26.5.11

da contemporaneidade


E-MAIL PARA CARLITO AZEVEDO


rapaz, mas está tudo tão sério

tudo tão carteira da frente
sem sol, sem Rio, sem gente

essa falta de imaginação, que mistério!
tudo carece dessa leveza bonita
que em nossas leves veredas levita

(os passos da deusa sempre acesa,
uma garota sempre de Ipanema,
sempre sol, sorvete, praia, cinema)

são tantos tontos em ponto de tristeza
por um lugar na mídia - toscos teachers
versão brasileira Herbert Richers

e são tantos tiques - todos: traça -
é tanto poeta pedante (eu só podia -
que mania! - estar falando de poesia)

é... o Brasil está perdendo a graça...
mas alguém de longe grita: - alea jacta est,
Coca-cola is the best!

[CALIXTO, Fabiano. Sangüínea (2005-2007). São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 77]


24.5.11

de la musique


[David Bowie, Young Americans,
Live Dick Cavett Show 1974]


17.5.11

ana no amor líquido sem anarquismo


A perna da mocinha balançava. Sem parar. Notei com isso que ela estava nervosa, ou esperava na certa um passo meu. E eu estava bem afim de chegar.
Mas como bom mineiro, fui, para evitar maiores desencontros, pois a vida está cheia deles, com cautela. E no que deu? Não deu.

Ana me lembrou uma cantora de cabelo bem curto, o que dá um toque: um certo charme bossanovístico. nela seu perfil destaca-se o nariz e um pelinho loiro que me chamou a atenção (seria o meu punctum?); o pescocinho que só uma mordidinha, moça, deixa, vai, estava todo. O sorriso tímido surgiu do seu rosto que mais parecia um espelho onde eu mirava fundo em seus olhos.

Ana num dia de sol e bife a cavalo estava de corpo e alma dentro do vestidinho; ela sorria. Rugas apareceram quando ela sorriu.

“Que chinelinho mais lindo nos pés pra beijar.”

Ao céu de café com baunilha, ela como um corpo caminhava no chão da garoa nublada. Virou minha obsessão, outro dia. Pro eterno agora.

Ai, Ana, o que fez de mim? Cadela do meu coração: que devora, que devora: devorando.


16.5.11

malandro não vacila

[Bezerra da Silva,
1927-2005]


15.5.11

deus sabe o que faz


Deus sabe o que faz e por isso a criança nasceu cega, mas Deus sabe o que faz e ela cresceu forte e sadia, não teve coqueluche nem bronquite como os outros filhos – o mais velho, aos vinte e poucos anos já vivia na pinga, cometeu um crime e foi parar na cadeia; a menina cresceu, virou moça, casou, traiu o marido, separou, virou prostituta; o cego tinha o ouvido bom e aprendeu a tocar violão e aos quinze anos já tocava violão como ninguém, um verdadeiro artista, porque Deus sabe o que faz e para tudo nesse mundo há uma compensação, e assim enquanto o irmão estava na cadeia e a irmão no bordel, o cego foi ganhando nome e dinheiro com seu violão e seu ouvido, que era melhor do que o ouvido de qualquer pessoa normal, e os pais, que eram pobres e às vezes não tinham nem o que comer, tinham agora dinheiro bastante para se darem ao luxo de comprar um rádio, onde escutaram transmitido da cidade vizinha o programa do Mozart do violão, como o batizara o chefe da banda de música local que, tão logo conheceu o rapaz, tornou-se seu empresário, deixando a banda para revelar aos quatro cantos do mundo o maior gênio do violão de todos os tempos, até que um dia sumiu ara os quatro cantos do mundo com o dinheiro das apresentações, mas Deus sabe o que faz, e se o empresário fugiu, uma linda moça se apaixonou pelo rapaz e prometeu fazer a felicidade dele para o resto da vida, e assim, enquanto os dois, casados e morando numa modesta casinha, viviam felizes, a irmã, que era perfeita e bonita, envelhecia prematuramente no bordel e o irmão, que era perfeito e bonitão, saíra da cadeia, não achara emprego e vivia ao léu, até que conheceu a mulher do cego e se apaixonou loucamente por ela: o cego tocava na maior altura para não ouvir os beijos dos dois na sala – até que as cordas rebentaram, até que ele rebentou o ouvido com um tiro. 

Luiz Vilela

8.5.11

s/ título


numa noite que transcorreu na esquina do bar entre trupiques, garrafas quebradas, copos estilhaçados, sertanejos sem almas e mulheres bêbadas: um caboclo me pagou cerveja. outro, depois, me pediu um cigarro.

mais tarde, bem tardezinha riscou o céu uma estrela.

“era cadente?”

pois não é que fiz um pedido pro senhor do bonfim que até pendurei o pensamento na copa de uma árvore?


6.5.11

angeli night club

[Luke e Tantra]

o cabeçudo

arqueólogos encontraram numa gruta da lapa uma ossatura que aparenta ser de um homem que viveu na região há 500 anos.

um dado curioso apontado pelos especialistas é o da cabeça possuir um formato estranho: esquisito. pelo tamanho do crânio o peso pode valer o dobro de todo o corpo. tal dado analítico aponta para dois lados:
a) o homem era macaco;
b) ou era burro demais para tamanha revelação do defunto.

Quais pensamentos poderiam alimentar o homem ancestral?


19.4.11

nesta tarde de domingo


evoco com muito pesar e helicópteros sobrevoando os arranhas céus

mamãe jogando video-game na terra que passou.

ela não tinha nenhuma prática com o joystick
porém mesmo assim arrancava o aparelho de cima da caixa de presente a ponta pés xingando o vilão.

assim dizia:
- mau, vilão mau.

mas os vilões, por excelência, são maus, mamãe,
corrigia o caçula que acabava de chegar da escola.


17.4.11

de la musique


[Roda viva, Chico Buarque e MPB4]


15.4.11

a hora e a vez de joão cruel


Depois que o negro foi embora eu fiquei sentado na Cinelândia, uma praça do centro da cidade, pensando e olhando os pombos. Havia pombos em toda parte e muitos andavam pelo chão de pedras portuguesas brancas e pretas comendo o milho que duas velhas lhe atiravam com suas horrendas mãos caquéticas. Assim que a praça ficasse vazia eu me levantaria do banco e daria um pontapé num dos pombos.

["Placebo" - Rubem Fonseca ]


Se deu assim. João Cruel acordou com cara de mau bem nervoso rosnando os dentes. O carinha tava pra lá de infernal, pois sua expressão demonstrava malvadeza. Era João Cruel complexo na força interior de toda a sua fúria de macho.

Pelo meio da tarde no caminhar da rua, João Cruel acirrou o corpo. Tirou um cascalho da bolsinha de couro que trazia no ombro direito.

“coisa sólida”, pensou João Cruel e para cima jogou a pedra que em sua mão retornou. João Cruel a cobriu com os dedos. Em punho: uma coisa real. Foi assim que João Cruel da cintura por baixo da camisa puída pegou seu estilingue. O cascalho no bercinho com o sorinho esticado voou na linha retilínea. João conseguiu, depois de praticar pra cacete, acertar o pescoço do pombo na mira da sua vista num dia na praça.

Para a sorte do cidadão pacato.


10.4.11

cota zero

[Un homme qui dort, 1974]

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

[Carlos Drummond de Andrade]


5.4.11

por que ver os clássicos


[Boca de ouro, de Nelson Pereira dos Santos, 1962]


30.3.11

aforisma com um dos pés na emoção


suje-se, gordo!
[machado de assis]



escrever bem é necessário, essencial comunicar com clareza: porém sob o estilo de um autor perpassa uma ideologia, e com certeza sou um dos leitores que se preocupa com esse adorno para almofadar ideias.


15.3.11

mutreta

...
meio se maloca
agita numa boca
descola uma mutuca
e um papel

sonha aquela mina, olerê

[“Pivete”, Francis Hime – Chico Buarque]


I

Tou com uma mutreta nervosa. Na medida de uma bucha pra cada. O serviço é simples. Coube no esquema. Cada um pega a sua parte e ninguém viu ninguém. Sem meias palavras. O assunto dispensa caráter. Seguem mais informações até a data marcada.

II

A transação furou. O lance teve que ser adiado. Suspeitaram de algo e rola um murmúrio em torno da coisa. Mantenhamo-nos antenados porque vai rolar e quando rolar o bicho come solto. Tudo é uma questão de tempo.

III

O arquiteto me ligou. Disse que dentro de poucas semanas poderemos executar a parada. Vocês tão cansados de saber que o tramite é jogo rápido. Então, olhar arguto: nada de vacilo. O plano continua o mesmo. Copiaram?

IV

É hoje. Indubitavelmente. Aprontem-se e me esperem no Rabo do Tatu. Disco pro orelhão e apanho você e seu caçula em dois segundos. Dirijo um Del Rey bege sem placa e não paro pra estacionar. Os dois pulam no banco de trás, o carro tem quatro portas. Vamos direto ao assunto e acabar com a brincadeira.


24.2.11

Voina

[...]

O Voina surgiu em fevereiro de 2007 e se recusa a trabalhar com as instituições de arte oficiais do Estado ou comerciais. É conhecido na Rússia por seu humor, performances não-violentas, anti-Estado e contra a polícia.


**

Leitura


Eu não admitia sequer a literatura. Filosofia. Hegel. As ciências naturais. Mas sobretudo, marxismo. Não existe obra de arte que me tenha entusiasmado mais que o "Prefácio" de Marx. Obras clandestinas saíam dos quartos dos estudantes. Tática do Combate de Rua, etc. Lembro-me distintamente do livrinho azul de Lênin, Duas Táticas. Agradava-me o fato de o livro ter sido cortado sem margens. Para a distribuição clandestina. A estética da economia máxima.


[MAIAKÓVSKI, Vladímir. Poemas. 6 ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002. p. 35-36]



a noite: que sono


À noite o percalço vem atrás. Um copo de plástico como um caracol rola na calçada. Sequer tenho uma sombra que me acompanha.

Na volta, conto os semáforos. São mais de cinco até chegar ao buraco convencional, pois o caminho é curto e menos rápido. Por causa do respeito mútuo entre eu e o semáforo; seus signos: um homenzinho vermelho estagnado.

O livro aberto está a espera. Condenado entre o mito e a filosofia do amor. O kama sutra particular.

Ultraparticularíssimo.



22.2.11

de touca bobs e fraldão



[Garibaldis e Sacis]

Diz-se que em Curitiba não há carnaval. Dada como dogma vaticano, a afirmação já entrou para o anedotário nacional e desperta umas tantas gargalhadas a cada fevereiro que chega. E não é raro encontrar curitibanos que se orgulhem dessa particularidade, apostando que a inabilidade para as vulgaridades momescas - essa liturgia de nus e mescarados - seria a prova inconteste do nosso sangue azul.

Em resumo, o anticarnaval virou uma marca da terra. Além das temperaturas polares que se estendem, sem pudores, até o mês de dezembro; do sotaque tão seco e áspero a ponto de nos tomarem por antipáticos; das muitas cabeleiras louras, por natureza, por força da poderosa indústria dos cosméticos ou pela expansão do Salão Marly, seríamos também destituídos de qualquer talento para o samba. Esse quesito selaria nossa posição de "Brasil Diferente", para lembrar a expressão cunhada pelo crítico literário Wilson Martins em seu livro mais polêmico.


[...]


[José Carlos Fernandes in: Resgatando o Gala Gay do Clube Operário]


19.2.11

da contemporaneidade


15

Eu era um grande pênis deitado ao sol de Copacabana. Um pênis de 1,75 m aquecendo-se na areia. Um pênis predador, cabeçona reluzente, tentando abocanhar todas as xoxotas que passavam diante de mim. Se me arpoassem naquele momento, eu me contorceria sobre os corpos cavernosos e esguicharia uma coluna de porra a dez metros de altura. "Caçaram um pênis!", gritaria alguém, e num instante uma roda de curiosos se formaria em torno de mim, empurra que empurra um garoto de óculos cairia de joelhos sobre meu prepúcio, eu me debatendo e rolando na areia suja de sangue, papéis de picolé grudando na minha pele, ecologistas protestando, uma estudante de biologia cutucando-me com o cabo de um guarda-sol, um militar reformado recomendando às mulheres que protegessem as xoxotas porque o bicho ainda estava vivo, a repórter do Fantástico tentando me entrevistar com uma bandeirinha do Green Peace ao lado, eu exposto no Leme até às 16 horas, às 16:05 sou removido para a Quinta da Boa Vista aos cuidados de um veterinário, um membro do National Geographhic desembarca no Galeão com um unguento usado pelas focas do Alaska e dois dias depois, a glande envolvida por uma enorme bandagem, apareço na quinta página do Le Monde abraçado por Jacques Cousteau.

[SNEGE, Jamil. Como eu se fiz por si mesmo. Curitiba: Travessa dos Editores, 1994. p. 90]