8.12.11

dos maus vendedores:

[1943-1970]

- Cê não conhece janis joplin?
Tipo, o que eu vou dizer prum cara desse:
- Poxa, meu, foi mal, entrei na loja errada.


1.12.11

a leitura e o sono

[Anna Melcon Bond]

[...]

Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é o teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão: Não tenho não senhor. Só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos.

Qadós - Hilda Hilst


I

não faz muito tempo me deu na telha buscar em ambiente inóspito um refugio. na caverna eu acenderia um fogo pra espantar bicho lobo urso morcego esses troços. e levaria na bagagem os dois volumes das memórias do cárcere, do senhor Graça; com quem deus esteja.


30.11.11

de la musique


[Mistério do planeta, Novos Baianos,
gravado no sítio Cantinho do Vovô, em 1973]


***

As coisas mais misteriosas da vida não são embaladas numa fábrica, como se fossem latas de ananás às rodelas. Não trazem o prazo de validade à vista (apenas sinais sem nome escondidos em secretos lugares), daí ser tão difícil dizer ao certo o dia em que começam ou acabam. O coração sempre se alimentou mais de esperança do que de números.

[Maria João Freitas]

29.11.11

[...]


lembra: deserto é esperar. deserto é desesperar. deserto é dentro. deserto é o melhor jardim. eu ainda estou aqui, nosso diálogo é interminável.


[Nina Rizzi]


22.11.11

parques aquáticos

I

No tanque transparente de enorme fundura habita como atração turística uma pequena e serena sereia. Faço visitas. Freqüento frequentemente. Levo sardinha moída e seca. Eu penso às vezes ela ser um peixe de aquário. E o pozinho seria a ração. Levo biscoito. Não sei porque diabos levo, deve ter um gosto horrível a bolacha molhada. Subo num cantinho da mureta, com a ajuda de um cavalete e peço prela cantar pra mim.

Sereia! Sereia! Me chama Sereia que eu mergulho.

A sereia fica ao fundo, espremo os olhos e vejo a sua sombra enigmática, o ser esboçado. A cauda gesticula ondas. Transmito de volta tocando no vidro. Sereia, eu vou!


20.11.11

de la musique


[Opinião, Zé Keti, 1970]


17.11.11

meus quinze anos


No feriado passado, o que se passou,
passei os dias deitado.

Foram quatro dias de espera para o mundo acabar.

(Acabou?)

Não acabou. O mundo é duro.
Não acaba.


15.11.11

paraíso na fumaça


[Árido Movie, de Lírio Ferreira, 2006]

[...]

Muitos religiosos que seguem a linha kundalini da ioga, utilizando ou não a canábis, transformam o sexo numa relação ritual e longa, que às vezes dura todo um dia. Alguns pura e simplesmente retardam o orgasmo por horas. Outros negam o orgasmo como objetivo final e o substituem por uma sensação de unidade com o outro. Em ambos os casos, podemos imaginar Shiva com seu pênis ereto e lembrar a ambivalência da cultura hindu, para a qual a ereção simboliza também a castidade.

[GABEIRA, Fernando. A maconha. São Paulo: Publifolha, 2000.]

10.11.11

marginais, não há mais

[André Letria]

[...]

Se existem marginais hoje no Brasil, talvez sejam gente sem charme e sem carisma. Como os professores da rede pública, que continuam ensinando coisas com que ninguém mais se importa, a troco de salário nenhum. Como esses homens que puxam pelas ruas carroças cheias de jornais velhos e pedaços de papelão, num simulacro de trabalho digno com que, por algum motivo obscuro, eles preferem se identificar. De marginais-trabalhadores o Brasil ainda está cheio: mas estes não tem o sex-appeal dos bandidos, e vão morrer anônimos sem ter tido direito a seus quinze minutos de fama, digo, de cidadania.

[KEHL, Maria Rita. A mínima diferença: masculino e feminino na cultura. Rio de Janeiro: Imago Ed. 1996. p. 258-259]


30.10.11

da contemporaneidade


[Eu não escrevo versinhos para o papai, de Maira Parula, 2011]


28.10.11

o homem cordial

[...]


Vanzolini e Chico tornaram-se amigos para toda a vida. Anos depois, trabalhando na letra de "Ode aos ratos", Chico telefonou para o zoólogo para perguntar características específicas sobre os ratos. "E o nariz, como é que é? É frio, quente, macio?". Vanzolini, sem muita paciência, e sempre irônico, respondeu: "Chico, você mente tanto sobre mulher... Por que não inventa qualquer coisa sobre os ratos?" Chico não perdeu o humor e, de bate-pronto, devolveu: "Poxa, Vanzolini... Pelos ratos eu tenho o maior respeito".


[CARDOSO, Tom. Paulo Vanzolini. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2010. p. 39 (Coleção Folha Raízes da Música Popular Brasileira; v. 16)]


11.10.11

sobre uma crônica


o ex-professor acadêmico ficou mais burro?


Estava eu voltando pra casa, bem logo depois de comprar uma latinha de tinta pra pintar a janela da biblioteca, quando me lembrei de algo que eu ia esquecendo: o jornal pra forrar o chão. No caso de algum descuido meu, vai que a tinta pinga.

Viro a esquina, uma banquinha, e lerê!, a duas quadras de casa. Adentro-me como bom raparigo – sujeito com fumo de homem – pra apanhar um jornal. Da capital, de preferência. Ora, quem diria, justamente hoje. Que dia era? Sabe o leitor? Terça-feira, dia do mocinho indomável. A dois real. O título da crônica, “Polícia do pensamento”. Exagero? Foi assim que me achei pego ao pé da interrogação. Como uma graúna invertida. Fui lá, curioso pela astúcia intitulada e dei-me com mais uma crônica mal escrita, digo: pensada. Desculpe a intromissão, fui eu que policiei. Mas voltemos a este gênero textual, o qual deveria ser leve como andar de mãos dadas com uma garota: recheado de devaneios; o caminho dos dois. Mas o fetiche do garoto, autor da referida crônica, faz o discurso se render ao capitalismo na defesa da publicidade retirada do ar. Pra começar, Gisele na propaganda da Hope parece uma boneca manipulável: idiota na presença de calcinha e sutiã, e o pior, de salto alto. Se era pro marido, que, então, aparecesse nua; todavia, conforme o discernimento nos ensina: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Voltando à “mulher independente”, conforme disse Marta Suplicy, também em sua ajuda, Gisele representa uma mulher vazia de significados, como se a relação com um homem fosse apenas econômica. Não há substância alguma, mesmo de piada. Achei uma burrice sem tamanho, e só!

A gente, cabra macho, de pexera na mão, não nega a belezura que a magreza da modelo tem de poder sobre o nosso consciente, sem esquecer a ideologia burguesa transmitida na ideia materializada que carrega a imagem. Sabe de uma coisa, o cabra macho também é um estereótipo, ta vendo? O cara da crônica por ser um ator logo irá defender estereótipos do tipo “censurado”. Mau gosto? Puxa vida!, foi imbecializante a publicidade; aliás, como o próprio texto do ex-professor.

Algo no título foge ao ato de pensar. Pensar para transformar, não para manter a estrutura dominante dos tempos atuais: ideologia da propaganda. Qual ligação tem o ato de pensar com o mercado das vendas?, creio que ficamos sem respostas, alienados. O fato de vender algo – por pior que seja a mercadoria – nos proporciona uma momentânea felicidade? Aceitamos a imagem que vende um produto e nisso: não há nada de pensamento.

Agora me vou embora, pra aprender a língua dos passarinhos.


10.10.11

sob censura



[...]


É preciso rever certos conceitos. Isso passa pelos meios de comunicação de massa, que reforçam estereótipos e criam outros, à guisa de fazer "piadas inocentes"
Nós, homens do século 21, somos seres pensantes. Não queremos prover ninguém, almejamos unir esforços. Se por acaso nossa renda for insuficente ou nula, que nos respeitem. Gostamos, sim, de sexo, mas não pensamos 24 horas por dia. Nos interessa o futebol mas também o balé, a música, a arte, a poesia. E choramos, sim.

[Fausto Rodrigues de Lima]