5.8.10

por que ver os clássicos


[L'argent de poche, de François Truffaut, 1976]


B B


João saia do banco serelepe da vida,

mas eis que cem metros adiante um homem de capacete o surpreendeu:

- Mãos ao alto.
- Mas meu senhor Suzuki, eu não tenho mãos. Não vê?


4.8.10

sobre o medo

[...]

Desde sempre, em toda parte, tem-se medo do feminino, do mistério da fecundidade e da maternidade, "santuário estranho", fonte de tabus, ritos e terrores. "Mal magnífico, prazer funesto, venenosa e enganadora, a mulher é acusada pelo outro sexo de haver trazido sobre a terra o pecado, a infelicidade e a morte." Terror de sua fisiológica cíclica, lunática, asco de suas secreções sangrentas e do líquido amniótico, úmida e cheia de odores, ser impuro, para sempre manchada: Lilith, transgressora lua negra, liberdade vermelha nos véus de Salambô. Rainha da Noite vencida por Sarastro. Perigosa portadora de todos os males, Eva e Pandora; devoradora dos filhos paridos de sua carne, Medéia e Amazona; lasciva, "vagina denteada" ou cheia de serpentes, o que Freud chamou medo da castração e que em todas as culturas é assim representado. Fonte da vida. fertilidade sagrada, mas também noturnas entranhas: "Essa noite, na qual o homem se sente ameaçado de submergir e que é o avesso da fecundidade, o apavora", o medo ancestral do Segundo Sexo. Que fez crer impossível a amizade nas e das mulheres e tudo faz para impedi-la. Perdição dos que se deixam enfeitiçar pelo poço sem fundo e lago profundo - Morgana, Circe, Lorelei, Uiara, Iemanjá. Deusa da sabedoria e da caça, imaculada conceição e encarnação de Satã, a proliferação das imagens femininas, medusa, hidra e fênix, é, para usarmos noutro contexto a expressão de Walnice Galvão, o sumidouro das "formas do falso". Capitu. Diadorim.


[Marilena Chauí. in: CARDOSO, Sérgio et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 38]


26.7.10

longe: daqui?


Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas variadas coisas,
já que, por egoístas que somos, não sabemos amar senão aquilo em que encontramos.

[Cecília Meireles]


Algumas coisas começam a ficar muito claras. Uma delas se traduz pela consciência de nossa existência. Solitária.
O diário de nossas vidas em branco. Páginas e páginas de tentar ser e nada. Mas ao que tudo indica, esperando o seu ideal.
De leve, uma música desperta. Interior. Noturno vulto qual estátua figurada na paisagem da janela. Cinza. Apagamos as luzes. Trancamo-nos no quarto. Catedral.
O som do vizinho: puxa! que descarga. Mas o lirismo não é quebrado.
E dentro de nós? A distância é mais longe.


21.7.10

concebido y realizado

[...]


El fuego que arde dentro de mi, arde en toda la naturaleza. Si un hombre lo pierde, se convierte en egocentrico, solitario, desorientado y débil.


[JUNG, Carl G. et al. El hombre y sus símbolos. Aguilar. S. A. Ediciones, 1966. p. 207]


17.7.10

valor e cultura


XV


O leitor deve estar e ser mais preparado (como um jagunço ao entrar na caatinga dos mundos possíveis) que o autor de um livro.


14.7.10

apólogo brasileiro sem véu de alegoria

[Estamos diante de um citadino com alma popular
e não um literato bem comportado]

[...]


Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo.


[MACHADO, Antonio de Alcântara. Novelas paulistanas. Rio de Janeiro - Belo Horizonte: Garnier. 1994. p. 270]

13.7.10

eis o ponto final


I

Como diriam por aí, certo dia estava eu zapeando alguns canais televisivos pra testar a telinha nova e me deparei frente a frente no melhor estilo do simulacro com a imagem de Ziraldo com cara de vovô bonzinho. Cabelos brancos, pele morena, calça jeans e colete o bom velhinho escritor e cartunista apresentava um programa infantil.

II

Minha primeira ligação com o velhinho foi quando caiu em minhas mãos, pelas mãos de minha mãe, Meu joelho Juvenal. Daí vieram os dedos, os pés e pimba: eis que surge do autor bacaninha O menino maluquinho.
Do que mais gosto nesta história mirim? Das namoradas - quantas quantas e quantas...

III

Mas Ziraldo na televisão é decadente.


11.7.10

o decálogo político


[Glauber Rocha, Severino e Luis Carlos Maciel
>>>Programa Abertura]

"Parece que no momento atual as pessoas se preocupam muito com o nome das coisas, com o rótulo das coisas."


8.7.10

tolicionário


ao modo de bouvard e pécuchet


vomitarei sobre meus contemporâneos o desgosto que eles me inspiram,
ainda que tenha que romper o meu peito.

[Flaubert]

A enciclopédia é um instrumento de intervenção política. Lá se põe em questão a legitimidade de um governo. Pois quem define os termos é quem dá as cartas. Esta é a disputa política por excelência.


5.7.10

sebo alexandria

[dele: A. da Silva Mello]

Quando cheguei no sebo estava sobre a mesa o livro. Um livro grande: bem grandão; maior que Grande Sertão: Veredas, editado pela José Olympio. O título, é claro, estava na capa: O homem: sua vida, sua educação, sua felicidade.
Me virei para o livreiro ironizando: se abrirmos o totem é bem provável encontrarmos um pênis dissecado e tudo. Acabei, por fim, espantando uma cliente, que nos olhou e fez uma careta.



22.6.10

de la musique


[Massive Attack - Paradise Circus:
Album: Heligoland, 2010]

[...]

... meu amor é "um órgão sexual de uma rara sensibilidade, que [vibraria] me fazendo dar gritos atrozes, os gritos de uma ejaculação grandiosa mas malcheirosa, [preso ao] dom extasiado que o ser fazia em si mesmo como vítima nua, obscena [...] diante da gargalhada das prostitutas."

[...]

... o amor é obsceno precisamente por colocar o sentimental no lugar do sexual.


[BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: F. Alves, 1988. p. 157-160]


21.6.10

metáfora da leitura

[Moça com livro, de Almeida Júnior, 1850/1899]

[...]


O mais importante para o possuídor de uma edição de bolso de Aldus era o texto, impresso com clareza e erudição - não um objeto ricamente decorado. Um sinal de sua popularidade pode ser visto na Lista de preço das prostitutas de Veneza, de 1536 - um catálogo das melhores e piores madames profissionais da cidade, no qual o viajante era informado sobre uma certa Lucrezia Squarcia, "que se diz amante da poesia" e sempre "traz consigo um livreto de Petrarca, um Virgílio e às vezes até um Homero".


[MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 162]


18.6.10

literatura subversiva


Somos todos irmãos. Todos os animais são iguais.

[George Orwel]


- Sabe quem me iniciou no kama sutra da ficção?
- ...
- Uma punk.
- Ah, é? Com qual obra?
- A revolução dos bichos.



16.6.10

rodovia da uva


Garota é um troço maluco. Juro por Deus. Dia desses, ao tomar o ônibus que me levaria à escola onde leciono História, uma mocinha sentou ao meu lado. Pediu licença. E eu todo:
- Pois não, moça.
Fechei o livro que eu estudava e tal e puxei papo. Ela sorriu. O que é um estouro. Mas lá por certa altura da viagem, depois de umas cartas lançadas e do que você gosta, não é que a diabinha pôs a sua mão direita no meu pescoço ao mesmo tempo que dizia:
- Veja como está gelada.

Puxa vida, me arrepiei todinho.


14.6.10

resgatando

[...]


O que seria dos fabricantes de teses sem suas mulheres.

[HARDMAN, Francisco Foot. Nem Pátria, nem Patrão!: vida operária e cultura anarquista no Brasil. 2 ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984. p. 198]

12.6.10

costumes em comum


Se Machado de Assis tivesse lido o capítulo "A venda das esposas", do historiador E. P. Thompson, provavelmente ele teria criado um outro desfecho para o romance Dom Casmurro: Bento Santiago, assim, negociaria Capitolina ao amigo Escobar em troca de uma caneca de cerveja no botequim mais próximo da Rua dos Ourives.


3.5.10

despedida


En Africa, un misionero regañaba a sus fieles porque andaban desnudos: "Y tú?", objetaron señalando su rostro, "no estás también tú desnudo en alguna parte?". "Es cierto, pero esto es el rostro", se justificó el religioso. A lo que los indígenas respondieron: "En nosotros el rosto está por todas partes".

Del mismo modo, en poesía, cada elemento linguístico deviene una figura del lenguaje poético


[Roman Jakobson]

30.4.10

a quem interessar possa


Entretanto, há sempre uma questão, escritores:
existe uma grande diferença
entre ser lido e ser comprado.



29.4.10

remetente

I

O BONECO inflável chegou numa caixa com formato de um livro.


27.4.10

A peste, CAMUS, Albert. p. 67-68

[...]


Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve pra nada. Este próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto de arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou àquela que esperavam - assim como todas as circunstâncias, mesmo relativamente felizes, da sua vida de prisioneiros misturavam o ausente, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que, no entanto, se obstinava no silêncio.

[Editora Record - tradução de Valerie Rumjanek Chaves, 9 ed. 1996]


24.4.10

SAC

Como podemos melhorar nosso atendimento ao cliente por e-mail para aumentar a probabilidade de você recomendar a Philips para outras pessoas?

Posso barganhar por vários ângulos, no entanto, dentro de um sistema capitalista, no qual os indivíduos são determinados a levar vantagens sobre os outros sujeitos, a probabilidade para eu vir a recomendá-los como uma ótima marca do mercado, aumentaria se eu ganhasse como brinde o micro-system posto em referida questão.

Sem mais
mui atenciosamente

Giuliano.


19.4.10

E= mc2

[é preciso chamar a atenção para a área vazia
dos cérebros banais]


[...]

A mitologia de Einstein transforma-o num gênio tão pouco mágico que se fala do seu pensamento como de um trabalho funcional análogo à confecção mecânica das salsichas, ao moer do grão ou à trituração dos minérios: Einstein produz pensamento, continuamente, como um moinho produz farinhas e, para ele, a morte foi essencialmente o término da função localizada: “O cérebro mais potente parou de pensar”.

[BARTHES, Roland. Mitologias. São Paulo: Difusão Européia do Livro. 1972. p. 61]


17.4.10

venta

[Pç. Zacarias]

Sei que venta pelos movimentos que vejo

na copa de uma árvore.

Estendido no chão de taco
o vento areja o quarto.

E mais: é nada.


16.4.10

a quadrilha


Sob o comando do autor, o narrador em terceira pessoa cantando cantigas de ninar embalou o personagem problemático que há tempos não vinha cooperando com o enredo.

Deixando o espaço aberto para o narrador intruso, este, por sua vez, invadiu com seus pés de lã o ambiente no qual se encontrava o personagem problemático. O narrador intruso aproximou-se. Abriu a maletinha que trazia consigo e retirou de dentro dela uma seringa. Sorrateiramente e consciente da sua tarefa injetou no braço esquerdo uma dose de sonífero. Guardou o material e voltou à margem da narrativa para chamar o vilão.

O vilão que tem cara de mau vestia em suas mãos luvas de couro. Sem se enrolar nas malhas das letras, fez o que tinha que ser feito. Usando mãos hábeis de cirurgião executou uma perfeita lobotomia no personagem problemático.

Sendo dito, assim se encerra mais uma história para os componentes da ficção.


14.4.10

por que ver os clássicos



[Le locataire, de Roman Polanski, 1976]


13.4.10

o processo


I

Os isqueiros andam pifando num estalo.

De uso.
Logo me devem uma indenização.

II

A princípio eu iria enviar uma reclamação ao SAC,
mas pensando bem, processa-los-ei por danos morais e materiais.

III

O Procon foi acionado.

IV

No entanto, creio que deverei contratar um advogado para as funções honoríficas.
Minha defesa contra a BIC está sendo preparada.


12.4.10

contos da padoca


I

- Olhe ao lado.
- O que? Onde?
- Não, a tua direita. Duas mesas atrás.
- O que tem?
- Não parece o Lou Reed?
- O próprio. Agora passa o açucar.


11.4.10

sem solenidade

[ - meus senhores, sejamos objetivos...]

Acertei-lhe três murros na cara

e um no estômago.

Deu-se assim
o nosso primeiro encontro.


10.4.10

das epígrafes

[Sarah Kane: 1971-1999]

Fuck you. Fuck you. Fuck you for rejecting me by never being there, fuck you for making me feel shit about myself, fuck you for bleeding fucking love and life out of me, fuck my father for fucking up my life for good and fuck my mother for not leaving him, but most of all, fuck you God for making me love a person who does not exist, FUCK YOU FUCK YOU FUCK YOU.

[CALIXTO, Fabiano. Sanguínea. São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 85]


7.4.10

dos olhos às mentes: designers do século XX

[New Look, Christian Dior]

[...]

... agora os indivíduos não serão mais avaliados pelas suas qualidades mais pessoais ou pelas diferenças que tornam única a sua personalidade. Não há tempo nem espaço para isso. Nessas grandes metrópoles em rápido crescimento, todos vieram de algum outro lugar; portanto, praticamente ninguém conhece ninguém, cada qual tem uma história à parte, e são tantos e estão todos o tempo todo tão ocupados, que a forma prática de identificar e conhecer os outros é a mais rápida e direta: pela maneira como se vestem, pelos obejtos simbólicos que exibem, pelo modo e pelo tom com que falam, pelo seu jeito de se comportar.
Ou seja, a comunicação básica, aquela que precede a fala e estabelece as condições de aproximação, é toda ela externa e baseada em símbolos exteriores. Como esses códigos mudam com extrema rapidez, extamente para evitar que alguém possa imitar ou representar características e posição que não condizem com sua real condição, estamos já no império da moda. As pessoas são aquilo que consomem. O fundamental da comunicação - o potencial de atrair e cativar - já não está mais concentrado nas qualidades humanas da pessoa, mas na qualidade das mercadorias que ela ostenta, no capital aplicado não só em vestuário, adereços e objetos pessoais, mas também nos recursos e no tempo livre empenhados no desenvolvimento e na modelagem de seu corpo, na sua educação e no aperfeiçoamento de suas habilidades de expressão. Em outras palavras, sua visibilidade social e seu poder de sedução são diretamente proporcionais ao seu poder de compra.

[SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 63 e 64]


6.4.10

canibalismo amoroso


ah! meu amigo

me chame pra qualquer coisa, neste dia frio e úmido, nem que seja

pra gente maldizer a mulher que nos negou.
pra gente embebido, já madrugada, cair morto no sofá.
pra gente cheios de cocaína sentir bater no peito o coração o ser e o nada.
pra gente fumar e sobre nossas cabeças a fumaça se evaporar
lenta
devagar
como deve ser a vida.

meu amigo, posso eu sonhar?

ah! meu amigo,
façamos o trato de alugar um quarto com cama para que possamos
levar a mulher odiada e seu corpo que deve ter o gesto mais bonito

(entre os cabelos a mão,

a boca que emite uma voz, o umbigo depois os olhos, um joelho
entre outras coisas que não acho necessário contar)

que nos fará dentre os homens o mais homem.

no quarto alugado, meu amigo
tocaremos violão,
cantaremos
na pieguice em dose alta.
e pode chorar. chora.

e se der, meu amigo, te dou o meu ombro
pra você enconstar.

E se desejar ainda petiscar, meu amigo,
pode comê-lo.


5.4.10

esta mulher fala a minha linguagem

[Jean-François Martin]


diálogo

nina rizzi

olha que bonitinhos os dois, cheios de sonhos pequeno-burgueses. vão se casar.
estão apaixonados?
não, querem acumular capital.

IN CITO

§ "O casamento é a única aventura aberta aos cobardes." - Voltaire

§ "Um bom casamento exige que o homem seja surdo e a mulher seja cega." - Sócrates

§ "Todo o marido tem a infidelidade que merece." - Zelda Popkin

§ "É estranho confessar o prazer que nós, gente casada, sentimos ao ver esses pobres idiotas a caírem na armadilha da nossa situação." - Samuel Pepys (Diary)

§ "Amor é uma forma de insanidade temporária, curável pelo casamento ou pelo afastamento do doente das proximidades da fonte do mal." - Ambrose Bierce,
Dicionário do Diabo




perdendo tempo


O oportunismo de Miguel Sanches Neto utilizando-se da figura de Dalton Trevisan me causa enfado como os próprios textos sem sal do escritor de Chove sobre a minha infância.
Isso não é vingança. É antes de tudo marketing para se aparecer, já que ninguém, imagino, lê suas ficçõezinhas.



3.4.10

de lá pra cá

Volto para casa de madrugada, cheio de poeira, junto com dezenas, centenas de batalhadores para a cultura, e notícias como essa dão nojo, porque nunca é contemplado quem está na lida com o povo, quem representa uma identidade autêntica, melhor premiar revistas ordinárias, eternizar a falta de carácter jornalistico, do que potencializar Coyotes, Cartas Capitais, Caros Amigos, para que? para fazer o povo pensar? melhor ficar com a capa global, com a luxuria nojenta de protecionismo. Estamos indignados, e isso vai mais longe, porque escritores também são problemáticos, pode apostar.

[Ferréz]

**

No segundo semestre do ano passado o Ministério da Cultura lançou o edital para Periódicos de Conteúdo Cultural. Não sei se revistas literárias como Babel (Santos), Ontem choveu no futuro (Campo Grande), Entretanto (Recife), Polichinelo (Belém), revistas pequenas e de grande qualidade, foram inscritas. A Coyote foi.
Esta semana saiu o resultado. Os vencedores: Rolling Stone (que tem na capa da edição de março o apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial), levou R$ 524 mil. A Cult, R$ 504 mil, a Brasileiros, R$ 441 mil e a Piauí, R$ 399 mil.
De um lado, revistas comerciais, de mercado, que se sustentam com vendas e anúncios. De outro, revistas de pequena estrutura, sem a menor chance de sobrevivência na rapina do mercado e que realmente veiculam conteúdos altamente culturais.
Como a distinta platéia sabe, revistas literárias no Brasil, desde o tempo da Klaxon (dos modernistas), da Revista de Antropofagia (de Oswald de Andrade), e da Joaquim (de Dalton Trevisan), têm vida breve. Apesar da qualidade (internacional!) morrem a míngua pela falta de recursos. E o Ministério da Cultura, contrariando todo o seu discurso, preferiu injetar recursos nas revistas de mercado e virar as costas para as revistas literárias, de pequena ou nenhuma estrutura, feitas invariavelmente por poetas e escritores, que publicam o que há de melhor e mais radical na literatura brasileira, e que lutam heroicamente para se manterem vivas.
Nos discursos, a equipe ministerial até já não se esquece de incluir a literatura quando fala de políticas públicas para a cultura. Na prática, continua cagando e andando para os escritores.




1.4.10

deleuziana


I

As dobras do carrapato
eram barrocas
.


30.3.10

dos polegares

[1533-1592]

[...]


Na Lacedemônia os professores puniam os alunos mordendo-lhes o polegar.


[MONTAIGNE, Michel Eyquem de. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 316]


27.3.10

manu


Escrevo o idioleto manoelês archaico I (Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras alguma solenidade - uso bosta.) Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão.



____________
I Falar em archaico: aprecio uma desviação ortográfica para o archaico. Estâmago por estômago. Celeusma por celeuma. Seja este um gosto que vem de detrás. Das minhas memórias fósseis. Ouvir estâmgo produz uma ressonância atávica dentro de mim. Coisa que sonha de retravés.


[BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. 11 ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 43]


23.3.10

por que ver os clássicos



[La antena, de Esteban Sapir, 2007]


22.3.10

querido diário


Curitiba, 21 de março de 2010

Ontem almocei com um amigo. Matei uma puta saudade. Depois, voltando pra casa, alta da noite, trombei com um camarada na esquina entre a Marechal Floriano e Marechal Deodoro. Debaixo da marquise do Unibanco. Fumamos cigarros, enganamos o tempo e tipo assim: falou! cada um pegou seu rumo. Sem o bonde e sem a esperança.
Vi também que operários trabalhavam na reforma da C&A. O relógio confirmava, eram 23:30h.
E não beijei ninguém na boca.

Puxa vida!


21.3.10

virando séculos


[...]
A palavra "crítica" deriva do verbo grego krínein, que significa "decidir". Seu equivalente em latim é cernere, que, além de "decidir", significa também, como é fácil perceber, "discernir". Outras derivações gregas da palavra são: krités, que significa "juiz"; kritikós (que por sua vez deriva de krités), que se refere à pessoa capaz de elaborar juízos ou proceder a julgamentos, concluindo por uma decisão, ou seja, por uma avaliação judiciosa destinada a orientar as ações que dada comunidade deve empreender; outra óbvia derivação do mesmo termo grego é kritérion, que são os fundamentos relativos aos valores mais elevados de uma sociedade, em nome e em função dos quais os juízos e as críticas são feitos, os julgamentos são conduzidos e as decisões são tomadas. Daí se conclui que uma comunidade que perca sua capacidade crítica perde junto sua identidade, vê dissolver-se sua substância espiritual e extraviar-se seu destino. Curiosamente, outra das derivações da palavra grega em questão é krisis, significando o vácuo desorientador que se estabelece quando os critérios que orientam os juízos, por alguma calamidade histórica, política ou natural, se veem suspensos, abolidos ou anulados.

[SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 18-19]