9.8.12

atalho



Como eu não tinha mula pra picar, 
botei o pé na estrada. 

Os pés. 


8.8.12

complexo de vira-lata



... É considerado o cão mais revolucionário de que se tem notícias. Participou de diversos manifestos, assembleias, debates, passeatas, greves, acampamentos, barricadas, invasões, “sequestro” e até já foi cotado a candidato a Reitor. Bem, na cadeira do Reitor sei que ele já sentou… Sua presença era fidedigna nas recepções aos calouros, trotes, festas e até em rodinhas “fora da lei”. 

[Rogeria, julho/09-UFSC]

Barbado
c. 1962-70. Cachorro boêmio.

De um jeito ou de outro, os alcoólatras de Ipanema sempre se viraram, mas havia um que dependia dos outros para beber: Barbado, um vira-lata com uma barbicha que lhe valeu o nome. Ninguém era dono de Barbado, mas Barbado dominava Ipanema. Em meado dos anos 60, era famoso nos bares por não recusar serviço: aceitava todo o chope que lhe serviam num prato. Fazia ponto no Jangadeiro, debaixo das cadeiras de Hugo Bidet e Kabinha, seus principais fornecedores, para quem ele era um antigo bebum que morrera e reencarnara como cachorro. Para que Barbado não bebesse de estômago vazio, o dono do Jangadeiro servia-lhe antes um filé.

Com todos os porres que tomava, Barbado atravessava as ruas com superior indiferença e nunca foi atropelado. Muitas vezes tomava o ônibus “Camões” na praça General Osório, ia até a Central do Brasil e voltava (os motoristas o conheciam). Era também um cachorro responsável: foi mascote da banda de Ipanema em vários defiles e atuou na peça Ratos e homens, de John Steinbeck, no Teatro de Bolso, substituindo um cachorro amestrado que, este sim, fora atropelado. Vivia solto, mas sabia a hora certa de chegar ao teatro, inclusive nas matinês, e era mais pontual que muitos no elenco. Em sua crítica na Tribuna da Imprensa, Fausto Wolff desancou a peça, a produção e os atores, e só elogiou Barbado.

Barbado namorava uma cadelinha do Posto 6 e, às vezes, ficava alguns dias sumido. Por volta de 1970, desapareceu de verdade. Vavá, garçom do Jangadeiro, viu-o tempos depois num restaurante de caminhoneiros na estrada Rio-São Paulo. Chamou-o pelo nome e ele atendeu. Mas não quis voltar com Vavá. Subiu na boléia de um caminhão e foi embora. Como muitos drop-outs de Ipanema naquela época, Barbado também resolvera botar o pé na estrada.



[CASTRO, Ruy. Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 
p. 50]

6.8.12

quem bate o cartão põe o dedo aqui


Depois de lido a reportagem sobre a vinda do ministro da Educação à capital paranaense em reunião particular com os dirigentes do Grupo Positivo, pergunta-se: o que se pode esperar para a Educação Pública? Olimpíada de matemática? Soletrando? Que tal concurso de assovio, ninguém vê e ninguém viu.


4.8.12

farias


vou desligar o 
PC


3.8.12

garrulice


Enfia esse michê chinfrim no feofó, garoto, tá me confundindo com alguma biraia de randevu de beira de estrada, eu, hem, ontem mesmo saí cum figurão duma multinacional, eita, acordei hoje cedo dei de cara com 300 dólares em cima do travesseiro... ei, rufião mirim, grana aí é da tesudinha aqui... plaft, merda, fodeu de graça, levou as verdinhas, quebrou meu dentinho de ouro. 

[FERREIRA, Evandro Affonso. Grogotó. São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 31]


2.8.12

da contemporaneidade

[Caroline Palumbo]

[...]

Cara, me desculpe insistir nesse assunto, mas a pemba do homem era uma borduna bororô, uma autêntica encarnação antropomórfica do divino Zebuh da piroca master, nada menos.

[MORAES, Reinaldo. Pornopopéia]

31.7.12

ABCdário


E - de esquentadinho

Sou pavio curto, aviso o leitor. A transgressão em que me concentrei visa ir além do bem e do mal. Esclareço. É uma rebeldia que veio junto do pacote: denominado ser. Esse pedaço de carne ligado a um sistema nervoso cujo membro entre as pernas se assemelha a um cotó. Embora o rabo seja outro.

E você, com esta cara de bunda? Em vez de ficar sentado, porque não enfia o dedo no cu, depois na boca pra sentir a direção do vento, o clima úmido? 

Tou sendo grosso? Mas só enfiei a cabecinha.

Só pra você saber, vestir às avessas o cotidiano é do meu feitio; travestir o tempo e foder a morte, minha filosofia. Antes eu pensava: ler e dar uma boa trepada. Depois da boa trepada, fazer um rango. Sou convencionalmente conhecido como intelecto estômago e partes baixas. Antes eu pensava e ainda penso a mesma coisa. Mas entre pensar e fazer, o tesão está no fazer.

Às vezes ocorre algo comigo que não sei explicar. É uma timidez que. Ouça só: quando fico afinzão duma mina, começo a tropeçar em tudo: palavras, jeito. Visto a calça no lugar da blusa, calço o chapéu, uma meia fica na orelha e fumo como um desgracido. Até aí, tudo errado.

Penso - por minuto - se ela vai pegar no meu pinto. Daí eu trombo comigo no banheiro e pra tirar aquela aflição que deixa o corpo suadinho cinco contra um não é covardia.

I-ó

a parada não fica suspendida, porque se pintar um carinho, sangro a bucetinha da mina com meu punhal.

26.7.12

sem ser, exatamente, beletrista

[...]

Ser alguém escritor é desenvolver uma atividade que nada tem de burocrática. É uma atividade mais de aventura que de rotina. 
[...]

Sabe-se das companhias de seguros que têm segurado por altas somas mãos de pianistas. Mas não mãos de escritor.

[Que é ser escritor? in: Seleta para jovens de Gilberto Freyre; organizada pelo autor com a colaboração de Maria Elisa Dias Collier. 3 ed. Recife: José Olympio, 1980. p. 27]


25.7.12

educare



Já passou pela cabeça da leitora o homem ser um bicho? Nunca? Um cachorro por exemplo. Também, não? Tente visualizar comigo, não é difícil. Veja quando o animal apanha um osso. Não existe nego com manha de tirar o alimento da boca do bichano. Não é fato? Agora imagine um cachorro dirigindo uma escola. Um animal que ocupa um cargo. Imaginou? Agora vai que este mesmo cão trabalhador, favorecido por outros cães, consegue um degrau na Prefeitura. Aí, em dois pulos, o rabinho abanando, o cão pode governar o Palácio. E latir, segundo o direito constitucional, para os seus subordinados.

Percebeu como se cria um cachorro amestrado?
Ainda, não?


24.7.12

cinco vezes favela


[Couro de gato, de Joaquim Pedro, 1961]

"Quando o Carnaval se aproxima, os tamborins não têm preço. Na impossibilidade de um melhor material, os tamborins são feitos com couro de gato."

23.7.12

apartheid soneto

[Avelino de Araújo, 1988]


19.7.12

30 anos esta tarde


[...]

A minha geração (dos moleques que tinham por volta dos 10 anos em 1982) cresceu assombrada pelos vultos da pátria & pelos gols do Paolo Rossi. Fazer o quê? Nada, não há nada a fazer. Dali em diante que cada um escolheu o prozac que melhor lhe convinha. Uns foram pro Senai, outros pra igreja. Muitos montaram bandas de rock & foram se bacharelar nos botequins do centro da cidade. Sou dessa última estirpe de sujeitos, a dos brucutus apaixonados, a dos rain dogs. Antes bêbado que mal-assombrado.

[Fabiano Calixto in: Meu pé de Laranja Mecânica. Cinco de Julho de Dois Mil e Doze]


18.7.12

doc


[Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, 2009]

[...]

autoritarismo militar, repressão, censura, tortura não são produtos de uma determinada e específica realidade histórica brasileira, quando muito são produtos de uma dada realidade econômica [...] aquele que tem interesse em "financiar" o autoritarismo, a repressão etc., em países como o Brasil.

[SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 189]

15.7.12

trópico canabis-canibal

[Intervenção: "... usque consumatio doloris legendi"
Titri Tilag - G.q.]

[...]

Cartesius smokes a miraculous herb (marijuana) and finds himself dissolving into a tropical delirium

[...]



fetiche


Minha adorable girlfriend se materializou numa Muiraquitã. E vou avisando - pra deixar claríssimo - que se aparecer algum gigante chamado Pietro Pietra no meio do nosso caminho, querendo o monstro irracional raptar meu amuletozinho, saco, com muito orgulho e determinação, a faquinha que carrego na cintura e corto, sem muitas delongas, a cabeça do malfeitor. Para assim, resgatar meu talismã das garras do vilão capitalista.


2.7.12

descida antropofagica

[meu tio Iauaretê]


Porque Como

[...]

O índio não tinha polícia, não tinha recalcamentos, nem moléstias nervosas, nem delegacia de ordem social, nem vergonha de ficar pelado, nem luta de classes, nem tráficos de brancas, nem Ruy Barbosa, nem voto secreto, nem se ufanava do Brasil, nem era aristocrata, nem burguês, nem classe baixa.
Por que será?

[Marxillar]


1.7.12

jaburu malandro

[Eleanor Davis]
[...]

O mal não é a gente amar... O mal é a gente vestir a pessoa amada com um despropósito de atributos divinos, que chegam a triplicar às vezes o volume do amor, o que se dá? Uma pessoa natural é fácil da gente substituir por outra natural também, questão de sair uma e entrar outra... Porém a que sai do nosso peito é amor que sofre de gigantismo idealista, e não se acha outra de tanta gordura pra botar logo no lugar. Por isso fica um vazio doendo, doendo... Então a gente anda cada estirão a pé... Aquilo dura bastante tempo, até que o vazio, graças aos ventinhos da boca da noite, encha de pó. Se encha de pó.

[ANDRADE, Mario de. Os contos de Belazarte. 6 ed. São Paulo: Martins, 1973. p. 42-43]

29.6.12

de la musique


[Quem roubou a sopeira de porcelana chinesa 
que a vovó ganhou da Baronesa
Jorge Ben, 1969]


27.6.12

valor e cultura


XXIII

O dinheiro vem pra confundir o amor

[Criolo - linha da frente]


Aposto e pagaria pra ver, mesmo contraditório fosse pelo seu fim, que uma boa parte da população do planeta morreria se o dinheiro deixasse de existir. Ou melhor, se o dinheiro não tivesse o valor que tem na feira das vaidades.


23.6.12

sambandido


[Onde a coruja dorme,
documentário sobre os compositores das músicas do Bezerra da Silva,
Direção Simplício Neto, Márcia Derraik, 2001]


22.6.12

leitor e cidadania

[La lectora, de Miháy Bodó, 2005]

[...]

... os melhores escritores brasileiros têm reagido, insistindo numa estética que desconcerta mais o desconcertado leitor nosso contemporâneo. Tipo formicida tatu com guaraná. Vocação suicida da boa literatura em tempos neoliberais? Ou: incortonável preguiça intelectual do leitor em tempos de economia de mercado? Neoliberalismo político e economia de mercado acentuam a competividade no dia a dia da labuta pela sobrevivência e, por conseguinte, traz o cansaço do ser humano nas horas de lazer. Tudo indica que a combinação de política e economia dominante no Brasil de Fernando Henrique Cardoso acaba por exigir que a obra literária perca seu caráter instigante de objeto de conhecimento para ser apenas objeto de entretenimento para o seu leitor.

[SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 174]


20.6.12

valor e cultura


XXII

Se um velhinho como Rubem Alves pinta a escola igual a uma fábrica de salsichas, então podemos deduzir de que é do seu chiqueiro que vem a carne dos porcos servida de merenda escolar para os herdeiros do seu ovo.



17.6.12

interview

[Oliver Stone]
[...]

O cineasta é [...] uma prova viva de que a relação entre o consumo de maconha e o fracasso na vida profissional não passa de um falacioso mantra proibicionista.



14.6.12

de la musique


[Peter Tosch and Mick Jagger cantam Don't look back]


12.6.12

estórias do senhor G.


O senhor G. gosta, mas gosta mesmo de uma anotação; um verdadeiro comedor de papel, diria quem convive ao lado dele diariamente. Tomado por este vício (comer papel, o qual transcende o bem e o mal, segundo a teoria desse humilde e servo senhor) quis felicitar sua noiva com um bilhetinho afixado na porta da geladeira. E compartilha com vosotros o trecho do romance fatiado:

[...]

O apartamento deles raramente estaria em ordem, mas a própria desordem seria seu maior charme. Mal se ocupariam da casa: viveriam ali. O conforto do ambiente lhes parecia uma obviedade, um dado inicial, um estado da natureza. A atenção de ambos estaria em outra coisa: no livro que abririam, no texto que escreveriam, no disco que ouviriam, no seu diálogo reiniciado a cada dia. Trabalhariam muito tempo. Depois jantariam ou sairiam para jantar; encontrariam os amigos; dariam uma volta juntos.


O senhor G. Este.


10.6.12

por que ler os clássicos


[...]

Um país onde há séculos se deita a falação. Desde a carta de Pero Vaz de Caminha. A falação foi uma característica que os Esquemas souberam capitalizar, introduzindo na psicologia popular. Fizeram com que a falação se transformasse numa cortina de fumaça, encobrindo tudo que fosse possível.
Um processo de falação obedece a uma sequência invariável. Um primeiro momento, a chamada denúncia. Alguém levanta o problema. Em seguida, uma fase delicada. A das vozes indignadas, governamentais ou não, que se erguem exigindo providências. O terceiro requer habilidade.
É a fase das promessas. Garante-se a formação de comissões de inquérito, promovem-se passeatas controladas, editorias consentidos na imprensa, entrevistas categóricas. Este período é essencial, exige uma avalanche de falação contínua, exacerbada, exasperante. Falar até o total sufoco.
Não deixar ninguém raciocinar. Repisar indefinidamente o assunto, até o ponto de completa saturação. Falar, falar até o esgotamento. E então, de repente, ninguém mais pode ouvir sequer comentar as tais denúncias. Elas se esvaziam. Os que tentam são classificados como Intolerantemente Aborrecidos.
Os sistemas de governo sucederam, as noções políticas se modificaram, menos a falação. Esta prosseguiu como tara hereditária. Constantemente aperfeiçoada. Em tempos mais remotos, nos famosos Abertos Oitenta, houve certa preocupação, receios, na elite dominante. Ela ficou de sobreaviso.
Naquela época, o Povo e os Intelectuais, duas classes, distintas, separadas, se uniram à Classe Média Possuidora de Automóvel.

[BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum (memorial descritivo). 4 ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1982. p. 322]


9.6.12

de la musique


[New York Dolls, Pills and Trash, 1973]


8.6.12

especialização

[...]


Certamente um dos argumentos radicais mais antigos, porém mais débeis, é aquele que sustenta obstinadamente ser o capitalismo incapaz, inerentemente, de proporcionar ovos de ouro para todos.

[ROSZAK, Theodore. A contracultura - reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1972. p. 23]

7.6.12

valor e cultura


XXI

O premio destinado ao famigerado contista nada contribuiu à sociedade, a mim e a você, fiel leitor. A não ser alimentar as páginas dos jornalões. Um personagem para o dia: extra extra!



de la musique


[Red Hot Chili Peppers, Soul To Squeeze, 2007]

31.5.12

estórias do senhor G.

[Snoopy]

Na blusa de inverno do senhor G., que lhe toca a pele e lhe aquece o corpo, tem um conselho, uma nota chinesa sob a manga:

“A melhor sobra é o farelo em cima da mesa. Deixe-se em casa, saia somente com o corpo, recolha o espírito para as profundezas da sombra e dê ao tempo o término de recuá-lo a mais tenra infância”.

E preencher este mesmo tempo com leitura, respirações, transas, sonos, completa o senhor G. Palavra de honra no meio de tanta corrupção vale uma amizade, sabia? O senhor G. pensa: não sabia; e diz: aposto que não sabe.


30.5.12

dos grandes prosadores


Buchada de carneiro

[...]

Lá em cima eu falei de religião. Pois se há alguma coisa que pode dar uma ideia de céu, de bem-aventurança, de gostosura plena - é buchada. Intestinos e vísceras mil, sangue em sarapatel, tudo se confunde junto ao pirão, esse fabuloso pirão em que a gente sente a alma do carneirinho. Devo dizer que os miolos foram comidos dentro do crânio, com toda a dignidade; e aquela parte em que o carneiro prova que não é ovelha foi petiscada frita - uma delícia. Comemos, comemos, comemos, comemos; e cada vírgula quer dizer pelo menos uma cachacinha, e o ponto e vírgula pelo menos duas. O ponto final foi um grande sono de rede. E se vocês além de tudo ainda querem saber o moral da história, direi baixinho, envergonhado e contrafeito, mas confessarei: o crime compensa.

Fevereiro, 1955


[BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. 18 ed. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 310]


29.5.12

depois da batalha


O senhor G. foi à banca comprar uma revista para o seu filho adolescente. É apenas um diálogo entre pai e filho.

O senhor G. costuma quebrar tabus.


[Grass - The History of Marijuana, de Ron Mann, 1999]
**

Nunca entendi uma coisa. Por que todos os ministros de economia brasileiros até, digamos, 1994, abriram firmas de consultoria ou viravam comentaristas políticos depois que deixavam o poder?
Porque todos invariavelmente haviam falhado em conter a inflação da moeda - mas, depois de humilhantemente fritados e finalmente demitidos, passavam a dar conselhos sobre o que devia ser feito para resolver os problemas da economia. Depois de cagar tudo os caras descolavam uma autoridade sobre os destinos do páis que só vi em motoristas de táxi.
Essa é a minha bronca com o Fernando Henrique Cardoso e a sua recente adesão à causa da maconha. Ele já foi presidente da república, por Jah. E não pode dizer que foi apresentado à erva depois de sair do Palácio do Planalto - um dos motivos porque perdeu a eleição para prefeito de São Paulo em 1985 foi ter declarado que já havia fumado maconha. E o cara nem fez o Bill Clinton, inventando que não tragou.
A pergunta que fica é: por que FHC não botou a questão em pauta em seu governo? Espero na sincera que o ex-presidente, a R$ 50 mil por palestra, continue falando do assunto - e que algum espectador levante a mão para saber porque demorou tanto a começar.
É como se o Imperador Constantino tivesse se convertido ao cristianismo depois de perder a batalha de Ponte Mílvio; e não antes, quando a cruz que adotou o ajudou a ganhar.
A guerra das drogas, FHC perdeu.

[BRANCO, Arnaldo. Sem semente - revista de cultura canábica. ed. 1/Ano1 - Mai/Jun 2012]


26.5.12

corte

 [1932-1963]

Que arrepio -
no lugar da cebola, meu polegar.

[...]

[PLATH, S. Poemas.]

24.5.12

da contemporaneidade

[Lawrence Ferlinghetti, 1919 - ]

Utilidades da poesia

Então, para que serve a poesia nesses nossos dias?/ Qual seu uso? Qual sua utilidade?/ Nesses dias e noites da Era do Capocalipse em que a poesia é o asfalto/ das estradas dos exércitos noturnos/ como naquele paraíso de palmeiras no norte da Nicarágua/ onde promessas são feitas nas plazas/ e desfeitas nas quebradas/ ou nos campos verdíssimos/ da Estação de Armas Navais de Concord/ onde trens blindados esmagam manifestantes verdes/ onde a poesia se faz importante pela ausência/ ausência de pássaros na paisagem de verão/ ausência de amor nas coxas da meia-noite/ ausência de luz ao meio-dia/ na Casa (não-tão) Branca/ Pois mesmo a poesia ruim é importante/ por aquilo que não diz/ por aquilo que abandona/ Que dizer do sol escorrendo/ pela pele da manhã/ das noites brancas e das bocas sedentas/ lábios ululando Lulu sem parar/ e dos seres alados que cantam/ e dos gritos distantes numa praia ao anoitecer/ e da luz jamais vista na terra ou no mar/ e das cavernas descobertas pelo homem/ onde corriam rios sagrados/ junto às cidades costeiras/ onde caminhamos distraídos/ intensamente comovidos/ com o louco espetáculo da existência/ todos esses animais tagarelas sobre rodas/ heróis e heroínas com mil olhos/ com corações corajosos e superalmas ocultas/ nem aí para mitos/ (Por uma vida sem mitos!/ gritou Joseph Campbell/ e se mandou de barco para o Havaí)/ sempre impressionados por eu insistir/ com esses aprumados bípedes de cara lisa/ esses atores frementes/ pálidos ídolos nas ruas noturnas/ dançarinos extáticos no pó da Last Waltz/ nesse tempo de engarrafamentos da Era do Capocalipse/ onde a voz do poeta soa distante/ a voz da Quarta Pessoa do Singular/ a voz dentro da voz da tartaruga/ a face atrás da face da raça/ letras de luz na página da noite/ a ávida voz da vida como Whitman a escutou/ um leve riso selvagem/ (quiçá a libertemos/ do editor de texto da mente!)/ E eu sou o repórter diário de outro planeta/ redigindo a história decadente/ do Que Quando Onde Como e Por quê/ dessa espantosa vida aqui/ e dos estranhos palhaços que governam/ com os cotovelos no parapeito/ das demoníacas aterrorizantes fábricas/ lançando suas sombras entrevadas/ na grande sombra da Terra/ no fim do tempo não visto/ no supremo haxixe do nosso sonho.


Tradução: Fabiano Calixto



23.5.12

contra a civilização: um leitor

[Jean-François Martin]

[...]


... os gregos foram mais ou menos uma democracia sem microscópio, o que é, de fato, uma grande porcaria.


[TAVARES, Gonçalo M. O senhor Henri e a enciclopédia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012. p. 60]

21.5.12

Download

[Underground, 1968]



textículo informal

[Adão Iturrusgarai]

Introdução - preliminares

Historicamente refletindo a genealogia dos mundos começa na imaginação que engravida a cabeça.
Como o caso será - todavia - específico: 
o buraco fica mais embaixo.


18.5.12

estórias do senhor G.



I

O senhor G. viu o dia bonito nascer e ficou disposto prumas pedaladas, deixando a revolução pra outra hora:

- Depois eu volto, Bolo'Bolo, ironizou o senhor G.

Na calçada, subiu na magrela com intimidade zup!, deu um impulso, fez uma com a campainha, entortou uma árvore e chispou ladeira na quebra do meio fio. Zap! Glin! Lá foi ele, na rapidez oriunda das suas pernas.


17.5.12

paráfrase pra ana

[1564-1616]


Ele é um homem, tomando-o como um todo. Temo nunca encontrar alguém igual.

[Shakespeare]

16.5.12

a máquina planetária do trabalho

[...]


Você gasta seu tempo para produzir uma peça que é usada por alguém que você não conhece para montar uma bugiganga que é comprada por outro desconhecido para fins que você ignora. O circuito dessa sucata de vida é regulado de acordo com o tempo de trabalho que foi investido no material bruto, na sua manufatura e em você. A medida é o dinheiro. Os que produzem e trocam não têm contr
ole sobre seu produto comum, então pode acontecer que trabalhadores revoltados sejam mortos exatamente com os revólveres que ajudaram a produzir. Cada peça de comércio é uma arma contra nós, cada supermercado um arsenal, toda fábrica um campo de batalha. Este é o mecanismo da Máquina do Trabalho: retalhar a sociedade em indivíduos isolados, chantageá-los separadamente com salários ou violência, usar seu tempo de trabalho de acordo com os planos.

  [Bolo'Bolo - A máquina planetária do trabalho]

 

15.5.12

salário, preço e lucro

[Ricardo Pozzo]

[...]


Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.


 [Carlos Marcus]

12.5.12

o escritor sente-se traído por um amigo

[Pictured here with his son, Stefan. Germany, 1931]


O que a criança sente, quando a mãe vai com um estranho.
O que o carpinteiro sente quando lhe vem a vertigem, o sinal da idade.
O que o pintor sente, quando o modelo não mais aparece e o quadro está inacabado.
O que o físico sente, quando descobre o erro bem adiante na cadeia de experiências.
O que o piloto sente, quando sobre as montanhas cai a pressão do óleo.
O que o avião, sentisse, sente, quando o piloto guia bêbado.

[BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956; seleção e tradução de Paulo César de Souza - São Paulo: Ed. 34, 2000. p. 306]


2.5.12

silent stories

[Philipe Petit-Roulet]


27.4.12

sem sexo, neca de criação

[Leminski 1944-1989] 
[...]

... a cultura popular do Sul é muito rala, bombardeada pelos meios de massa, despersonalizadores, antinacionais, niveladores.

[...]

O princípio do prazer tem um componente anárquico. Por isso, é uma espécie de inimigo público, em qualquer regime. O leitor já advinhou que a criatividade artística está intimamente ligada ao pleno desenvolvimento do princípio do prazer, a arte sendo uma modalidade de jogo e o jogo, como atividade livre do espírito, sendo a mais alta atividade do homem.

[...]

Curitiba é uma cidade abstrata. Vivendo do setor terciário, de serviços, Curitiba não produz bens agricolas nem industriais. Produz papéis, firmas reconhecidas, documentos, atestados, segundas vias, abstrações. Ora, o sexo, como a arte, é uma atividade direta, primeira, física. Entre nós, ambos estão destinados a se manifestar como taras ocultas. Curitiba é a cidade dos desejos inconfessáveis. Uma cidade onde a sexualidade é reprimida pela mística imigrante do trabalho. Reprimindo o erotismo, a sensualidade das pessoas, está-se reprimindo a criatividade, a explosão dos signos, a florescência das formas. Em Curitiba, todas as modalidades de repressão sexual estão articuladas com a mística imigrante do trabalho e o mito da poupança. Repressão sexual, o tabu da virgindade, o machismo, a rigidez de papéis homem/mulher, o preconceito contra o homossexualismo... Curitiba é uma cidade terrível para os homossexuais. Talentos homossexuais importantes foram massacrados, anulados, pulverizados pela cidade. A mística imigrante do trabalho explica. O homossexualismo é uma atividade em si. Não produz nenês nem herdeiros. O sexo homossexual não dá lucro.
Curitiba, metafísica e fisicamente, ignora o corpo. Como o Sul, em geral. O trabalho é uma "espiritualização", uma abstratização do corpo. O trabalho deforma o corpo, que só o esporte faz florescer. Curitiba nunca foi importante, esportivamente. Esporte é jogo, atividade lúdica, tudo aquilo que a mística imigrante do trabalho abomina. "Brincadeira tem hora", os dizeres da nossa bandeira. Só que, se tem hora, não é brincadeira, evidentemente. Em lugar das velocidades lúdicas do esporte, conhecemos sua modalidade pragmática, contábil, mercatória: a pressa. Nossa pressa é a maior quantidade de trabalho concentrada na menor fração de tempo. O modelo, evidentemente, são as máquinas e sua fria eficácia, oticamente neutra, biologicamente irresponsável. Mas o corpo do bicho-homem tem seus direitos, clamores e ímpetos. E o corpo se vinga, masoquisticamente, das repressões, pressas e prisões a que está submetido, em problemas sexuais, em mais tiranias... Quem está com pressa, não tem tempo para ver a paisagem. Nem para refletir sobre o trajeto e o percurso. A pressa é a face visível do tempo maquinal e despótico, criado pelo trabalho industrial e pela burguesia europeia, com a Revolução Industrial. Como tal, é inimiga mortal das liberdades do homem, entre as quais está a de produzir essas liberdades, que são os produtos culturais, poemas, visões, músicas... A preguiça é que é de vanguarda.

[LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011. p. 111-118]

consumer shopping christ

[Banksy]


25.4.12

de la musique


[Marijuana, The Soul Syndicate, 1970]


23.4.12

estórias do senhor G.


**

O amigo do senhor G., o enciclopedista Henri, recomendou El libro de arena
"Compre-o, é uma pechincha e os contos valem cada centavo. Depois de Borges, somente Montaigne se iguala a ele como leitor", termina o senhor Henri ao tempo que despertou duas pancadinhas na calçada com a ponta do guarda-chuva. Para o leitor atrasado, os dois carinhas tinham se encontrado na rua da casa do senhor G., o qual saia para lecionar. O senhor G. anotou em sua cadernetinha a referência e pensou consigo: "A leitura só tem validade se for trocada com o outro". E o outro foi o senhor Henri despedido de adeuses.



II

Às vezes o senhor Henri, chegado num absinto, bate na porta do senhor G. munido de uma garrafa para adentrar na viagem noturna. Sua remessa lunática.
O senhor G., dia destes de porre, desenhou o senhor Henri igual a Colombo em sua expedição marítima cheia de loucos e mendigos. Mas deixando essas lembranças para trás, voltemos ao livro indicado, mote da estória


III


Ao chegar, muito depois da aula e de seus devaneios, o senhor G. em poucos cliques acessou o livro e encomendou. Fácil, cômodo virtual e em casa.
Passaram alguns dias até que, voltando do seu eterno retorno, o senhor G. viu que havia alguma coisa na caixa de correio. O eterno retorno é a teoria do cotidiano, observou o senhor G. sem dar ao certo a ligação genética em Nietzsche. Embora a ideia tenha virado um aforismo, concluiu os pensamentos para aquele dia:
"se o livro é de areia, ele deveria ter vindo num saquinho." Mas para seu desapontamento, ao abrir a portinhola, o livro adquirido era feito de papel. O senhor G. o recolheu e foi para cama dormir.

O senhor G. Este.


19.4.12

nem o corpo


no seu bangalô,
sob o viaduto,
uma estrela
nunca salpicou o chão.
As balas dos revólveres
furaram o zinco.
Só restaram o abandono,
em sua nudez,
e umas roupas
penduradas no varal.
Ali permaneceram,
tesas e encardidas,
em meio à fumaça
dos escapamentos.

Não,
ninguém as reivindicou
como herança.

[Donizete Galvão, in: Coyote
Londrina - Verão, 2003. n 4]


18.4.12

observações no diário de classe


I

às vezes, para não dizer sempre, chego a mesma conclusão de andré forastieri e faço das palavras dele uma paráfrase: depois de uma certa idade trancar a garotada na sala de aula é de foder o grilo.


13.4.12

L'amour à la robote


Um homem escreve à máquina uma carta de amor e a má-
quina responde ao homem e à mão como se fosse a
destinatária

Tão aperfeiçoadas as máquinas
a máquina de lavar cheques e cartas de amor
E o homem confortavelmente instalado na sua máquina de
morar lê com a máquina de ler a resposta na máquina
de escrever

E na sua máquina de sonhar com a sua máquina de calcu
lar compra uma máquina de fazer amor

E na sua máquina de realizar os sonhos faz amor com a
máquina de escrever com a máquina de fazer amor
E a máquina o engana com um mecânico
um mecânico que morre de rir.

[PREVERT, Jacques. Poemas: introdução, seleção dos poemas e tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 143]


11.4.12

o cão, o acidente e a narrativa:

[Le promeneur solitaire]

[...]


Às seis horas, estava descendo de Ménilmontant, quase em frente ao Galant Jardinier, quando, de repente, as pessoas que caminhavam à minha frente se afastaram e vi se lançar sobre mim um grande cão dinamarquês que, avançando veloz na frente de uma carruagem, não teve tempo de parar sua corrida ou desviar ao me ver. Calculei que a única maneira de evitar ser atirado ao chão era dar um grande salto, tão preciso que o cão passasse por baixo de mim enquanto estivesse no ar. Essa ideia, mais breve que o relâmpago, que não tive tempo nem de considerar nem de executar, foi a última antes do acidente. Não senti nem o golpe nem a queda, nem nada do que se seguiu até o momento em que voltei a mim. Era quase noite quando recuperei os sentidos. Estava nos braços de três ou quatro jovens que me contaram o que acabara de acontecer. O cão dinamarquês, não conseguindo frear seu impulso, precipitara-se sobre as minhas duas pernas e, atingindo-me com sua massa e sua velocidade, me fizera cair de cabeça: o maxilar superior, ao suportar todo o peso de meu corpo, batera numa pedra do pavimento bastante irregular, e a queda fora ainda mais violenta porque, estando numa ladeira, minha cabeça batera abaixo de meus pés.


[ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios de um caminhante solitário. tradução de Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM Pocket, 2011. p. 20-21]


8.4.12

o ovo

[Philippe Petit-Roulet]

[...]


Talvez cada um tenha o seu próprio ovo. E este é o meu.


[ABREU, Caio Fernando. Inventário do Ir-remediável. Porto Alegre: Sulina, 1995. p. 44]


6.4.12

pé de couve


**

O senhor G. levantou de manhã - bem cedinho. Caminhou à biblioteca um pouco bagunçada ainda bafudo e, como se não tivesse outra coisa melhor pra fazer, abriu um livro. A leitura ia indo e foi quando um ponto interrogativo lhe deu um insight: péralá... uhn, seria o sr. Keuner uma espécie de Bartleby?
Raciocinem comigo, pensou o senhor G. abstraindo uma aula:
- Como justificamos a comparação tomando como pressuposto (para criarmos uma argumentação) a citação chinesa que segue?

"Aquele que pensa nada promete, exceto que continuará sendo um indivíduo que pensa".

[editora 34. p. 75 - 2006]