1.8.11

chega de escola


Eu detesto escola. É uma perda de tempo miserável. Minha mãe me ensinou a ler, escrever e fazer as quatro operações. O resto foi aos trancos e barrancos.

[...]

Meu colegial ensinou a dar sinal de sete-de-copas, beber e fumar.... A besta do professor de português, em três anos, recomendou um único livro decente: O Apanhador no Campo de Centeio.

[...]

...as melhores escolas do Brasil formam uma legião de cretinos semianalfa. [...] Ninguém sabe de nada, ninguém lê, ninguém escreve direito, ninguém fala inglês, e pior: ninguém é curioso. [...] Minha teoria é que toda escola serve para esmagar o espírito e a imaginação do ser humano para que ele se torne um escravo zumbi da sociedade.

[...]

Dos 12 anos pra frente é sacanagem trancar a molecada nas salas de aula. Porque aí já é hora de enfrentar as questões fundamentais da existência. Aprender a transar, dirigir, ganhar dinheiro, cozinhar, ajudar o vizinho, se dar bem com a sogra e reconfigurar o acesso à Internet.
E o principal: aprender a se manter curioso. Quem é curioso lê e experimenta, pula muro, tem conversas estranhas, faz conexões, cria universos. Pensa com a própria cabeça. É o que interessa. Ok, existem escolas diferentes, mais experimentais, moderninhas e carinhas. Mas não comemore ainda, caro amigo de classe média alta. As alternativas ao sistema decoreba imbecializante são tão preocupantes quanto.

[...]

[André Forastieri
Caros Amigos, fevereiro de 2001]


22.7.11

entrevista


[...]

Acho que a literatura "pop" é um negócio capaz de fazer da literatura o que os Beatles fizeram na música - tornar a literatura um troço tão importante pra gente como esse cigarro que você tá fumando e que tá preenchendo um momento de sua vida; como um comprimido de AAS que você toma quando tá com dor de cabeça, entende? Uma literatura que o menino aí do elevador, numa hora de folga, num feriado, possa pegar e ler e entender à maneira dele.

Ainda que eu vibre com Bob Dylan, com os poucos artistas "pops" que eu conheço, eu não tenho nada a ver com o chamado "underground" brasileiro. Eu discordo deles. Acho que nós, de cultura latino-americana, não temos que ser surcusal de um movimento de Nova Iorque ou de Londres.

Para mim, literatura é um negócio que tá acontecendo o tempo todo: tá acontecendo no barzinho [...], tá acontecendo dentro de um elevador com um cara que não estudou, com a garçonete que não é escritora.
Então o negócio é incorporar a linguagem desse pessoal, entende?

No Brasil, quem realmente faz a linguagem do povo é o próprio povo brasileiro. A raiz da linguagem que foi divulgada pelo Pasquim saiu dos morros cariocas. É que a linguagem tá violentamente ligada à ideologia. O facismo em Portugal conseguiu dominar tudo, até a linguagem. No Brasil não - a linguagem protestou, reagiu, a linguagem explodiu por aí, refletindo um conteúdo social violento, certo?


[DRUMMOND, Roberto. A morte de D.J. em Paris. São Paulo: Editora Ática, 1975]


12.7.11

sobre mitos e lendas


quando o bicho da seda nos conta duas história


I

ouve-se muitas lendas em torno de Curitiba, mas uma é peculiar na medida que nos remete a um conto de fada bem comum ao imaginário infantil: diz essa narrativa que as mulheres, a partir da meia-noite, começam a se transformar em copos de cerveja, em maços de cigarros e em homens.

II

no dia dos namorados a estátua de pedra da Praça do Homem Nu caminha até o morro do Marumbi e lá de cima, junto aos deuses, toca uma bronha em homenagem aos pombinhos. Sua porra, no entanto, cai sobre Curitiba como se fosse flocos de neve, fazendo o paranaense retornar àquele nostálgico ano de 75.


9.7.11

das cirurgias plásticas


II


A moça, que ia comemorar seus cincoenta anos no litoral, sofreu um acidente. O desastre, beirando a tragédia clássica da antiguidade, resultou nos olhos atingidos pelos estilhaços do carro contra o trator na estrada, quando seu marido, num descuido, perdeu o controle do automóvel. Nessa era uma vez: ela ficara viúva.

Levada para o hospital, ainda inconsciente, o cirurgião com parcos recursos, ou melhor, usufruindo do improviso público, substituiu os olhos macerados por dois umbigos. Eram o que sobrava do banco de órgãos do HC.

Hoje em dia, passados os anos, o amante sensível, ao acariciar o umbigo, que não é um olho, faz a moça sorrir.


8.7.11

barato


acordei de um sonho estranho
de um sonho não sonhado quando eu estava acordado.


7.7.11

ordinário

[SICA, Rafael. Ordinário. São Paulo: Quadrinhos na Cia, 2011]

6.7.11

ceebja


Os alunos foram chegando, ocupando seus respectivos lugares. Mas notei que eles estavam com as caras abatidas. Uma criança havia sido morta por policiais, me disse uma aluna. Era uma criança que toda a comunidade conhecia.

No rosto de cada um notava-se o desconsolo. A dor. O cansaço. Até parecia que eles perguntavam a Deus: por que a criança e não a mim.


4.7.11

caderninho de nomes

[Milo Manara]

esboços

Ana tem namorado. Eu não sabia. Quase apanhei por causa de um cartão-postal que enviei pra ela. O namorado até hoje me cuida por trás de uns óculos garrafais.

Dora é branca como neve e tem uns pelinhos no buço. Gosto das suas mãos na minha nuca. Fico derretido.

Simi com duas pintas sobre a boca é uma mulata danada. Um dia ela leu um texto meu e molhou os lábios como uma gatinha. Fiquei que fiquei.

Isa conheci numa noite na porta do Blues Velvet. Trocamos telefones pra ela cortar o meu cabelo. À domicílio.

Bárbara tinha fixação pelos meus pés.


24.6.11

das epígrafes

[b. blum]


"... as boas maneiras de ler hoje, é chegar a tratar um livro como se escuta um disco, como se olha um filme ou um programa de televisão, como se é tocado por uma canção: todo tratamento do livro que exigisse um respeito especial, uma atenção de outra espécie, vem de uma outra era e condena definitivamente o livro. Não há nenhuma questão de dificuldade nem de compreensão: os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens, são intensidades que convêm a você ou não, que passam ou não passam. 'Pop' filosofia. Não há nada a compreender, nada a interpretar."


[Gilles Deleuze - Cartografias do desejo, de Féliz Guattari e Suely Rolnik]


17.6.11

por que escrever?

[...]


No mínimo, os anos me ensinaram isto: se você tem uma caneta no seu bolso, há uma boa chance de que um dia se sinta tentado a começar a usá-la.
Como gosto de dizer para os meus filhos, foi assim que me tornei escritor.


[AUSTER, Paul. O caderno vermelho: histórias reais. São Paulo: Companhia das letras, 2009. p. 64]

15.6.11

cinco bilhetinhos à libidinosa leitora


I

A mui estimada e curiosa leitora deduz o quanto a sapiencia é o laboratório dos honorários. Quem me contou essa lorota semelhante a um aforisma foi o canário, que sobrevoava o conceito de mundo.

II

O tempo, sonolenta leitora, transforma-nos em árvores. E elas, conforme narra a lenda, guardam segredos de morte. Se a encantadora leitora observar nas entrelinhas encontrará dentro do tronco escuro e úmido cobras ratos escorpiões. E uma teia de aranha vegetada pela seiva.

III

Veja bem, leitora teimosa, não queira se desesperar sobre assuntos mundanos, discorrer sobre o seu jardim de inverno no qual jamais brotou um broto de jaz mim.

IV

A senhora regou com açúcar e afeto a esperança da última gota?

V

Os haikais caem no leve deslizar de folha de outono. Imagine a gulosa leitora de celulose quantos bichos de origami saem do papel...


1.6.11

vaca cristina

A vaca Cristina, de madrugada,
vem de belenguê no longo da rua.
- Uei!
Quem quer leite da vaca Cristina?

No Bango lambido de luzes escassas
estira-se lentamente a madrugada.
Amontoa-se a garoa miúda. Lá adiante
roda a carroça de lixo da noite.
- Uei!
Bebam leite da vaca Cristina.

E a vaca boêmia, com fitas nas guampas,
se lambe faceira.
Sacode o chocalho.
- Boa-noite, comadre.
Veja as tetas da vaca Cristina!

E passa a patrulha noturna da zona.
É a hora em que o Bango cansado cochila.
Somente enche o resto da noite deserta
o belenguê molango no longo da rua.
- Uei!
Quem quer leite da vaca Cristina?


São Paulo, 1924

[MASSI, Augusto (org.). Poesia completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio; São Paulo: Edusp, 1998. p. 210]


31.5.11

sobre uma crônica

Ainda há professores que leem; e foi nesse ainda que uma professora me passou um texto, em tempo de folia, escrito por um ator.
A crônica, intitulada “Carnaval em Curitiba”, é ruim.

Eu disse: muito ruim.

(Por quê?)

deve estar se perguntando o fiel leitor.

Pelo simples fato do conteúdo carregar em seu substrato a ideologia da classe média; trocando em miúdos: o texto apresenta um ponto de vista burguês. Como? Ora, o fulano cita, para encerrar seu glorioso discurso, que alguma criatura proponha um encontro de psicanálise, um entretenimento de música erudita ou uma feira de livros no lugar do carnaval, e nisso ele reforça dizendo que o nosso cenário é original no campo brasileiro.

Que se tenha dito e boa tarde.



30.5.11

meio-fio


um passo em falso,
o trupique:

e a perna quebrada.


26.5.11

da contemporaneidade


E-MAIL PARA CARLITO AZEVEDO


rapaz, mas está tudo tão sério

tudo tão carteira da frente
sem sol, sem Rio, sem gente

essa falta de imaginação, que mistério!
tudo carece dessa leveza bonita
que em nossas leves veredas levita

(os passos da deusa sempre acesa,
uma garota sempre de Ipanema,
sempre sol, sorvete, praia, cinema)

são tantos tontos em ponto de tristeza
por um lugar na mídia - toscos teachers
versão brasileira Herbert Richers

e são tantos tiques - todos: traça -
é tanto poeta pedante (eu só podia -
que mania! - estar falando de poesia)

é... o Brasil está perdendo a graça...
mas alguém de longe grita: - alea jacta est,
Coca-cola is the best!

[CALIXTO, Fabiano. Sangüínea (2005-2007). São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 77]


24.5.11

de la musique


[David Bowie, Young Americans,
Live Dick Cavett Show 1974]


17.5.11

ana no amor líquido sem anarquismo


A perna da mocinha balançava. Sem parar. Notei com isso que ela estava nervosa, ou esperava na certa um passo meu. E eu estava bem afim de chegar.
Mas como bom mineiro, fui, para evitar maiores desencontros, pois a vida está cheia deles, com cautela. E no que deu? Não deu.

Ana me lembrou uma cantora de cabelo bem curto, o que dá um toque: um certo charme bossanovístico. nela seu perfil destaca-se o nariz e um pelinho loiro que me chamou a atenção (seria o meu punctum?); o pescocinho que só uma mordidinha, moça, deixa, vai, estava todo. O sorriso tímido surgiu do seu rosto que mais parecia um espelho onde eu mirava fundo em seus olhos.

Ana num dia de sol e bife a cavalo estava de corpo e alma dentro do vestidinho; ela sorria. Rugas apareceram quando ela sorriu.

“Que chinelinho mais lindo nos pés pra beijar.”

Ao céu de café com baunilha, ela como um corpo caminhava no chão da garoa nublada. Virou minha obsessão, outro dia. Pro eterno agora.

Ai, Ana, o que fez de mim? Cadela do meu coração: que devora, que devora: devorando.


16.5.11

malandro não vacila

[Bezerra da Silva,
1927-2005]


15.5.11

deus sabe o que faz


Deus sabe o que faz e por isso a criança nasceu cega, mas Deus sabe o que faz e ela cresceu forte e sadia, não teve coqueluche nem bronquite como os outros filhos – o mais velho, aos vinte e poucos anos já vivia na pinga, cometeu um crime e foi parar na cadeia; a menina cresceu, virou moça, casou, traiu o marido, separou, virou prostituta; o cego tinha o ouvido bom e aprendeu a tocar violão e aos quinze anos já tocava violão como ninguém, um verdadeiro artista, porque Deus sabe o que faz e para tudo nesse mundo há uma compensação, e assim enquanto o irmão estava na cadeia e a irmão no bordel, o cego foi ganhando nome e dinheiro com seu violão e seu ouvido, que era melhor do que o ouvido de qualquer pessoa normal, e os pais, que eram pobres e às vezes não tinham nem o que comer, tinham agora dinheiro bastante para se darem ao luxo de comprar um rádio, onde escutaram transmitido da cidade vizinha o programa do Mozart do violão, como o batizara o chefe da banda de música local que, tão logo conheceu o rapaz, tornou-se seu empresário, deixando a banda para revelar aos quatro cantos do mundo o maior gênio do violão de todos os tempos, até que um dia sumiu ara os quatro cantos do mundo com o dinheiro das apresentações, mas Deus sabe o que faz, e se o empresário fugiu, uma linda moça se apaixonou pelo rapaz e prometeu fazer a felicidade dele para o resto da vida, e assim, enquanto os dois, casados e morando numa modesta casinha, viviam felizes, a irmã, que era perfeita e bonita, envelhecia prematuramente no bordel e o irmão, que era perfeito e bonitão, saíra da cadeia, não achara emprego e vivia ao léu, até que conheceu a mulher do cego e se apaixonou loucamente por ela: o cego tocava na maior altura para não ouvir os beijos dos dois na sala – até que as cordas rebentaram, até que ele rebentou o ouvido com um tiro. 

Luiz Vilela

8.5.11

s/ título


numa noite que transcorreu na esquina do bar entre trupiques, garrafas quebradas, copos estilhaçados, sertanejos sem almas e mulheres bêbadas: um caboclo me pagou cerveja. outro, depois, me pediu um cigarro.

mais tarde, bem tardezinha riscou o céu uma estrela.

“era cadente?”

pois não é que fiz um pedido pro senhor do bonfim que até pendurei o pensamento na copa de uma árvore?


6.5.11

angeli night club

[Luke e Tantra]

o cabeçudo

arqueólogos encontraram numa gruta da lapa uma ossatura que aparenta ser de um homem que viveu na região há 500 anos.

um dado curioso apontado pelos especialistas é o da cabeça possuir um formato estranho: esquisito. pelo tamanho do crânio o peso pode valer o dobro de todo o corpo. tal dado analítico aponta para dois lados:
a) o homem era macaco;
b) ou era burro demais para tamanha revelação do defunto.

Quais pensamentos poderiam alimentar o homem ancestral?