12.3.10

por que ver os clássicos



[Edificio Master, de Eduardo Coutinho
2002]

Documentário brasileiro que retrata, através de depoimentos, a vida de moradores do Condomínio Master, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Eduardo Coutinho e sua equipe entrevistaram 37 moradores e conseguiram extrair histórias íntimas e reveladoras de suas vidas. Os moradores expressam seus dramas (e tragédias) pessoais, com emoção e sensibilidade. De forma magistral, Coutinho consegue retirar das pessoas, preciosa declarações de vida e de morte, de sonhos e frustrações. Antes de ser expressão de dramas pessoal, Edifício Máster é um relato sociológico de um País capitalista de modernização inconclusa, sem perspectivas de desenvolvimento, imerso em nostalgia. De certo modo, os jovens que aparecem expressam, através de seus dramas pessoais, a falta de perspectivas de futuro. Por exemplo, uma das jovens diz ter sociofobia. Outra é mãe solteira e garota de programa. E a última, estudante e solitária. Aparece também uma dupla de jovens artistas de Curitiba (PR) que buscam um lugar ao sol no show-business carioca. No documentário de Coutinho é flagrante a presença de casais de meia-idade, homens e mulheres solitárias, idosos aposentados, imersos na memória, de um tempo que passou. É no passado que a maioria das pessoas diz ter vínculos de sucesso, próximos das elites sociais. Por exemplo, um dos personagens do Edifico Master trabalhou nos Estados Unidos e hoje, como lembrança de ter sido quase cidadão norte-americano, canta Frank Sinatra, que um dia chegou a conhecer pessoalmente. Outra, chegou a atender a esposa de Roberto Marinho e teve contato com a high-society carioca. O tempo presente é em certos casos de frustração ou fracasso; em outros depoimentos, de nostalgia e lembrança, pois o Edifico Máster parece ser a última estação da vida para a maior parte dos depoimentos pessoais. Por exemplo, o depoimento de ex-ator de cinema da boca do lixo, que se aposentou por invalidez, devido a acidente de trabalho. Enfim, são muitos os dramas pessoais e cada personagem vivo é pedaço de um projeto de vida (e subdesenvolvimento) da Nação. De certo modo, Edifico Master é uma metáfora da sociedade brasileira na virada para o século XXI. (2005)

[Giovanni Alves - Unesp-Marília]


11.3.10

brisa

[Candido Portinari]

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas
riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avo, teu marido, teu
amante.

Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor tambem.
Mas la' tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.

[Manoel Bandeira. Estrela da Vida Inteira]

6.3.10

processo de criação


I

Da última vez que o autor mexeu no personagem em estágio de construção com cara de coruja que estava engavetado há algum tempo na sua oficina de produção entre alicates, chaves de fenda, martelo, pregos e parafusos: torceu-lhe o pescoço como se torcesse um pano molhado.


3.3.10

por que ver os clássicos



[O homem que virou suco,
de João Batista de Andrade - 1979]



[...]

Bem dizia Zé Limeira: Quem nunca teve um tostão, quando arranja sempre abusa; desconhece os companheiros e é o primeiro que acusa. É como diz o ditado: Quem nunca comeu merda, quando come se lambuza.


2.3.10

toda verdade que se conta tem mentira dentro


você acha que eu estou preocupada
se você vai me ligar ou não?

se liga, camarada!
eu tenho uma luta de classes
a me ocupar.

1.3.10

o chapeuzinho vermelho

[Nossa, chapeuzinho...!]

moral


Aqui se vê que muitas crianças,
principalemente as menininhas,
bonitas, jeitosas, boazinhas,
não fazem bem de a toda gente dar confiança,
e que não é coisa que espanta
se o lobo anda comendo tantas.

Eu digo o lobo, pois tais animais
não são todos iguais;
há os que são de amável humor,
sem ruído, sem fel e sem rancor,
que, mansos, bons, domesticados,
das mocinhas seguem ao lado,
até nas casas, e nos quartos reservados;

Mas cuidado! É sabido: um lobo assim meloso
dos lobos todos é o mais perigoso.

[PERRAULT, Charles. Contos e fábulas. Tradução e posfácio Mário Laranjeira. São Paulo: Iluminuras, 2007. p. 93]


28.2.10

livro dos seres imaginários


II

- Mamãe pelas redondezas da vizinhança andava de treta com um cara. Diziam que ele era esquisito: tinha uma cara de cão todo empelutado; cada unhão no pé cascudo; carregava um caroço nas costas e era alérgico a banho. Parecia um lobisomem. Mas eu nunca o vi.
- E quem dizia isso?
- As más línguas.


27.2.10

café central

[Bill Jay - Tony Ray-Jones
Nova Iorque, 1968]


**

Hoje pela rua uma pétala me atingiu
caiu direto na lapela
da minha camisa de flanela.

puta-que-o-pariu!

[Cesar Felipe]


25.2.10

evocação do poeta



[O habitante de Pasárgada - Fernando Sabino e David Neves,
reapresentação do filme
O poeta do castelo, de Joaquim Pedro de Andrade, 1959]



24.2.10

Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre

Comer é comungar. Ajoelha, orando,
Em frente desse pão, ou duro ou brando.

Antes que o mordas, tigre carniceiro,
Ergue-o na luz, beija-o primeiro!

Depois devora! O pão é corpo e alma
Em corpo e alma
O comerás,
Tigre voraz.


[Oração do pão - Guerra Junqueiro]


o doutor em filosofia e a manicura de doutores

Prendeu-lhe os peitos com as duas mãos nodosas e deu-lhe no corpo um giro de cento e oitenta graus. Depois abriu-a por trás como se partisse o pão do dia. Então entra nela perseguidor e atento. (Desejo sim, sem dúvida; mas muito de falseta.) Ele a persegue por dentro com os seus filosofemas; os açula como a cães de caça no mataréu: Uh! Uh! - silvos e assobios. Ela persegue o sol que é pobre nesse apartamento de inverno com aquecedor Magiclic. Ele a sacode de lá para cá. Ela se deixa levar mas está alerta: cada lâmina de unha - perolada a dele, cintilante a dela - deve bater na outra sem riscar. Ele a sacode lá para cá e resume o seu desespero gritando-lhe, por dentro do túnel clareado azul-noite com seu pênis de ponta-de-farol, que a vida não tem fecho, não tem fecho, não tem fecho. Ela por fim diz sim, sim, sim, sim, com o corpo feroz em arco, sem entender a língua dele, de escalas. O tempo passa. O ar é áspero feito uma lixa. Ele tosse. Ela desliga o Magiclic.

[TAVARES, Zulmira Ribeiro. Cortejo em Abril: ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 72]


22.2.10

dos grandes prosadores


[...]


Os delicados de alma, nos nossos dias, mais do que, em outros quaisquer, estão fatalmente condenados a errar por toda a parte. A grosseria dos processos, a embromação mútua, a hipocrisia e a bajulação, a dependência canina, é o que pede a nossa época para dar felicidade ao jeito burguês.

É a época dos registros e dos tabeliães, mas é o tempo das maiores falsificações; é a época dos códigos, sendo também o tempo das mais vastas ladroeiras; é a época das polícias aperfeiçoadas, apesar de que é o tempo dos crimes monstruosos e impunes; é o tempo dos fiadores, endossantes, etc. verificando-se nele os maiores "calotes"; é a época dos diplomas e das cartas, entretanto, sobretudo, entre nós - é o tempo da mediocridade triunfante, da ignorância arrogante, escondida atrás de diplomas de saber; etc., etc.

[BARRETO, Lima. Histórias e sonhos; edição preparada por Antonio Arnoni Prado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008. p. 244-246]


19.2.10

in média res


... e pra terminar, doutor, quando eu peguei a putinha
assim
pelo pescoço

com estas duas mãos
que deus me deu:

creck!

já era,
igual ossinho de galinha.


18.2.10

cartão-postal

[Johnny Marbelo]

Maria,

me chateia muito saber que naquele dia chuvoso em que apareci na sua porta, duas batidas, uma garrafa de vinho e um ramalhete de flores na mão, você não me receber como a um amigo. Tá certo que apareci sem avisar e um pouco alto. Você estranhou a minha presença, ali, plantado na calçada. O terno ensopado. Notei pela sua cara. Parecia que eu chorava? Pense na chuva como uma metáfora.
Por que não me convidou para entrar? Nem mesmo me ofereceu uma toalha para eu poder enxugar a minha alma.
Você foi grossa comigo. Bateu a porta. Daí eu vaguei, por uns instantes, pela sua rua, sem saber qual direção tomar. Eu parecia um barco bêbado sendo carregado pela enxurrada. Mas fique sabendo, Maria, que eu estava disposto a te pedir em namoro. Tá certo que é uma coisa piegas, ainda mais nestes tempos pós-modernos. Veja, não dá pra gente ficar saindo e vendo as pessoas num frenesi louco. Como diria o filósofo, são os tempos da efemeridade.
Pense a respeito.

Um beijo do teu sempre
Ulissezinho.


14.2.10

ao respeitável público


Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!


Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…

Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!

Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma.

Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitoras; por que é que, no meio de tanta gente, vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto.

Portanto, se a senhorita é bastante teimosa, se o cavalheiro é bastante cabeçudo para me ter lido até aqui, pensem um pouco, sejam bem-educados e dêem o fora. Eu faço votos para que todos vocês amanheçam amanhã atacados de febre amarela ou de tifo exantemático. Se houvesse micróbios que eu pudesse lhes transmitir assim, através do Jornal, pelos olhos, fiquem sabendo que hoje eu lhes mandaria as piores doenças: tracoma, por exemplo.

Mas ainda insistem? Ah, se eu pudesse escrever aqui alguns insultos e adjetivos que tenho no bico da pena! Eu lhes garanto que não são palavras nada amáveis: são dessas que ofendem toda a família. Mas não posso e não devo. Eu tenho de suportar vocês diariamente, sem descanso e sem remédio. Vocês podem virar a página, podem fugir de mim quando entenderem. Eu tenho de estar aqui todo dia, exposto à curiosidade estúpida ou à indiferença humilhante de dezenas de milhares de pessoas.

Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto, não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto. Mas eu quero hoje precisamente falar claro a vocês todos. Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais.

Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.

Até amanhã. Passem mal.

[BRAGA, Rubem. O conde e o passarinho & Morro do Isolamento - Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 24-26]


11.2.10

você não passa de um livro


do gênero novela

não foi lido
não te manusearam
nem te cheiraram

no fim da história, segundo folheei rapidamente,
tinha um coração abandonado.

Evidentemente, era uma figura de linguagem.


9.2.10

leia antes de amadurecer

[prato leve para o Abaporu]

**

!SEAN BREVES Y CRUELES, ANTROPÓFAGOS!

[Nanterre]


7.2.10

cronopiando

El marfil de la torre


En el año 1959, los Estados Unidos obtuvieron en América Latina 775 millones de dólares de beneficios por concepto de inversiones privadas, de los cuales reinvirtieron 200 y guardaron 575.


(De un acta oficial de la UNCTAD,
Conferencia de Nueva Delhi, 1968)

SIN EMBARGO
el escritor latinoamericano
debe escribir tan sólo


lo que su vocación le dicte

sin entrar en cuestiones
que son de la exclusiva competencia
de los economistas.



[CORTÁZAR, Julio. Último round. México: siglo veintiuno editores, 1969. p. 149]


3.2.10

exercício de composição

[...]

Eu luto. Estou brigando comigo dum modo tão feroz que até às vezes me assusta. E o mais terrível é que pela primeira vez na minha vida não tenho mais aquela bonita certeza de vencer que foi o que sempre me deu todas as minhas vitórias sobre mim e sobre essa danada de vida. Tudo isso afinal significará pra você que a minha felicidade está muito desbaratada agora. Está sim e chegou o momento em que para alguns, por orgulho ou por utilidade prática, sou obrigado a fingir que ela permanece intata. Isso pelo menos me dá uma vitoriosa certeza do passado em que agora sei que fui realmente duma felicidade conquistada que o Manuel Bandeira tanto duvidava possível de mim. Agora ando aprendendo a fingir felicidade, cheguei nisso. Por isso eu te agradeço abraçado o prazer imenso que o seu livro me deu. Você foi o amigo que veio na grande ocasião.

[Mário de Andrade]


1.2.10

por que ver os clássicos



[Federico Fellini - Amarcord, 1973]


29.1.10

dos grandes prosadores

[1892-1953]

[...]

Não se distinguia nenhum ruído fora a cantiga dos sapos do açude da Penha - vozes agudas, graves, lentas, apressadas, e no meio delas o berro do sapo-boi, bicho terrível que morde como cachorro e, se pega um cristão, só o larga quando o sino toca. Foi Rosenda lavadeira quem me explicou isto. Admirável sino. Como seria o sapo-boi? Pelas informações, possuía natureza igual à natureza humana. Esquisito. Se eu pudesse correr, sair de casa, molhar-me, enlamear-me, deitar barquinhos no enxurro e fabricar edifícios na areia, como o Sabiá novo, certamente não pensaria nessas coisas. Seria uma criatura viva, alegre. Só, encolhido, o jeito que tinha era ocupar-me com o sapo-boi, quase gente, sensível aos sinos. Nunca os sinos me haviam impressionado.

[RAMOS, Graciliano. Infância. Círculo do livro. s/d. p. 56-57]


28.1.10

minhas criancinhas


eu vou lhes contar uma história e depois
chispa!

Cama.

Era uma vez um homem estopa.
Mergulhado num saco junto de outras estopas.
Branquinhas como peles de coelho.

Mas eis que chega levantado do chão imundo todo de graxa o mecânico trejeitão e
RUAO!