26.1.11

um tigrinho

atirei o pau no gato to to
mas o gato to to
não morreu reu reu
Dona Chica ca ca
admirou-se se se
do berrou do berrou
que o gato deu: miau!

[da cultura oral]


Ouço tigrinho se aproximar. Deixo a porta encostada para o bichano entrar direto depois do declive da escada. Ele se aninha no colchão, toma leite no pires. Eu passo a mão nas suas costas, tigrinho arrebita o rabo.
Tigrinho, como o leitor ingênuo bem pode notar: é o meu gatinho.


13.1.11

in memoriam

[para f. f.]

[...]

O escritor não sabe onde pôr a enorme cabeça sorumbática. É míope, celibatário, grosseiro, está sempre furioso; ele se aborrece, pensa na próstata, nas dívidas.

[SARTRE, Jean Paul. As palavras. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p.138]


10.1.11

das cirurgias plásticas

I

Dona Maria, cinquentona, ficando pra titia, queria arranjar um gatinho, como dizia a sua sobrinha. Foi então que suas amigas lhe recomendaram um cirurgião plástico. Data marcada, a senhora foi pra faca. O doutor de mãos hábeis e praticas cortou-lhe os braços e as pernas e no lugar desses membros fez o transplante de quatro patinhas de um animal da família dos felídeos.

Para sorte de Dona Maria, o mamífero tinha pedigree.


6.1.11

da contemporaneidade

aranha
(rondó - arrigo barnabé - neusa pinheiro freitas)

aranha vem dançar
nessa teia cadeia de prata
vai aranha emaranhar
vem pratear vira prata
na teia da aranha
sou aranha de prata
sou cadeia que mata.


SONETO DA FUGA SÚBITA [1249]

Cagava a ninfetinha quando, rente
ao vaso sanitário, a enorme aranha
do pé se lhe aproxima. Muita manha
tem feito a adolescente, ultimamente.

Recusa-se a comer, a boba, crente
que assim mantém a forma. Nem se acanha
ao ver-se peladinha e, mal se banha,
desfila e posa, dum espelho em frente.

Agora, sentadinha na privada,
esquece, por um tempo, seu corpinho,
e esforça-se em cagar, compenetrada.

A aranha, cujo pêlo é como o espinho,
lhe roça a pele! Corre, inda pelada,
e escorre-lhe o cocô pelo caminho...

[MATTOSO, Glauco. A aranha punk. São Paulo: Annablume, 2007. p. 27]


5.1.11

The in sound from way out!


I

Vícios são vícios, diria um amigo. E é o que faz sustentar a economia, eu complemento. E foi através desse amigo que pude entrar em contato com o álbum dos moleques do Beastie Boys. Que se tornou um vício, eventualmente. Levanto: boto na vitrola; vou deitar, deixo repetir por toda a noite. São treze faixas de hip hop. Muito não sou entendido da coisa, isto é, do estilo musical, mas gosto pra cacete do ritmo, da sonoridade, da levada. E o mais interessante: todas as músicas são instrumentais, o que facilita a leitura de um livro.

II

Tenho uma queda por cinema, e se eu fosse diretor, acho que com certeza utilizaria uma música desse disco.

III

Minha faixa favorita, além de todas, se chama “Son of Neckbone”.

IV

O álbum para quem não sabe, como eu não sabia, foi produzido por um brasileño: Mario Caldato.

V

Mas o bom mesmo é ouvi-lo. Chega de trololó.


2.1.11

taquigrafia



Aos domingos costumo subir a ladeira pra despontar na colina. De pé no topo do morro arremesso um aviãozinho de papel. Por aqui eu fico até começar a noitinha de céu estrelado; sento pra não ver cometa passar. Então antes, desce uma moça de lenço na cabeça esvoaçante, e do seu lado esquerdo pisca um vaga-lume. A brisa é sempre boa daqui de cima. Fico a mirar a moça do meu canto. Agachado. É sempre assim, já faz um bocado de tempo. Todo final de semana, menos os chuvosos. Nos encontramos, mas não nos conhecemos. Nunca trocamos uma palavra. Jamais um gesto, aceno,

“ei!”

Contudo, estamos sempre aqui. Cada qual contido no seu estrito silêncio.
Respeitando, convivendo: como educa a pedra.


1.1.11

feliz ano novo


O varredor

Entra ano
sai ano
e eu?
varrendo sempre
as mesmas folhas secas
das mesmas velhas árvores
nesta mesma cidade fantasma!

[TREVISAN, Dalton. Desgracida. Rio de Janeiro: Record, 2010. p. 11]


30.12.10

tupy or not tupy


I

vocês já pararam pra pensar como seria muito mais fácil andarmos nus dos pés à cabeça?


14.12.10

dos grandes prosadores

[...]


Queria mandar-me um livro, minha filha, para me distrair. E livro para quê, minha filha! O que é o livro? É uma invenção sobre as pessoas. Até o romance é um disparate, e escrito para um disparate, só para que as pessoas ociosas possam ler: acredite em mim, minha filha, acredite em minha experiência de muitos anos. E olha lá, se vierem atordoá-la com um tal de Shakespeare, dizendo, está vendo, na literatura há Shakespeare - pois saiba que Shakespeare também é um disparate, tudo isso é puro disparate, e tudo feito unicamente para pasquinada!


[DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente pobre. São Paulo: Ed. 34, 2009. p .106-107]


13.12.10

de la musique



[Elis Regina cantando Vou deitar e rolar.
Composição: Baden Powell e Paulo César Pinheiro]


arquivo morto


I

marcelo tem um arquivo de ferro em casa. desses de escritório.

II

quando lhe dá na pinta dar um sumiço, por motivos nada racionais, ele costuma se retirar para dentro da pasta temática. Etiqueta: alegoria.
Nota-se, o cara é um estudante.

III

então é à noite que marcelo se aconchega no travesseiro de fantasia e cobre-se com uma colcha de retalhos.

IV

neste tempo de crises, ele fica do tamanho de um polegar.



6.12.10

recesso

o corpo do homem citadino
(excepcionalmente hoje),
não coube no molde da fazenda.

portanto,
não foi trabalhar.


1.12.10

dos grande pensadores

[William Godwin - 1756-1835]

[...]


... a instituição política é particularmente forte onde a eficácia da educação é deficiente, isto é, na amplitude do raio de acção.

[WOODCOCK, George. O anarquismo: História das ideias e dos movimentos libertários. Editora Meridiano. p. 75]


26.11.10

a cidade e a mensagem


Meu amor,
eu vou tomar um banho pra te encontrar. Me espere na porta do Cine. Aquele que fecharam.

Beijocas e mais beijocas
da tua eterna Lulu.

24.11.10

new york, 11 de novembro de 1973

[Graúna]

[...]


Ah! Isto é simples: preciso urgente de uma caixinha (ou duas?) de fósforos Pinheiro ou Beija-Flor. Deixa eu explicar, homem. Não é fanatismo, não. É que aqui não tem caixas de fósforos de madeirinha, é de papelão. E aí, tragédia, não dá pra batucar.


[HENFIL. Diário de um cucaracha. 5 ed. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 28]


22.11.10

por que ver os clássicos


[O assalto ao trem pagador, de Roberto Farias, 1962]

[...]


A característica distintiva do racismo brasileiro é que ele não incide sobre a origem racial das pessoas, mas sobre a cor de sua pele.


[RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: evolução e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 225]


17.11.10

cor local

A casa verde ali paradinha parecendo uma bucetinha toda pequenininha, pois nunca agüenta todo o resto que eu tenho pra colocar. Então eu fico ali dentro, mas só a metadinha. A casa verde coitadinha, não agüenta tudo que eu tenho pra falar. A casa verde, aquela virgenzinha não agüenta tudo que eu tenho pra sofrer. A casa verde não sabe ainda gozar. É só um buraquinho menino.
[Carolina Mascarenhas e Cesar Felipe Pereira]


16.11.10

de la musique



[Elis Regina,
É com esse que eu vou
, de P. Caetano]



15.11.10

irrupciones anómalas del destino

[La lectrice, de Michel Deville, 1988]
[...]


En las épocas de represión, el sexo es feliz, exultante; en las épocas de falsa democracia y de falsa tolerancia, el sexo es infeliz y se encuentra frustado.


[FANTUZZI, Virgilio. Pier Paolo Pasolini. Bilbao: Ediciones Mensajero, 1978. p. 146]


12.11.10

valor e cultura


XVII

O cão de guarda, obedece.

O meganha: fareja a palavra fora do contexto.


11.11.10

de la musique


[Itamar Assunção & Banda Isca de Polícia, 1983]


2.11.10

fragmento do último discurso amoroso

[Johanna Jokipalti]

Havia em tempos remotos que não necessariamente foram datados: um começo meio e fim. João, personagenzinho idiota e quadrado que faz parte deste desenredo, não sabia, em idos que inicia a memória, a classificar os pedaços sucessivos de momentos, os quais em seu conjunto formavam encontros. As terças, as quais eram para este tipinho inútil significativas, tornaram-se simbólicas a ponto de o levar a uma regressão infantil.

Tudo porque o que se dava nesses encontros marcados era o contato com o outro, que era um bicho e o Diadorim em pessoa.


1.11.10

lançamento

Reflexões com um propósito prático

Estes Diálogos de Malatesta devem ser encarados não apenas como a exposição de uma teoria política, mas como uma elucidação prática, na medida em que o anarquismo toma corpo e poder de fogo justamente no interior de uma formação social. Aqui, o estudo consequente – mantendo sempre em mente a necessidade da introdução das mudanças históricas – é valioso para o anarquista que precisa situar-se dentro do discurso social.

Tome-se como exemplo um personagem como Cesare, que fala pelos pequenos proprietários. Embora se coloque de antemão contra qualquer coisa que possa abalar a ordem existente, mostra-se consciente das questões sociais e atento às ideias de Giorgio (Malatesta). A maneira como o anarquista conduz sua argumentação é modelar.

No diálogo 16, para tomar outro exemplo, trata-se da discussão sobre o nacionalismo, apresentada pelo veterano de guerra aleijado Pippo. A maneira como Giorgio (Malatesta) apresenta o patriotismo como um mecanismo pelo qual a burguesia recruta a classe trabalhadora em prol do regime de propriedade é profundamente instrutiva.

No Café: Diálogos sobre Anarquismo é uma obra onde as principais ideias anarquistas estão expostas de maneira clara e acessível. E é uma arma poderosa na mão daqueles que lutam pela transformação social. O leitor de língua portuguesa tem acesso, agora, pela L-Dopa Publicações, a esta obra na totalidade de seus 17 diálogos.


25.10.10

da contemporaneidade

[Cena do filme homônimo]

[...]


Inferninho observava seu corpo colado no vestido molhado da água do rio. O bandido pensava em saborear aqueles lábios vermelhos e grossos, tinha vontade de agarrá-la e fazê-la gozar ali mesmo, entre a lua cheia e o mato. Iria meter devagarinho, chupando aqueles seios cheios, depois subiria para a boca, escorrendo a língua mansamente pelo pescoço, lamberia as costas, as coxas, a bundinha, o grelinho dela. Enfiaria a língua em seu ouvido e, ao mesmo tempo, aumentaria o movimento do quadril dando bombadinhas compassadas pra ela chamá-lo de tarado, gostoso, safado. E meteria por trás, pela frente, de ladinho, ela por cima, por baixo. Não iria querer nem Deus o ajudasse. "Duvido que ela não goze um montão de vez", pensou Inferninho. Mas não, não podia estar pensando aquilo, Cleide era mulher de amigo e, afinal de contas, nem tinha dado bola pra ele. Era um gado responsa, que adiantava o lado de todo mundo, e Martelo era um cara maneiro, mas se ela abrisse a guarda um pouquinho ele não perdoaria e crau!

[...]

- Seu marido não te chupa, não? Ah, minha filha... Você não conhece as coisas boa da vida. Antes do meu meter, tem que cair de língua uma meia hora. E no cu? Você não deixa ele colocar no teu, não? Você não sabe o que é bom. Nas primeiras vezes dói, mas depois vai que é uma beleza. Você pega uma banana, esquenta ela um pouquinho, enfia na xereca e manda ele colocar atrás. Parece que você vai voar. Você já fez carrossel? Saca-rolha? Trenzinho? Funil? Dedinho? Meia nove? Tapadinho? Enrola-enrola? Entupidinho? Suga-suga...?

[LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 38 e 117]

21.10.10

valor e cultura

XVI

A insatisfação de começar uma frase faz de você um escritor.


16.10.10

o que é a democracia?



[Marilena Chauí - 13 de outubro de 2010]

[...]

Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer.

[RAMOS, Graciliano. Memórias do Cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 34]

15.10.10

e agora?


Tenho piolhos. Acho eu. Parece que sinto insetos sob o meu couro percorrendo sobre os miolos. Como coisa abstrata.
Lembro de minha tia Joana dizendo para a avó, ao fuçar com as unhas no meio do cabelo melado de vinagre e coca-cola, "não há nada aqui, Dona Maria. É psicológico."


12.10.10

sobre transar e ensinar


[...]

O ato de enfiar o dedo é mais que expressão do desejo de conhecer. É gostoso enfiar o dedo. Todo o mundo sabe da função erótica do dedo. Existe uma analogia entre dedo e pênis. Até as crianças já fazem aquele gesto obsceno. O dedo é um dos nossos órgãos sexuais.

Quando eu era menino, sem saber nada sobre sexo, gostava de descascar as mexericas para, depois, enfiar o dedo no buraco fechado e apertado do meio dos gomos. Era delicioso, meu dedo enfiado apertado, no obscuro buraco da mexrica. Um menininho foi humilhado por duas menininhas. Quando elas o viram com o pintinho de fora fazendo xixi, caíram na risada: "É igual a um pepininho!" Ao que ele retrucou: "E vocês, que o que têm são dois gominhos de mexerica"! Bom observador, o menino; sua imaginação já conhecia através de analogias.

[...]

... A fala é fálica. A palavra é pênis. Masculina. No silêncio, é como se não existisse. Mas aí ela toma forma, cresce, se alonga em busca de um ouvido. Que seria da palavra sem o vazio do ouvido que a acolha? A palavra deseja penetrar o ouvido. O ouvido é um vazio. Ele recebe. É feminino. Vaginal.

[...]

... Ereção, como é sabido por todos; é o estado do pênis, contrário a sua condição de flacidez. Flácido, o pênis tem apenas funções excretoras, urinárias. Frequentemente os homens se envergonham dele, em decorrência do tamanho, que julgam pequeno. Ereto, o pênis é outro órgão. Tem poder para dar prazer e fecundar. Um pênis ereto é uma promessa de amor e uma possobilidade de vida.

[...]

O pênis em ereção está procurando. Ele ainda não encontrou. Por isso sofre. A inteligência em ereção é também uma procura; ela não tem ainda.

[...]

Diferente do pênis ereto, o útero é o vazio onde se depositam sementes. Lá o sêmen não fica sêmen. Ele se encontra com o óvulo que estava à espera. E aí uma coisa se inicia, indiferente de tudo o que houve no passado. O útero é lugar de criação, onde o novo é gerado. A mente é como o útero: nela o pensamento procria. É nela que se geram os poemas, a literatura, as obras de arte, as invenções, as teorias científicas.


[ALVES, Rubem. Ao professor, com o meu carinho. Campinas, SP: Verus Editora, 2004. p. 15-29]


8.10.10

de situações


A tábua improvisada servia de banco na espera do bonde. João estirou as pernas. Viu seu sapato puído. Somou as moedas e acendeu um cigarro - como de costume. Banalmente, João olhou um menino empinar pipa, um cachorro... que... quase...

- ai!

foi atropelado.



1.10.10

namorados

[Henri Cartier-Bresson]

[...]

Afinal, namorados, junto com os pardais são o único encanto lírico que ainda resta nesta cidade que cada dia vai ficando mais áspera.
Já não temos café sentado, nem sala de espera em cinema, nem salão de chá com orquestra; já não temos retreta de coretos de praça - nenhuma dessas doçuras antigas. E o que seria de nós, então, depois do duro dia de trabalho, quando voltamos exaustos para casa, se na fila de lotação não nos distraísse o gentil descuido dos namorados, ou se dentro dos ônibus, onde os homens empurram as mulheres, apanhando o lugar sentado graças à lei do mais forte, onde na hora de atender ao assobio insolente do trocador constatamos como está magra a carteira - que seria de nós se, pela janelinha do veículo, não avistássemos o casalzinho amoroso que conversa bobagem sob as amendoeiras da Praça Paris - e nos lembra que, apesar da deformação das criaturas e das misérias da vida, este mundo não é de todo ruim?


[QUEIROZ, Rachel de. O brasileiro perplexo. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963. p. 177-180]


30.9.10

Introdução

[Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, 1963]

Ninguém nasce sabendo ler: aprende-se a ler à medida que se vive. Se ler livros geralmente se aprende nos bancos da escola, outras leituras se aprendem por aí, na chamada escola da vida: a leitura do voo das arribações que indicam a seca - como sabe quem lê Vidas secas de Graciliano Ramos – independe da aprendizagem formal e se perfaz na interação cotidiana com o mundo das coisas e dos outros.

Como entre tais coisas e tais outros incluem-se também livros e leitores, fecha-se o círculo: lê-se para entender o mundo, para viver melhor. Em nossa cultura, quanto mais abrangente a concepção de mundo e de vida, mais intensamente se lê, numa espiral quase sem fim, que pode e deve começar na escola, mas não pode (nem costuma) encerrar-se nela.

Do mundo da leitura à leitura do mundo, o trajeto se cumpre sempre, refazendo-se, inclusive, por um vice-versa que transforma a leitura em prática circular e infinita. Como fonte de prazer e de sabedoria, a leitura não esgota seu poder de sedução nos estreitos círculos da escola.

[...]

Mundo da leitura, leitura do mundo: onde acaba um e começa a outra? Talvez os limites sejam esgarçados, aquela terceira margem do rio de que fala Guimarães Rosa...

Muito embora estreitamente entrelaçados na vida real, mundo da leitura e leitura do mundo distinguem-se aqui; invocando a temporária suspensão do real que os livros patrocinam como forma de iluminar e fecundar o retorno ao real, em cada parte do livro predomina um deles.

[LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6 ed. Editora Ática: São Paulo, 2002]


24.9.10

vernissage

Literatura virou a arte de bem estampar seu nome numa capa bonita. E chamar alguns amigos que importam pouco para receber exemplares autografados.

[Vanessa Rodrigues]


- Vamos brindar ao quê?
- Ao rancor.
- Salu!


20.9.10

gênesis


com a ajuda das forças de minhas mãos

arranco do chão um naco de paralelepípedo que esmigalho

para semear os meus olhos.


17.9.10

a casa. do porão ao sótão. o sentido da cabana

[Raquel Marin - Llueve]

[...]



Em Paris, não existem casas. Em caixas sobrepostas vivem os habitantes da grande cidade: "Nosso quarto parisiense", diz Paul Claudel, "entre suas quatro paredes, é uma espécie de lugar geométrico, um buraco convencional que mobiliamos com imagens, com bibelôs e armários dentro de um armário". O número da rua, o algarismo do andar fixam a localização do nosso "buraco convencional", mas nossa morada não tem espaço ao seu redor nem verticalidade em si mesma. "Sobre o chão, as casas são fixadas com asfalto para não afundarem na terra." A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para um sonhador de casa: Os arranha-céus não têm porão. Da calçada ao teto, as peças se amontoam e a tenda de um céu sem horizontes encerra a cidade inteira. Os edifícios, na cidade, têm apenas uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já não há mérito em morar perto do céu. E o em casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta às diferentes peças de um abrigo acuado no pavimento um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores de intimidade.
À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso acrescentar a falta de comicidade da casa das grandes cidades. As casas, ali, já não estão na natureza. As relações da moradia com o espaço tornam-se artificiais. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados. "As ruas são como tubos onde os homens são aspirados." (Max Picard, op. cit., p. 119)


[BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 44-45]


10.9.10

álibi


uma mão lava a outra,

as duas juntas: lavam o rosto.

[do dito popular]

A propina,
por dedos habilidosos,
passa por debaixo da mesa.

E a ética
- xeque mate -
é cumplice do aperto de mãos.


8.9.10

esculpido em madeira


Segundo consta na
hybris,
sou um mito.

Pronto:
virei um totem.


31.8.10

sob o lençol do discurso

[...]


Um escritor - entendo por escritor não o mantenedor de uma função ou o servidor de uma arte, mas o sujeito de uma prática - deve ter a teimosia do espia que se encontra na encruzilhada de todos os outros discursos, em posição trivial com relação à pureza das doutrinas (trivialis é o atributo etimológico da prostituta que espera na intersecção de três caminhos).


[BARTHES, Roland. Aula: aula inaugural da cadeira de semiologia literária do Colégio de França, pronunciada dia 7 de janeiro de 1977; tradução e posfácio de Leyla Perrone Moisés. São Paulo: Cultrix, 2007. p. 25-26]


29.8.10

de la musique



[Vai levando,
Chico Buarque e Caetano Veloso, 1978]


ô, nego meu!


O homem rústico foi esculpido
no talho do tronco.

Portanto,
era um cara de pau.


17.8.10

o estacionamento


I


Eu estou de olho numa Brasilia.
Ano 79.
Mil cilindradas.
Motor por dentro com cheiro de gasolina.

II

Notei que o dono deixa a chave da ignição na caranga.

III

Tal dia pulo de assalto o muro com arame farpado.

IV

Vai ser à noite.

V

Pode escrever.


5.8.10

por que ver os clássicos


[L'argent de poche, de François Truffaut, 1976]


B B


João saia do banco serelepe da vida,

mas eis que cem metros adiante um homem de capacete o surpreendeu:

- Mãos ao alto.
- Mas meu senhor Suzuki, eu não tenho mãos. Não vê?


4.8.10

sobre o medo

[...]

Desde sempre, em toda parte, tem-se medo do feminino, do mistério da fecundidade e da maternidade, "santuário estranho", fonte de tabus, ritos e terrores. "Mal magnífico, prazer funesto, venenosa e enganadora, a mulher é acusada pelo outro sexo de haver trazido sobre a terra o pecado, a infelicidade e a morte." Terror de sua fisiológica cíclica, lunática, asco de suas secreções sangrentas e do líquido amniótico, úmida e cheia de odores, ser impuro, para sempre manchada: Lilith, transgressora lua negra, liberdade vermelha nos véus de Salambô. Rainha da Noite vencida por Sarastro. Perigosa portadora de todos os males, Eva e Pandora; devoradora dos filhos paridos de sua carne, Medéia e Amazona; lasciva, "vagina denteada" ou cheia de serpentes, o que Freud chamou medo da castração e que em todas as culturas é assim representado. Fonte da vida. fertilidade sagrada, mas também noturnas entranhas: "Essa noite, na qual o homem se sente ameaçado de submergir e que é o avesso da fecundidade, o apavora", o medo ancestral do Segundo Sexo. Que fez crer impossível a amizade nas e das mulheres e tudo faz para impedi-la. Perdição dos que se deixam enfeitiçar pelo poço sem fundo e lago profundo - Morgana, Circe, Lorelei, Uiara, Iemanjá. Deusa da sabedoria e da caça, imaculada conceição e encarnação de Satã, a proliferação das imagens femininas, medusa, hidra e fênix, é, para usarmos noutro contexto a expressão de Walnice Galvão, o sumidouro das "formas do falso". Capitu. Diadorim.


[Marilena Chauí. in: CARDOSO, Sérgio et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 38]


26.7.10

longe: daqui?


Amemos o que sentimos de nós mesmos, nessas variadas coisas,
já que, por egoístas que somos, não sabemos amar senão aquilo em que encontramos.

[Cecília Meireles]


Algumas coisas começam a ficar muito claras. Uma delas se traduz pela consciência de nossa existência. Solitária.
O diário de nossas vidas em branco. Páginas e páginas de tentar ser e nada. Mas ao que tudo indica, esperando o seu ideal.
De leve, uma música desperta. Interior. Noturno vulto qual estátua figurada na paisagem da janela. Cinza. Apagamos as luzes. Trancamo-nos no quarto. Catedral.
O som do vizinho: puxa! que descarga. Mas o lirismo não é quebrado.
E dentro de nós? A distância é mais longe.


21.7.10

concebido y realizado

[...]


El fuego que arde dentro de mi, arde en toda la naturaleza. Si un hombre lo pierde, se convierte en egocentrico, solitario, desorientado y débil.


[JUNG, Carl G. et al. El hombre y sus símbolos. Aguilar. S. A. Ediciones, 1966. p. 207]


17.7.10

valor e cultura


XV


O leitor deve estar e ser mais preparado (como um jagunço ao entrar na caatinga dos mundos possíveis) que o autor de um livro.


14.7.10

apólogo brasileiro sem véu de alegoria

[Estamos diante de um citadino com alma popular
e não um literato bem comportado]

[...]


Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo.


[MACHADO, Antonio de Alcântara. Novelas paulistanas. Rio de Janeiro - Belo Horizonte: Garnier. 1994. p. 270]