9.2.10
7.2.10
cronopiando

El marfil de la torreEn el año 1959, los Estados Unidos obtuvieron en América Latina 775 millones de dólares de beneficios por concepto de inversiones privadas, de los cuales reinvirtieron 200 y guardaron 575.(De un acta oficial de la UNCTAD,Conferencia de Nueva Delhi, 1968)
SIN EMBARGO
el escritor latinoamericano
debe escribir tan sólo
lo que su vocación le dicte
sin entrar en cuestiones
que son de la exclusiva competencia
de los economistas.
[CORTÁZAR, Julio. Último round. México: siglo veintiuno editores, 1969. p. 149]
3.2.10
exercício de composição
[...]
Eu luto. Estou brigando comigo dum modo tão feroz que até às vezes me assusta. E o mais terrível é que pela primeira vez na minha vida não tenho mais aquela bonita certeza de vencer que foi o que sempre me deu todas as minhas vitórias sobre mim e sobre essa danada de vida. Tudo isso afinal significará pra você que a minha felicidade está muito desbaratada agora. Está sim e chegou o momento em que para alguns, por orgulho ou por utilidade prática, sou obrigado a fingir que ela permanece intata. Isso pelo menos me dá uma vitoriosa certeza do passado em que agora sei que fui realmente duma felicidade conquistada que o Manuel Bandeira tanto duvidava possível de mim. Agora ando aprendendo a fingir felicidade, cheguei nisso. Por isso eu te agradeço abraçado o prazer imenso que o seu livro me deu. Você foi o amigo que veio na grande ocasião.
[Mário de Andrade]
1.2.10
29.1.10
dos grandes prosadores
[...]
Não se distinguia nenhum ruído fora a cantiga dos sapos do açude da Penha - vozes agudas, graves, lentas, apressadas, e no meio delas o berro do sapo-boi, bicho terrível que morde como cachorro e, se pega um cristão, só o larga quando o sino toca. Foi Rosenda lavadeira quem me explicou isto. Admirável sino. Como seria o sapo-boi? Pelas informações, possuía natureza igual à natureza humana. Esquisito. Se eu pudesse correr, sair de casa, molhar-me, enlamear-me, deitar barquinhos no enxurro e fabricar edifícios na areia, como o Sabiá novo, certamente não pensaria nessas coisas. Seria uma criatura viva, alegre. Só, encolhido, o jeito que tinha era ocupar-me com o sapo-boi, quase gente, sensível aos sinos. Nunca os sinos me haviam impressionado.
[RAMOS, Graciliano. Infância. Círculo do livro. s/d. p. 56-57]
28.1.10
minhas criancinhas
eu vou lhes contar uma história e depois chispa!
Cama.
Era uma vez um homem estopa.
Mergulhado num saco junto de outras estopas.
Branquinhas como peles de coelho.
Mas eis que chega levantado do chão imundo todo de graxa o mecânico trejeitão e
RUAO!
4.1.10
O homem que procurava a buceta
Num livro de História proibido na Europa, o autor Kadif Kawthar nos contava que na Mesopotâmia Antiga vivia um egípcio a procura da excepcional buceta filosofal. Diz a lenda que essa buceta milagrosa possuia dotes incomuns e tinha em sua boca a resposta para todos os enigmas do Universo. Os lábios pequenos discorriam sobre filosofia e matemática e os lábios grandes narravam estórias fantásticas. A história ainda nos revela que o homem que a penetrasse fundo, atingindo seu útero dourado, viveria eternamente e seria o rei dos reis; habitaria pirâmides de ouro; possuiria um exército de homens dotados; fertilizaria a terra da qual brotaria tudo quanto é espécie de vegetais e frutos; seria dono do paraíso no qual habitam setenta e duas virgens; e o seu pênis seria caracterizado por uma enorme glande cerebral, além de se assemelhar a uma espada.
Pois bem, eu não acredito em nenhum pingo dessa fábula, todavia queria encontrá-la para meu nome constar nos ANAIS.
Pois bem, eu não acredito em nenhum pingo dessa fábula, todavia queria encontrá-la para meu nome constar nos ANAIS.
3.1.10
Além das duas mulheres sentadas
- O que haveria dentro deste bar que aqui fora não há?
- Tirando a garoa?
2.1.10
por que ver os clássicos
OITO E MEIO
I
Sei de pessoas que julgaram superficial o "8 1/2", de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser superficiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?
II
Em Picasso, em certos Picasso, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amendronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da "Salomé" de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no "8 1/2" de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista - o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.
[QUINTANA, Mário. 80 anos de poesia. 7 ed. São Paulo: Globo, 1996. p. 101-102]
31.12.09
antes das 24
Amanhece e ainda não é ano novo.
Teu corpo estirado na cama perdeu todas as potencialidades da vida.
Mas você espera o espocar da champagne, o espumante escorrendo doce pela garganta
enquanto no fundo do seu ser, ainda uma nesga de esperança.
Amanhece e ainda não é ano novo.
Teus ouvidos ouvem, os mais apressados, estourarem
(onde?)
rojões, fogos de artifícios.
Amanhece e você resolveu mudar os rumos
no roteiro que escreverá para o próximo ano.
(Os fogos: quem acende o pavio?
Mas está molhado.)
Acendestes o cigarro e antes mesmo você se entorpece
e na hora exata, aonde os ponteiros em forma fálica se encontram,
somente tu, criatura, uivará para a lua.
29.12.09
cartão-postal

Sabe João,
fazia exatos nove meses que eu não dava no coro. Você sabe como é, né? Ser feminista radical tem seus lances. Sou, de fato, uma diabinha. Quem me comeu na última semana, para total contradição da minha ideologia, foi um cara bem machão. Chupei seu pau, lambi seu saco. Foi preciso ser submissa: dócil. Um pentelho enroscou entre os meus dentes. Mas depois que o macho me pegou de quatro no banheirinho, minhas pernas não pararam de tremer por uns dois dias. O bom foi que consegui cuspir o pelo. Fui enrabada de levitar numa perna só. Isso eu confesso, dói: perder as sete pregas do rabinho. De sair lágrimas.
Um beijo pra ti,
meu confidente.
Maria.
fazia exatos nove meses que eu não dava no coro. Você sabe como é, né? Ser feminista radical tem seus lances. Sou, de fato, uma diabinha. Quem me comeu na última semana, para total contradição da minha ideologia, foi um cara bem machão. Chupei seu pau, lambi seu saco. Foi preciso ser submissa: dócil. Um pentelho enroscou entre os meus dentes. Mas depois que o macho me pegou de quatro no banheirinho, minhas pernas não pararam de tremer por uns dois dias. O bom foi que consegui cuspir o pelo. Fui enrabada de levitar numa perna só. Isso eu confesso, dói: perder as sete pregas do rabinho. De sair lágrimas.
Um beijo pra ti,
meu confidente.
Maria.
27.12.09
o rocambole
Tudo começou quando da colher escorreu um fio de doce de leite sobre as páginas do falcão maltês.
26.12.09
o peru de natal
1
O dia começa pelo som estridente do telefone. O cliente quer mais. Véspera de Natal. Anoto as gramas. Da mais pura. Mas ele sabe que haverá bastante mistura, principalmente aspirina e bicabornato de sódio.
2
Nem bem acordo e reuno a composição enquanto passo o café, que acabou. Daqui a pouco Bianca liga, pedindo um faz-me rir. Bianca é dona de mãos ossudas. E tem um nariz, o qual visto de perfil, me lembra algumas mulheres de Picasso.
3
Sobre a mesa o material necessário pra elaboração da composição sintética. Uma balancinha herdada do avô. Tiro a quantidade exata. Distribuo em saquinhos de evidências, enfio no cu do Peru e limpo o ambiente.
4
Visto uma roupa bonita e desço o elevador.
5
Apanho o buzão.
6
O resto é confidencial. Lamento.
25.12.09
cartão-postal
Puxa vida, Ana,
Por que você não veio passar o natal comigo? No aconchego das cobertas, birita, filminho e só a gente como acompanhante, hein. Ai! você jogou duro comigo ontem. Me aparecendo de shortinho branco e regata púrpura. Era púrpura? Não quis nada. Negou um abraço, beijo neca!
Enfim acabou?
Agora desço a serra pra’quela coisa banal de todos os anos.
Com os meus votos de felicidade
pra toda a família
um beijo.
Por que você não veio passar o natal comigo? No aconchego das cobertas, birita, filminho e só a gente como acompanhante, hein. Ai! você jogou duro comigo ontem. Me aparecendo de shortinho branco e regata púrpura. Era púrpura? Não quis nada. Negou um abraço, beijo neca!
Enfim acabou?
Agora desço a serra pra’quela coisa banal de todos os anos.
Com os meus votos de felicidade
pra toda a família
um beijo.
23.12.09
da contemporaneidade
[...]A senha: "O olho esquerdo de Camões
não vale uma epopéia". (Essa é boa!)
[Paulo Henriques Britto]
[...]
... O rei mandou chamar todos os moços e disse: "Aquele que fizer a bosta mais bonita ganha a mão da minha filha". Camões, homem que conhecia as coisas, um doutor, não ficou correndo às tontas de lá pra cá como os outros. Sabe o que ele fez? Foi a uma plantação de jerimum e comeu jerimum a mais não poder. No dia seguinte todos chegaram diante do Rei carregando a sua bosta dentro de um prato. Era gente a mais não acabar, de formar uma fila que ia das portas do palácio até os cafundós de Pernambuco. Mas a bosta de Camões era a mais bonita, linda, brilhando dentro do prato, vermelha, da cor do jerimum! Ele se apresentou diante do Rei, curvou-se e disse: "Aqui está o que me pediu Senhor meu Reis!" E foi assim que Camões casou com a princesa.
[TAVARES, Zulmira Ribeiro. O nome do Bispo. 2 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991. p. 56-57]
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