17.5.12

paráfrase pra ana

[1564-1616]


Ele é um homem, tomando-o como um todo. Temo nunca encontrar alguém igual.

[Shakespeare]

16.5.12

a máquina planetária do trabalho

[...]


Você gasta seu tempo para produzir uma peça que é usada por alguém que você não conhece para montar uma bugiganga que é comprada por outro desconhecido para fins que você ignora. O circuito dessa sucata de vida é regulado de acordo com o tempo de trabalho que foi investido no material bruto, na sua manufatura e em você. A medida é o dinheiro. Os que produzem e trocam não têm contr
ole sobre seu produto comum, então pode acontecer que trabalhadores revoltados sejam mortos exatamente com os revólveres que ajudaram a produzir. Cada peça de comércio é uma arma contra nós, cada supermercado um arsenal, toda fábrica um campo de batalha. Este é o mecanismo da Máquina do Trabalho: retalhar a sociedade em indivíduos isolados, chantageá-los separadamente com salários ou violência, usar seu tempo de trabalho de acordo com os planos.

  [Bolo'Bolo - A máquina planetária do trabalho]

 

15.5.12

salário, preço e lucro

[Ricardo Pozzo]

[...]


Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.


 [Carlos Marcus]

12.5.12

o escritor sente-se traído por um amigo

[Pictured here with his son, Stefan. Germany, 1931]


O que a criança sente, quando a mãe vai com um estranho.
O que o carpinteiro sente quando lhe vem a vertigem, o sinal da idade.
O que o pintor sente, quando o modelo não mais aparece e o quadro está inacabado.
O que o físico sente, quando descobre o erro bem adiante na cadeia de experiências.
O que o piloto sente, quando sobre as montanhas cai a pressão do óleo.
O que o avião, sentisse, sente, quando o piloto guia bêbado.

[BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956; seleção e tradução de Paulo César de Souza - São Paulo: Ed. 34, 2000. p. 306]


2.5.12

silent stories

[Philipe Petit-Roulet]


27.4.12

sem sexo, neca de criação

[Leminski 1944-1989] 
[...]

... a cultura popular do Sul é muito rala, bombardeada pelos meios de massa, despersonalizadores, antinacionais, niveladores.

[...]

O princípio do prazer tem um componente anárquico. Por isso, é uma espécie de inimigo público, em qualquer regime. O leitor já advinhou que a criatividade artística está intimamente ligada ao pleno desenvolvimento do princípio do prazer, a arte sendo uma modalidade de jogo e o jogo, como atividade livre do espírito, sendo a mais alta atividade do homem.

[...]

Curitiba é uma cidade abstrata. Vivendo do setor terciário, de serviços, Curitiba não produz bens agricolas nem industriais. Produz papéis, firmas reconhecidas, documentos, atestados, segundas vias, abstrações. Ora, o sexo, como a arte, é uma atividade direta, primeira, física. Entre nós, ambos estão destinados a se manifestar como taras ocultas. Curitiba é a cidade dos desejos inconfessáveis. Uma cidade onde a sexualidade é reprimida pela mística imigrante do trabalho. Reprimindo o erotismo, a sensualidade das pessoas, está-se reprimindo a criatividade, a explosão dos signos, a florescência das formas. Em Curitiba, todas as modalidades de repressão sexual estão articuladas com a mística imigrante do trabalho e o mito da poupança. Repressão sexual, o tabu da virgindade, o machismo, a rigidez de papéis homem/mulher, o preconceito contra o homossexualismo... Curitiba é uma cidade terrível para os homossexuais. Talentos homossexuais importantes foram massacrados, anulados, pulverizados pela cidade. A mística imigrante do trabalho explica. O homossexualismo é uma atividade em si. Não produz nenês nem herdeiros. O sexo homossexual não dá lucro.
Curitiba, metafísica e fisicamente, ignora o corpo. Como o Sul, em geral. O trabalho é uma "espiritualização", uma abstratização do corpo. O trabalho deforma o corpo, que só o esporte faz florescer. Curitiba nunca foi importante, esportivamente. Esporte é jogo, atividade lúdica, tudo aquilo que a mística imigrante do trabalho abomina. "Brincadeira tem hora", os dizeres da nossa bandeira. Só que, se tem hora, não é brincadeira, evidentemente. Em lugar das velocidades lúdicas do esporte, conhecemos sua modalidade pragmática, contábil, mercatória: a pressa. Nossa pressa é a maior quantidade de trabalho concentrada na menor fração de tempo. O modelo, evidentemente, são as máquinas e sua fria eficácia, oticamente neutra, biologicamente irresponsável. Mas o corpo do bicho-homem tem seus direitos, clamores e ímpetos. E o corpo se vinga, masoquisticamente, das repressões, pressas e prisões a que está submetido, em problemas sexuais, em mais tiranias... Quem está com pressa, não tem tempo para ver a paisagem. Nem para refletir sobre o trajeto e o percurso. A pressa é a face visível do tempo maquinal e despótico, criado pelo trabalho industrial e pela burguesia europeia, com a Revolução Industrial. Como tal, é inimiga mortal das liberdades do homem, entre as quais está a de produzir essas liberdades, que são os produtos culturais, poemas, visões, músicas... A preguiça é que é de vanguarda.

[LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011. p. 111-118]

consumer shopping christ

[Banksy]


25.4.12

de la musique


[Marijuana, The Soul Syndicate, 1970]


23.4.12

estórias do senhor G.


**

O amigo do senhor G., o enciclopedista Henri, recomendou El libro de arena
"Compre-o, é uma pechincha e os contos valem cada centavo. Depois de Borges, somente Montaigne se iguala a ele como leitor", termina o senhor Henri ao tempo que despertou duas pancadinhas na calçada com a ponta do guarda-chuva. Para o leitor atrasado, os dois carinhas tinham se encontrado na rua da casa do senhor G., o qual saia para lecionar. O senhor G. anotou em sua cadernetinha a referência e pensou consigo: "A leitura só tem validade se for trocada com o outro". E o outro foi o senhor Henri despedido de adeuses.



II

Às vezes o senhor Henri, chegado num absinto, bate na porta do senhor G. munido de uma garrafa para adentrar na viagem noturna. Sua remessa lunática.
O senhor G., dia destes de porre, desenhou o senhor Henri igual a Colombo em sua expedição marítima cheia de loucos e mendigos. Mas deixando essas lembranças para trás, voltemos ao livro indicado, mote da estória


III


Ao chegar, muito depois da aula e de seus devaneios, o senhor G. em poucos cliques acessou o livro e encomendou. Fácil, cômodo virtual e em casa.
Passaram alguns dias até que, voltando do seu eterno retorno, o senhor G. viu que havia alguma coisa na caixa de correio. O eterno retorno é a teoria do cotidiano, observou o senhor G. sem dar ao certo a ligação genética em Nietzsche. Embora a ideia tenha virado um aforismo, concluiu os pensamentos para aquele dia:
"se o livro é de areia, ele deveria ter vindo num saquinho." Mas para seu desapontamento, ao abrir a portinhola, o livro adquirido era feito de papel. O senhor G. o recolheu e foi para cama dormir.

O senhor G. Este.


19.4.12

nem o corpo


no seu bangalô,
sob o viaduto,
uma estrela
nunca salpicou o chão.
As balas dos revólveres
furaram o zinco.
Só restaram o abandono,
em sua nudez,
e umas roupas
penduradas no varal.
Ali permaneceram,
tesas e encardidas,
em meio à fumaça
dos escapamentos.

Não,
ninguém as reivindicou
como herança.

[Donizete Galvão, in: Coyote
Londrina - Verão, 2003. n 4]


18.4.12

observações no diário de classe


I

às vezes, para não dizer sempre, chego a mesma conclusão de andré forastieri e faço das palavras dele uma paráfrase: depois de uma certa idade trancar a garotada na sala de aula é de foder o grilo.


13.4.12

L'amour à la robote


Um homem escreve à máquina uma carta de amor e a má-
quina responde ao homem e à mão como se fosse a
destinatária

Tão aperfeiçoadas as máquinas
a máquina de lavar cheques e cartas de amor
E o homem confortavelmente instalado na sua máquina de
morar lê com a máquina de ler a resposta na máquina
de escrever

E na sua máquina de sonhar com a sua máquina de calcu
lar compra uma máquina de fazer amor

E na sua máquina de realizar os sonhos faz amor com a
máquina de escrever com a máquina de fazer amor
E a máquina o engana com um mecânico
um mecânico que morre de rir.

[PREVERT, Jacques. Poemas: introdução, seleção dos poemas e tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 143]


11.4.12

o cão, o acidente e a narrativa:

[Le promeneur solitaire]

[...]


Às seis horas, estava descendo de Ménilmontant, quase em frente ao Galant Jardinier, quando, de repente, as pessoas que caminhavam à minha frente se afastaram e vi se lançar sobre mim um grande cão dinamarquês que, avançando veloz na frente de uma carruagem, não teve tempo de parar sua corrida ou desviar ao me ver. Calculei que a única maneira de evitar ser atirado ao chão era dar um grande salto, tão preciso que o cão passasse por baixo de mim enquanto estivesse no ar. Essa ideia, mais breve que o relâmpago, que não tive tempo nem de considerar nem de executar, foi a última antes do acidente. Não senti nem o golpe nem a queda, nem nada do que se seguiu até o momento em que voltei a mim. Era quase noite quando recuperei os sentidos. Estava nos braços de três ou quatro jovens que me contaram o que acabara de acontecer. O cão dinamarquês, não conseguindo frear seu impulso, precipitara-se sobre as minhas duas pernas e, atingindo-me com sua massa e sua velocidade, me fizera cair de cabeça: o maxilar superior, ao suportar todo o peso de meu corpo, batera numa pedra do pavimento bastante irregular, e a queda fora ainda mais violenta porque, estando numa ladeira, minha cabeça batera abaixo de meus pés.


[ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios de um caminhante solitário. tradução de Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM Pocket, 2011. p. 20-21]


8.4.12

o ovo

[Philippe Petit-Roulet]

[...]


Talvez cada um tenha o seu próprio ovo. E este é o meu.


[ABREU, Caio Fernando. Inventário do Ir-remediável. Porto Alegre: Sulina, 1995. p. 44]


6.4.12

pé de couve


**

O senhor G. levantou de manhã - bem cedinho. Caminhou à biblioteca um pouco bagunçada ainda bafudo e, como se não tivesse outra coisa melhor pra fazer, abriu um livro. A leitura ia indo e foi quando um ponto interrogativo lhe deu um insight: péralá... uhn, seria o sr. Keuner uma espécie de Bartleby?
Raciocinem comigo, pensou o senhor G. abstraindo uma aula:
- Como justificamos a comparação tomando como pressuposto (para criarmos uma argumentação) a citação chinesa que segue?

"Aquele que pensa nada promete, exceto que continuará sendo um indivíduo que pensa".

[editora 34. p. 75 - 2006]


29.3.12

dias & dias


I


João andava, há um punhado de dias mal contados, preocupado. Dias e dias habitava nele como reboco o medo de ficar burro, mas burro de sabençudo.

II

Certa manhã oriunda de uma noite sem sonhos, João não levantou. Não abriu os olhos. Não se mexeu.

III

Passado um mês de aluguel atrasado, deram pela falta de João. O telefone tocou, e-mails sobrecarregaram a caixa de entrada, cartas, contas e revistas voltaram para o correio. Mas de nada valia, pois João estava morto e seu corpo entrava em putrefação.

IV

O que o leitor perdeu com a morte de João?


27.3.12

alma de cozinha

do pé da cadeira quebrada
da xícara lascada da avó morta

em matéria de poesia

até que ando bem,
pois o cérebro ligado ao microondas

faz cada omelete dos meus olhos que eu nem te conto.


25.3.12

de la musique


[Nina Simone, Revolution -
Harlem Cultural Festival, 1969]


23.3.12

clepsidra

[Rafael Sica]
[...]


O amor é amoral. Eu me amo, não posso viver sem mim. Em pedra? Em estrela? Em flor? Façam suas escolhas. Em que vou me transformar, no final? Quem acertar, ganha o direito de olhar bem nos olhos da Medusa. Não é uma beleza?


[LEMINSKI, Paulo. Metaformose: uma viagem pelo imaginário grego. São Paulo: Iluminuras, 1994. p. 34]


20.3.12

o leitor e a escritura

[andré kertész, 1974:
papers and books thrown away]
IV


a cidade se transformou num grande departamento. a burocratização da conversa está tornando impossível o convívio com o outro.


14.3.12

todozolhinhos


papai cu levou seu cuzinho pra passear.

cuzinho, tirando a malícia, é o filho de papai cu.

certo dia os dois caminhavam para o colégio,
onde cuzinho aprendia leitura, mas eis que,

no meio do caminho sem pedra, papai e filhinho
encontraram cuzão.

cuzão tinha o aspecto de um antagonista,
ou seja, era o vilão e, sendo assim,

papai cu e seu cuzinho
toparam com uma tremenda confusão.


10.3.12

martelinho de ouro


Comecei a ler um livro, num faz meia hora, e, na página a que se destina o catálogo, vejo escrito: revisor técnico. Eu não sabia que pra escrever tinha de ser feita uma espécie de manutenção. É a mesma coisa dizer ao escritor que sua mente precisa passar por uma funelaria. Em caso de teses, se dá o seguinte diálogo com o orientador:


- Por favor, grão mestre, o senhor pode desamassar este neurônio?


9.3.12

download




I

escrever um texto com a mesma pegada que a turma do Bob carregaram essa musica é tarefa pra escritores jamaicanos.
isso me parece muito estranho, mas é como pensar:

- onde está Waly?

no entanto, mudando do vinho pra água, eu tinha um personagem recortado de uma caixa de papelão em cima da mesa, apelidado de joão pé de semente, que de repente se levantou quando eu ouvia a música, me mostrou a língua, abriu a porta, desceu a escada escorregando pelo corrimão, apanhou a rua iluminada, isto é, saiu de casa e, no meio da quadra, estendeu um fio de lã entre dois brotos recentemente plantados. o corpo de joão pé de semente estava ausente de qualquer vestimenta, mas faltava-lhe uma cor no tom do papel grosso: nu. joão pé de semente começou a perceber que estava se transformando num bonequinho de luxo pelas mãos de seu criador, que soy yo.

mas eu, sem graça alguma, pra terminar a narrativa, assim que a música chegou ao seu fim, queimei o bonequinho.


7.3.12

das grandes prosadoras

[...]


Não sei por que as histórias pra criança não tem o príncipe lambendo a moça e pondo o dedinho dele maravilhoso no cuzinho da gente. Quero dizer da moça.


[HILST, Hilda. O caderno rosa de Lori Lamby. 2 ed. São Paulo: Globo, 2005. p. 67]

3.3.12

dos grandes prosadores

[1922-2010]
[...]


Há poucos minutos uma estação de rádio portuguesa quis saber qual seria a primeira medida de governo que eu proporia a Barack Obama no caso de ele ser, como tantos andamos a sonhar desde há um ano e meio, o novo presidente dos Estados Unidos. Fui rápido na resposta: desmontar a base MILITAR de Guantánamo, mandar regressar os marines, deitar abaixo a vergonha que aquele CAMPO DE CONCENTRAÇÃO (e de tortura, não esqueçamos) representa, virar a página e pedir desculpa a Cuba.


[SARAMAGO, José. O caderno: textos escritos para o blog. Setembro de 2008 - março de 2009. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 102]


2.3.12

da contemporaneidade


O intelectual é um urubu

que se julga vestido,
mas que está nu,
com a pena do pavão
enfiada
no cu.

[Padre Daniel Lima]


29.2.12

contos da esquina


II

aê, garçon, rola uma pindureta?
eu já lhe disse, meu senhor, cê lambe o chão, faz favor.


- Rasgar meu diploma?
- Ué, bicho, seria um ato político. Real, manja.
- Mas, cara, é a única alforria que tenho pra ser um homem civil.
- Larga dessa, mano. Transcenda. Você muito quer o poder, qu'eu sei.
- Vamu trocar de assunto, meu camarada, e beber mais uma?
- Cê paga?