

o homem caminha até a sala e põe-se no chão para agarrar o pescoço da galinha, que se escondia debaixo da mesa, e a ergue no ar. penas voam no seu debater submisso. e com a direita - fatal - o homem talha um corte fundo que esguichou sangue em toda a porra da minha roupa que estava um brinco.

IV

[o autor rouba a cena]

- buceta!

V

sem contar as paredes da casa do traíra.


20.9.09

secretário dos amantes


I


Acabei de jantar um excelente jantar
116 francos
Quarto 120 francos com água encanada
Chauffage central
Vês que estou bem de finanças
Beijos e coices de amor

II

Bestão querido
Estou sofrendo
Sabia que ia sofrer
Que tristeza este apartamento de hotel

III

Granada é triste sem ti
Apesar do sol de ouro
E das rosas vermelhas

IV

Mi pensamiento hacia Medina del Campo
Ahora Sevilla envuelta en oro pulverizado
Los naranjos salpicados de frutos
Como una dádiva a mis ojos enamorados
Sin embargo que tarde la mía

V

Que alegria teu rádio
Fiquei tão contente
Que fui à missa
Na igreja toda a gente me olhava
Ando desperdiçando beleza
Longe de ti

VI

Que distância!
Não choro
Porque meus olhos ficam feios

[ANDRADE, Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do livro, 1976. p. 129-130]