14.2.10

ao respeitável público


Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!


Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor…

Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!

Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma.

Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitoras; por que é que, no meio de tanta gente, vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto.

Portanto, se a senhorita é bastante teimosa, se o cavalheiro é bastante cabeçudo para me ter lido até aqui, pensem um pouco, sejam bem-educados e dêem o fora. Eu faço votos para que todos vocês amanheçam amanhã atacados de febre amarela ou de tifo exantemático. Se houvesse micróbios que eu pudesse lhes transmitir assim, através do Jornal, pelos olhos, fiquem sabendo que hoje eu lhes mandaria as piores doenças: tracoma, por exemplo.

Mas ainda insistem? Ah, se eu pudesse escrever aqui alguns insultos e adjetivos que tenho no bico da pena! Eu lhes garanto que não são palavras nada amáveis: são dessas que ofendem toda a família. Mas não posso e não devo. Eu tenho de suportar vocês diariamente, sem descanso e sem remédio. Vocês podem virar a página, podem fugir de mim quando entenderem. Eu tenho de estar aqui todo dia, exposto à curiosidade estúpida ou à indiferença humilhante de dezenas de milhares de pessoas.

Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto, não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto. Mas eu quero hoje precisamente falar claro a vocês todos. Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais.

Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.

Até amanhã. Passem mal.

[BRAGA, Rubem. O conde e o passarinho & Morro do Isolamento - Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 24-26]


11.2.10

você não passa de um livro


do gênero novela

não foi lido
não te manusearam
nem te cheiraram

no fim da história, segundo folheei rapidamente,
tinha um coração abandonado.

Evidentemente, era uma figura de linguagem.


9.2.10

leia antes de amadurecer

[prato leve para o Abaporu]

**

!SEAN BREVES Y CRUELES, ANTROPÓFAGOS!

[Nanterre]


7.2.10

cronopiando

El marfil de la torre


En el año 1959, los Estados Unidos obtuvieron en América Latina 775 millones de dólares de beneficios por concepto de inversiones privadas, de los cuales reinvirtieron 200 y guardaron 575.


(De un acta oficial de la UNCTAD,
Conferencia de Nueva Delhi, 1968)

SIN EMBARGO
el escritor latinoamericano
debe escribir tan sólo


lo que su vocación le dicte

sin entrar en cuestiones
que son de la exclusiva competencia
de los economistas.



[CORTÁZAR, Julio. Último round. México: siglo veintiuno editores, 1969. p. 149]


3.2.10

exercício de composição

[...]

Eu luto. Estou brigando comigo dum modo tão feroz que até às vezes me assusta. E o mais terrível é que pela primeira vez na minha vida não tenho mais aquela bonita certeza de vencer que foi o que sempre me deu todas as minhas vitórias sobre mim e sobre essa danada de vida. Tudo isso afinal significará pra você que a minha felicidade está muito desbaratada agora. Está sim e chegou o momento em que para alguns, por orgulho ou por utilidade prática, sou obrigado a fingir que ela permanece intata. Isso pelo menos me dá uma vitoriosa certeza do passado em que agora sei que fui realmente duma felicidade conquistada que o Manuel Bandeira tanto duvidava possível de mim. Agora ando aprendendo a fingir felicidade, cheguei nisso. Por isso eu te agradeço abraçado o prazer imenso que o seu livro me deu. Você foi o amigo que veio na grande ocasião.

[Mário de Andrade]


1.2.10

por que ver os clássicos



[Federico Fellini - Amarcord, 1973]


29.1.10

dos grandes prosadores

[1892-1953]

[...]

Não se distinguia nenhum ruído fora a cantiga dos sapos do açude da Penha - vozes agudas, graves, lentas, apressadas, e no meio delas o berro do sapo-boi, bicho terrível que morde como cachorro e, se pega um cristão, só o larga quando o sino toca. Foi Rosenda lavadeira quem me explicou isto. Admirável sino. Como seria o sapo-boi? Pelas informações, possuía natureza igual à natureza humana. Esquisito. Se eu pudesse correr, sair de casa, molhar-me, enlamear-me, deitar barquinhos no enxurro e fabricar edifícios na areia, como o Sabiá novo, certamente não pensaria nessas coisas. Seria uma criatura viva, alegre. Só, encolhido, o jeito que tinha era ocupar-me com o sapo-boi, quase gente, sensível aos sinos. Nunca os sinos me haviam impressionado.

[RAMOS, Graciliano. Infância. Círculo do livro. s/d. p. 56-57]


28.1.10

minhas criancinhas


eu vou lhes contar uma história e depois
chispa!

Cama.

Era uma vez um homem estopa.
Mergulhado num saco junto de outras estopas.
Branquinhas como peles de coelho.

Mas eis que chega levantado do chão imundo todo de graxa o mecânico trejeitão e
RUAO!


4.1.10

O homem que procurava a buceta


Num livro de História proibido na Europa, o autor Kadif Kawthar nos contava que na Mesopotâmia Antiga vivia um egípcio a procura da excepcional buceta filosofal. Diz a lenda que essa buceta milagrosa possuia dotes incomuns e tinha em sua boca a resposta para todos os enigmas do Universo. Os lábios pequenos discorriam sobre filosofia e matemática e os lábios grandes narravam estórias fantásticas. A história ainda nos revela que o homem que a penetrasse fundo, atingindo seu útero dourado, viveria eternamente e seria o rei dos reis; habitaria pirâmides de ouro; possuiria um exército de homens dotados; fertilizaria a terra da qual brotaria tudo quanto é espécie de vegetais e frutos; seria dono do paraíso no qual habitam setenta e duas virgens; e o seu pênis seria caracterizado por uma enorme glande cerebral, além de se assemelhar a uma espada.

Pois bem, eu não acredito em nenhum pingo dessa fábula, todavia queria encontrá-la para meu nome constar nos ANAIS.


3.1.10

Além das duas mulheres sentadas


- O que haveria dentro deste bar que aqui fora não há?
- Tirando a garoa?


2.1.10

por que ver os clássicos



OITO E MEIO

I

Sei de pessoas que julgaram superficial o "8 1/2", de Fellini, essa obra-prima do barroquismo. Elas é que devem ser superficiais, porque nossa alma é assim como ali está, com suas idades sucessivas convivendo, o acontecido e o imaginado tendo ambos o mesmo poder traumático e o mesmo pé de realidade. Parece-te que estou falando de poesia?

II

Em Picasso, em certos Picasso, a boca, a face, o perfil, as orelhas reajuntam-se, não arbitrariamente e sim para formar uma harmonia nova, de maneira que o seu arreglo final não nos amendronta como um monstro, mas tranquiliza-nos como uma obra clássica. Na poesia há muito já acontecia assim, como na montagem de imagens aparentemente heteróclitas e anacrônicas da "Salomé" de Apollinaire e que, no entanto, serviam para formar a atmosfera dançante, luxuosa, versátil e aérea daquele poema. E foi preciso quase cem anos para que o cinema, como no "8 1/2" de Fellini, se integrasse também na poesia. Em resumo: não o desprezo da lógica, mas a aceitação da lógica imagista - o que, como todo verdadeiro modernismo, é tão velho como o mundo, porque usa apenas a velha linguagem dos sonhos e das histórias de fadas.

[QUINTANA, Mário. 80 anos de poesia. 7 ed. São Paulo: Globo, 1996. p. 101-102]


31.12.09

antes das 24


Amanhece e ainda não é ano novo.
Teu corpo estirado na cama perdeu todas as potencialidades da vida.
Mas você espera o espocar da champagne, o espumante escorrendo doce pela garganta
enquanto no fundo do seu ser, ainda uma nesga de esperança.

Amanhece e ainda não é ano novo.
Teus ouvidos ouvem, os mais apressados, estourarem
(onde?)
rojões, fogos de artifícios.

Amanhece e você resolveu mudar os rumos
no roteiro que escreverá para o próximo ano.

(Os fogos: quem acende o pavio?
Mas está molhado.)

Acendestes o cigarro e antes mesmo você se entorpece
e na hora exata, aonde os ponteiros em forma fálica se encontram,
somente tu, criatura, uivará para a lua.


29.12.09

cartão-postal


Sabe João,

fazia exatos nove meses que eu não dava no coro. Você sabe como é, né? Ser feminista radical tem seus lances. Sou, de fato, uma diabinha. Quem me comeu na última semana, para total contradição da minha ideologia, foi um cara bem machão. Chupei seu pau, lambi seu saco. Foi preciso ser submissa: dócil. Um pentelho enroscou entre os meus dentes
. Mas depois que o macho me pegou de quatro no banheirinho, minhas pernas não pararam de tremer por uns dois dias. O bom foi que consegui cuspir o pelo. Fui enrabada de levitar numa perna só. Isso eu confesso, dói: perder as sete pregas do rabinho. De sair lágrimas.

Um beijo pra ti,
meu confidente.

Maria.


27.12.09

o rocambole


Tudo começou quando da colher escorreu um fio de doce de leite sobre as páginas do falcão maltês.



26.12.09

o peru de natal

1
O dia começa pelo som estridente do telefone. O cliente quer mais. Véspera de Natal. Anoto as gramas. Da mais pura. Mas ele sabe que haverá bastante mistura, principalmente aspirina e bicabornato de sódio.

2
Nem bem acordo e reuno a composição enquanto passo o café, que acabou. Daqui a pouco Bianca liga, pedindo um faz-me rir. Bianca é dona de mãos ossudas. E tem um nariz, o qual visto de perfil, me lembra algumas mulheres de Picasso.

3
Sobre a mesa o material necessário pra elaboração da composição sintética. Uma balancinha herdada do avô. Tiro a quantidade exata. Distribuo em saquinhos de evidências, enfio no cu do Peru e limpo o ambiente.

4
Visto uma roupa bonita e desço o elevador.

5
Apanho o buzão.

6
O resto é confidencial. Lamento.