No feriado passado, o que se passou,
passei os dias deitado.
Foram quatro dias de espera para o mundo acabar.
(Acabou?)
Não acabou. O mundo é duro.
Não acaba.
- rádio linha de fuga - agenciamento teoria - vida - prática - grupo - sexo - solidão - máquina - ternura - Cê entende, cara, a batalha semiológica -
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Muitos religiosos que seguem a linha kundalini da ioga, utilizando ou não a canábis, transformam o sexo numa relação ritual e longa, que às vezes dura todo um dia. Alguns pura e simplesmente retardam o orgasmo por horas. Outros negam o orgasmo como objetivo final e o substituem por uma sensação de unidade com o outro. Em ambos os casos, podemos imaginar Shiva com seu pênis ereto e lembrar a ambivalência da cultura hindu, para a qual a ereção simboliza também a castidade.[GABEIRA, Fernando. A maconha. São Paulo: Publifolha, 2000.]
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Se existem marginais hoje no Brasil, talvez sejam gente sem charme e sem carisma. Como os professores da rede pública, que continuam ensinando coisas com que ninguém mais se importa, a troco de salário nenhum. Como esses homens que puxam pelas ruas carroças cheias de jornais velhos e pedaços de papelão, num simulacro de trabalho digno com que, por algum motivo obscuro, eles preferem se identificar. De marginais-trabalhadores o Brasil ainda está cheio: mas estes não tem o sex-appeal dos bandidos, e vão morrer anônimos sem ter tido direito a seus quinze minutos de fama, digo, de cidadania.[KEHL, Maria Rita. A mínima diferença: masculino e feminino na cultura. Rio de Janeiro: Imago Ed. 1996. p. 258-259]
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Vanzolini e Chico tornaram-se amigos para toda a vida. Anos depois, trabalhando na letra de "Ode aos ratos", Chico telefonou para o zoólogo para perguntar características específicas sobre os ratos. "E o nariz, como é que é? É frio, quente, macio?". Vanzolini, sem muita paciência, e sempre irônico, respondeu: "Chico, você mente tanto sobre mulher... Por que não inventa qualquer coisa sobre os ratos?" Chico não perdeu o humor e, de bate-pronto, devolveu: "Poxa, Vanzolini... Pelos ratos eu tenho o maior respeito".[CARDOSO, Tom. Paulo Vanzolini. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2010. p. 39 (Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira; v. 16)]
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É preciso rever certos conceitos. Isso passa pelos meios de comunicação de massa, que reforçam estereótipos e criam outros, à guisa de fazer "piadas inocentes"
Nós, homens do século 21, somos seres pensantes. Não queremos prover ninguém, almejamos unir esforços. Se por acaso nossa renda for insuficente ou nula, que nos respeitem. Gostamos, sim, de sexo, mas não pensamos 24 horas por dia. Nos interessa o futebol mas também o balé, a música, a arte, a poesia. E choramos, sim.[Fausto Rodrigues de Lima]

Uns tomam etér, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
[Não sei dançar]
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A cocaína, chamada carinhosamente de "pó-de-arroz" e "fubá mimoso", era a droga da moda entre políticos, intelectuais e boemios, que a compravam em fraquinhos, a quinze mil réis cada. Manuel Bandeira era um dos que se dizia que praticavam o violento esporte nasal.
[CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pp. 52-53]
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Penso que, tendo sido alfabetizados, deveríamos ler o melhor da literatura e não ficar repetindo para sempre nosso bê-a-bá e nossos monossílabos, sentados a vida inteira na primeira fila da sala de aula. A maioria dos homens fica satisfeita se consegue ler ou ouvir outros lerem um único livro, a Bíblia, persuadidos talvez por sua sabedoria, e pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil.
[THOREAU, Henry. Desobediência Civil. Tradução de Sérgio Karam. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 69]
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Trabalho que [...] o nome diz tudo, pois a palavra deriva do latim tripaliare, que significa castigar com o tripaliu, instrumento que, na Roma Antiga, era um objeto de tortura, consistindo numa espécie de canga usada para supliciar escravos. [...] Entre nós, porém, perdura a tradição católica romana e não a tradição reformadora de Calvino, que transformou o trabalho como castigo numa ação destinada à salvação. Mas nós, brasileiros, que não nos formamos nessa tradição calvinista, achamos que o trabalho é um horror.[DA MATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1986. p. 21-22]
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O teste de uma revolução (de verdade) é a relação entre o seu custo humano e o seu saldo social. A conclusão a respeito é que Cuba realizou um máximo de igualdade e justiça com o mínimo de sacrifício da liberdade. Trata-se de um regime voltado para a liberação do povo, a fim de promover a sua atuação efetiva na transformação da sociedade. Portanto, teve e tem de neutralizar inimigos, evitar retrocessos, usar a força para realizar o que é a solução mais humana para o homem. O intelectual de um país onde a burguesia domina com força bastante para permitir o jogo das opiniões; mesmo o intelectual de um país como o Brasil, que só recentemente readquiriu um pouco de direito a este jogo, pode estranhar, por exemplo, a severa arregimentação social do trabalho em Cuba, as limitações da sua imprensa, a dureza contra os adversários. Mas ao mesmo tempo verifica que enquanto nos nossos países há uma prática democrática de superfície, porque está baseada na tirania econômica e alienadora sobre a maioria absoluta, em Cuba há uma restrição relativa na superfície e, em profundidade, uma prática da democracia em seus aspectos fundamentais, isto é, os que asseguram não apenas a igualdade e a libertação da miséria, mas o direito de deliberar nas unidades de base e dialogar com os dirigentes, resultando a conquista dos instrumentos mentais que abrem as portas da vida digna.
[CANDIDO, Antonio. Recortes. 3 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004. p. 170]
