8.5.11

s/ título


numa noite que transcorreu na esquina do bar entre trupiques, garrafas quebradas, copos estilhaçados, sertanejos sem almas e mulheres bêbadas: um caboclo me pagou cerveja. outro, depois, me pediu um cigarro.

mais tarde, bem tardezinha riscou o céu uma estrela.

“era cadente?”

pois não é que fiz um pedido pro senhor do bonfim que até pendurei o pensamento na copa de uma árvore?


6.5.11

angeli night club

[Luke e Tantra]

o cabeçudo

arqueólogos encontraram numa gruta da lapa uma ossatura que aparenta ser de um homem que viveu na região há 500 anos.

um dado curioso apontado pelos especialistas é o da cabeça possuir um formato estranho: esquisito. pelo tamanho do crânio o peso pode valer o dobro de todo o corpo. tal dado analítico aponta para dois lados:
a) o homem era macaco;
b) ou era burro demais para tamanha revelação do defunto.

Quais pensamentos poderiam alimentar o homem ancestral?


19.4.11

nesta tarde de domingo


evoco com muito pesar e helicópteros sobrevoando os arranhas céus

mamãe jogando video-game na terra que passou.

ela não tinha nenhuma prática com o joystick
porém mesmo assim arrancava o aparelho de cima da caixa de presente a ponta pés xingando o vilão.

assim dizia:
- mau, vilão mau.

mas os vilões, por excelência, são maus, mamãe,
corrigia o caçula que acabava de chegar da escola.


17.4.11

de la musique


[Roda viva, Chico Buarque e MPB4]


15.4.11

a hora e a vez de joão cruel


Depois que o negro foi embora eu fiquei sentado na Cinelândia, uma praça do centro da cidade, pensando e olhando os pombos. Havia pombos em toda parte e muitos andavam pelo chão de pedras portuguesas brancas e pretas comendo o milho que duas velhas lhe atiravam com suas horrendas mãos caquéticas. Assim que a praça ficasse vazia eu me levantaria do banco e daria um pontapé num dos pombos.

["Placebo" - Rubem Fonseca ]


Se deu assim. João Cruel acordou com cara de mau bem nervoso rosnando os dentes. O carinha tava pra lá de infernal, pois sua expressão demonstrava malvadeza. Era João Cruel complexo na força interior de toda a sua fúria de macho.

Pelo meio da tarde no caminhar da rua, João Cruel acirrou o corpo. Tirou um cascalho da bolsinha de couro que trazia no ombro direito.

“coisa sólida”, pensou João Cruel e para cima jogou a pedra que em sua mão retornou. João Cruel a cobriu com os dedos. Em punho: uma coisa real. Foi assim que João Cruel da cintura por baixo da camisa puída pegou seu estilingue. O cascalho no bercinho com o sorinho esticado voou na linha retilínea. João conseguiu, depois de praticar pra cacete, acertar o pescoço do pombo na mira da sua vista num dia na praça.

Para a sorte do cidadão pacato.


10.4.11

cota zero

[Un homme qui dort, 1974]

Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel?

[Carlos Drummond de Andrade]


5.4.11

por que ver os clássicos


[Boca de ouro, de Nelson Pereira dos Santos, 1962]


30.3.11

aforisma com um dos pés na emoção


suje-se, gordo!
[machado de assis]



escrever bem é necessário, essencial comunicar com clareza: porém sob o estilo de um autor perpassa uma ideologia, e com certeza sou um dos leitores que se preocupa com esse adorno para almofadar ideias.


15.3.11

mutreta

...
meio se maloca
agita numa boca
descola uma mutuca
e um papel

sonha aquela mina, olerê

[“Pivete”, Francis Hime – Chico Buarque]


I

Tou com uma mutreta nervosa. Na medida de uma bucha pra cada. O serviço é simples. Coube no esquema. Cada um pega a sua parte e ninguém viu ninguém. Sem meias palavras. O assunto dispensa caráter. Seguem mais informações até a data marcada.

II

A transação furou. O lance teve que ser adiado. Suspeitaram de algo e rola um murmúrio em torno da coisa. Mantenhamo-nos antenados porque vai rolar e quando rolar o bicho come solto. Tudo é uma questão de tempo.

III

O arquiteto me ligou. Disse que dentro de poucas semanas poderemos executar a parada. Vocês tão cansados de saber que o tramite é jogo rápido. Então, olhar arguto: nada de vacilo. O plano continua o mesmo. Copiaram?

IV

É hoje. Indubitavelmente. Aprontem-se e me esperem no Rabo do Tatu. Disco pro orelhão e apanho você e seu caçula em dois segundos. Dirijo um Del Rey bege sem placa e não paro pra estacionar. Os dois pulam no banco de trás, o carro tem quatro portas. Vamos direto ao assunto e acabar com a brincadeira.


24.2.11

Voina

[...]

O Voina surgiu em fevereiro de 2007 e se recusa a trabalhar com as instituições de arte oficiais do Estado ou comerciais. É conhecido na Rússia por seu humor, performances não-violentas, anti-Estado e contra a polícia.


**

Leitura


Eu não admitia sequer a literatura. Filosofia. Hegel. As ciências naturais. Mas sobretudo, marxismo. Não existe obra de arte que me tenha entusiasmado mais que o "Prefácio" de Marx. Obras clandestinas saíam dos quartos dos estudantes. Tática do Combate de Rua, etc. Lembro-me distintamente do livrinho azul de Lênin, Duas Táticas. Agradava-me o fato de o livro ter sido cortado sem margens. Para a distribuição clandestina. A estética da economia máxima.


[MAIAKÓVSKI, Vladímir. Poemas. 6 ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2002. p. 35-36]



a noite: que sono


À noite o percalço vem atrás. Um copo de plástico como um caracol rola na calçada. Sequer tenho uma sombra que me acompanha.

Na volta, conto os semáforos. São mais de cinco até chegar ao buraco convencional, pois o caminho é curto e menos rápido. Por causa do respeito mútuo entre eu e o semáforo; seus signos: um homenzinho vermelho estagnado.

O livro aberto está a espera. Condenado entre o mito e a filosofia do amor. O kama sutra particular.

Ultraparticularíssimo.



22.2.11

de touca bobs e fraldão



[Garibaldis e Sacis]

Diz-se que em Curitiba não há carnaval. Dada como dogma vaticano, a afirmação já entrou para o anedotário nacional e desperta umas tantas gargalhadas a cada fevereiro que chega. E não é raro encontrar curitibanos que se orgulhem dessa particularidade, apostando que a inabilidade para as vulgaridades momescas - essa liturgia de nus e mescarados - seria a prova inconteste do nosso sangue azul.

Em resumo, o anticarnaval virou uma marca da terra. Além das temperaturas polares que se estendem, sem pudores, até o mês de dezembro; do sotaque tão seco e áspero a ponto de nos tomarem por antipáticos; das muitas cabeleiras louras, por natureza, por força da poderosa indústria dos cosméticos ou pela expansão do Salão Marly, seríamos também destituídos de qualquer talento para o samba. Esse quesito selaria nossa posição de "Brasil Diferente", para lembrar a expressão cunhada pelo crítico literário Wilson Martins em seu livro mais polêmico.


[...]


[José Carlos Fernandes in: Resgatando o Gala Gay do Clube Operário]


19.2.11

da contemporaneidade


15

Eu era um grande pênis deitado ao sol de Copacabana. Um pênis de 1,75 m aquecendo-se na areia. Um pênis predador, cabeçona reluzente, tentando abocanhar todas as xoxotas que passavam diante de mim. Se me arpoassem naquele momento, eu me contorceria sobre os corpos cavernosos e esguicharia uma coluna de porra a dez metros de altura. "Caçaram um pênis!", gritaria alguém, e num instante uma roda de curiosos se formaria em torno de mim, empurra que empurra um garoto de óculos cairia de joelhos sobre meu prepúcio, eu me debatendo e rolando na areia suja de sangue, papéis de picolé grudando na minha pele, ecologistas protestando, uma estudante de biologia cutucando-me com o cabo de um guarda-sol, um militar reformado recomendando às mulheres que protegessem as xoxotas porque o bicho ainda estava vivo, a repórter do Fantástico tentando me entrevistar com uma bandeirinha do Green Peace ao lado, eu exposto no Leme até às 16 horas, às 16:05 sou removido para a Quinta da Boa Vista aos cuidados de um veterinário, um membro do National Geographhic desembarca no Galeão com um unguento usado pelas focas do Alaska e dois dias depois, a glande envolvida por uma enorme bandagem, apareço na quinta página do Le Monde abraçado por Jacques Cousteau.

[SNEGE, Jamil. Como eu se fiz por si mesmo. Curitiba: Travessa dos Editores, 1994. p. 90]

17.2.11

estórias do senhor G.


... nunca ame

mulheres e conversas tão fúteis
quanto as promessas que as nutrem

["Saldo" - Adriano Smaniotto]



"Ah, o amor", pensa o senhor G. muitíssimo compenetrado na ponta do lápis, "só deve estar de brincadeira essa porção abstrata, metafísica e o caralho a quatro".


O senhor G. Este.


16.2.11

mulheres



[...]


Vendo para dentro de si, como para o fundo de um mar prodigioso, ele domina com o olhar perscrutante, inquieto, que apanha de pronto as situações a maravilhosa ductilidade das mulheres, vendo também perfeita singularidade o que se dá dentro delas, as suas inquietudes, as suas impaciências, os seus receios, os seus caprichos inesperados, as suas volubilidades doentes e curiosas, as suas resoluções bruscas, os seus ímpetos de leoa, os seus momentos horríveis de crise hiper-histérica sem causa determinada, sem assinalamentos de origem, mas assoberbantes, convulsos e que de repente cessam como vieram, para tornarem ainda, mais desabridos e persistentes.


[Cruz e Souza, 1861 - 1898]


15.2.11

felipe

[Scheyla Joanne Horst]


14.2.11

estórias do senhor G.


lembra-se, leitor desgraçado, quando o senhor G. embarcou numa viagem sem volta? então, o esperto leitor talvez tenha sido vítima da galhofa mal contada. mira e veja, o senhor G. acaba de voltar do pequeno bairro portátil do escritor português e se hospedou na casa deste autor que lhe psicografa. aliás, o senhor G. é bem irreal.

o senhor G. Este.


13.2.11

ousemos ser preguiçosos


[Les enfants s'ennuient le dimanche, Charles Trenet]

[...]


Agora, como já não sou criança, o domingo tornou-se para mim um dia favorável. Um dia que suspende essa procura social - correio, telefone, encontros - que me cansa durante a semana. Um dia feliz, porque é um dia branco, um dia silencioso em que posso ser preguiçoso, quer dizer, livre. Pois a forma votiva da preguiça moderna acaba por ser a liberdade.


[BARTHES, Roland. Le Monde-Dimanche, 16 de Setembro de 1979]


12.2.11

convite

Querido Crocodilo,

vai ter festa da Girafa na toca da Raposa. Chama a bicharada do brejo: pois também é aniversário do Tatu. E vê se aparece, meu bocudinho.

Gorila.