10.4.11

cota zero

[Un homme qui dort, 1974]

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

[Carlos Drummond de Andrade]


5.4.11

por que ver os clássicos


[Boca de ouro, de Nelson Pereira dos Santos, 1962]


30.3.11

aforisma com um dos pés na emoção


suje-se, gordo!
[machado de assis]



escrever bem é necessário, essencial comunicar com clareza: porém sob o estilo de um autor perpassa uma ideologia, e com certeza sou um dos leitores que se preocupa com esse adorno para almofadar ideias.


15.3.11

mutreta

...
meio se maloca
agita numa boca
descola uma mutuca
e um papel

sonha aquela mina, olerê

[“Pivete”, Francis Hime – Chico Buarque]


I

Tou com uma mutreta nervosa. Na medida de uma bucha pra cada. O serviço é simples. Coube no esquema. Cada um pega a sua parte e ninguém viu ninguém. Sem meias palavras. O assunto dispensa caráter. Seguem mais informações até a data marcada.

II

A transação furou. O lance teve que ser adiado. Suspeitaram de algo e rola um murmúrio em torno da coisa. Mantenhamo-nos antenados porque vai rolar e quando rolar o bicho come solto. Tudo é uma questão de tempo.

III

O arquiteto me ligou. Disse que dentro de poucas semanas poderemos executar a parada. Vocês tão cansados de saber que o tramite é jogo rápido. Então, olhar arguto: nada de vacilo. O plano continua o mesmo. Copiaram?

IV

É hoje. Indubitavelmente. Aprontem-se e me esperem no Rabo do Tatu. Disco pro orelhão e apanho você e seu caçula em dois segundos. Dirijo um Del Rey bege sem placa e não paro pra estacionar. Os dois pulam no banco de trás, o carro tem quatro portas. Vamos direto ao assunto e acabar com a brincadeira.


24.2.11

Voina

[...]

O Voina surgiu em fevereiro de 2007 e se recusa a trabalhar com as instituições de arte oficiais do Estado ou comerciais. É conhecido na Rússia por seu humor, performances não-violentas, anti-Estado e contra a polícia.


**

Leitura


Eu não admitia sequer a literatura. Filosofia. Hegel. As ciências naturais. Mas sobretudo, marxismo. Não existe obra de arte que me tenha entusiasmado mais que o "Prefácio" de Marx. Obras clandestinas saíam dos quartos dos estudantes. Tática do Combate de Rua, etc. Lembro-me distintamente do livrinho azul de Lênin, Duas Táticas. Agradava-me o fato de o livro ter sido cortado sem margens. Para a distribuição clandestina. A estética da economia máxima.


[MAIAKÓVSKI, Vladímir. Poemas. 6 ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002. p. 35-36]



a noite: que sono


À noite o percalço vem atrás. Um copo de plástico como um caracol rola na calçada. Sequer tenho uma sombra que me acompanha.

Na volta, conto os semáforos. São mais de cinco até chegar ao buraco convencional, pois o caminho é curto e menos rápido. Por causa do respeito mútuo entre eu e o semáforo; seus signos: um homenzinho vermelho estagnado.

O livro aberto está a espera. Condenado entre o mito e a filosofia do amor. O kama sutra particular.

Ultraparticularíssimo.



22.2.11

de touca bobs e fraldão



[Garibaldis e Sacis]

Diz-se que em Curitiba não há carnaval. Dada como dogma vaticano, a afirmação já entrou para o anedotário nacional e desperta umas tantas gargalhadas a cada fevereiro que chega. E não é raro encontrar curitibanos que se orgulhem dessa particularidade, apostando que a inabilidade para as vulgaridades momescas - essa liturgia de nus e mescarados - seria a prova inconteste do nosso sangue azul.

Em resumo, o anticarnaval virou uma marca da terra. Além das temperaturas polares que se estendem, sem pudores, até o mês de dezembro; do sotaque tão seco e áspero a ponto de nos tomarem por antipáticos; das muitas cabeleiras louras, por natureza, por força da poderosa indústria dos cosméticos ou pela expansão do Salão Marly, seríamos também destituídos de qualquer talento para o samba. Esse quesito selaria nossa posição de "Brasil Diferente", para lembrar a expressão cunhada pelo crítico literário Wilson Martins em seu livro mais polêmico.


[...]


[José Carlos Fernandes in: Resgatando o Gala Gay do Clube Operário]


19.2.11

da contemporaneidade


15

Eu era um grande pênis deitado ao sol de Copacabana. Um pênis de 1,75 m aquecendo-se na areia. Um pênis predador, cabeçona reluzente, tentando abocanhar todas as xoxotas que passavam diante de mim. Se me arpoassem naquele momento, eu me contorceria sobre os corpos cavernosos e esguicharia uma coluna de porra a dez metros de altura. "Caçaram um pênis!", gritaria alguém, e num instante uma roda de curiosos se formaria em torno de mim, empurra que empurra um garoto de óculos cairia de joelhos sobre meu prepúcio, eu me debatendo e rolando na areia suja de sangue, papéis de picolé grudando na minha pele, ecologistas protestando, uma estudante de biologia cutucando-me com o cabo de um guarda-sol, um militar reformado recomendando às mulheres que protegessem as xoxotas porque o bicho ainda estava vivo, a repórter do Fantástico tentando me entrevistar com uma bandeirinha do Green Peace ao lado, eu exposto no Leme até às 16 horas, às 16:05 sou removido para a Quinta da Boa Vista aos cuidados de um veterinário, um membro do National Geographhic desembarca no Galeão com um unguento usado pelas focas do Alaska e dois dias depois, a glande envolvida por uma enorme bandagem, apareço na quinta página do Le Monde abraçado por Jacques Cousteau.

[SNEGE, Jamil. Como eu se fiz por si mesmo. Curitiba: Travessa dos Editores, 1994. p. 90]

17.2.11

estórias do senhor G.


... nunca ame

mulheres e conversas tão fúteis
quanto as promessas que as nutrem

["Saldo" - Adriano Smaniotto]



"Ah, o amor", pensa o senhor G. muitíssimo compenetrado na ponta do lápis, "só deve estar de brincadeira essa porção abstrata, metafísica e o caralho a quatro".


O senhor G. Este.


16.2.11

mulheres



[...]


Vendo para dentro de si, como para o fundo de um mar prodigioso, ele domina com o olhar perscrutante, inquieto, que apanha de pronto as situações a maravilhosa ductilidade das mulheres, vendo também perfeita singularidade o que se dá dentro delas, as suas inquietudes, as suas impaciências, os seus receios, os seus caprichos inesperados, as suas volubilidades doentes e curiosas, as suas resoluções bruscas, os seus ímpetos de leoa, os seus momentos horríveis de crise hiper-histérica sem causa determinada, sem assinalamentos de origem, mas assoberbantes, convulsos e que de repente cessam como vieram, para tornarem ainda, mais desabridos e persistentes.


[Cruz e Souza, 1861 - 1898]


15.2.11

felipe

[Scheyla Joanne Horst]


14.2.11

estórias do senhor G.


lembra-se, leitor desgraçado, quando o senhor G. embarcou numa viagem sem volta? então, o esperto leitor talvez tenha sido vítima da galhofa mal contada. mira e veja, o senhor G. acaba de voltar do pequeno bairro portátil do escritor português e se hospedou na casa deste autor que lhe psicografa. aliás, o senhor G. é bem irreal.

o senhor G. Este.


13.2.11

ousemos ser preguiçosos


[Les enfants s'ennuient le dimanche, Charles Trenet]

[...]


Agora, como já não sou criança, o domingo tornou-se para mim um dia favorável. Um dia que suspende essa procura social - correio, telefone, encontros - que me cansa durante a semana. Um dia feliz, porque é um dia branco, um dia silencioso em que posso ser preguiçoso, quer dizer, livre. Pois a forma votiva da preguiça moderna acaba por ser a liberdade.


[BARTHES, Roland. Le Monde-Dimanche, 16 de Setembro de 1979]


12.2.11

convite

Querido Crocodilo,

vai ter festa da Girafa na toca da Raposa. Chama a bicharada do brejo: pois também é aniversário do Tatu. E vê se aparece, meu bocudinho.

Gorila.


7.2.11

uma forma de contra-oração

[p/ adriano smaniotto]

deus, daí-me forças para eu não matar a morena dentro de mim. protegei-me do mal de picasso do qual os olhos na testa um nariz dentro da boca um punho no lugar do joelho. deus, guie-me constantemente para os pés de pietra. quem me dera, meu deus, eu ser um modigliani.


5.2.11

estrada abaixo


Pegávamos a estrada que desce pro litoral. Meu amigo que dirigia e era fã do David Bowie botou no toca cd e deixou repetir por toda a viagem a música Rebel Rebel.

- Pra dar mais adrenalina, ele dizia ao tempo em que eu acendia o meu décimo cigarro.
- Puxa, cara, como eu fumo!
- Na volta eu deixo você escolher a música.

Fechando a curva numa velocidade fora da qual estou acostumado, arrematou o porque:

- É mais triste voltar dirigindo.


27.1.11

outras tantas curiosas curiosidades

[...]

Se todos os patrulheiros literários do eixo Rio-São Paulo-Curitiba conseguissem publicar de uma só vez, mesmo em edições limitadas e para o consumo caseiro, os originais que guardam na gaveta, iriam consumir todo o estoque de papel gasto pelas editoras e jornais brasileiros durante exatamente 43 dias.



Joel Silveira


Fofo frontal

Não adianta a G Magazine insistir! Não há cachê nesse mundo capaz de fazer Rafael Grega posar nu para nenhuma dessas revistas de homem pelado! O ministro do Descobrimento tem, como se sabe, problemas com o bingo!

Boato: Não está rolando nada entre Geraldinho Carneiro e João Ubaldo Ribeiro! Os caras são apenas bons escritores!

Tutty News


[Arquivo particular: Bundas. Ano I. Número 16
28 de setembro a 4 de outubro de 1999. p. 18 e 34]

26.1.11

um tigrinho

atirei o pau no gato to to
mas o gato to to
não morreu reu reu
Dona Chica ca ca
admirou-se se se
do berrou do berrou
que o gato deu: miau!

[da cultura oral]


Ouço tigrinho se aproximar. Deixo a porta encostada para o bichano entrar direto depois do declive da escada. Ele se aninha no colchão, toma leite no pires. Eu passo a mão nas suas costas, tigrinho arrebita o rabo.
Tigrinho, como o leitor ingênuo bem pode notar: é o meu gatinho.


13.1.11

in memoriam

[para f. f.]

[...]

O escritor não sabe onde pôr a enorme cabeça sorumbática. É míope, celibatário, grosseiro, está sempre furioso; ele se aborrece, pensa na próstata, nas dívidas.

[SARTRE, Jean Paul. As palavras. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p.138]


10.1.11

das cirurgias plásticas

I

Dona Maria, cinquentona, ficando pra titia, queria arranjar um gatinho, como dizia a sua sobrinha. Foi então que suas amigas lhe recomendaram um cirurgião plástico. Data marcada, a senhora foi pra faca. O doutor de mãos hábeis e praticas cortou-lhe os braços e as pernas e no lugar desses membros fez o transplante de quatro patinhas de um animal da família dos felídeos.

Para sorte de Dona Maria, o mamífero tinha pedigree.