5.2.11

estrada abaixo


Pegávamos a estrada que desce pro litoral. Meu amigo que dirigia e era fã do David Bowie botou no toca cd e deixou repetir por toda a viagem a música Rebel Rebel.

- Pra dar mais adrenalina, ele dizia ao tempo em que eu acendia o meu décimo cigarro.
- Puxa, cara, como eu fumo!
- Na volta eu deixo você escolher a música.

Fechando a curva numa velocidade fora da qual estou acostumado, arrematou o porque:

- É mais triste voltar dirigindo.


27.1.11

outras tantas curiosas curiosidades

[...]

Se todos os patrulheiros literários do eixo Rio-São Paulo-Curitiba conseguissem publicar de uma só vez, mesmo em edições limitadas e para o consumo caseiro, os originais que guardam na gaveta, iriam consumir todo o estoque de papel gasto pelas editoras e jornais brasileiros durante exatamente 43 dias.



Joel Silveira


Fofo frontal

Não adianta a G Magazine insistir! Não há cachê nesse mundo capaz de fazer Rafael Grega posar nu para nenhuma dessas revistas de homem pelado! O ministro do Descobrimento tem, como se sabe, problemas com o bingo!

Boato: Não está rolando nada entre Geraldinho Carneiro e João Ubaldo Ribeiro! Os caras são apenas bons escritores!

Tutty News


[Arquivo particular: Bundas. Ano I. Número 16
28 de setembro a 4 de outubro de 1999. p. 18 e 34]

26.1.11

um tigrinho

atirei o pau no gato to to
mas o gato to to
não morreu reu reu
Dona Chica ca ca
admirou-se se se
do berrou do berrou
que o gato deu: miau!

[da cultura oral]


Ouço tigrinho se aproximar. Deixo a porta encostada para o bichano entrar direto depois do declive da escada. Ele se aninha no colchão, toma leite no pires. Eu passo a mão nas suas costas, tigrinho arrebita o rabo.
Tigrinho, como o leitor ingênuo bem pode notar: é o meu gatinho.


13.1.11

in memoriam

[para f. f.]

[...]

O escritor não sabe onde pôr a enorme cabeça sorumbática. É míope, celibatário, grosseiro, está sempre furioso; ele se aborrece, pensa na próstata, nas dívidas.

[SARTRE, Jean Paul. As palavras. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p.138]


10.1.11

das cirurgias plásticas

I

Dona Maria, cinquentona, ficando pra titia, queria arranjar um gatinho, como dizia a sua sobrinha. Foi então que suas amigas lhe recomendaram um cirurgião plástico. Data marcada, a senhora foi pra faca. O doutor de mãos hábeis e praticas cortou-lhe os braços e as pernas e no lugar desses membros fez o transplante de quatro patinhas de um animal da família dos felídeos.

Para sorte de Dona Maria, o mamífero tinha pedigree.


6.1.11

da contemporaneidade

aranha
(rondó - arrigo barnabé - neusa pinheiro freitas)

aranha vem dançar
nessa teia cadeia de prata
vai aranha emaranhar
vem pratear vira prata
na teia da aranha
sou aranha de prata
sou cadeia que mata.


SONETO DA FUGA SÚBITA [1249]

Cagava a ninfetinha quando, rente
ao vaso sanitário, a enorme aranha
do pé se lhe aproxima. Muita manha
tem feito a adolescente, ultimamente.

Recusa-se a comer, a boba, crente
que assim mantém a forma. Nem se acanha
ao ver-se peladinha e, mal se banha,
desfila e posa, dum espelho em frente.

Agora, sentadinha na privada,
esquece, por um tempo, seu corpinho,
e esforça-se em cagar, compenetrada.

A aranha, cujo pêlo é como o espinho,
lhe roça a pele! Corre, inda pelada,
e escorre-lhe o cocô pelo caminho...

[MATTOSO, Glauco. A aranha punk. São Paulo: Annablume, 2007. p. 27]


5.1.11

The in sound from way out!


I

Vícios são vícios, diria um amigo. E é o que faz sustentar a economia, eu complemento. E foi através desse amigo que pude entrar em contato com o álbum dos moleques do Beastie Boys. Que se tornou um vício, eventualmente. Levanto: boto na vitrola; vou deitar, deixo repetir por toda a noite. São treze faixas de hip hop. Muito não sou entendido da coisa, isto é, do estilo musical, mas gosto pra cacete do ritmo, da sonoridade, da levada. E o mais interessante: todas as músicas são instrumentais, o que facilita a leitura de um livro.

II

Tenho uma queda por cinema, e se eu fosse diretor, acho que com certeza utilizaria uma música desse disco.

III

Minha faixa favorita, além de todas, se chama “Son of Neckbone”.

IV

O álbum para quem não sabe, como eu não sabia, foi produzido por um brasileño: Mario Caldato.

V

Mas o bom mesmo é ouvi-lo. Chega de trololó.


2.1.11

taquigrafia



Aos domingos costumo subir a ladeira pra despontar na colina. De pé no topo do morro arremesso um aviãozinho de papel. Por aqui eu fico até começar a noitinha de céu estrelado; sento pra não ver cometa passar. Então antes, desce uma moça de lenço na cabeça esvoaçante, e do seu lado esquerdo pisca um vaga-lume. A brisa é sempre boa daqui de cima. Fico a mirar a moça do meu canto. Agachado. É sempre assim, já faz um bocado de tempo. Todo final de semana, menos os chuvosos. Nos encontramos, mas não nos conhecemos. Nunca trocamos uma palavra. Jamais um gesto, aceno,

“ei!”

Contudo, estamos sempre aqui. Cada qual contido no seu estrito silêncio.
Respeitando, convivendo: como educa a pedra.


1.1.11

feliz ano novo


O varredor

Entra ano
sai ano
e eu?
varrendo sempre
as mesmas folhas secas
das mesmas velhas árvores
nesta mesma cidade fantasma!

[TREVISAN, Dalton. Desgracida. Rio de Janeiro: Record, 2010. p. 11]


30.12.10

tupy or not tupy


I

vocês já pararam pra pensar como seria muito mais fácil andarmos nus dos pés à cabeça?


14.12.10

dos grandes prosadores

[...]


Queria mandar-me um livro, minha filha, para me distrair. E livro para quê, minha filha! O que é o livro? É uma invenção sobre as pessoas. Até o romance é um disparate, e escrito para um disparate, só para que as pessoas ociosas possam ler: acredite em mim, minha filha, acredite em minha experiência de muitos anos. E olha lá, se vierem atordoá-la com um tal de Shakespeare, dizendo, está vendo, na literatura há Shakespeare - pois saiba que Shakespeare também é um disparate, tudo isso é puro disparate, e tudo feito unicamente para pasquinada!


[DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente pobre. São Paulo: Ed. 34, 2009. p .106-107]


13.12.10

de la musique



[Elis Regina cantando Vou deitar e rolar.
Composição: Baden Powell e Paulo César Pinheiro]


arquivo morto


I

marcelo tem um arquivo de ferro em casa. desses de escritório.

II

quando lhe dá na pinta dar um sumiço, por motivos nada racionais, ele costuma se retirar para dentro da pasta temática. Etiqueta: alegoria.
Nota-se, o cara é um estudante.

III

então é à noite que marcelo se aconchega no travesseiro de fantasia e cobre-se com uma colcha de retalhos.

IV

neste tempo de crises, ele fica do tamanho de um polegar.



6.12.10

recesso

o corpo do homem citadino
(excepcionalmente hoje),
não coube no molde da fazenda.

portanto,
não foi trabalhar.


1.12.10

dos grande pensadores

[William Godwin - 1756-1835]

[...]


... a instituição política é particularmente forte onde a eficácia da educação é deficiente, isto é, na amplitude do raio de acção.

[WOODCOCK, George. O anarquismo: História das ideias e dos movimentos libertários. Editora Meridiano. p. 75]


26.11.10

a cidade e a mensagem


Meu amor,
eu vou tomar um banho pra te encontrar. Me espere na porta do Cine. Aquele que fecharam.

Beijocas e mais beijocas
da tua eterna Lulu.

24.11.10

new york, 11 de novembro de 1973

[Graúna]

[...]


Ah! Isto é simples: preciso urgente de uma caixinha (ou duas?) de fósforos Pinheiro ou Beija-Flor. Deixa eu explicar, homem. Não é fanatismo, não. É que aqui não tem caixas de fósforos de madeirinha, é de papelão. E aí, tragédia, não dá pra batucar.


[HENFIL. Diário de um cucaracha. 5 ed. Rio de Janeiro: Record, 1984. p. 28]


22.11.10

por que ver os clássicos


[O assalto ao trem pagador, de Roberto Farias, 1962]

[...]


A característica distintiva do racismo brasileiro é que ele não incide sobre a origem racial das pessoas, mas sobre a cor de sua pele.


[RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: evolução e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 225]


17.11.10

cor local

A casa verde ali paradinha parecendo uma bucetinha toda pequenininha, pois nunca agüenta todo o resto que eu tenho pra colocar. Então eu fico ali dentro, mas só a metadinha. A casa verde coitadinha, não agüenta tudo que eu tenho pra falar. A casa verde, aquela virgenzinha não agüenta tudo que eu tenho pra sofrer. A casa verde não sabe ainda gozar. É só um buraquinho menino.
[Carolina Mascarenhas e Cesar Felipe Pereira]


16.11.10

de la musique



[Elis Regina,
É com esse que eu vou
, de P. Caetano]



15.11.10

irrupciones anómalas del destino

[La lectrice, de Michel Deville, 1988]
[...]


En las épocas de represión, el sexo es feliz, exultante; en las épocas de falsa democracia y de falsa tolerancia, el sexo es infeliz y se encuentra frustado.


[FANTUZZI, Virgilio. Pier Paolo Pasolini. Bilbao: Ediciones Mensajero, 1978. p. 146]