31.1.12

estórias do senhor R.


I

R. é o nome do chapa, que significa relógio. A autonomia do nosso herói gira em torno do sentido horário, já que se tictaqueasse inversamente seria um anti-herói. Pois pontualíssimo pra tudo: lá vai ele levanta-se, trabalha como se alguém lhe tivesse dado corda. Se atrasava dois minutos, o senhor R. culpava o quartzo ou o trânsito.

II

O senhor R. tem a forma de um personagem quadrado. Análogo ao objeto do seu pulso. Aliás, são quinze pras duas: hora da sua caminhada em torno da praça quadrangular.

III

A estória do senhor R. não começou, o bicho está dando corda no seu relógio de pulso. Nesse instante ele está otimista, desculpe, esportista.

IV

O senhor R. tinha hora marcada no médico. Um neurocirurgião. Em ponto, como dois ponteiros ao meio dia e o sol a pino, o senhor R. recebeu o laudo. Para seu conhecimento sua cabeça tinha uma forma quadrada. O médico auxiliou-lhe para deixar de formalidades: “Parece um pêndulo”, ao passo que deu pra lavar suas mãos e pediu meticulosamente pra que parasse de “pensar como um relógio de bolso”. No entanto, o problema do protagonista da estória marcada nos remonta ao avô, dono dum cordão de ouro do qual num puxo vinha o reluzente objeto miniatura. O senhor R. tinha complexo, foi-se constatado perante a receita do psiquiatra. Todavia, ainda andando, como poderia o bichano ter complexo se seu relógio biológico funcionava em sentido do politicamente correto.

V

O senhor R. tem a mania de cronometrar os seus passos aos sábados, dias de folgas. Mas no estado do seu cocoruto lelé, o senhor R. ficou semelhante a um cuco. E fala a língua dos passarinhos movidos a pilha.

VI

Na verdade, o relógio biológico do senhor R. não funciona corretamente. O senhor R. é dependente da marcação cronológica e tem uma neurose dirigida contra o calendário. Por simplesmente essa coisa objetiva existir. De tanto ser formal como as horas, o senhor R. tem birra dos feriados.

VII

Descobriu-se o trauma do senhor R., não a muito custo: a sua complexidade. Numa sessão psicanalítica fora revelado, com a ajuda da hipnose, lembranças da história do pai de Butch e o seu relógio. A fase anal estava desvendada, pois na história cinematográfica, o pai de Butch, combatente de guerra, havia, durante cinco anos, escondido seu relógio no ânus.

VIII

O senhor R. parece piada mas não é: personagem sem a manha de se desenvolver.


30.1.12

Reocupe Pinheirinho

[...]


Quero ver, agora, quem vai pagar a conta de todo o estrago material, físico e moral que aquelas pessoas sofreram. A conta deveria sair do bolso desses aqui, por ação ou por omissão: Eduardo Cury - PSDB (prefeito de São José dos Campos), Inês Magalhães (secretária de habitação do Ministério das Cidades), Geraldo Alckimin - PSDB (governador do Estado de São Paulo), Coronel Álvaro Batista Camilo (comandante da PM), Márcia Mathey Loureiro (juíza estadual) e, principalmente, de Naji Nahas (ex-especulador, condenado por crimes financeiros).


[Homero Gomes - Jamé Vu]


24.1.12

cartão-postal

O samba tem feitiço,
o samba tem magia

não há quem possa resistir
ao som de uma bateria
é lindo a gente ver
o samba amanhecer
cheio de poesia

[A alegria continua -
Noca da Portela e Mauro Duarte]

Meu caro amigo, embora o seu ensino superior lhe dê autoridade sobre determinados assuntos, específicos para ser mais exato, embora seu curso de idiomas, ira elevadíssimo sejam mais importantes que o seu ser, a sua essência, tente não querer pregar seus sermões fora de contexto no próximo carnaval, essa reunião de indivíduos na rua (mas p’eralá, estamos falando sobre coisas muito profundas, quando era pra sermos profundos como um pires?).
Meu deus, onde já se viu usar a psicanálise freudiana quando eu queria vir fantasiado de pirulito; onde já se viu falar em educação quando apenas estávamos no Largo da Ordem pra balançar o corpo, chacoalhar o esqueleto, entende? Ora essa, problematizar um verdadeiro estar na multidão não vai fazer diferença nenhuma. Não entendi você, um cara solteiro, boa pinta, inteligente querendo terminar o carnaval antes do amanhecer? E as minas, cara. Nossa, cada uma mais cheirosa que a outra, e tu marcando bobeira com reflexões? Bebe mais essa por minha conta que quem tá precisando é você, meu pascalzinho. Muita recionalização é falta de explosão. Deixa a turma cantar em paz em cima da grama da praça, dentro do chafariz, trepada no poste. Teve uma hora que pensei, fodeu, agora você só falta chamar o guarda pro rapaz que acendeu um beise ou executou um brizola no banheiro da padoca. Tá virando policial, meu caro, ou definitivamente resolveu envelhecer?

Não sei o que se dá nesta cidade maldita. Cê pode me responder? Deve ser influência da plebe erudita querendo dialetizar o lixão.
Bem, pra terminar esse cartão que virou uma carta, hoje passei de manhã pelo Largo da Ordem e tinha um punhado de garis ajuntando a sujeira. Até parece que vi um rato correr na curva da rua e entrar num bueiro. Acho que era uma ratazana.
Com os meus mais pesares, porque você deixou a segunda-feira, esse dia pagador dos pecados, com cara de quarta-feira de cinzas.
Até o próximo domingo. Bye!


23.1.12

prata palomares

[Prata Palomares, de André Faria, 1972]

... não posso me furtar à tentação de contar uma anedota. Há uma espécie de mito que diz que John Lennon e Yoko Ono estiveram presentes à sessão em Cannes, e que teriam, portanto, assistido ao filme. Se é verdade, o André nunca me disse, e eu também não fiz questão de perguntar. Às vezes é mais interessante que o mito permaneça mito. Mas o caso é que, John e a mulher, sentadinhos lado a lado numa sala escura no sul da França, as mãos dadas, ainda com Imagine (1971) fresco na cabeça e sonhando com um mundo melhor, podem ter visto em uma passagem do filme, ao se jsutificar a respeito de seus cabelos compridos, o "padre" dizer em tom de brincadeira: "Jesus Cristo também usava. Os Beatles também. Os cristos dos tempos modernos".



[PEREIRA, Cesar Felipe. in: Revista Taturana, verão 2011, p. 58]


17.1.12

da literatura à paixão

Diálogo ultra-rápido

- Eu queria lhe propor uma troca de ideias...
- Deus me livre!

[Sapato furado, de Mário Quintana]

[...]


Ainda hoje não acho delicioso abrir minha porta a cada vez que um jovem escritor bate na aldrava: tantas pessoas nada têm a dizer. E depois, tão pouca coisa se passa entre dois seres, em uma conversa de meia hora. Por que não ir reler os livros do escritor de que gostamos? A solidão do escritor é muito profunda. Cada um é único, tem seus problemas, suas próprias técnicas, que cuidadosamente adquiriu; ele também tem sua própria vida. Não se ganha muita coisa em conversar com conhecidos (ou desconhecidos) sobre assuntos literários.


[YOURCENAR, Marguerite. De olhos abertos: entrevistas com Matthieu Galey. Tradução de Júlio Castañon. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. p. 92]


15.1.12

o leitor e a cidade


...no Japão, quem não lê vai preso.
Aqui, é eleito.


(Abujamra)

I


o problema da literatura, ou melhor, a sua falta de leitores, é consequência de uma crescente classe merdre!, para utilizarmos o termo de Alfred Jarry.


19.12.11

olhe aqui, Mr. Buster...


[MPB4 canta Lamento, de Pixinguinha e Vinicius de Moraes, 1974]

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo

que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
o Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite pra lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências
o Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra da Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
e suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filme de mocinho
isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulsoa hi-fi
com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
e tenha dois psiquiatras: um em Nova Iorque, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano.
Está muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu Estado
e sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

[MORAES, Vinícius de. O operário em construção e outros poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. p. 81-82]


15.12.11

o pinguim as vísceras e os urubus

[Oswaldo Goeldi, 1895-1961]

O fato poderia dar um conto, como queria my adorable girlfriend. No entanto, eu não vou transformar o ocorrido numa narrativa ficcional.
Não.
Relato: andávamos léguas quando desde logo ali uma coisa. Não nítida. Distante. Havia urubus em torno da carniça, que era um pingüim perfurado por essas aves que se alimentam da carne podre de animais mortos; falo dos urubus. Quando nos acercamos em torno do mamífero, arremessei um pedaço de tronco úmido. O gesto expulsou os bichos, que bateram asas. Do bando colorido pelo breu da plumagem, contamos cinco. No céu, eles formaram uma nuvem agourenta. E o peixe (sic!) continuou imóvel, com perfurações sob as nadadeiras, no rosto: sem os dois olhos, evidentemente. Aquelas criaturas estavam realmente famintas. Apanhei o tronco que eu havia arremessado contra os monstros de cabeça nua e virei o pinguim. Do orifício, ou como conhecemos mais popularmente pelo vocábulo cu, escorria os restos mortais do seu pequeno intestino misturado com sangue, víceras: miúdos. E o cérebro tinha sido comido através dos ouvidos.


8.12.11

dos maus vendedores:

[1943-1970]

- Cê não conhece janis joplin?
Tipo, o que eu vou dizer prum cara desse:
- Poxa, meu, foi mal, entrei na loja errada.


1.12.11

a leitura e o sono

[Anna Melcon Bond]

[...]

Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é o teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão: Não tenho não senhor. Só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos.

Qadós - Hilda Hilst


I

não faz muito tempo me deu na telha buscar em ambiente inóspito um refugio. na caverna eu acenderia um fogo pra espantar bicho lobo urso morcego esses troços. e levaria na bagagem os dois volumes das memórias do cárcere, do senhor Graça; com quem deus esteja.


30.11.11

de la musique


[Mistério do planeta, Novos Baianos,
gravado no sítio Cantinho do Vovô, em 1973]


***

As coisas mais misteriosas da vida não são embaladas numa fábrica, como se fossem latas de ananás às rodelas. Não trazem o prazo de validade à vista (apenas sinais sem nome escondidos em secretos lugares), daí ser tão difícil dizer ao certo o dia em que começam ou acabam. O coração sempre se alimentou mais de esperança do que de números.

[Maria João Freitas]