[Eu não escrevo versinhos para o papai, de Maira Parula, 2011]
30.10.11
28.10.11
o homem cordial
[...]
Vanzolini e Chico tornaram-se amigos para toda a vida. Anos depois, trabalhando na letra de "Ode aos ratos", Chico telefonou para o zoólogo para perguntar características específicas sobre os ratos. "E o nariz, como é que é? É frio, quente, macio?". Vanzolini, sem muita paciência, e sempre irônico, respondeu: "Chico, você mente tanto sobre mulher... Por que não inventa qualquer coisa sobre os ratos?" Chico não perdeu o humor e, de bate-pronto, devolveu: "Poxa, Vanzolini... Pelos ratos eu tenho o maior respeito".[CARDOSO, Tom. Paulo Vanzolini. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2010. p. 39 (Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira; v. 16)]
11.10.11
sobre uma crônica
o ex-professor acadêmico ficou mais burro?
Estava eu voltando pra casa, bem logo depois de comprar uma latinha de tinta pra pintar a janela da biblioteca, quando me lembrei de algo que eu ia esquecendo: o jornal pra forrar o chão. No caso de algum descuido meu, vai que a tinta pinga.
Viro a esquina, uma banquinha, e lerê!, a duas quadras de casa. Adentro-me como bom raparigo – sujeito com fumo de homem – pra apanhar um jornal. Da capital, de preferência. Ora, quem diria, justamente hoje. Que dia era? Sabe o leitor? Terça-feira, dia do mocinho indomável. A dois real. O título da crônica, “Polícia do pensamento”. Exagero? Foi assim que me achei pego ao pé da interrogação. Como uma graúna invertida. Fui lá, curioso pela astúcia intitulada e dei-me com mais uma crônica mal escrita, digo: pensada. Desculpe a intromissão, fui eu que policiei. Mas voltemos a este gênero textual, o qual deveria ser leve como andar de mãos dadas com uma garota: recheado de devaneios; o caminho dos dois. Mas o fetiche do garoto, autor da referida crônica, faz o discurso se render ao capitalismo na defesa da publicidade retirada do ar. Pra começar, Gisele na propaganda da Hope parece uma boneca manipulável: idiota na presença de calcinha e sutiã, e o pior, de salto alto. Se era pro marido, que, então, aparecesse nua; todavia, conforme o discernimento nos ensina: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Voltando à “mulher independente”, conforme disse Marta Suplicy, também em sua ajuda, Gisele representa uma mulher vazia de significados, como se a relação com um homem fosse apenas econômica. Não há substância alguma, mesmo de piada. Achei uma burrice sem tamanho, e só!
A gente, cabra macho, de pexera na mão, não nega a belezura que a magreza da modelo tem de poder sobre o nosso consciente, sem esquecer a ideologia burguesa transmitida na ideia materializada que carrega a imagem. Sabe de uma coisa, o cabra macho também é um estereótipo, ta vendo? O cara da crônica por ser um ator logo irá defender estereótipos do tipo “censurado”. Mau gosto? Puxa vida!, foi imbecializante a publicidade; aliás, como o próprio texto do ex-professor.
Algo no título foge ao ato de pensar. Pensar para transformar, não para manter a estrutura dominante dos tempos atuais: ideologia da propaganda. Qual ligação tem o ato de pensar com o mercado das vendas?, creio que ficamos sem respostas, alienados. O fato de vender algo – por pior que seja a mercadoria – nos proporciona uma momentânea felicidade? Aceitamos a imagem que vende um produto e nisso: não há nada de pensamento.
Agora me vou embora, pra aprender a língua dos passarinhos.
10.10.11
sob censura
[...]
É preciso rever certos conceitos. Isso passa pelos meios de comunicação de massa, que reforçam estereótipos e criam outros, à guisa de fazer "piadas inocentes"
Nós, homens do século 21, somos seres pensantes. Não queremos prover ninguém, almejamos unir esforços. Se por acaso nossa renda for insuficente ou nula, que nos respeitem. Gostamos, sim, de sexo, mas não pensamos 24 horas por dia. Nos interessa o futebol mas também o balé, a música, a arte, a poesia. E choramos, sim.[Fausto Rodrigues de Lima]
7.10.11
carta ao ministro da educação
[17 de fevereiro de 1968]
Senhor ministro ou senhor presidente: “excedentes” num país que ainda está em construção?! E que precisa com urgência de homens e mulheres que o construam? Só deixar entrar nas Faculdades os que tirarem melhores notas é fugir completamente ao problema. O senhor já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiraram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacitados para resolverem na vida real os grandes problemas que existem. E nem sempre quem tira as melhores notas e ocupa uma vaga tem pleno direito a ela.
[...]
Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou Presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime.
[...]
Se o senhor soubesse do sacrifício que na maioria das vezes a família inteira faz para que um rapaz realize o seu sonho, o de estudar. Se soubesse da profunda e muitas vezes irreparável desilusão quando entra a palavra “excedente”. Falei com uma jovem que foi excedente, perguntei-lhe como se sentira. Respondeu que de repente se sentira desorientada e vazia, enquanto ao seu lado rapazes e moças, ao se saberem excedentes, ali mesmo começaram a chorar. E nem poderiam sair à rua para uma passeata de protesto porque sabem que a polícia poderia espancá-los.
[LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999]
28.9.11
23.9.11
tudo pra família
O slogan nos tubos de ônibus da linha verde, por exemplo, diz mais ou menos assim: FAMÍLIA, agora a família de Curitiba volta mais cedo pra casa. Não é bem assim não, tem gente que não volta, tem pai que para no boteco pra descontar o salário de merda na empresa, o qual não é suficiente sustentar essa mesma família de que a prefeitura fala. As famílias têm distúrbios nas relações porque a limitação material gera depressão, mal-estar. Há filho e mulher que não voltam pra casa porque são espancados. E várias outras coisas hediondas que acontecem. Mas como vivemos numa sociedade fascista, o discurso regrador dos distúrbios socias precisa se fundamentar num conceito essencialista e idealizado de FAMÍLIA.
19.9.11
das biografias

Uns tomam etér, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
[Não sei dançar]
[...]
A cocaína, chamada carinhosamente de "pó-de-arroz" e "fubá mimoso", era a droga da moda entre políticos, intelectuais e boemios, que a compravam em fraquinhos, a quinze mil réis cada. Manuel Bandeira era um dos que se dizia que praticavam o violento esporte nasal.
[CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pp. 52-53]
14.9.11
de la musique
[Itamar Assunção canta Paulo Leminski:
Cena da série de documentários "Mapas Urbanos",
com direção de Daniel Augusto]
Cena da série de documentários "Mapas Urbanos",
com direção de Daniel Augusto]
6.9.11
dos grandes pensadores
[...]
Penso que, tendo sido alfabetizados, deveríamos ler o melhor da literatura e não ficar repetindo para sempre nosso bê-a-bá e nossos monossílabos, sentados a vida inteira na primeira fila da sala de aula. A maioria dos homens fica satisfeita se consegue ler ou ouvir outros lerem um único livro, a Bíblia, persuadidos talvez por sua sabedoria, e pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil.
[THOREAU, Henry. Desobediência Civil. Tradução de Sérgio Karam. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 69]
29.8.11
numa fila imensa
o terminal com seu piso de borracha estava lotado. por isso esperei três ônibus. um logo atrás do outro. ao chegar o terceiro comboio vazio que voltou cheio, um homem deixava cair uma corrente. fiquei sabendo do ocorrido pelo barulho, mas não tinha sido isso o chamativo da minha curiosidade e sim uma mulher dizendo:
“olha, aquele homem deixou cair uma pulseira.”
me virei. o objeto reluzia há uma distância de dois passos. neste meio tempo em que eu pensei no comprimento que me separava do objeto, notei um moleque indo ao seu alcance. ele percebeu o meu movimento quando tomei a dianteira nos exatos dois passos e zup!... como um pirulito, eu possui o adorno para o corpo humano. não pensei no dono da pulseira, embora tenha lembrado que a coisa pertencia a alguém. até aquele momento. observei o acabamento dela: dois dragões chineses de metal chumbado. bem feito o acabamento. pesei utilizando dois dedos para saber por quanto eu podia vendê-la.
“cincoentão?"
vale. olhei para o céu, mas o teto de metal circunlovado retesou minha visão. rodopiei a pulseira como uma putinha e voltei à fila, para embarcar no bus.
“olha, aquele homem deixou cair uma pulseira.”
me virei. o objeto reluzia há uma distância de dois passos. neste meio tempo em que eu pensei no comprimento que me separava do objeto, notei um moleque indo ao seu alcance. ele percebeu o meu movimento quando tomei a dianteira nos exatos dois passos e zup!... como um pirulito, eu possui o adorno para o corpo humano. não pensei no dono da pulseira, embora tenha lembrado que a coisa pertencia a alguém. até aquele momento. observei o acabamento dela: dois dragões chineses de metal chumbado. bem feito o acabamento. pesei utilizando dois dedos para saber por quanto eu podia vendê-la.
“cincoentão?"
vale. olhei para o céu, mas o teto de metal circunlovado retesou minha visão. rodopiei a pulseira como uma putinha e voltei à fila, para embarcar no bus.
23.8.11
por que ver os clássicos
[I Vitelloni, de Federico Fellini, 1953]
[...]
Trabalho que [...] o nome diz tudo, pois a palavra deriva do latim tripaliare, que significa castigar com o tripaliu, instrumento que, na Roma Antiga, era um objeto de tortura, consistindo numa espécie de canga usada para supliciar escravos. [...] Entre nós, porém, perdura a tradição católica romana e não a tradição reformadora de Calvino, que transformou o trabalho como castigo numa ação destinada à salvação. Mas nós, brasileiros, que não nos formamos nessa tradição calvinista, achamos que o trabalho é um horror.[DA MATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1986. p. 21-22]
16.8.11
Em (e por) Cuba
[Buena Vista Social Club, Pueblo nuevo, 1997]
[...]
O teste de uma revolução (de verdade) é a relação entre o seu custo humano e o seu saldo social. A conclusão a respeito é que Cuba realizou um máximo de igualdade e justiça com o mínimo de sacrifício da liberdade. Trata-se de um regime voltado para a liberação do povo, a fim de promover a sua atuação efetiva na transformação da sociedade. Portanto, teve e tem de neutralizar inimigos, evitar retrocessos, usar a força para realizar o que é a solução mais humana para o homem. O intelectual de um país onde a burguesia domina com força bastante para permitir o jogo das opiniões; mesmo o intelectual de um país como o Brasil, que só recentemente readquiriu um pouco de direito a este jogo, pode estranhar, por exemplo, a severa arregimentação social do trabalho em Cuba, as limitações da sua imprensa, a dureza contra os adversários. Mas ao mesmo tempo verifica que enquanto nos nossos países há uma prática democrática de superfície, porque está baseada na tirania econômica e alienadora sobre a maioria absoluta, em Cuba há uma restrição relativa na superfície e, em profundidade, uma prática da democracia em seus aspectos fundamentais, isto é, os que asseguram não apenas a igualdade e a libertação da miséria, mas o direito de deliberar nas unidades de base e dialogar com os dirigentes, resultando a conquista dos instrumentos mentais que abrem as portas da vida digna.
[CANDIDO, Antonio. Recortes. 3 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004. p. 170]
11.8.11
literatura e submissão
Mestres em Literatura analisam textos ficcionais produzidos pelos habitantes da capital para, a partir deles, classificar a psicologia da comunidade e seu processo criador: o qual não existe.
1.8.11
chega de escola

Eu detesto escola. É uma perda de tempo miserável. Minha mãe me ensinou a ler, escrever e fazer as quatro operações. O resto foi aos trancos e barrancos.
[...]
Meu colegial ensinou a dar sinal de sete-de-copas, beber e fumar.... A besta do professor de português, em três anos, recomendou um único livro decente: O Apanhador no Campo de Centeio.
[...]
...as melhores escolas do Brasil formam uma legião de cretinos semianalfa. [...] Ninguém sabe de nada, ninguém lê, ninguém escreve direito, ninguém fala inglês, e pior: ninguém é curioso. [...] Minha teoria é que toda escola serve para esmagar o espírito e a imaginação do ser humano para que ele se torne um escravo zumbi da sociedade.
[...]
Dos 12 anos pra frente é sacanagem trancar a molecada nas salas de aula. Porque aí já é hora de enfrentar as questões fundamentais da existência. Aprender a transar, dirigir, ganhar dinheiro, cozinhar, ajudar o vizinho, se dar bem com a sogra e reconfigurar o acesso à Internet.
E o principal: aprender a se manter curioso. Quem é curioso lê e experimenta, pula muro, tem conversas estranhas, faz conexões, cria universos. Pensa com a própria cabeça. É o que interessa. Ok, existem escolas diferentes, mais experimentais, moderninhas e carinhas. Mas não comemore ainda, caro amigo de classe média alta. As alternativas ao sistema decoreba imbecializante são tão preocupantes quanto.
[...]
[André Forastieri
Caros Amigos, fevereiro de 2001]
Caros Amigos, fevereiro de 2001]
22.7.11
entrevista

[...]
Acho que a literatura "pop" é um negócio capaz de fazer da literatura o que os Beatles fizeram na música - tornar a literatura um troço tão importante pra gente como esse cigarro que você tá fumando e que tá preenchendo um momento de sua vida; como um comprimido de AAS que você toma quando tá com dor de cabeça, entende? Uma literatura que o menino aí do elevador, numa hora de folga, num feriado, possa pegar e ler e entender à maneira dele.
Ainda que eu vibre com Bob Dylan, com os poucos artistas "pops" que eu conheço, eu não tenho nada a ver com o chamado "underground" brasileiro. Eu discordo deles. Acho que nós, de cultura latino-americana, não temos que ser surcusal de um movimento de Nova Iorque ou de Londres.
Para mim, literatura é um negócio que tá acontecendo o tempo todo: tá acontecendo no barzinho [...], tá acontecendo dentro de um elevador com um cara que não estudou, com a garçonete que não é escritora.
Então o negócio é incorporar a linguagem desse pessoal, entende?
No Brasil, quem realmente faz a linguagem do povo é o próprio povo brasileiro. A raiz da linguagem que foi divulgada pelo Pasquim saiu dos morros cariocas. É que a linguagem tá violentamente ligada à ideologia. O facismo em Portugal conseguiu dominar tudo, até a linguagem. No Brasil não - a linguagem protestou, reagiu, a linguagem explodiu por aí, refletindo um conteúdo social violento, certo?[DRUMMOND, Roberto. A morte de D.J. em Paris. São Paulo: Editora Ática, 1975]
12.7.11
sobre mitos e lendas
quando o bicho da seda nos conta duas história
I
ouve-se muitas lendas em torno de Curitiba, mas uma é peculiar na medida que nos remete a um conto de fada bem comum ao imaginário infantil: diz essa narrativa que as mulheres, a partir da meia-noite, começam a se transformar em copos de cerveja, em maços de cigarros e em homens.
II
no dia dos namorados a estátua de pedra da Praça do Homem Nu caminha até o morro do Marumbi e lá de cima, junto aos deuses, toca uma bronha em homenagem aos pombinhos. Sua porra, no entanto, cai sobre Curitiba como se fosse flocos de neve, fazendo o paranaense retornar àquele nostálgico ano de 75.
9.7.11
das cirurgias plásticas
II
A moça, que ia comemorar seus cincoenta anos no litoral, sofreu um acidente. O desastre, beirando a tragédia clássica da antiguidade, resultou nos olhos atingidos pelos estilhaços do carro contra o trator na estrada, quando seu marido, num descuido, perdeu o controle do automóvel. Nessa era uma vez: ela ficara viúva.
Levada para o hospital, ainda inconsciente, o cirurgião com parcos recursos, ou melhor, usufruindo do improviso público, substituiu os olhos macerados por dois umbigos. Eram o que sobrava do banco de órgãos do HC.
Hoje em dia, passados os anos, o amante sensível, ao acariciar o umbigo, que não é um olho, faz a moça sorrir.
8.7.11
7.7.11
6.7.11
ceebja
Os alunos foram chegando, ocupando seus respectivos lugares. Mas notei que eles estavam com as caras abatidas. Uma criança havia sido morta por policiais, me disse uma aluna. Era uma criança que toda a comunidade conhecia.
No rosto de cada um notava-se o desconsolo. A dor. O cansaço. Até parecia que eles perguntavam a Deus: por que a criança e não a mim.
4.7.11
caderninho de nomes
esboços
Ana tem namorado. Eu não sabia. Quase apanhei por causa de um cartão-postal que enviei pra ela. O namorado até hoje me cuida por trás de uns óculos garrafais.
Dora é branca como neve e tem uns pelinhos no buço. Gosto das suas mãos na minha nuca. Fico derretido.
Simi com duas pintas sobre a boca é uma mulata danada. Um dia ela leu um texto meu e molhou os lábios como uma gatinha. Fiquei que fiquei.
Isa conheci numa noite na porta do Blues Velvet. Trocamos telefones pra ela cortar o meu cabelo. À domicílio.
Bárbara tinha fixação pelos meus pés.
Ana tem namorado. Eu não sabia. Quase apanhei por causa de um cartão-postal que enviei pra ela. O namorado até hoje me cuida por trás de uns óculos garrafais.
Dora é branca como neve e tem uns pelinhos no buço. Gosto das suas mãos na minha nuca. Fico derretido.
Simi com duas pintas sobre a boca é uma mulata danada. Um dia ela leu um texto meu e molhou os lábios como uma gatinha. Fiquei que fiquei.
Isa conheci numa noite na porta do Blues Velvet. Trocamos telefones pra ela cortar o meu cabelo. À domicílio.
Bárbara tinha fixação pelos meus pés.
24.6.11
das epígrafes
"... as boas maneiras de ler hoje, é chegar a tratar um livro como se escuta um disco, como se olha um filme ou um programa de televisão, como se é tocado por uma canção: todo tratamento do livro que exigisse um respeito especial, uma atenção de outra espécie, vem de uma outra era e condena definitivamente o livro. Não há nenhuma questão de dificuldade nem de compreensão: os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens, são intensidades que convêm a você ou não, que passam ou não passam. 'Pop' filosofia. Não há nada a compreender, nada a interpretar."[Gilles Deleuze - Cartografias do desejo, de Féliz Guattari e Suely Rolnik]
17.6.11
por que escrever?

[...]
No mínimo, os anos me ensinaram isto: se você tem uma caneta no seu bolso, há uma boa chance de que um dia se sinta tentado a começar a usá-la.
Como gosto de dizer para os meus filhos, foi assim que me tornei escritor.[AUSTER, Paul. O caderno vermelho: histórias reais. São Paulo: Companhia das letras, 2009. p. 64]
15.6.11
cinco bilhetinhos à libidinosa leitora
I
A mui estimada e curiosa leitora deduz o quanto a sapiencia é o laboratório dos honorários. Quem me contou essa lorota semelhante a um aforisma foi o canário, que sobrevoava o conceito de mundo.
II
O tempo, sonolenta leitora, transforma-nos em árvores. E elas, conforme narra a lenda, guardam segredos de morte. Se a encantadora leitora observar nas entrelinhas encontrará dentro do tronco escuro e úmido cobras ratos escorpiões. E uma teia de aranha vegetada pela seiva.
III
Veja bem, leitora teimosa, não queira se desesperar sobre assuntos mundanos, discorrer sobre o seu jardim de inverno no qual jamais brotou um broto de jaz mim.
IV
A senhora regou com açúcar e afeto a esperança da última gota?
V
Os haikais caem no leve deslizar de folha de outono. Imagine a gulosa leitora de celulose quantos bichos de origami saem do papel...
1.6.11
vaca cristina
A vaca Cristina, de madrugada,vem de belenguê no longo da rua.
- Uei!
Quem quer leite da vaca Cristina?
No Bango lambido de luzes escassas
estira-se lentamente a madrugada.
Amontoa-se a garoa miúda. Lá adiante
roda a carroça de lixo da noite.
- Uei!
Bebam leite da vaca Cristina.
E a vaca boêmia, com fitas nas guampas,
se lambe faceira.
Sacode o chocalho.
- Boa-noite, comadre.
Veja as tetas da vaca Cristina!
E passa a patrulha noturna da zona.
É a hora em que o Bango cansado cochila.
Somente enche o resto da noite deserta
o belenguê molango no longo da rua.
- Uei!
Quem quer leite da vaca Cristina?
São Paulo, 1924
[MASSI, Augusto (org.). Poesia completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio; São Paulo: Edusp, 1998. p. 210]
31.5.11
sobre uma crônica
Ainda há professores que leem; e foi nesse ainda que uma professora me passou um texto, em tempo de folia, escrito por um ator.
A crônica, intitulada “Carnaval em Curitiba”, é ruim.
Eu disse: muito ruim.
(Por quê?)
deve estar se perguntando o fiel leitor.
Pelo simples fato do conteúdo carregar em seu substrato a ideologia da classe média; trocando em miúdos: o texto apresenta um ponto de vista burguês. Como? Ora, o fulano cita, para encerrar seu glorioso discurso, que alguma criatura proponha um encontro de psicanálise, um entretenimento de música erudita ou uma feira de livros no lugar do carnaval, e nisso ele reforça dizendo que o nosso cenário é original no campo brasileiro.
Que se tenha dito e boa tarde.
A crônica, intitulada “Carnaval em Curitiba”, é ruim.
Eu disse: muito ruim.
(Por quê?)
deve estar se perguntando o fiel leitor.
Pelo simples fato do conteúdo carregar em seu substrato a ideologia da classe média; trocando em miúdos: o texto apresenta um ponto de vista burguês. Como? Ora, o fulano cita, para encerrar seu glorioso discurso, que alguma criatura proponha um encontro de psicanálise, um entretenimento de música erudita ou uma feira de livros no lugar do carnaval, e nisso ele reforça dizendo que o nosso cenário é original no campo brasileiro.
Que se tenha dito e boa tarde.
30.5.11
Assinar:
Postagens (Atom)





