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O homem era desconcertante, um desses instantes raros. Entendam. Já pelos primeiros vinte anos deste século, Lima escrevia sobre coisas como: a necessidade de se levantar uma verdadeira história da Escravidão Negra no Brasil; os entalados estados de sítio brasileiros; a falta de grandeza, de solenidade e de misticismo (tão nossa paisagem brasileira) da nossa arquitetura urbana; os nosso gurus e sabichões, a quem dava o nome de joões das regras; os nosso grandes impostores e picaretas que em sua obra chegaram a Secretários de Estado a até Ministros; o absurdo da nossa cultura à francesa, a nossa chinoiserie que se basta com um fraseado importado e golpes de estilo; a nossa exploração cínica e demagógica dos mais fracos, que lá vivem naquilo que ele chamou de “refúgio dos infelizes”, o eterno subúrbio carioca; a nossa gula, o nosso amor desbragado e a gana pelo dinheiro, e só pelo dinheiro, que ele nos pilhou em A Nova Califórnia; os quixotes da terra, como Policarpo Quaresma, que terminaram fuzilados ou mofando nas cadeias; a nossa furiosa especulação imobiliária, apressada e atamancada, destruindo oceanos, verdes, morros, tudo; o nosso pó de vaidade que se basta com títulos, fardões e medalhadas; os pobres e ingênuos artistas populares, usados, manipulados e que acabam chupando o dedo e sozinhos [...]; os eternos sonhos mirabolantes dos nosso faraônicos e corruptos homens públicos, como o Ministro Financeiro da Bruzundanga, o Doutor Felixmino Ben Karpitoso, que até do comércio de feitiçaria se valeu para mais depressa encher os bolsos...
O homem era desconcertante, um desses instantes raros. Entendam. Já pelos primeiros vinte anos deste século, Lima escrevia sobre coisas como: a necessidade de se levantar uma verdadeira história da Escravidão Negra no Brasil; os entalados estados de sítio brasileiros; a falta de grandeza, de solenidade e de misticismo (tão nossa paisagem brasileira) da nossa arquitetura urbana; os nosso gurus e sabichões, a quem dava o nome de joões das regras; os nosso grandes impostores e picaretas que em sua obra chegaram a Secretários de Estado a até Ministros; o absurdo da nossa cultura à francesa, a nossa chinoiserie que se basta com um fraseado importado e golpes de estilo; a nossa exploração cínica e demagógica dos mais fracos, que lá vivem naquilo que ele chamou de “refúgio dos infelizes”, o eterno subúrbio carioca; a nossa gula, o nosso amor desbragado e a gana pelo dinheiro, e só pelo dinheiro, que ele nos pilhou em A Nova Califórnia; os quixotes da terra, como Policarpo Quaresma, que terminaram fuzilados ou mofando nas cadeias; a nossa furiosa especulação imobiliária, apressada e atamancada, destruindo oceanos, verdes, morros, tudo; o nosso pó de vaidade que se basta com títulos, fardões e medalhadas; os pobres e ingênuos artistas populares, usados, manipulados e que acabam chupando o dedo e sozinhos [...]; os eternos sonhos mirabolantes dos nosso faraônicos e corruptos homens públicos, como o Ministro Financeiro da Bruzundanga, o Doutor Felixmino Ben Karpitoso, que até do comércio de feitiçaria se valeu para mais depressa encher os bolsos...
[Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto. Organizada por João Antônio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. p. 15]






















