9.8.12
8.8.12
complexo de vira-lata
... É considerado o cão mais revolucionário de que se tem notícias. Participou de diversos manifestos, assembleias, debates, passeatas, greves, acampamentos, barricadas, invasões, “sequestro” e até já foi cotado a candidato a Reitor. Bem, na cadeira do Reitor sei que ele já sentou… Sua presença era fidedigna nas recepções aos calouros, trotes, festas e até em rodinhas “fora da lei”.
c. 1962-70. Cachorro boêmio.
De um jeito ou de outro, os alcoólatras de Ipanema sempre se viraram, mas havia um que dependia dos outros para beber: Barbado, um vira-lata com uma barbicha que lhe valeu o nome. Ninguém era dono de Barbado, mas Barbado dominava Ipanema. Em meado dos anos 60, era famoso nos bares por não recusar serviço: aceitava todo o chope que lhe serviam num prato. Fazia ponto no Jangadeiro, debaixo das cadeiras de Hugo Bidet e Kabinha, seus principais fornecedores, para quem ele era um antigo bebum que morrera e reencarnara como cachorro. Para que Barbado não bebesse de estômago vazio, o dono do Jangadeiro servia-lhe antes um filé.
Com todos os porres que tomava, Barbado atravessava as ruas com superior indiferença e nunca foi atropelado. Muitas vezes tomava o ônibus “Camões” na praça General Osório, ia até a Central do Brasil e voltava (os motoristas o conheciam). Era também um cachorro responsável: foi mascote da banda de Ipanema em vários defiles e atuou na peça Ratos e homens, de John Steinbeck, no Teatro de Bolso, substituindo um cachorro amestrado que, este sim, fora atropelado. Vivia solto, mas sabia a hora certa de chegar ao teatro, inclusive nas matinês, e era mais pontual que muitos no elenco. Em sua crítica na Tribuna da Imprensa, Fausto Wolff desancou a peça, a produção e os atores, e só elogiou Barbado.
Barbado namorava uma cadelinha do Posto 6 e, às vezes, ficava alguns dias sumido. Por volta de 1970, desapareceu de verdade. Vavá, garçom do Jangadeiro, viu-o tempos depois num restaurante de caminhoneiros na estrada Rio-São Paulo. Chamou-o pelo nome e ele atendeu. Mas não quis voltar com Vavá. Subiu na boléia de um caminhão e foi embora. Como muitos drop-outs de Ipanema naquela época, Barbado também resolvera botar o pé na estrada.
p. 50]
6.8.12
quem bate o cartão põe o dedo aqui
4.8.12
3.8.12
garrulice
Enfia esse michê chinfrim no feofó, garoto, tá me confundindo com alguma biraia de randevu de beira de estrada, eu, hem, ontem mesmo saí cum figurão duma multinacional, eita, acordei hoje cedo dei de cara com 300 dólares em cima do travesseiro... ei, rufião mirim, grana aí é da tesudinha aqui... plaft, merda, fodeu de graça, levou as verdinhas, quebrou meu dentinho de ouro.[FERREIRA, Evandro Affonso. Grogotó. São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 31]
2.8.12
da contemporaneidade
Cara, me desculpe insistir nesse assunto, mas a pemba do homem era uma borduna bororô, uma autêntica encarnação antropomórfica do divino Zebuh da piroca master, nada menos.
[MORAES, Reinaldo. Pornopopéia]
31.7.12
ABCdário
E - de esquentadinho
Sou pavio curto, aviso o leitor. A transgressão em que me concentrei visa ir além do bem e do mal. Esclareço. É uma rebeldia que veio junto do pacote: denominado ser. Esse pedaço de carne ligado a um sistema nervoso cujo membro entre as pernas se assemelha a um cotó. Embora o rabo seja outro.
E você, com esta cara de bunda? Em vez de ficar sentado, porque não enfia o dedo no cu, depois na boca pra sentir a direção do vento, o clima úmido?
Tou sendo grosso? Mas só enfiei a cabecinha.
Penso - por minuto - se ela vai pegar no meu pinto. Daí eu trombo comigo no banheiro e pra tirar aquela aflição que deixa o corpo suadinho cinco contra um não é covardia.
I-ó
a parada não fica suspendida, porque se pintar um carinho, sangro a bucetinha da mina com meu punhal.
26.7.12
sem ser, exatamente, beletrista
[...]
Ser alguém escritor é desenvolver uma atividade que nada tem de burocrática. É uma atividade mais de aventura que de rotina.
[...]Sabe-se das companhias de seguros que têm segurado por altas somas mãos de pianistas. Mas não mãos de escritor.
[Que é ser escritor? in: Seleta para jovens de Gilberto Freyre; organizada pelo autor com a colaboração de Maria Elisa Dias Collier. 3 ed. Recife: José Olympio, 1980. p. 27]
25.7.12
educare
Percebeu como se cria um cachorro amestrado?
Ainda, não?
24.7.12
cinco vezes favela
"Quando o Carnaval se aproxima, os tamborins não têm preço. Na impossibilidade de um melhor material, os tamborins são feitos com couro de gato."
23.7.12
19.7.12
30 anos esta tarde
[...]
A minha geração (dos moleques que tinham por volta dos 10 anos em 1982) cresceu assombrada pelos vultos da pátria & pelos gols do Paolo Rossi. Fazer o quê? Nada, não há nada a fazer. Dali em diante que cada um escolheu o prozac que melhor lhe convinha. Uns foram pro Senai, outros pra igreja. Muitos montaram bandas de rock & foram se bacharelar nos botequins do centro da cidade. Sou dessa última estirpe de sujeitos, a dos brucutus apaixonados, a dos rain dogs. Antes bêbado que mal-assombrado.
[Fabiano Calixto in: Meu pé de Laranja Mecânica. Cinco de Julho de Dois Mil e Doze]
18.7.12
doc
[...]
autoritarismo militar, repressão, censura, tortura não são produtos de uma determinada e específica realidade histórica brasileira, quando muito são produtos de uma dada realidade econômica [...] aquele que tem interesse em "financiar" o autoritarismo, a repressão etc., em países como o Brasil.[SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 189]
15.7.12
trópico canabis-canibal
Titri Tilag - G.q.]
[...]
Cartesius smokes a miraculous herb (marijuana) and finds himself dissolving into a tropical delirium
[...]
fetiche
Minha adorable girlfriend se materializou numa Muiraquitã. E vou avisando - pra deixar claríssimo - que se aparecer algum gigante chamado Pietro Pietra no meio do nosso caminho, querendo o monstro irracional raptar meu amuletozinho, saco, com muito orgulho e determinação, a faquinha que carrego na cintura e corto, sem muitas delongas, a cabeça do malfeitor. Para assim, resgatar meu talismã das garras do vilão capitalista.
2.7.12
descida antropofagica
Porque Como
[...]
O índio não tinha polícia, não tinha recalcamentos, nem moléstias nervosas, nem delegacia de ordem social, nem vergonha de ficar pelado, nem luta de classes, nem tráficos de brancas, nem Ruy Barbosa, nem voto secreto, nem se ufanava do Brasil, nem era aristocrata, nem burguês, nem classe baixa.Por que será?[Marxillar]
1.7.12
jaburu malandro
[...]
O mal não é a gente amar... O mal é a gente vestir a pessoa amada com um despropósito de atributos divinos, que chegam a triplicar às vezes o volume do amor, o que se dá? Uma pessoa natural é fácil da gente substituir por outra natural também, questão de sair uma e entrar outra... Porém a que sai do nosso peito é amor que sofre de gigantismo idealista, e não se acha outra de tanta gordura pra botar logo no lugar. Por isso fica um vazio doendo, doendo... Então a gente anda cada estirão a pé... Aquilo dura bastante tempo, até que o vazio, graças aos ventinhos da boca da noite, encha de pó. Se encha de pó.
[ANDRADE, Mario de. Os contos de Belazarte. 6 ed. São Paulo: Martins, 1973. p. 42-43]
29.6.12
de la musique
que a vovó ganhou da Baronesa,
27.6.12
valor e cultura
23.6.12
sambandido
22.6.12
leitor e cidadania
[...]... os melhores escritores brasileiros têm reagido, insistindo numa estética que desconcerta mais o desconcertado leitor nosso contemporâneo. Tipo formicida tatu com guaraná. Vocação suicida da boa literatura em tempos neoliberais? Ou: incortonável preguiça intelectual do leitor em tempos de economia de mercado? Neoliberalismo político e economia de mercado acentuam a competividade no dia a dia da labuta pela sobrevivência e, por conseguinte, traz o cansaço do ser humano nas horas de lazer. Tudo indica que a combinação de política e economia dominante no Brasil de Fernando Henrique Cardoso acaba por exigir que a obra literária perca seu caráter instigante de objeto de conhecimento para ser apenas objeto de entretenimento para o seu leitor.
[SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 174]
20.6.12
valor e cultura
XXII
17.6.12
interview
[...]
O cineasta é [...] uma prova viva de que a relação entre o consumo de maconha e o fracasso na vida profissional não passa de um falacioso mantra proibicionista.
14.6.12
12.6.12
estórias do senhor G.
[...]O apartamento deles raramente estaria em ordem, mas a própria desordem seria seu maior charme. Mal se ocupariam da casa: viveriam ali. O conforto do ambiente lhes parecia uma obviedade, um dado inicial, um estado da natureza. A atenção de ambos estaria em outra coisa: no livro que abririam, no texto que escreveriam, no disco que ouviriam, no seu diálogo reiniciado a cada dia. Trabalhariam muito tempo. Depois jantariam ou sairiam para jantar; encontrariam os amigos; dariam uma volta juntos.
O senhor G. Este.
10.6.12
por que ler os clássicos
9.6.12
8.6.12
especialização
[...]
Certamente um dos argumentos radicais mais antigos, porém mais débeis, é aquele que sustenta obstinadamente ser o capitalismo incapaz, inerentemente, de proporcionar ovos de ouro para todos.
[ROSZAK, Theodore. A contracultura - reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1972. p. 23]
7.6.12
valor e cultura
31.5.12
estórias do senhor G.
“A melhor sobra é o farelo em cima da mesa. Deixe-se em casa, saia somente com o corpo, recolha o espírito para as profundezas da sombra e dê ao tempo o término de recuá-lo a mais tenra infância”.
30.5.12
dos grandes prosadores
29.5.12
depois da batalha
O senhor G. foi à banca comprar uma revista para o seu filho adolescente. É apenas um diálogo entre pai e filho.
O senhor G. costuma quebrar tabus.
26.5.12
24.5.12
da contemporaneidade
23.5.12
contra a civilização: um leitor
[...]
... os gregos foram mais ou menos uma democracia sem microscópio, o que é, de fato, uma grande porcaria.
[TAVARES, Gonçalo M. O senhor Henri e a enciclopédia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2012. p. 60]
21.5.12
textículo informal
Introdução - preliminares
o buraco fica mais embaixo.
18.5.12
estórias do senhor G.
- Depois eu volto, Bolo'Bolo, ironizou o senhor G.
17.5.12
paráfrase pra ana
Ele é um homem, tomando-o como um todo. Temo nunca encontrar alguém igual.
[Shakespeare]
16.5.12
a máquina planetária do trabalho
[...]
Você gasta seu tempo para produzir uma peça que é usada por alguém que você não conhece para montar uma bugiganga que é comprada por outro desconhecido para fins que você ignora. O circuito dessa sucata de vida é regulado de acordo com o tempo de trabalho que foi investido no material bruto, na sua manufatura e em você. A medida é o dinheiro. Os que produzem e trocam não têm contr ole sobre seu produto comum, então pode acontecer que trabalhadores revoltados sejam mortos exatamente com os revólveres que ajudaram a produzir. Cada peça de comércio é uma arma contra nós, cada supermercado um arsenal, toda fábrica um campo de batalha. Este é o mecanismo da Máquina do Trabalho: retalhar a sociedade em indivíduos isolados, chantageá-los separadamente com salários ou violência, usar seu tempo de trabalho de acordo com os planos.[Bolo'Bolo - A máquina planetária do trabalho]
15.5.12
salário, preço e lucro
[...]
Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.
[Carlos Marcus]
12.5.12
o escritor sente-se traído por um amigo
2.5.12
27.4.12
sem sexo, neca de criação
25.4.12
23.4.12
estórias do senhor G.
O amigo do senhor G., o enciclopedista Henri, recomendou El libro de arena.
"se o livro é de areia, ele deveria ter vindo num saquinho." Mas para seu desapontamento, ao abrir a portinhola, o livro adquirido era feito de papel. O senhor G. o recolheu e foi para cama dormir.
19.4.12
nem o corpo
no seu bangalô,
sob o viaduto,
uma estrela
nunca salpicou o chão.
As balas dos revólveres
furaram o zinco.
Só restaram o abandono,
em sua nudez,
e umas roupas
penduradas no varal.
Ali permaneceram,
tesas e encardidas,
em meio à fumaça
dos escapamentos.
Não,
ninguém as reivindicou
como herança.
Londrina - Verão, 2003. n 4]
18.4.12
observações no diário de classe
I
13.4.12
L'amour à la robote
quina responde ao homem e à mão como se fosse a
destinatária
Tão aperfeiçoadas as máquinas
a máquina de lavar cheques e cartas de amor
E o homem confortavelmente instalado na sua máquina de
morar lê com a máquina de ler a resposta na máquina
de escrever
E na sua máquina de sonhar com a sua máquina de calcu
lar compra uma máquina de fazer amor
E na sua máquina de realizar os sonhos faz amor com a
máquina de escrever com a máquina de fazer amor
E a máquina o engana com um mecânico
um mecânico que morre de rir.
11.4.12
o cão, o acidente e a narrativa:
[...]
Às seis horas, estava descendo de Ménilmontant, quase em frente ao Galant Jardinier, quando, de repente, as pessoas que caminhavam à minha frente se afastaram e vi se lançar sobre mim um grande cão dinamarquês que, avançando veloz na frente de uma carruagem, não teve tempo de parar sua corrida ou desviar ao me ver. Calculei que a única maneira de evitar ser atirado ao chão era dar um grande salto, tão preciso que o cão passasse por baixo de mim enquanto estivesse no ar. Essa ideia, mais breve que o relâmpago, que não tive tempo nem de considerar nem de executar, foi a última antes do acidente. Não senti nem o golpe nem a queda, nem nada do que se seguiu até o momento em que voltei a mim. Era quase noite quando recuperei os sentidos. Estava nos braços de três ou quatro jovens que me contaram o que acabara de acontecer. O cão dinamarquês, não conseguindo frear seu impulso, precipitara-se sobre as minhas duas pernas e, atingindo-me com sua massa e sua velocidade, me fizera cair de cabeça: o maxilar superior, ao suportar todo o peso de meu corpo, batera numa pedra do pavimento bastante irregular, e a queda fora ainda mais violenta porque, estando numa ladeira, minha cabeça batera abaixo de meus pés.
[ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios de um caminhante solitário. tradução de Julia da Rosa Simões. Porto Alegre, RS: L&PM Pocket, 2011. p. 20-21]
8.4.12
6.4.12
pé de couve
**
"Aquele que pensa nada promete, exceto que continuará sendo um indivíduo que pensa".




























