[Le locataire, de Roman Polanski, 1976]
14.4.10
13.4.10
o processo
I
Os isqueiros andam pifando num estalo.
De uso.
Logo me devem uma indenização.
II
A princípio eu iria enviar uma reclamação ao SAC,
mas pensando bem, processa-los-ei por danos morais e materiais.
III
O Procon foi acionado.
IV
No entanto, creio que deverei contratar um advogado para as funções honoríficas.
Minha defesa contra a BIC está sendo preparada.
12.4.10
contos da padoca
I
- Olhe ao lado.
- O que? Onde?
- Não, a tua direita. Duas mesas atrás.
- O que tem?
- Não parece o Lou Reed?
- O próprio. Agora passa o açucar.
11.4.10
sem solenidade
Acertei-lhe três murros na cara
e um no estômago.
Deu-se assim
o nosso primeiro encontro.
10.4.10
das epígrafes
Fuck you. Fuck you. Fuck you for rejecting me by never being there, fuck you for making me feel shit about myself, fuck you for bleeding fucking love and life out of me, fuck my father for fucking up my life for good and fuck my mother for not leaving him, but most of all, fuck you God for making me love a person who does not exist, FUCK YOU FUCK YOU FUCK YOU.
[CALIXTO, Fabiano. Sanguínea. São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 85]
7.4.10
dos olhos às mentes: designers do século XX
[...]
... agora os indivíduos não serão mais avaliados pelas suas qualidades mais pessoais ou pelas diferenças que tornam única a sua personalidade. Não há tempo nem espaço para isso. Nessas grandes metrópoles em rápido crescimento, todos vieram de algum outro lugar; portanto, praticamente ninguém conhece ninguém, cada qual tem uma história à parte, e são tantos e estão todos o tempo todo tão ocupados, que a forma prática de identificar e conhecer os outros é a mais rápida e direta: pela maneira como se vestem, pelos obejtos simbólicos que exibem, pelo modo e pelo tom com que falam, pelo seu jeito de se comportar.
Ou seja, a comunicação básica, aquela que precede a fala e estabelece as condições de aproximação, é toda ela externa e baseada em símbolos exteriores. Como esses códigos mudam com extrema rapidez, extamente para evitar que alguém possa imitar ou representar características e posição que não condizem com sua real condição, estamos já no império da moda. As pessoas são aquilo que consomem. O fundamental da comunicação - o potencial de atrair e cativar - já não está mais concentrado nas qualidades humanas da pessoa, mas na qualidade das mercadorias que ela ostenta, no capital aplicado não só em vestuário, adereços e objetos pessoais, mas também nos recursos e no tempo livre empenhados no desenvolvimento e na modelagem de seu corpo, na sua educação e no aperfeiçoamento de suas habilidades de expressão. Em outras palavras, sua visibilidade social e seu poder de sedução são diretamente proporcionais ao seu poder de compra.
[SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 63 e 64]
6.4.10
canibalismo amoroso
ah! meu amigo
me chame pra qualquer coisa, neste dia frio e úmido, nem que seja
pra gente maldizer a mulher que nos negou.
pra gente embebido, já madrugada, cair morto no sofá.
pra gente cheios de cocaína sentir bater no peito o coração o ser e o nada.
pra gente fumar e sobre nossas cabeças a fumaça se evaporar
lenta
devagar
como deve ser a vida.
meu amigo, posso eu sonhar?
ah! meu amigo,
façamos o trato de alugar um quarto com cama para que possamos
levar a mulher odiada e seu corpo que deve ter o gesto mais bonito
(entre os cabelos a mão,
a boca que emite uma voz, o umbigo depois os olhos, um joelho
entre outras coisas que não acho necessário contar)
que nos fará dentre os homens o mais homem.
no quarto alugado, meu amigo
tocaremos violão,
cantaremos
na pieguice em dose alta.
e pode chorar. chora.
e se der, meu amigo, te dou o meu ombro
pra você enconstar.
E se desejar ainda petiscar, meu amigo,
pode comê-lo.
5.4.10
esta mulher fala a minha linguagem
olha que bonitinhos os dois, cheios de sonhos pequeno-burgueses. vão se casar.
estão apaixonados?
não, querem acumular capital.
estão apaixonados?
não, querem acumular capital.
IN CITO
§ "O casamento é a única aventura aberta aos cobardes." - Voltaire
§ "Um bom casamento exige que o homem seja surdo e a mulher seja cega." - Sócrates
§ "Todo o marido tem a infidelidade que merece." - Zelda Popkin
§ "É estranho confessar o prazer que nós, gente casada, sentimos ao ver esses pobres idiotas a caírem na armadilha da nossa situação." - Samuel Pepys (Diary)
§ "Amor é uma forma de insanidade temporária, curável pelo casamento ou pelo afastamento do doente das proximidades da fonte do mal." - Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo
§ "Todo o marido tem a infidelidade que merece." - Zelda Popkin
§ "É estranho confessar o prazer que nós, gente casada, sentimos ao ver esses pobres idiotas a caírem na armadilha da nossa situação." - Samuel Pepys (Diary)
§ "Amor é uma forma de insanidade temporária, curável pelo casamento ou pelo afastamento do doente das proximidades da fonte do mal." - Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo
perdendo tempo
O oportunismo de Miguel Sanches Neto utilizando-se da figura de Dalton Trevisan me causa enfado como os próprios textos sem sal do escritor de Chove sobre a minha infância.
Isso não é vingança. É antes de tudo marketing para se aparecer, já que ninguém, imagino, lê suas ficçõezinhas.
Isso não é vingança. É antes de tudo marketing para se aparecer, já que ninguém, imagino, lê suas ficçõezinhas.
3.4.10
de lá pra cá
Volto para casa de madrugada, cheio de poeira, junto com dezenas, centenas de batalhadores para a cultura, e notícias como essa dão nojo, porque nunca é contemplado quem está na lida com o povo, quem representa uma identidade autêntica, melhor premiar revistas ordinárias, eternizar a falta de carácter jornalistico, do que potencializar Coyotes, Cartas Capitais, Caros Amigos, para que? para fazer o povo pensar? melhor ficar com a capa global, com a luxuria nojenta de protecionismo. Estamos indignados, e isso vai mais longe, porque escritores também são problemáticos, pode apostar.[Ferréz]
**
No segundo semestre do ano passado o Ministério da Cultura lançou o edital para Periódicos de Conteúdo Cultural. Não sei se revistas literárias como Babel (Santos), Ontem choveu no futuro (Campo Grande), Entretanto (Recife), Polichinelo (Belém), revistas pequenas e de grande qualidade, foram inscritas. A Coyote foi.
Esta semana saiu o resultado. Os vencedores: Rolling Stone (que tem na capa da edição de março o apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial), levou R$ 524 mil. A Cult, R$ 504 mil, a Brasileiros, R$ 441 mil e a Piauí, R$ 399 mil.
De um lado, revistas comerciais, de mercado, que se sustentam com vendas e anúncios. De outro, revistas de pequena estrutura, sem a menor chance de sobrevivência na rapina do mercado e que realmente veiculam conteúdos altamente culturais.
Como a distinta platéia sabe, revistas literárias no Brasil, desde o tempo da Klaxon (dos modernistas), da Revista de Antropofagia (de Oswald de Andrade), e da Joaquim (de Dalton Trevisan), têm vida breve. Apesar da qualidade (internacional!) morrem a míngua pela falta de recursos. E o Ministério da Cultura, contrariando todo o seu discurso, preferiu injetar recursos nas revistas de mercado e virar as costas para as revistas literárias, de pequena ou nenhuma estrutura, feitas invariavelmente por poetas e escritores, que publicam o que há de melhor e mais radical na literatura brasileira, e que lutam heroicamente para se manterem vivas.
Nos discursos, a equipe ministerial até já não se esquece de incluir a literatura quando fala de políticas públicas para a cultura. Na prática, continua cagando e andando para os escritores.
Esta semana saiu o resultado. Os vencedores: Rolling Stone (que tem na capa da edição de março o apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial), levou R$ 524 mil. A Cult, R$ 504 mil, a Brasileiros, R$ 441 mil e a Piauí, R$ 399 mil.
De um lado, revistas comerciais, de mercado, que se sustentam com vendas e anúncios. De outro, revistas de pequena estrutura, sem a menor chance de sobrevivência na rapina do mercado e que realmente veiculam conteúdos altamente culturais.
Como a distinta platéia sabe, revistas literárias no Brasil, desde o tempo da Klaxon (dos modernistas), da Revista de Antropofagia (de Oswald de Andrade), e da Joaquim (de Dalton Trevisan), têm vida breve. Apesar da qualidade (internacional!) morrem a míngua pela falta de recursos. E o Ministério da Cultura, contrariando todo o seu discurso, preferiu injetar recursos nas revistas de mercado e virar as costas para as revistas literárias, de pequena ou nenhuma estrutura, feitas invariavelmente por poetas e escritores, que publicam o que há de melhor e mais radical na literatura brasileira, e que lutam heroicamente para se manterem vivas.
Nos discursos, a equipe ministerial até já não se esquece de incluir a literatura quando fala de políticas públicas para a cultura. Na prática, continua cagando e andando para os escritores.
1.4.10
30.3.10
dos polegares
27.3.10
manu

Escrevo o idioleto manoelês archaico I (Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras alguma solenidade - uso bosta.) Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão.
____________
I Falar em archaico: aprecio uma desviação ortográfica para o archaico. Estâmago por estômago. Celeusma por celeuma. Seja este um gosto que vem de detrás. Das minhas memórias fósseis. Ouvir estâmgo produz uma ressonância atávica dentro de mim. Coisa que sonha de retravés.[BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 11 ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 43]
23.3.10
22.3.10
querido diário
Curitiba, 21 de março de 2010
Ontem almocei com um amigo. Matei uma puta saudade. Depois, voltando pra casa, alta da noite, trombei com um camarada na esquina entre a Marechal Floriano e Marechal Deodoro. Debaixo da marquise do Unibanco. Fumamos cigarros, enganamos o tempo e tipo assim: falou! cada um pegou seu rumo. Sem o bonde e sem a esperança.
Vi também que operários trabalhavam na reforma da C&A. O relógio confirmava, eram 23:30h.
E não beijei ninguém na boca.
Puxa vida!
Vi também que operários trabalhavam na reforma da C&A. O relógio confirmava, eram 23:30h.
E não beijei ninguém na boca.
Puxa vida!
21.3.10
virando séculos

[...]
A palavra "crítica" deriva do verbo grego krínein, que significa "decidir". Seu equivalente em latim é cernere, que, além de "decidir", significa também, como é fácil perceber, "discernir". Outras derivações gregas da palavra são: krités, que significa "juiz"; kritikós (que por sua vez deriva de krités), que se refere à pessoa capaz de elaborar juízos ou proceder a julgamentos, concluindo por uma decisão, ou seja, por uma avaliação judiciosa destinada a orientar as ações que dada comunidade deve empreender; outra óbvia derivação do mesmo termo grego é kritérion, que são os fundamentos relativos aos valores mais elevados de uma sociedade, em nome e em função dos quais os juízos e as críticas são feitos, os julgamentos são conduzidos e as decisões são tomadas. Daí se conclui que uma comunidade que perca sua capacidade crítica perde junto sua identidade, vê dissolver-se sua substância espiritual e extraviar-se seu destino. Curiosamente, outra das derivações da palavra grega em questão é krisis, significando o vácuo desorientador que se estabelece quando os critérios que orientam os juízos, por alguma calamidade histórica, política ou natural, se veem suspensos, abolidos ou anulados.
[SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 18-19]
19.3.10
sociolinguística
[Preconceito Linguístico - uma retextualização do livro, de Marcos Bagno, elaborado pela DOIS: Mariane Rocigno e Silvio Crisóstomo]
[...]
Se os estudiosos, formadores de opinião e fontes de pesquisas academicas são preconceituosos e antiéticos [...] o que será de nós os herdeiros dessa informação?
13.3.10
na sala de aula
[Banski]Para os alunos do Terceiro Ano do Ensino Médio:
a atividade consiste em distribuir à clientela burguesa frequentadora do estabelcimento conhecido como Mac Donald's pequenos folders ilustrativos da figura acima. Espalhar pelas mesas, colar nos banheiros e apresentar aos próprios funcionários da empresa de serviço rápido de alimentação servirão de crítica ao imperialismo americano.
Valor da atividade: 10 pontos.
Objetivo: Fazer com que a classe consumidora tome consciência do sistema capitalista o qual, conforme foi percebido pelas aulas introdutórias de história e sociologia, é sanguinário.
Contextualização: Guerra do Vietnã e Guerra Fria.
Intertextualidade: Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, 1979.
Leitura: Os homens ocos, de T. S. Eliot; O analfabeto político, de Bertolt Brecht; Poema Brasileiro, de Ferreira Gullar.
Valor da atividade: 10 pontos.
Objetivo: Fazer com que a classe consumidora tome consciência do sistema capitalista o qual, conforme foi percebido pelas aulas introdutórias de história e sociologia, é sanguinário.
Contextualização: Guerra do Vietnã e Guerra Fria.
Intertextualidade: Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola, 1979.
Leitura: Os homens ocos, de T. S. Eliot; O analfabeto político, de Bertolt Brecht; Poema Brasileiro, de Ferreira Gullar.
12.3.10
por que ver os clássicos
[Edificio Master, de Eduardo Coutinho
2002]
2002]
Documentário brasileiro que retrata, através de depoimentos, a vida de moradores do Condomínio Master, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Eduardo Coutinho e sua equipe entrevistaram 37 moradores e conseguiram extrair histórias íntimas e reveladoras de suas vidas. Os moradores expressam seus dramas (e tragédias) pessoais, com emoção e sensibilidade. De forma magistral, Coutinho consegue retirar das pessoas, preciosa declarações de vida e de morte, de sonhos e frustrações. Antes de ser expressão de dramas pessoal, Edifício Máster é um relato sociológico de um País capitalista de modernização inconclusa, sem perspectivas de desenvolvimento, imerso em nostalgia. De certo modo, os jovens que aparecem expressam, através de seus dramas pessoais, a falta de perspectivas de futuro. Por exemplo, uma das jovens diz ter sociofobia. Outra é mãe solteira e garota de programa. E a última, estudante e solitária. Aparece também uma dupla de jovens artistas de Curitiba (PR) que buscam um lugar ao sol no show-business carioca. No documentário de Coutinho é flagrante a presença de casais de meia-idade, homens e mulheres solitárias, idosos aposentados, imersos na memória, de um tempo que passou. É no passado que a maioria das pessoas diz ter vínculos de sucesso, próximos das elites sociais. Por exemplo, um dos personagens do Edifico Master trabalhou nos Estados Unidos e hoje, como lembrança de ter sido quase cidadão norte-americano, canta Frank Sinatra, que um dia chegou a conhecer pessoalmente. Outra, chegou a atender a esposa de Roberto Marinho e teve contato com a high-society carioca. O tempo presente é em certos casos de frustração ou fracasso; em outros depoimentos, de nostalgia e lembrança, pois o Edifico Máster parece ser a última estação da vida para a maior parte dos depoimentos pessoais. Por exemplo, o depoimento de ex-ator de cinema da boca do lixo, que se aposentou por invalidez, devido a acidente de trabalho. Enfim, são muitos os dramas pessoais e cada personagem vivo é pedaço de um projeto de vida (e subdesenvolvimento) da Nação. De certo modo, Edifico Master é uma metáfora da sociedade brasileira na virada para o século XXI. (2005)
[Giovanni Alves - Unesp-Marília]
11.3.10
brisa
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas
riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avo, teu marido, teu
amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor tambem.
Mas la' tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
[Manoel Bandeira. Estrela da Vida Inteira]
6.3.10
processo de criação
I
Da última vez que o autor mexeu no personagem em estágio de construção com cara de coruja que estava engavetado há algum tempo na sua oficina de produção entre alicates, chaves de fenda, martelo, pregos e parafusos: torceu-lhe o pescoço como se torcesse um pano molhado.
3.3.10
por que ver os clássicos
[O homem que virou suco,
de João Batista de Andrade - 1979]
de João Batista de Andrade - 1979]
[...]Bem dizia Zé Limeira: Quem nunca teve um tostão, quando arranja sempre abusa; desconhece os companheiros e é o primeiro que acusa. É como diz o ditado: Quem nunca comeu merda, quando come se lambuza.
2.3.10
toda verdade que se conta tem mentira dentro
você acha que eu estou preocupada
se você vai me ligar ou não?
se liga, camarada!
eu tenho uma luta de classes
a me ocupar.
1.3.10
o chapeuzinho vermelho
moral
Aqui se vê que muitas crianças,
principalemente as menininhas,
bonitas, jeitosas, boazinhas,
não fazem bem de a toda gente dar confiança,
e que não é coisa que espanta
se o lobo anda comendo tantas.
Eu digo o lobo, pois tais animais
não são todos iguais;
há os que são de amável humor,
sem ruído, sem fel e sem rancor,
que, mansos, bons, domesticados,
das mocinhas seguem ao lado,
até nas casas, e nos quartos reservados;
Mas cuidado! É sabido: um lobo assim meloso
dos lobos todos é o mais perigoso.
[PERRAULT, Charles. Contos e fábulas. Tradução e posfácio Mário Laranjeira. São Paulo: Iluminuras, 2007. p. 93]
28.2.10
livro dos seres imaginários
II
- Mamãe pelas redondezas da vizinhança andava de treta com um cara. Diziam que ele era esquisito: tinha uma cara de cão todo empelutado; cada unhão no pé cascudo; carregava um caroço nas costas e era alérgico a banho. Parecia um lobisomem. Mas eu nunca o vi.
- E quem dizia isso?
- As más línguas.
- E quem dizia isso?
- As más línguas.
27.2.10
25.2.10
evocação do poeta
[O habitante de Pasárgada - Fernando Sabino e David Neves,
reapresentação do filme O poeta do castelo, de Joaquim Pedro de Andrade, 1959]
reapresentação do filme O poeta do castelo, de Joaquim Pedro de Andrade, 1959]
24.2.10
Porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre
Comer é comungar. Ajoelha, orando,
Em frente desse pão, ou duro ou brando.
Antes que o mordas, tigre carniceiro,
Ergue-o na luz, beija-o primeiro!
Depois devora! O pão é corpo e alma
Em corpo e alma
O comerás,
Tigre voraz.
[Oração do pão - Guerra Junqueiro]
Em frente desse pão, ou duro ou brando.
Antes que o mordas, tigre carniceiro,
Ergue-o na luz, beija-o primeiro!
Depois devora! O pão é corpo e alma
Em corpo e alma
O comerás,
Tigre voraz.
[Oração do pão - Guerra Junqueiro]
o doutor em filosofia e a manicura de doutores
Prendeu-lhe os peitos com as duas mãos nodosas e deu-lhe no corpo um giro de cento e oitenta graus. Depois abriu-a por trás como se partisse o pão do dia. Então entra nela perseguidor e atento. (Desejo sim, sem dúvida; mas muito de falseta.) Ele a persegue por dentro com os seus filosofemas; os açula como a cães de caça no mataréu: Uh! Uh! - silvos e assobios. Ela persegue o sol que é pobre nesse apartamento de inverno com aquecedor Magiclic. Ele a sacode de lá para cá. Ela se deixa levar mas está alerta: cada lâmina de unha - perolada a dele, cintilante a dela - deve bater na outra sem riscar. Ele a sacode lá para cá e resume o seu desespero gritando-lhe, por dentro do túnel clareado azul-noite com seu pênis de ponta-de-farol, que a vida não tem fecho, não tem fecho, não tem fecho. Ela por fim diz sim, sim, sim, sim, com o corpo feroz em arco, sem entender a língua dele, de escalas. O tempo passa. O ar é áspero feito uma lixa. Ele tosse. Ela desliga o Magiclic.
[TAVARES, Zulmira Ribeiro. Cortejo em Abril: ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 72]
22.2.10
dos grandes prosadores
[...]
Os delicados de alma, nos nossos dias, mais do que, em outros quaisquer, estão fatalmente condenados a errar por toda a parte. A grosseria dos processos, a embromação mútua, a hipocrisia e a bajulação, a dependência canina, é o que pede a nossa época para dar felicidade ao jeito burguês.
É a época dos registros e dos tabeliães, mas é o tempo das maiores falsificações; é a época dos códigos, sendo também o tempo das mais vastas ladroeiras; é a época das polícias aperfeiçoadas, apesar de que é o tempo dos crimes monstruosos e impunes; é o tempo dos fiadores, endossantes, etc. verificando-se nele os maiores "calotes"; é a época dos diplomas e das cartas, entretanto, sobretudo, entre nós - é o tempo da mediocridade triunfante, da ignorância arrogante, escondida atrás de diplomas de saber; etc., etc.
[BARRETO, Lima. Histórias e sonhos; edição preparada por Antonio Arnoni Prado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008. p. 244-246]
19.2.10
in média res
18.2.10
cartão-postal
Maria,
me chateia muito saber que naquele dia chuvoso em que apareci na sua porta, duas batidas, uma garrafa de vinho e um ramalhete de flores na mão, você não me receber como a um amigo. Tá certo que apareci sem avisar e um pouco alto. Você estranhou a minha presença, ali, plantado na calçada. O terno ensopado. Notei pela sua cara. Parecia que eu chorava? Pense na chuva como uma metáfora.
Por que não me convidou para entrar? Nem mesmo me ofereceu uma toalha para eu poder enxugar a minha alma.
Você foi grossa comigo. Bateu a porta. Daí eu vaguei, por uns instantes, pela sua rua, sem saber qual direção tomar. Eu parecia um barco bêbado sendo carregado pela enxurrada. Mas fique sabendo, Maria, que eu estava disposto a te pedir em namoro. Tá certo que é uma coisa piegas, ainda mais nestes tempos pós-modernos. Veja, não dá pra gente ficar saindo e vendo as pessoas num frenesi louco. Como diria o filósofo, são os tempos da efemeridade.
Pense a respeito.
Um beijo do teu sempre
Ulissezinho.
me chateia muito saber que naquele dia chuvoso em que apareci na sua porta, duas batidas, uma garrafa de vinho e um ramalhete de flores na mão, você não me receber como a um amigo. Tá certo que apareci sem avisar e um pouco alto. Você estranhou a minha presença, ali, plantado na calçada. O terno ensopado. Notei pela sua cara. Parecia que eu chorava? Pense na chuva como uma metáfora.
Por que não me convidou para entrar? Nem mesmo me ofereceu uma toalha para eu poder enxugar a minha alma.
Você foi grossa comigo. Bateu a porta. Daí eu vaguei, por uns instantes, pela sua rua, sem saber qual direção tomar. Eu parecia um barco bêbado sendo carregado pela enxurrada. Mas fique sabendo, Maria, que eu estava disposto a te pedir em namoro. Tá certo que é uma coisa piegas, ainda mais nestes tempos pós-modernos. Veja, não dá pra gente ficar saindo e vendo as pessoas num frenesi louco. Como diria o filósofo, são os tempos da efemeridade.
Pense a respeito.
Um beijo do teu sempre
Ulissezinho.
14.2.10
ao respeitável público
Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!
Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…
Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!
Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma.
Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitoras; por que é que, no meio de tanta gente, vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto.
Portanto, se a senhorita é bastante teimosa, se o cavalheiro é bastante cabeçudo para me ter lido até aqui, pensem um pouco, sejam bem-educados e dêem o fora. Eu faço votos para que todos vocês amanheçam amanhã atacados de febre amarela ou de tifo exantemático. Se houvesse micróbios que eu pudesse lhes transmitir assim, através do Jornal, pelos olhos, fiquem sabendo que hoje eu lhes mandaria as piores doenças: tracoma, por exemplo.
Mas ainda insistem? Ah, se eu pudesse escrever aqui alguns insultos e adjetivos que tenho no bico da pena! Eu lhes garanto que não são palavras nada amáveis: são dessas que ofendem toda a família. Mas não posso e não devo. Eu tenho de suportar vocês diariamente, sem descanso e sem remédio. Vocês podem virar a página, podem fugir de mim quando entenderem. Eu tenho de estar aqui todo dia, exposto à curiosidade estúpida ou à indiferença humilhante de dezenas de milhares de pessoas.
Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto, não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto. Mas eu quero hoje precisamente falar claro a vocês todos. Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais.
Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.
Até amanhã. Passem mal.
[BRAGA, Rubem. O conde e o passarinho & Morro do Isolamento - Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 24-26]
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