I
As dobras do carrapato
eram barrocas.
As dobras do carrapato
eram barrocas.
- rádio linha de fuga - agenciamento teoria - vida - prática - grupo - sexo - solidão - máquina - ternura - Cê entende, cara, a batalha semiológica -

Escrevo o idioleto manoelês archaico I (Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras alguma solenidade - uso bosta.) Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão.
____________
I Falar em archaico: aprecio uma desviação ortográfica para o archaico. Estâmago por estômago. Celeusma por celeuma. Seja este um gosto que vem de detrás. Das minhas memórias fósseis. Ouvir estâmgo produz uma ressonância atávica dentro de mim. Coisa que sonha de retravés.[BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 11 ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 43]

[...]
A palavra "crítica" deriva do verbo grego krínein, que significa "decidir". Seu equivalente em latim é cernere, que, além de "decidir", significa também, como é fácil perceber, "discernir". Outras derivações gregas da palavra são: krités, que significa "juiz"; kritikós (que por sua vez deriva de krités), que se refere à pessoa capaz de elaborar juízos ou proceder a julgamentos, concluindo por uma decisão, ou seja, por uma avaliação judiciosa destinada a orientar as ações que dada comunidade deve empreender; outra óbvia derivação do mesmo termo grego é kritérion, que são os fundamentos relativos aos valores mais elevados de uma sociedade, em nome e em função dos quais os juízos e as críticas são feitos, os julgamentos são conduzidos e as decisões são tomadas. Daí se conclui que uma comunidade que perca sua capacidade crítica perde junto sua identidade, vê dissolver-se sua substância espiritual e extraviar-se seu destino. Curiosamente, outra das derivações da palavra grega em questão é krisis, significando o vácuo desorientador que se estabelece quando os critérios que orientam os juízos, por alguma calamidade histórica, política ou natural, se veem suspensos, abolidos ou anulados.
[SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 18-19]
[...]
Se os estudiosos, formadores de opinião e fontes de pesquisas academicas são preconceituosos e antiéticos [...] o que será de nós os herdeiros dessa informação?
[Banski]Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas
riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avo, teu marido, teu
amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor tambem.
Mas la' tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
[...]Bem dizia Zé Limeira: Quem nunca teve um tostão, quando arranja sempre abusa; desconhece os companheiros e é o primeiro que acusa. É como diz o ditado: Quem nunca comeu merda, quando come se lambuza.
Prendeu-lhe os peitos com as duas mãos nodosas e deu-lhe no corpo um giro de cento e oitenta graus. Depois abriu-a por trás como se partisse o pão do dia. Então entra nela perseguidor e atento. (Desejo sim, sem dúvida; mas muito de falseta.) Ele a persegue por dentro com os seus filosofemas; os açula como a cães de caça no mataréu: Uh! Uh! - silvos e assobios. Ela persegue o sol que é pobre nesse apartamento de inverno com aquecedor Magiclic. Ele a sacode de lá para cá. Ela se deixa levar mas está alerta: cada lâmina de unha - perolada a dele, cintilante a dela - deve bater na outra sem riscar. Ele a sacode lá para cá e resume o seu desespero gritando-lhe, por dentro do túnel clareado azul-noite com seu pênis de ponta-de-farol, que a vida não tem fecho, não tem fecho, não tem fecho. Ela por fim diz sim, sim, sim, sim, com o corpo feroz em arco, sem entender a língua dele, de escalas. O tempo passa. O ar é áspero feito uma lixa. Ele tosse. Ela desliga o Magiclic.
[...]
Os delicados de alma, nos nossos dias, mais do que, em outros quaisquer, estão fatalmente condenados a errar por toda a parte. A grosseria dos processos, a embromação mútua, a hipocrisia e a bajulação, a dependência canina, é o que pede a nossa época para dar felicidade ao jeito burguês.
É a época dos registros e dos tabeliães, mas é o tempo das maiores falsificações; é a época dos códigos, sendo também o tempo das mais vastas ladroeiras; é a época das polícias aperfeiçoadas, apesar de que é o tempo dos crimes monstruosos e impunes; é o tempo dos fiadores, endossantes, etc. verificando-se nele os maiores "calotes"; é a época dos diplomas e das cartas, entretanto, sobretudo, entre nós - é o tempo da mediocridade triunfante, da ignorância arrogante, escondida atrás de diplomas de saber; etc., etc.
do gênero novela