mais tarde, bem tardezinha riscou o céu uma estrela.
“era cadente?”
pois não é que fiz um pedido pro senhor do bonfim que até pendurei o pensamento na copa de uma árvore?
- rádio linha de fuga - agenciamento teoria - vida - prática - grupo - sexo - solidão - máquina - ternura - Cê entende, cara, a batalha semiológica -

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Leitura
Eu não admitia sequer a literatura. Filosofia. Hegel. As ciências naturais. Mas sobretudo, marxismo. Não existe obra de arte que me tenha entusiasmado mais que o "Prefácio" de Marx. Obras clandestinas saíam dos quartos dos estudantes. Tática do Combate de Rua, etc. Lembro-me distintamente do livrinho azul de Lênin, Duas Táticas. Agradava-me o fato de o livro ter sido cortado sem margens. Para a distribuição clandestina. A estética da economia máxima.
[MAIAKÓVSKI, Vladímir. Poemas. 6 ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002. p. 35-36]
Diz-se que em Curitiba não há carnaval. Dada como dogma vaticano, a afirmação já entrou para o anedotário nacional e desperta umas tantas gargalhadas a cada fevereiro que chega. E não é raro encontrar curitibanos que se orgulhem dessa particularidade, apostando que a inabilidade para as vulgaridades momescas - essa liturgia de nus e mescarados - seria a prova inconteste do nosso sangue azul.
Em resumo, o anticarnaval virou uma marca da terra. Além das temperaturas polares que se estendem, sem pudores, até o mês de dezembro; do sotaque tão seco e áspero a ponto de nos tomarem por antipáticos; das muitas cabeleiras louras, por natureza, por força da poderosa indústria dos cosméticos ou pela expansão do Salão Marly, seríamos também destituídos de qualquer talento para o samba. Esse quesito selaria nossa posição de "Brasil Diferente", para lembrar a expressão cunhada pelo crítico literário Wilson Martins em seu livro mais polêmico.
[...][José Carlos Fernandes in: Resgatando o Gala Gay do Clube Operário]
Eu era um grande pênis deitado ao sol de Copacabana. Um pênis de 1,75 m aquecendo-se na areia. Um pênis predador, cabeçona reluzente, tentando abocanhar todas as xoxotas que passavam diante de mim. Se me arpoassem naquele momento, eu me contorceria sobre os corpos cavernosos e esguicharia uma coluna de porra a dez metros de altura. "Caçaram um pênis!", gritaria alguém, e num instante uma roda de curiosos se formaria em torno de mim, empurra que empurra um garoto de óculos cairia de joelhos sobre meu prepúcio, eu me debatendo e rolando na areia suja de sangue, papéis de picolé grudando na minha pele, ecologistas protestando, uma estudante de biologia cutucando-me com o cabo de um guarda-sol, um militar reformado recomendando às mulheres que protegessem as xoxotas porque o bicho ainda estava vivo, a repórter do Fantástico tentando me entrevistar com uma bandeirinha do Green Peace ao lado, eu exposto no Leme até às 16 horas, às 16:05 sou removido para a Quinta da Boa Vista aos cuidados de um veterinário, um membro do National Geographhic desembarca no Galeão com um unguento usado pelas focas do Alaska e dois dias depois, a glande envolvida por uma enorme bandagem, apareço na quinta página do Le Monde abraçado por Jacques Cousteau.[SNEGE, Jamil. Como eu se fiz por si mesmo. Curitiba: Travessa dos Editores, 1994. p. 90]
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Vendo para dentro de si, como para o fundo de um mar prodigioso, ele domina com o olhar perscrutante, inquieto, que apanha de pronto as situações a maravilhosa ductilidade das mulheres, vendo também perfeita singularidade o que se dá dentro delas, as suas inquietudes, as suas impaciências, os seus receios, os seus caprichos inesperados, as suas volubilidades doentes e curiosas, as suas resoluções bruscas, os seus ímpetos de leoa, os seus momentos horríveis de crise hiper-histérica sem causa determinada, sem assinalamentos de origem, mas assoberbantes, convulsos e que de repente cessam como vieram, para tornarem ainda, mais desabridos e persistentes.[Cruz e Souza, 1861 - 1898]
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Agora, como já não sou criança, o domingo tornou-se para mim um dia favorável. Um dia que suspende essa procura social - correio, telefone, encontros - que me cansa durante a semana. Um dia feliz, porque é um dia branco, um dia silencioso em que posso ser preguiçoso, quer dizer, livre. Pois a forma votiva da preguiça moderna acaba por ser a liberdade.[BARTHES, Roland. Le Monde-Dimanche, 16 de Setembro de 1979]