29.3.12

dias & dias


I


João andava, há um punhado de dias mal contados, preocupado. Dias e dias habitava nele como reboco o medo de ficar burro, mas burro de sabençudo.

II

Certa manhã oriunda de uma noite sem sonhos, João não levantou. Não abriu os olhos. Não se mexeu.

III

Passado um mês de aluguel atrasado, deram pela falta de João. O telefone tocou, e-mails sobrecarregaram a caixa de entrada, cartas, contas e revistas voltaram para o correio. Mas de nada valia, pois João estava morto e seu corpo entrava em putrefação.

IV

O que o leitor perdeu com a morte de João?


27.3.12

alma de cozinha

do pé da cadeira quebrada
da xícara lascada da avó morta

em matéria de poesia

até que ando bem,
pois o cérebro ligado ao microondas

faz cada omelete dos meus olhos que eu nem te conto.


25.3.12

de la musique


[Nina Simone, Revolution -
Harlem Cultural Festival, 1969]


23.3.12

clepsidra

[Rafael Sica]
[...]


O amor é amoral. Eu me amo, não posso viver sem mim. Em pedra? Em estrela? Em flor? Façam suas escolhas. Em que vou me transformar, no final? Quem acertar, ganha o direito de olhar bem nos olhos da Medusa. Não é uma beleza?


[LEMINSKI, Paulo. Metaformose: uma viagem pelo imaginário grego. São Paulo: Iluminuras, 1994. p. 34]


20.3.12

o leitor e a escritura

[andré kertész, 1974:
papers and books thrown away]
IV


a cidade se transformou num grande departamento. a burocratização da conversa está tornando impossível o convívio com o outro.


14.3.12

todozolhinhos


papai cu levou seu cuzinho pra passear.

cuzinho, tirando a malícia, é o filho de papai cu.

certo dia os dois caminhavam para o colégio,
onde cuzinho aprendia leitura, mas eis que,

no meio do caminho sem pedra, papai e filhinho
encontraram cuzão.

cuzão tinha o aspecto de um antagonista,
ou seja, era o vilão e, sendo assim,

papai cu e seu cuzinho
toparam com uma tremenda confusão.


10.3.12

martelinho de ouro


Comecei a ler um livro, num faz meia hora, e, na página a que se destina o catálogo, vejo escrito: revisor técnico. Eu não sabia que pra escrever tinha de ser feita uma espécie de manutenção. É a mesma coisa dizer ao escritor que sua mente precisa passar por uma funelaria. Em caso de teses, se dá o seguinte diálogo com o orientador:


- Por favor, grão mestre, o senhor pode desamassar este neurônio?


9.3.12

download




I

escrever um texto com a mesma pegada que a turma do Bob carregaram essa musica é tarefa pra escritores jamaicanos.
isso me parece muito estranho, mas é como pensar:

- onde está Waly?

no entanto, mudando do vinho pra água, eu tinha um personagem recortado de uma caixa de papelão em cima da mesa, apelidado de joão pé de semente, que de repente se levantou quando eu ouvia a música, me mostrou a língua, abriu a porta, desceu a escada escorregando pelo corrimão, apanhou a rua iluminada, isto é, saiu de casa e, no meio da quadra, estendeu um fio de lã entre dois brotos recentemente plantados. o corpo de joão pé de semente estava ausente de qualquer vestimenta, mas faltava-lhe uma cor no tom do papel grosso: nu. joão pé de semente começou a perceber que estava se transformando num bonequinho de luxo pelas mãos de seu criador, que soy yo.

mas eu, sem graça alguma, pra terminar a narrativa, assim que a música chegou ao seu fim, queimei o bonequinho.


7.3.12

das grandes prosadoras

[...]


Não sei por que as histórias pra criança não tem o príncipe lambendo a moça e pondo o dedinho dele maravilhoso no cuzinho da gente. Quero dizer da moça.


[HILST, Hilda. O caderno rosa de Lori Lamby. 2 ed. São Paulo: Globo, 2005. p. 67]

3.3.12

dos grandes prosadores

[1922-2010]
[...]


Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base MILITAR de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele CAMPO DE CONCENTRAÇÃO (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba.


[SARAMAGO, José. O caderno: textos escritos para o blog. Setembro de 2008 - março de 2009. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 102]


2.3.12

da contemporaneidade


O intelectual é um urubu

que se julga vestido,
mas que está nu,
com a pena do pavão
enfiada
no cu.

[Padre Daniel Lima]


29.2.12

contos da esquina


II

aê, garçon, rola uma pindureta?
eu já lhe disse, meu senhor, cê lambe o chão, faz favor.


- Rasgar meu diploma?
- Ué, bicho, seria um ato político. Real, manja.
- Mas, cara, é a única alforria que tenho pra ser um homem civil.
- Larga dessa, mano. Transcenda. Você muito quer o poder, qu'eu sei.
- Vamu trocar de assunto, meu camarada, e beber mais uma?
- Cê paga?


28.2.12

o cara purro purro


Eu sou um cara purro purro
Sou purro a não mais poder
Eu sou um cara purro purro
Purro que podes crer.
Sou purro a dar com o pau
Sou purro que nem vem
Dançar não danço Tou mal
Não passo de um joão ninguém.


[LENNON, John. Um atrapalho no trabalho. Edição completa, bilíngue e ilustrada de Lennon com sua própria letra. Transcriação e Posfácio: Paulo Leminski. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. p. 63]

27.2.12

pra esbofetear o cristal


[Partido Alto, de Leon Hirszma, 1976]


24.2.12

o leitor e a escritura

Você pode lamber o chão,
disse o gerente do estabelecimento


III


O frio de hoje melou tomar uma estúpida no Cu do Padre.


23.2.12

rousseau, pinheirinho e o direito

[...]

No meio da desocupação, entre balas de borracha, bombas, escudos e cassetetes, um senhor genebrino, nascido em 1712, desvendava o segredo:

“O primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer: ‘isto é meu’, e encontrou pessoas bastante simples para crê-lo, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, mortes, quantas misérias e horrores não teriam poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: ‘Guardai-vos de escutar este impostor; estais perdidos se esquecerdes que os frutos são para todos, e que a terra é de ninguém!’”

(Jean-Jacques Rousseau – Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens).


Logo depois de proferir tal frase, a polícia militar o abateu com um violento golpe e sob o efeito das bombas e da fumaça foi levado junto aos demais enquanto um outro senhor, este um francês, concluía: “a propriedade é um roubo”. Dois alemães de braços abertos recebiam seus colegas e, condescendentes com sua ingenuidade, batiam em seus ombros doloridos dizendo: “eu sei, eu sei…”. Logo mais adiante, dois russos com ares compenetrados pensavam os próximos passos.

Longe dali, um no palácio do governo, outra em seu tribunal, os funcionários do capital festejam sua vitória. Nossa classe anota seus nomes, junto ao de todos aqueles que se omitem e legitimam este crime, e aguarda.



22.2.12

encomendado

da contemporaneidade


Ao mendigo da Travessa da Lapa, que tirei do meio da rua por medo de que fosse pego pelo Biarticulado



Eu queria dizer que te respeito, camarada
Por ter lutado contra a servidão
Por escolher a pinga ao invés da enxada
Pela calçada à linha de produção


[PERETTI, Emerson. Poemas de 3000 anos. Fundação Cultural de Curitiba, 2011.]


20.2.12

contos da esquina

por que não mudo desta esquina?... Mas sempre o meu pensamento indeciso se baralha, e não distingo bem se é esquina de rua, esquina de mundo.

[Mário de Andrade]

I

Bem neste dia de sol com uma puta atmosfera bonita, cara, eu fui esquecer o saco de estopa.

Disse isso em voz alta para meu amigo ouvir quando nós paramos numa esquina. Foi daí que compenetrado, ele me perguntou:

- Pra quê um saco?
- Eu ia roubar umas três garotas de pernas de fora.


19.2.12

o infinto

[L'origine du monde, Gustave Courbet, 1866]

Ora, na sociedade não há nada exceto conversas [...] Fora da sociedade, as mulheres voltam a ser o que é tão repousante para o velho fatigado: um objeto de contemplação.

[A morte de Bergotte]

I


o contato com o conceito infinito se deu aos quinzes anos quando experienciei sexualmente uma mulher fantasiada de alice.

acredito que aos dezoito, mais maduro, já sabia domar o pênis para o desejo da moça eterna. o que ela queria.

a realidade, no entanto, passou a ser uma grande putaria.

(suor,
líquidos
me faz cair na vadiagem.)

mas quando acontecer a boca-mãe,

um dia,

engolir as cabeças existentes
- o que será a sua função -
não mais existiremos:

pois chegará o dia da morte
não do nascimento.


18.2.12

andré kertész

[Papers and books thrown away, 1974]