3.3.12

dos grandes prosadores

[1922-2010]
[...]


Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base MILITAR de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele CAMPO DE CONCENTRAÇÃO (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba.


[SARAMAGO, José. O caderno: textos escritos para o blog. Setembro de 2008 - março de 2009. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 102]


2.3.12

da contemporaneidade


O intelectual é um urubu

que se julga vestido,
mas que está nu,
com a pena do pavão
enfiada
no cu.

[Padre Daniel Lima]


29.2.12

contos da esquina


II

aê, garçon, rola uma pindureta?
eu já lhe disse, meu senhor, cê lambe o chão, faz favor.


- Rasgar meu diploma?
- Ué, bicho, seria um ato político. Real, manja.
- Mas, cara, é a única alforria que tenho pra ser um homem civil.
- Larga dessa, mano. Transcenda. Você muito quer o poder, qu'eu sei.
- Vamu trocar de assunto, meu camarada, e beber mais uma?
- Cê paga?


28.2.12

o cara purro purro


Eu sou um cara purro purro
Sou purro a não mais poder
Eu sou um cara purro purro
Purro que podes crer.
Sou purro a dar com o pau
Sou purro que nem vem
Dançar não danço Tou mal
Não passo de um joão ninguém.


[LENNON, John. Um atrapalho no trabalho. Edição completa, bilíngue e ilustrada de Lennon com sua própria letra. Transcriação e Posfácio: Paulo Leminski. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. p. 63]

27.2.12

pra esbofetear o cristal


[Partido Alto, de Leon Hirszma, 1976]


24.2.12

o leitor e a escritura

Você pode lamber o chão,
disse o gerente do estabelecimento


III


O frio de hoje melou tomar uma estúpida no Cu do Padre.


23.2.12

rousseau, pinheirinho e o direito

[...]

No meio da desocupação, entre balas de borracha, bombas, escudos e cassetetes, um senhor genebrino, nascido em 1712, desvendava o segredo:

“O primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: ‘isto é meu’, e encontrou pessoas bastante simples para crê-lo, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, mortes, quantas misérias e horrores não teriam poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: ‘Guardai-vos de escutar este impostor; estais perdidos se esquecerdes que os frutos são para todos, e que a terra é de ninguém!’”

(Jean-Jacques Rousseau – Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens).


Logo depois de proferir tal frase, a polícia militar o abateu com um violento golpe e sob o efeito das bombas e da fumaça foi levado junto aos demais enquanto um outro senhor, este um francês, concluía: “a propriedade é um roubo”. Dois alemães de braços abertos recebiam seus colegas e, condescendentes com sua ingenuidade, batiam em seus ombros doloridos dizendo: “eu sei, eu sei…”. Logo mais adiante, dois russos com ares compenetrados pensavam os próximos passos.

Longe dali, um no palácio do governo, outra em seu tribunal, os funcionários do capital festejam sua vitória. Nossa classe anota seus nomes, junto ao de todos aqueles que se omitem e legitimam este crime, e aguarda.



22.2.12

encomendado

da contemporaneidade


Ao mendigo da Travessa da Lapa, que tirei do meio da rua por medo de que fosse pego pelo Biarticulado



Eu queria dizer que te respeito, camarada
Por ter lutado contra a servidão
Por escolher a pinga ao invés da enxada
Pela calçada à linha de produção


[PERETTI, Emerson. Poemas de 3000 anos. Fundação Cultural de Curitiba, 2011.]


20.2.12

contos da esquina

por que não mudo desta esquina?... Mas sempre o meu pensamento indeciso se baralha, e não distingo bem se é esquina de rua, esquina de mundo.

[Mário de Andrade]

I

Bem neste dia de sol com uma puta atmosfera bonita, cara, eu fui esquecer o saco de estopa.

Disse isso em voz alta para meu amigo ouvir quando nós paramos numa esquina. Foi daí que compenetrado, ele me perguntou:

- Pra quê um saco?
- Eu ia roubar umas três garotas de pernas de fora.


19.2.12

o infinto

[L'origine du monde, Gustave Courbet, 1866]

Ora, na sociedade não há nada exceto conversas [...] Fora da sociedade, as mulheres voltam a ser o que é tão repousante para o velho fatigado: um objeto de contemplação.

[A morte de Bergotte]

I


o contato com o conceito infinito se deu aos quinzes anos quando experienciei sexualmente uma mulher fantasiada de alice.

acredito que aos dezoito, mais maduro, já sabia domar o pênis para o desejo da moça eterna. o que ela queria.

a realidade, no entanto, passou a ser uma grande putaria.

(suor,
líquidos
me faz cair na vadiagem.)

mas quando acontecer a boca-mãe,

um dia,

engolir as cabeças existentes
- o que será a sua função -
não mais existiremos:

pois chegará o dia da morte
não do nascimento.


18.2.12

andré kertész

[Papers and books thrown away, 1974]


17.2.12

por uma mosca morta meu coração balança

[Musca, por Helena Ruiz]

[...]

Dizem que se você não mexer com os marimbondos, eles te deixarão em paz. Ele só ataca quando se sente agredido. Mas é difícil avaliar a psicologia de um marimbondo. E se o cara for paranóico e achar que uma simples piscada d'olhos sua é sinal de hostilidade contra ele? Bom, digamos que acertar aquela cabeçada no vespeiro ao lado de uma linda cachoeira, território deles, não foi muito civilizado da minha parte, mesmo que sem querer. Digamos, então, que, pra mim, com a devida vênia ao ecologicamente correto, marimbondo bom é marimbondo morto, parafraseando grandes humanistas, como Paulo Maluf e o já falecido coronel Erasmo Dias. E vou além: melhor mesmo é fotografia de marimbondo morto. E que se dane a metafísica.


[MORAES, Reinaldo. in: Piauí. fevereiro, 65, 2012. p. 46]


15.2.12

comemorar?


[...]

para os grandes, a lei é privilégio; para as camadas populares, repressão. Por esse motivo, as leis são necessariamente abstratas e aparecem como inócuas, inúteis ou incompreensíveis, feitas para ser transgredidas e não para ser cumpridas nem, muito menos, transformadas;

[...]

Do ponto de vista dos direitos, há um encolhimento do espaço público; do ponto de vista dos interesses econômicos, um alargamento do espaço privado.

[...]

... conflitos e contradições negam a imagem da boa sociedade indivisa, pacífica e ordeira. Isso não significa que conflitos e contradições sejam ignorados, e sim que recebem uma significação precisa: são sinônimo de perigo, crise, desordem e a eles se oferece como resposta única a repressão policial e militar, para as camadas populares, e o desprezo condescendente, para os opositores em geral. Em suma, a sociedade auto-organizada, que expões conflitos e contradições, é claramente percebida como perigosa para o Estado (pois este é oligárquico) e para o funcionamento "racional" do mercado (pois este só pode operar graças ao ocultamento da divisão social). [...] ... os mass media monopolizam a informação, e, de outro, o discurso do poder define o consenso como unanimidade, de sorte que a discordância é posta em perigo, atraso ou obstinação vazia;

[...]

... partidos políticos são associações de famílias rivais ou clubs privés das oligarquias regionais. Esses partidos arrebanham a classe média regional e nacional em torno do imaginário autoritário, isto é, da ordem (que na verdade nada mais é do que o ocultamento dos conflitos entre poderes regionais e poder central, e ocultamento dos conflitos gerados pela divisão social das classes sociais), e do imaginário providencialista, isto é, o progresso.

[...]

... o desejo permanente de um Estado "forte" para a "salvação nacional" [...] é reforçado pelo fato de que a classe dirigente instalada no aparato estatal percebe a sociedade como inimiga e perigosa, e procura bloquear as iniciativas dos movimentos sociais, sindicais e populares.

[...]

... a igualdade econômica (ou a justiça social) e a liberdade política (ou a cidadania democrática) estão descartadas.


[CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo. 2006. p. 89-95]


14.2.12

por que ver os clássicos

[...]


O poder não é para ser conquistado, ele tem que ser destruído. O poder é tirano por natureza, seja ele exercido por um rei, um ditador ou um presidente eleito.


[A servidão moderna, de Jean-François Brient, 2009]


12.2.12

separata


[Hilda Hilst: 1930 - 2004]

[...]

Para onde foi a Hilda Hilst desbocada, de tom enérgico, manejando palavrões que abalaram bem-educados e bem pensantes?

[Jorge Coli]


11.2.12

! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !


- Que chuva, cara!
- De repente assim é pra matar.
- Cê viu o rio? Na avenida?
- Vixê, cara. Tá descendo pra cá.
- Sub'aqui. Na mureta.
- Meu, que é aquilo: uma merda boiando?


10.2.12

contra a civilização: um leitor

[A porta para a liberdade, de René Magritte, 1933]


[...]

Dano à propriedade não é violência. Você não pode violentar um prédio ou uma janela. É muito diferente para nós a questão da violência. Isso não é violência, a não ser que você esteja advogando ataques individuais, o que não fazemos.

[...]

Nós estávamos tentando encorajar apenas um questionamento. Por que as pessoas vão às ruas e tentam protestar ou fazer algo? Isso não é uma violência sem sentido. Sem sentido é ficar sentado, usando drogas, assistindo à MTV e então você arranja um trabalho, e se submete. Para mim isto é violência...


[
Surplus - Terrorized Into Being Consumers, 2003
Direção: Erik Gandini
]



9.2.12

dos grandes prosadores

[1854-1900]

[...]

A posse da propriedade privada é amiúde desmoralizante ao extremo, e esta é, evidentemente, uma das razões por que o Socialismo quer se ver livre dessa instituição. De fato, a propriedade é um estorvo. Alguns anos atrás, saiu-se pelo país dizendo que a propriedade tem obrigações. Disseram-no tantas vezes e tão fastidiosamente que, por fim, a Igreja começou a repeti-lo. Falam-no agora em cada púlpito. É a pura verdade. A propriedade não apenas tem obrigaçoes, mas tantas que sua posse em grandes dimensões torna-se um fardo. Exige dedicação sem fim aos negócios, um sem fim de deveres e aborrecimentos. Se a propriedade proporcionasse somente prazeres, poderíamos suportá-la, mas suas obrigações a tornam intolerável.

[...]

A desobediência é, aos olhos de qualquer estudioso de História, a virtude original do homem.


[...]

Onde há um homem que exerça autoridade, há sempre um outro homem que combate a autoridade.



[WILDE, Oscar. A alma do homem sob o socialismo. tradução de Heitor Ferreira da Costa. Porto Alegre: L&PM, 2003. p. avulsas]


8.2.12

contra desalmados e imbecis, o antídoto: Garibaldis & Sacis


Quem tem medo de alegria e carnaval?

Quem detesta diversão e encampa o mal?

Tinha uma cidade: já vai tarde e rosna.
Tinha elite amarga feito chá de losna.

Tem ainda gente que cultiva o ódio:
corações de cloreto arrotando sódio.

A brutalidade policial nem sonha,
mas ouçam, parvos do comando sem mando:

logo verga e cai sua pose na vergonha,
e a nossa alegria só está começando...

[Ivan Justen Santana]


7.2.12

de la musique


[Brasil pandeiro, Novos Baianos,
documentário de Solano Ribeiro, 1973]


**

[...]

Se cavalos e bois tivessem mãos, não deixariam de ser cavalos e bois, mas dariam à equinidade e à bovinidade plena expressão. Os bois e os cavalos como nós os conhecemos são produtos de quem os domina. [...]
Povo algum é por si mesmo bárbaro. O bárbaro é aviltado a partir de outro lugar. Um povo que assume a barbárie deprecia o seu lugar em favor de um lugar estranho.

[SCHULER, Donald. Origens do discurso democrático. 2 ed. - Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 45-46]

chega de rixa, Il Dulce


“ao perdedor, as batatas”

a polícia está na TPM
mostrando o cacete pra moçada
já o povão que tá na M
chupa bala emborrachada
e o prefeito só passando creme
nas ruas da cidade detonada

pro nosso Dulce a Itália é aqui
o que ele gosta mesmo é de esfregão e balde

olhe pra debaixo do tapete, guri!
seu grito de carnaval vai ser covarde:
“amputa a outra perna do saci
e estupra a Anita Garibaldi”


[Thadeu Woiciechowski e Sergio Viralobos]


6.2.12

vozes


Meu irmão, importante filósofo diz:

Para variar a polícia nazi do PSDB, agora nas mãos de Beto Richa, deu um ótimo exemplo do que é uma política de extrema-direita. É uma política que tem como base a inversão de prioridades e a cacetada indiscriminada. O que é inverter prioridades? É mobilizar a força policial para agredir pessoas de bem que se divertem, enquanto a bandidagem rola solta aos arredores. É típico dessa mentalidade de a
sno dos PSDBistas dizer não à diversão, impedir a utilização pública do espaço PÚBLICO! Polícia é para cuidar da segurança PÚBLICA, não para ser instrumento de atentado contra ela, isso é a inversão patológica e perversa capaz de ocorrer só na mente de um dirigente semi-nazista.
Se você vota no PSDB reveja sua postura
: coloque as duas mãos no chão, ande e relinche...
só não venha dar seu coice em mim!

[Germano Mendes]


vozes

Cleber Braga diz:

Eu desejo sinceramente que Curitiba suporte! Suporte a alegria, a felicidade, o encontro, o afeto. No último domingo, pessoas conhecidas, PACÍFICAS, amorosas, foram feridas pela polícia em um ato nazista da Polícia Militar do Paraná. Por que, eu me pergunto? Por que, governador Beto Richa? Por que, prefeito Luciano Ducci? Por que, Fundação Cultural de Curitiba? Que merda de cidade é esta que vocês estão propondo?!!!


vozes


O deputado federal Rosinha pronuncia:

O que a Polícia Militar comandada por Beto Richa (PSDB) fez ontem à noite no pré-carnaval do Largo da Ordem, em Curitiba, foi transformar uma festa em campo de guerra. O uso indiscriminado de projéteis de borracha parece ter virado método tucano de 'dispersar' as pessoas na rua - vide Cracolândia e Pinheirinho. Ontem, pessoas conhecidas minhas foram atingidas por alguns desses tiros. Com certeza, o número de feridos é maior do que o descrito na reportagem. Mais um episódio lamentável de violência policial e uso desproporcional de uma força de "segurança".




segurança não é sinônimo de repressão


[...]


- Soldados! - começou a arengar o deputado, depois que lhe conseguiram um barril para subir. - Deveis ficar do nosso lado. Aqui estão vossos irmãos e amigos...


[Joel Rufino dos Santos - Quatro dias de rebelião. 5 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. p. 57]


4.2.12

confessionário

[Jorge Colombo]

I

Venho há um bocado de dias escrevendo um romance intitulado de Pega no meu pau. A narrativa em primeira pessoa é de um sujeito chamado Guy, introspectivo no que tange o leitor de mais profundo: a glande sensível e dominadora da cabeça do sonho, aonde o verbo e o tempo não passam de uma boca envolvendo a chapeleta de um único corpo. Numa ficção sem fim.


3.2.12

duas leituras

[...]


“O estado moderno” – escreveu Tolstoi ao amigo Botkin – “não é senão uma conspiração para explorar e, acima de tudo, para desmoralizar seus cidadãos... Posso entender as leis morais e religiosas, não obrigatórias para todos, mas que conduzem ao progresso e prometem um futuro mais harmonioso; reconheço as leis da arte, que sempre trazem felicidade. Mas as leis políticas parecem-me mentiras tão terríveis, que não consigo entender como uma delas possa ser melhor ou pior do que qualquer das outras... Daqui em diante, jamais voltarei a servir qualquer governo, em nenhum lugar.”


[WOODCOCK, George. História das idéias e movimentos anarquistas - v.l : A idéia; tradução de Júlia Tettamanzy. - Porto Alegre : L&PM,2007. p. 254]



[...]

Se é certo que não há (ou há muito pouca) tradição revolucionária no Brasil, é nítido que havia uma tradição de rebeldia nascida e alimentada nos setores intelectualizados da pequena burguesia brasileira (profissionais liberais, estudantes, escritores, artistas, políticos, etc.). Em épocas distintas, e com matizes diversos, os contornos dessa linha de tradição podem ser traçados com nitidez: vem de Gregório de Matos a Plínio Marcos; está em Castro Alves, mas também em Augusto dos Anjos; ela está madura, consciente, em Graciliano Ramos, e corrosiva, em Oswald de Andrade; está em Caetano Veloso, mas já esteve em Noel Rosa; esteve em 22 e também no Arena, no Oficina, no Opinião e no Cinema Novo, para citar apenas nomes e movimentos ligados à arte. A ironia, o deboche, a boêmia, a indagação desesperada, a anarquia, os fascínio pela utopia, um certo orgulho da própria marginalidade, o apetite pelo novo são algumas marcas dessa nova tradição de rebeldia pequeno-burguesa. Hoje é possível perceber que essa rebeldia era fruto da incapacidade que os diversos projetos colonizadores sempre tiveram em assimilar amplos setores das camadas médias e dar-lhes uma função dinâmica no processo social. O que estava reservado ao intelectual pequeno burguês antes do período a que estamos nos referindo? O jornalismo mal pago, o funcionalismo público, uma cadeira de professor de liceu, o botequim, a utopia, a rebeldia. Por falta de função ele era posto à margem. Até muito pouco tempo eram muito poucas as opções do estudante universitário - tudo era criado fora, o carro, a geladeira e a ideologia.


[BUARQUE, Chico e PONTES, Paulo. Gota D'água. 18 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliera. p. xiii-xiv]

2.2.12

o leitor e a escritura

[Virgem da Anunciação, de Antonello da Messina, 1473]


II

a santíssima senhora espera baixar um pai de santo pra rasgar-lhe o cabacinho das ideias. Não espera?


1.2.12

o leitor e a escritura

[Luiza Maciel Nogueira]

I


vou calgá-lo, leitorzinho de mel, mais parecido a um potranquinho, pois sou seu pastor.


31.1.12

estórias do senhor R.


I

R. é o nome do chapa, que significa relógio. A autonomia do nosso herói gira em torno do sentido horário, já que se tictaqueasse inversamente seria um anti-herói. Pois pontualíssimo pra tudo: lá vai ele levanta-se, trabalha como se alguém lhe tivesse dado corda. Se atrasava dois minutos, o senhor R. culpava o quartzo ou o trânsito.

II

O senhor R. tem a forma de um personagem quadrado. Análogo ao objeto do seu pulso. Aliás, são quinze pras duas: hora da sua caminhada em torno da praça quadrangular.

III

A estória do senhor R. não começou, o bicho está dando corda no seu relógio de pulso. Nesse instante ele está otimista, desculpe, esportista.

IV

O senhor R. tinha hora marcada no médico. Um neurocirurgião. Em ponto, como dois ponteiros ao meio dia e o sol a pino, o senhor R. recebeu o laudo. Para seu conhecimento sua cabeça tinha uma forma quadrada. O médico auxiliou-lhe para deixar de formalidades: “Parece um pêndulo”, ao passo que deu pra lavar suas mãos e pediu meticulosamente pra que parasse de “pensar como um relógio de bolso”. No entanto, o problema do protagonista da estória marcada nos remonta ao avô, dono dum cordão de ouro do qual num puxo vinha o reluzente objeto miniatura. O senhor R. tinha complexo, foi-se constatado perante a receita do psiquiatra. Todavia, ainda andando, como poderia o bichano ter complexo se seu relógio biológico funcionava em sentido do politicamente correto.

V

O senhor R. tem a mania de cronometrar os seus passos aos sábados, dias de folgas. Mas no estado do seu cocoruto lelé, o senhor R. ficou semelhante a um cuco. E fala a língua dos passarinhos movidos a pilha.

VI

Na verdade, o relógio biológico do senhor R. não funciona corretamente. O senhor R. é dependente da marcação cronológica e tem uma neurose dirigida contra o calendário. Por simplesmente essa coisa objetiva existir. De tanto ser formal como as horas, o senhor R. tem birra dos feriados.

VII

Descobriu-se o trauma do senhor R., não a muito custo: a sua complexidade. Numa sessão psicanalítica fora revelado, com a ajuda da hipnose, lembranças da história do pai de Butch e o seu relógio. A fase anal estava desvendada, pois na história cinematográfica, o pai de Butch, combatente de guerra, havia, durante cinco anos, escondido seu relógio no ânus.

VIII

O senhor R. parece piada mas não é: personagem sem a manha de se desenvolver.