2.1.10

por que ver os clássicos



OITO E MEIO

I

Sei de pessoas que julgaram superficial o "8 1/2", de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser superficiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?

II

Em Picasso, em certos Picasso, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amendronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da "Salomé" de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no "8 1/2" de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista - o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.

[QUINTANA, Mário. 80 anos de poesia. 7 ed. São Paulo: Globo, 1996. p. 101-102]


31.12.09

antes das 24


Amanhece e ainda não é ano novo.
Teu corpo estirado na cama perdeu todas as potencialidades da vida.
Mas você espera o espocar da champagne, o espumante escorrendo doce pela garganta
enquanto no fundo do seu ser, ainda uma nesga de esperança.

Amanhece e ainda não é ano novo.
Teus ouvidos ouvem, os mais apressados, estourarem
(onde?)
rojões, fogos de artifícios.

Amanhece e você resolveu mudar os rumos
no roteiro que escreverá para o próximo ano.

(Os fogos: quem acende o pavio?
Mas está molhado.)

Acendestes o cigarro e antes mesmo você se entorpece
e na hora exata, aonde os ponteiros em forma fálica se encontram,
somente tu, criatura, uivará para a lua.


29.12.09

cartão-postal


Sabe João,

fazia exatos nove meses que eu não dava no coro. Você sabe como é, né? Ser feminista radical tem seus lances. Sou, de fato, uma diabinha. Quem me comeu na última semana, para total contradição da minha ideologia, foi um cara bem machão. Chupei seu pau, lambi seu saco. Foi preciso ser submissa: dócil. Um pentelho enroscou entre os meus dentes
. Mas depois que o macho me pegou de quatro no banheirinho, minhas pernas não pararam de tremer por uns dois dias. O bom foi que consegui cuspir o pelo. Fui enrabada de levitar numa perna só. Isso eu confesso, dói: perder as sete pregas do rabinho. De sair lágrimas.

Um beijo pra ti,
meu confidente.

Maria.


27.12.09

o rocambole


Tudo começou quando da colher escorreu um fio de doce de leite sobre as páginas do falcão maltês.



26.12.09

o peru de natal

1
O dia começa pelo som estridente do telefone. O cliente quer mais. Véspera de Natal. Anoto as gramas. Da mais pura. Mas ele sabe que haverá bastante mistura, principalmente aspirina e bicabornato de sódio.

2
Nem bem acordo e reuno a composição enquanto passo o café, que acabou. Daqui a pouco Bianca liga, pedindo um faz-me rir. Bianca é dona de mãos ossudas. E tem um nariz, o qual visto de perfil, me lembra algumas mulheres de Picasso.

3
Sobre a mesa o material necessário pra elaboração da composição sintética. Uma balancinha herdada do avô. Tiro a quantidade exata. Distribuo em saquinhos de evidências, enfio no cu do Peru e limpo o ambiente.

4
Visto uma roupa bonita e desço o elevador.

5
Apanho o buzão.

6
O resto é confidencial. Lamento.



25.12.09

cartão-postal


Puxa vida, Ana,

Por que você não veio passar o natal comigo? No aconchego das cobertas, birita, filminho e só a gente como acompanhante, hein. Ai! você jogou duro comigo ontem. Me aparecendo de shortinho branco e regata púrpura. Era púrpura? Não quis nada. Negou um abraço, beijo neca!
Enfim acabou?

Agora desço a serra pra’quela coisa banal de todos os anos.

Com os meus votos de felicidade
pra toda a família
um beijo.


23.12.09

da contemporaneidade

[...]

A senha: "O olho esquerdo de Camões
não vale uma epopéia". (Essa é boa!)

[Paulo Henriques Britto]

[...]

... O rei mandou chamar todos os moços e disse: "Aquele que fizer a bosta mais bonita ganha a mão da minha filha". Camões, homem que conhecia as coisas, um doutor, não ficou correndo às tontas de lá pra cá como os outros. Sabe o que ele fez? Foi a uma plantação de jerimum e comeu jerimum a mais não poder. No dia seguinte todos chegaram diante do Rei carregando a sua bosta dentro de um prato. Era gente a mais não acabar, de formar uma fila que ia das portas do palácio até os cafundós de Pernambuco. Mas a bosta de Camões era a mais bonita, linda, brilhando dentro do prato, vermelha, da cor do jerimum! Ele se apresentou diante do Rei, curvou-se e disse: "Aqui está o que me pediu Senhor meu Reis!" E foi assim que Camões casou com a princesa.

[TAVARES, Zulmira Ribeiro. O nome do Bispo. 2 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991. p. 56-57]


21.12.09

fenomenologia


o personagem da ficção possui os cinco sentidos


pois foi quando apanhou com as mãos a esfera, que o protagonista pode observar a cor verde, sentir a lisura do objeto através dos dedos, cheirar o odor industrializado da bola de acrílico, ouvir o nada que dela sonoriza e lamber, para saborear a coisa, deixando um pequeno rastro úmido; semelhante a de uma lesma.


19.12.09

conseguirá ele voltar?

[Rê Bordosa]


por falta de assunto e de história - com começo meio e fim - o autor enclausurado à moda de angeli resolveu ir ao fundo do imaginário pra resgatar o último macho.



17.12.09

um poema daqueles sem noção


puxa a descarga!

a tentativa de substituir a tinta da caneta
por merda sangue

..............................e milho verde

(no troço marrom
entre tons claros e escuros)

faz
de você
um cabeção.



16.12.09

anotações num pequeno bloco


pé na estrada

cheguei na biela da Kombi guinchando a mercadoria dentro da hora e do local marcado: num galpão redondo com telhas enferrujadas e portões imensos. imponentes nos quilos de ferro de aço, às 10 horas de céu gripado no pátio tuberculoso. urubus sobre os muros jaziam indomáveis. estacionei a caranga. puxei o freio de mão. as rodas fizeram um barulinho no atrito com o asfalto.
na beira, a um tanto de metros, um rio contornava o território.

mexi no canivete, guardei as chaves. acendi um cigarro. peguei o pacote embrulhado com fita isolante. dei a volta pela construção. uma porta marrom se abriu.

a mercadoria devia ser entregue

e o dinheiro pego.




14.12.09

a esquina


Olha o beco.
Cuidado com o beco!
Olha o beco.

[duma canção popular]



numa dobra qualquer pra onde vai o homem

de pito na boca e maria no braço:

- senhor da fumaça espere por mim!


13.12.09

será que nós temos alguma coisa pela qual valha a pena morrer?



[...]

Quando o intelectual ocidental parte para a ação, sua sereia, vai normalmente para a política, esse simulacro da ação, que substitui a verdadeira ação, que é a guerra, pelos vai-e-vens das conversações e negociações, próprias da classe dos negociantes.

[LEMISNKI, Paulo. Anseios crípticos 2. Curitiba: Criar Edições, 2001. p. 29]


12.12.09

pega ladrão

a floresta é amiga quando se entra armado

[Hilda Hilst]

Era uma vez um índio, destes em extinção,
que se escafedeu para dentro do mato fechado.

O caçador em seu percalço vinha abrindo brecha com o facão e atirou na mira do calibre doze.

A bala atravessou a nuca do índio:
que caiu sangrando numa poça de lama.

O caçador aproximou pra mexer no matinho que tapava o pau e o cu do índio.

O caçador tinha uma narina aguçada
pra farejar.

O caçador tinha, também, um bom tato pras coisas.
Vasculhando o corpo do índio encontrou
cápsulas de um comprimido.

Botou na língua pra conferir:
agora, elas eram da posse do caçador, que tinha um bom paladar.

Mais tarde, ao redor do fogo,
o caçador as revenderia no mercado negro da aldeinha.



11.12.09

cartão-postal

[Tarsila do Amaral]

Meu caro amigo,


você não imagina o que é uma semana. O dia todo trabalhando, algazarra na sala de aula, criança chutando criança, rabiscando criança, beliscando criança, arremessando borracha, papelzinho. Cacilda! Tou ficando maluco com tanta indisciplina, me diz o politicamente correto. O pós moderno e a etiqueta social. Agora veja bem uma mãe, sozinha, cuidando de quarenta e cinco filhos. Multiplica por seis. Pra sobreviver, pra ter o que comer, ao menos o queijo e o café nutritivo, sem nos proibir o cigarro e a cachaça, porque senão a gente surta ou, se quiserem acabar com tudo, pode nos enterrar. Definitivo. Aliás, lacra o caixão e diz adeus.
Além do uísque ser o melhor companheiro, como dizia o conselho do amigo engarrafado, ele anda fazendo milagres e até ressuscita.


Um forte imenso e tudo abraçado
do teu Ulissezinho



10.12.09

cartão-postal


["...Acordei no dia seguinte muito cedo, as roupas em desordem, as cobertas também, e Anne a meu lado, nua naturalmente. O esforço que deve ter feito! Eu continuava a segurar a panela. Olhei para dentro dela. Não me havia servido. Olhei meu sexo. Se ele soubesse falar. Não direi mais nada sobre isso. Foi essa a minha noite de amor."]


Maria,

eu tou triste pra jeca, mas foi assim mesmo, debaixo desse sentimento que me tornei, com o perdão da franqueza, num animal: um cavalo sem égua relinchando pelos becos. Escuros, sim. Ai!
Não é que te conto que ontem, por empréstimo, eu li o Primeiro amor, do Beckett, como você deve ter percebido na epígrafe carinhosamente carinhosa, logo antes em cima abrindo o postal. Mas, ô!, santa mãe de deus, rogai por nós, que homenzinho mais desiludido, não é? Sujeito mentiroso este narrador.

No mais, assim assim eita lasquera, a vida sem mistificação me leva a crer que a sopa rala mal dá pra salgar a língua.

Um beijo do teu Ulissezinho
do fundo do poço.


8.12.09

tio Mário

Em idos de uns anos atrás na distância da lembrança de mim ainda pivete, tive um tio que era apontado na rua como o bonitão, isto é, trocando em miúdos: o pegador, conforme cochichava a prima com certo apetite para minha irmã. Neste tempo, sabia que papai sentia uma ponta de inveja só pelo olhar lançado ao tio e que mamãe não aprovava a postura dele excomungando as mulheres, dizendo isto e aquilo até o fim do discurso arrematando que todas eram umas lambisgóias.

Garanhão de bigodinho fino, cigarro no canto da boca, sapato branco e gravata borboleta, meu tio era muito o máximo não porque ele me dava umas moedinhas ou comprava paçoca no bar do Magrão me fazendo uma gracinha na cabeça, mas simplesmente pelo fato dele atiçar a curiosidade das mulheres da vizinhança quando chegava no seu Chevette amarelo todo posudo com o braço esquerdo estendido pra fora na visita habitual de fim de semana em nossa casa.

As mulheres, quando ouviam o estampido da caranga, corriam à janela, estendiam os bracinhos brancos como se fossem pinturas ou retratos antigos; outras sentavam na cadeira da varanda enfeitadas, cheias de cores. Vestidinho do qual podíamos vislumbrar um pedaço do tornozelo. Isso tudo me arrepiava. E as luvas enfeitavam as mãos naquela época belle.

Eu me divertia vendo o tipo desse meu tio da cidade grande e queria, quando crescesse, ser como ele: um tiozão!