22.11.11

parques aquáticos

I

No tanque transparente de enorme fundura habita como atração turística uma pequena e serena sereia. Faço visitas. Freqüento frequentemente. Levo sardinha moída e seca. Eu penso às vezes ela ser um peixe de aquário. E o pozinho seria a ração. Levo biscoito. Não sei porque diabos levo, deve ter um gosto horrível a bolacha molhada. Subo num cantinho da mureta, com a ajuda de um cavalete e peço prela cantar pra mim.

Sereia! Sereia! Me chama Sereia que eu mergulho.

A sereia fica ao fundo, espremo os olhos e vejo a sua sombra enigmática, o ser esboçado. A cauda gesticula ondas. Transmito de volta tocando no vidro. Sereia, eu vou!


20.11.11

de la musique


[Opinião, Zé Keti, 1970]


17.11.11

meus quinze anos


No feriado passado, o que se passou,
passei os dias deitado.

Foram quatro dias de espera para o mundo acabar.

(Acabou?)

Não acabou. O mundo é duro.
Não acaba.


15.11.11

paraíso na fumaça


[Árido Movie, de Lírio Ferreira, 2006]

[...]

Muitos religiosos que seguem a linha kundalini da ioga, utilizando ou não a canábis, transformam o sexo numa relação ritual e longa, que às vezes dura todo um dia. Alguns pura e simplesmente retardam o orgasmo por horas. Outros negam o orgasmo como objetivo final e o substituem por uma sensação de unidade com o outro. Em ambos os casos, podemos imaginar Shiva com seu pênis ereto e lembrar a ambivalência da cultura hindu, para a qual a ereção simboliza também a castidade.

[GABEIRA, Fernando. A maconha. São Paulo: Publifolha, 2000.]

10.11.11

marginais, não há mais

[André Letria]

[...]

Se existem marginais hoje no Brasil, talvez sejam gente sem charme e sem carisma. Como os professores da rede pública, que continuam ensinando coisas com que ninguém mais se importa, a troco de salário nenhum. Como esses homens que puxam pelas ruas carroças cheias de jornais velhos e pedaços de papelão, num simulacro de trabalho digno com que, por algum motivo obscuro, eles preferem se identificar. De marginais-trabalhadores o Brasil ainda está cheio: mas estes não tem o sex-appeal dos bandidos, e vão morrer anônimos sem ter tido direito a seus quinze minutos de fama, digo, de cidadania.

[KEHL, Maria Rita. A mínima diferença: masculino e feminino na cultura. Rio de Janeiro: Imago Ed. 1996. p. 258-259]


30.10.11

da contemporaneidade


[Eu não escrevo versinhos para o papai, de Maira Parula, 2011]


28.10.11

o homem cordial

[...]


Vanzolini e Chico tornaram-se amigos para toda a vida. Anos depois, trabalhando na letra de "Ode aos ratos", Chico telefonou para o zoólogo para perguntar características específicas sobre os ratos. "E o nariz, como é que é? É frio, quente, macio?". Vanzolini, sem muita paciência, e sempre irônico, respondeu: "Chico, você mente tanto sobre mulher... Por que não inventa qualquer coisa sobre os ratos?" Chico não perdeu o humor e, de bate-pronto, devolveu: "Poxa, Vanzolini... Pelos ratos eu tenho o maior respeito".


[CARDOSO, Tom. Paulo Vanzolini. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2010. p. 39 (Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira; v. 16)]


11.10.11

sobre uma crônica


o ex-professor acadêmico ficou mais burro?


Estava eu voltando pra casa, bem logo depois de comprar uma latinha de tinta pra pintar a janela da biblioteca, quando me lembrei de algo que eu ia esquecendo: o jornal pra forrar o chão. No caso de algum descuido meu, vai que a tinta pinga.

Viro a esquina, uma banquinha, e lerê!, a duas quadras de casa. Adentro-me como bom raparigo – sujeito com fumo de homem – pra apanhar um jornal. Da capital, de preferência. Ora, quem diria, justamente hoje. Que dia era? Sabe o leitor? Terça-feira, dia do mocinho indomável. A dois real. O título da crônica, “Polícia do pensamento”. Exagero? Foi assim que me achei pego ao pé da interrogação. Como uma graúna invertida. Fui lá, curioso pela astúcia intitulada e dei-me com mais uma crônica mal escrita, digo: pensada. Desculpe a intromissão, fui eu que policiei. Mas voltemos a este gênero textual, o qual deveria ser leve como andar de mãos dadas com uma garota: recheado de devaneios; o caminho dos dois. Mas o fetiche do garoto, autor da referida crônica, faz o discurso se render ao capitalismo na defesa da publicidade retirada do ar. Pra começar, Gisele na propaganda da Hope parece uma boneca manipulável: idiota na presença de calcinha e sutiã, e o pior, de salto alto. Se era pro marido, que, então, aparecesse nua; todavia, conforme o discernimento nos ensina: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Voltando à “mulher independente”, conforme disse Marta Suplicy, também em sua ajuda, Gisele representa uma mulher vazia de significados, como se a relação com um homem fosse apenas econômica. Não há substância alguma, mesmo de piada. Achei uma burrice sem tamanho, e só!

A gente, cabra macho, de pexera na mão, não nega a belezura que a magreza da modelo tem de poder sobre o nosso consciente, sem esquecer a ideologia burguesa transmitida na ideia materializada que carrega a imagem. Sabe de uma coisa, o cabra macho também é um estereótipo, ta vendo? O cara da crônica por ser um ator logo irá defender estereótipos do tipo “censurado”. Mau gosto? Puxa vida!, foi imbecializante a publicidade; aliás, como o próprio texto do ex-professor.

Algo no título foge ao ato de pensar. Pensar para transformar, não para manter a estrutura dominante dos tempos atuais: ideologia da propaganda. Qual ligação tem o ato de pensar com o mercado das vendas?, creio que ficamos sem respostas, alienados. O fato de vender algo – por pior que seja a mercadoria – nos proporciona uma momentânea felicidade? Aceitamos a imagem que vende um produto e nisso: não há nada de pensamento.

Agora me vou embora, pra aprender a língua dos passarinhos.


10.10.11

sob censura



[...]


É preciso rever certos conceitos. Isso passa pelos meios de comunicação de massa, que reforçam estereótipos e criam outros, à guisa de fazer "piadas inocentes"
Nós, homens do século 21, somos seres pensantes. Não queremos prover ninguém, almejamos unir esforços. Se por acaso nossa renda for insuficente ou nula, que nos respeitem. Gostamos, sim, de sexo, mas não pensamos 24 horas por dia. Nos interessa o futebol mas também o balé, a música, a arte, a poesia. E choramos, sim.

[Fausto Rodrigues de Lima]


7.10.11

carta ao ministro da educação


[17 de fevereiro de 1968]



[...]

Senhor ministro ou senhor presidente: “excedentes” num país que ainda está em construção?! E que precisa com urgência de homens e mulheres que o construam? Só deixar entrar nas Faculdades os que tirarem melhores notas é fugir completamente ao problema. O senhor já foi estudante e sabe que nem sempre os alunos que tiraram as melhores notas terminam sendo os melhores profissionais, os mais capacitados para resolverem na vida real os grandes problemas que existem. E nem sempre quem tira as melhores notas e ocupa uma vaga tem pleno direito a ela.

[...]

Ser estudante é algo muito sério. É quando os ideais se formam, é quando mais se pensa num meio de ajudar o Brasil. Senhor ministro ou Presidente da República, impedir que jovens entrem em universidades é um crime.

[...]

Se o senhor soubesse do sacrifício que na maioria das vezes a família inteira faz para que um rapaz realize o seu sonho, o de estudar. Se soubesse da profunda e muitas vezes irreparável desilusão quando entra a palavra “excedente”. Falei com uma jovem que foi excedente, perguntei-lhe como se sentira. Respondeu que de repente se sentira desorientada e vazia, enquanto ao seu lado rapazes e moças, ao se saberem excedentes, ali mesmo começaram a chorar. E nem poderiam sair à rua para uma passeata de protesto porque sabem que a polícia poderia espancá-los.


[LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999]


28.9.11

de la musique


[Você não entende nada, de Caetano Veloso, 1972]


23.9.11

tudo pra família

[Ricardo Pozzo]

O DISCURSO PELA FAMÍLIA CURITIBANA CRIADO PELA PREFEITURA É O REGRADOR SOCIAL MAIS FASCISTA QUE VI NOS ÚLTIMOS ANOS

O slogan nos tubos de ônibus da linha verde, por exemplo, diz mais ou menos assim: FAMÍLIA, agora a família de Curitiba volta mais cedo pra casa. Não é bem assim não, tem gente que não volta, tem pai que para no boteco pra descontar o salário de merda na empresa, o qual não é suficiente sustentar essa mesma família de que a prefeitura fala. As famílias têm distúrbios nas relações porque a limitação material gera depressão, mal-estar. Há filho e mulher que não voltam pra casa porque são espancados. E várias outras coisas hediondas que acontecem. Mas como vivemos numa sociedade fascista, o discurso regrador dos distúrbios socias precisa se fundamentar num conceito essencialista e idealizado de FAMÍLIA.

19.9.11

das biografias

Uns tomam etér, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.


[Não sei dançar]


[...]

A cocaína, chamada carinhosamente de "pó-de-arroz" e "fubá mimoso", era a droga da moda entre políticos, intelectuais e boemios, que a compravam em fraquinhos, a quinze mil réis cada. Manuel Bandeira era um dos que se dizia que praticavam o violento esporte nasal.

[CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pp. 52-53]


14.9.11

de la musique


[Itamar Assunção canta Paulo Leminski:
Cena da série de documentários "Mapas Urbanos",
com direção de Daniel Augusto]


6.9.11

dos grandes pensadores

[1817-1862]
[...]

Penso que, tendo sido alfabetizados, deveríamos ler o melhor da literatura e não ficar repetindo para sempre nosso bê-a-bá e nossos monossílabos, sentados a vida inteira na primeira fila da sala de aula. A maioria dos homens fica satisfeita se consegue ler ou ouvir outros lerem um único livro, a Bíblia, persuadidos talvez por sua sabedoria, e pelo resto de suas vidas põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil.

[THOREAU, Henry. Desobediência Civil. Tradução de Sérgio Karam. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 69]


29.8.11

numa fila imensa

o terminal com seu piso de borracha estava lotado. por isso esperei três ônibus. um logo atrás do outro. ao chegar o terceiro comboio vazio que voltou cheio, um homem deixava cair uma corrente. fiquei sabendo do ocorrido pelo barulho, mas não tinha sido isso o chamativo da minha curiosidade e sim uma mulher dizendo:

“olha, aquele homem deixou cair uma pulseira.”

me virei. o objeto reluzia há uma distância de dois passos. neste meio tempo em que eu pensei no comprimento que me separava do objeto, notei um moleque indo ao seu alcance. ele percebeu o meu movimento quando tomei a dianteira nos exatos dois passos e zup!... como um pirulito, eu possui o adorno para o corpo humano. não pensei no dono da pulseira, embora tenha lembrado que a coisa pertencia a alguém. até aquele momento. observei o acabamento dela: dois dragões chineses de metal chumbado. bem feito o acabamento. pesei utilizando dois dedos para saber por quanto eu podia vendê-la.

“cincoentão?"

vale. olhei para o céu, mas o teto de metal circunlovado retesou minha visão. rodopiei a pulseira como uma putinha e voltei à fila, para embarcar no bus.


23.8.11

por que ver os clássicos


[I Vitelloni, de Federico Fellini, 1953]

[...]


Trabalho que [...] o nome diz tudo, pois a palavra deriva do latim tripaliare, que significa castigar com o tripaliu, instrumento que, na Roma Antiga, era um objeto de tortura, consistindo numa espécie de canga usada para supliciar escravos. [...] Entre nós, porém, perdura a tradição católica romana e não a tradição reformadora de Calvino, que transformou o trabalho como castigo numa ação destinada à salvação. Mas nós, brasileiros, que não nos formamos nessa tradição calvinista, achamos que o trabalho é um horror.


[DA MATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1986. p. 21-22]


16.8.11

Em (e por) Cuba


[Buena Vista Social Club, Pueblo nuevo, 1997]

[...]

O teste de uma revolução (de verdade) é a relação entre o seu custo humano e o seu saldo social. A conclusão a respeito é que Cuba realizou um máximo de igualdade e justiça com o mínimo de sacrifício da liberdade. Trata-se de um regime voltado para a liberação do povo, a fim de promover a sua atuação efetiva na transformação da sociedade. Portanto, teve e tem de neutralizar inimigos, evitar retrocessos, usar a força para realizar o que é a solução mais humana para o homem. O intelectual de um país onde a burguesia domina com força bastante para permitir o jogo das opiniões; mesmo o intelectual de um país como o Brasil, que só recentemente readquiriu um pouco de direito a este jogo, pode estranhar, por exemplo, a severa arregimentação social do trabalho em Cuba, as limitações da sua imprensa, a dureza contra os adversários. Mas ao mesmo tempo verifica que enquanto nos nossos países há uma prática democrática de superfície, porque está baseada na tirania econômica e alienadora sobre a maioria absoluta, em Cuba há uma restrição relativa na superfície e, em profundidade, uma prática da democracia em seus aspectos fundamentais, isto é, os que asseguram não apenas a igualdade e a libertação da miséria, mas o direito de deliberar nas unidades de base e dialogar com os dirigentes, resultando a conquista dos instrumentos mentais que abrem as portas da vida digna.


[CANDIDO, Antonio. Recortes. 3 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004. p. 170]


11.8.11

literatura e submissão

I

Mestres em Literatura analisam textos ficcionais produzidos pelos habitantes da capital para, a partir deles, classificar a psicologia da comunidade e seu processo criador: o qual não existe.