28.10.12

da contemporaneidade

[...]

Dizem que o silêncio é uma prece. Quanto engano. O silêncio é só o começo do papo. O silêncio é, dependendo da situação, uma negativa ou uma aceitação"

[FERRÉZ. Os inimigos não mandam flores. São Paulo: Pixel, 2006. Textos em quadrinhos]

27.10.12

de la musique



[Street Hassle - Lou Reed]

**

"Não sou decerto literato - muito menos literato voluptuosamente acadêmico e voluptuoso da arte de construir convencionalmente bem as suas frases. Que me perdoem, porém, a insistência ingênua e afinal inócua em me considerar escritor, admitindo a distinção entre escritor e literato."

[Gilberto Freyre - in: Recortes, de Antonio Cândido]


17.10.12

câmara de ecos


[...]

a rua é rua ou realidade virtual interativa?

SCREENS SIGNALS

Use the information at the top of the screen
to plan your fighting strategies and
keep track of your progress...

- Indique-me sua direção, onde você se encontra agora?
- Estou exatamente na esquina da Rua Walk com a Rua Don't Walk.

[SALOMÃO, Wally. Algaravias. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996]

18.9.12

dialétika do esklarecimento



SOCIEDADE DE MASSAS

O culto dos astros do cinema tem como complemento da celebridade o mecanismo social que nivela tudo o que chama a atenção. Os astros são apenas os moldes para uma indústria de confecção de dimensões mundiais e para a tesoura da justiça legal e econômica, com a qual se eliminam as últimas pontas dos fios de linha.

ISOLAMENTO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

A afirmação que o meio de comunicação isola não vale apenas no domínio cultural. Não apenas a linguagem mentirosa do locutor de rádio se sedimenta no cérebro das pessoas como a imagem da linguagem e impede-as de falar umas com as outras, não apenas o louvor da Pepsi-Cola abafa o ruído do desmoronamento dos continentes, não apenas o modelo espectral dos heróis do cinema projeta sobre o abraço dos adolescentes e mesmo sobre o adultério. O progresso separa literalmente as pessoas. O pequeno guichê da estação ou do banco possibilitava ao caixa cochichar com o colega e partilhar com ele seus pequenos segredos. As janelas de vidro dos escritórios modernos, os salões gigantescos onde inúmeros empregados trabalham em comum, podendo ser facilmente vigiados pelo poder público e pelos chefes, não permitem mais nem conversas particulares, nem idílios. Mesmo nas repartições, o contribuinte está protegido do desperdício de tempo dos servidores. A ferrovia foi substituída pelos automóveis. O carro próprio reduz os contatos de viagem a hitchhikers algo inquietantes. As pessoas viajam sobre pneus de borracha, rigorosamente isoladas uma das outras. Em compensação, só se regulada pelos interesses práticos. Assim como toda família com uma renda determinada gasta a mesma percentagem com alojamento, cinema, cigarros, exatamente como a estatística prescreve, assim também os temas são esquematizados segundo as classes de automóveis. Quando se encontram, aos domingos ou viajando, em hotéis onde as acomodações e os cardápios são idênticos em cada faixa de preços, os hóspedes descobrem que se tornaram, com o isolamento, cada vez mais semelhantes. A comunicação cuida da assimilação dos homens isolando-os.

[T. W. A. e M. H]

17.9.12

preço e monocultura


I


João foi nomeado presidente da nova empresa. Logo nos primeiros trinta dias subsequentes o consumo subiu-lhe à medula, e a transferência de alguns zeros chupou-lhe os neurônios.

12.9.12

valor e cultura



Fama, ó fama, eterna ladra de energias, farol negro de tanto mau passo. Para ver o nome no jornal você atropela uma doce velhinha e some com o picolé da criança.

[D. T.]

XXV

Um escritor não se faz com prêmios. Um prêmio só transforma o autor num personagem. Vira notícia e, não muito tempo depois, o esquecemos.

O prêmio pode ser bem aceito, pois, conforme aquela autora de quem muita gente morre de medo, o teto não pode ter goteira. Se quer escrever, acomode-se. Ponha a bunda na cadeira e narre: geniozinho!

Coroa-se novos autores. Estes, acabam virando marqueteiros de sua própria obra. Compre o livro, não era'ssim que cantava um na sua capela racional?




11.9.12

valor e cultura


XXIV

Ler não está vinculado à produção, não dá lucro, por isso a atitude da policia em São Paulo. É o festival de besteiras que assola o país, pra pegar o gancho com outro leitor.

6.9.12

szenarium



... Ah, o escuro
 sangue urbano
movido a juros.

F. G. - A vida bate



Num simpósio de letras recente o professor Chico Hardman, que estudou o anarquismo operário nos anos 10 em Sampa, mencionou la película Notícias da Antiguidade Ideológica, de Alexander Kluge.

A ideia do diretor alemão: cinemalizar, baseando-se nas anotações de Eisenstein, O Capital de Carlos Marcus.

Pergunto (tomando como mote a própria anotação do diretor russo): filmar a obra marxista seria a única saída formal das coisas?


5.9.12

na noite enxovalhada

[...]

"Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de dar voz, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada."

[Antonio Candido - O albatroz e o chinês]

3.9.12

A cigarret, please


Os estudos de proposições a que muitas vezes se limitam os estudantes de filosofia se tornaram, na concepção contemporânea, um fetiche. A verdade de uma teoria não é a mesma coisa que sua fecundidade.

Gramaticalizar um pensamento a respeito de um ser abstrato, como por exemplo, Deus existe, não pode ser considerado um texto coerente para toda e qualquer pessoa.

Um pedaço de frase foge contextualmente. Pois temos o leitor e a pessoa que pronunciou a frase inseridos numa sociedade. Duas palavras não encerram a realidade. Não podemos catequizar o mundo; tal disparate é caduquice.

É como se discutissemos a grande questão da origem. O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?

 

31.8.12

iskola


Pergunta de um adolescente presente:

“Nunca nos perguntam sobre o que queremos aprender. 
Pelo contrário, sempre dizem o que a gente deve estudar.”

[Sobre Educação: diálogos]


A desconstrução da sociedade é necessária, visto a divisão do trabalho que afeta o cérebro, que endurece a criança e que classifica as pessoas. Como disse um satírico latino: mens sana in corpore sano. E se o corpo estiver triturado?
Partindo da ideia  de que a criança deve estar em contato direto com a Natureza do princípio ao fim - sem fazer disso um estatuto, mas que não me permite investigar, supor - vou escrever uma Pedagogia da Natureza.
Para dar fundamentação ao corpo do texto, partirei primeiramente dos anti-filósofos e poetas como Rousseau, Nietzsche, Adorno e Horkheimer, Foucault e Leminski chegando à escritura contemporânea de um John Zerzan, por exemplo. Sem esquecer de Paulo Freire e seu ensino no qual a leitura do mundo precede a leitura da palavra. 

Adendozinho

(Essa ideia, parafraseando dois frankfurtianos, não carrego como verdade, pois a distância da teoria e sua fecundidade muitas vezes é um erro.)
Como inicio, pra aquecer o gesto textual, mand'uma letra de baixo pra cima:


Às vezes eu acho,
Que todo preto como eu,
Só quer um terreno no mato,
Só seu.
Sem luxo, descalço, nadar num riacho,
Sem fome,
Pegando as fruta no cacho.
Aí, truta, é o que eu acho,
Quero também,
Mas em São Paulo,
Deus é uma nota de 100.

[Racionais MC's]


30.8.12

dias & dias


Être un homme utile m'a paru toujours
 quelque chose de bien hideux.

[C. B.]

fatia de pão

O que me encanta nalgumas cidades, fora o verde que não virou bosque ou parque, são as esquinas de fim de tarde. As esquinas escurecem ajudadas pelas árvores, nas mais variadas espécies e porque também (da licença, meu) é a vez da lua, ora bolas. Sai o Sol, vem a Lua vestida de estrelas.

Lá por sete horas, eu paro as minhas atividades e saio prum rolê. Escolho uma esquina, acendo um cigarrinho e puxo lero cum tempo. Volta e meia, neste raro prazer dos dias, pinta um passarinho querendo uma ideia. Passarinho xô! que não sou de voar. Passarinho vai.

Longe, invejo o seu voo. Inveja boa, porque eu queria viver simplesmente como um passarinho. Comer sementes: ser leve, i.e. dormi com a noite, acordar com o dia. Sem programações para tardar. Caio em contradição, bem sei.

Passarinho canta na minha janela, antes das seis da manhã. Passarinho madrugador. Passarinho camarada.

Na hora do café, antes do rolê, pousa no pé de lichia um casal ressabiado de sabiá. Árvore copada esconde os passarinhos. Mas vejo por um buraco, entre um galho e outro, o casalzinho mínimo se brimbicando.

A lichia é uma árvore alta: em torno dos seus três a quatro metros de altura. Se um palmo tem vinte e cinco centímetros, vai lá. Não é a toa que as folhas dessa árvore chamam prum mergulho de utopia.

29.8.12

das irrazões

[Intervenção]

I

O sujeito raciocinar como um capitalista sem um puto no bolso.


27.8.12

pequeno apontamento


Em nome da segurança do Estado
calam-se todas as vozes dissidentes.

[Regina] 

Queiramos ou não, há classes.
Não cultivar o próprio umbigo
como se fosse um repolho
de estimação.

[Carrera Guerra]

UM

Pois vejam como é interessante e simples. Na Holanda, as igrejas viraram bibliotecas. Em Curitiba, os bosques se transformam em shoppings. Será tamanha metafísica? No máximo, as áreas nativas da capital são parques para as famílias, doutrinadas pela Família Folha, irem passear no final de semana, e onde não se pode nem andar de skate.

DOIS

Em cidades fascistas: a portaria é uma lei; o shopping: uma ratoeira; as fábricas: pequenos guetos; e as greves – simbólicas – são feitas para o patrão ter mais orgulho do seu poder.

[tigrinho & quase] 


26.8.12

groupuscule


[...]

A luta de classes não passa mais simplesmente por um front delimitado entre os proletários e os burgueses, facilmente detectável nas cidades e nos vilarejos; ela está igualmente inscrita através de numerosos estigmas na pele e na vida dos explorado: autoridade, de posição, de nível de vida; é preciso decifrá-la a partir do vocabulário de uns e de outros, seu jeito de falar, a marca de seus carros, a moda de suas roupas, etc. Não tem fim! A luta de classe contaminou, como um vírus, a atitude do professor com seus alunos, a dos pais com suas crianças, a do médico com seus doentes; ela ganhou o interior de cada um de nós com seu eu, com o ideal de status que acreditamos ter de adotar para nós mesmos. Já está mais do que na hora de se organizar em todos os níveis para encarar esta luta de classe generalizada. Já é hora de elaborar uma estratégia para cada um destes níveis, pois eles se condicionam mutuamente. De que serviria, por exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização antiautoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superativos, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas?

[Somos todos grupelhos in: GUATTARI, Félix. Revolução Molecular. Tradução de Suely Rolnik. São Paulo: Brasiliense, 1987, pp. 13-19.]


23.8.12

sobre um pingente


[...]

O homem era desconcertante, um desses instantes raros. Entendam. Já pelos primeiros vinte anos deste século, Lima escrevia sobre coisas como: a necessidade de se levantar uma verdadeira história da Escravidão Negra no Brasil; os entalados estados de sítio brasileiros; a falta de grandeza, de solenidade e de misticismo (tão nossa paisagem brasileira) da nossa arquitetura urbana; os nosso gurus e sabichões, a quem dava o nome de joões das regras; os nosso grandes impostores e picaretas que em sua obra chegaram a Secretários de Estado a até Ministros; o absurdo da nossa cultura à francesa, a nossa chinoiserie que se basta com um fraseado importado e golpes de estilo; a nossa exploração cínica e demagógica dos mais fracos, que lá vivem naquilo que ele chamou de “refúgio dos infelizes”, o eterno subúrbio carioca; a nossa gula, o nosso amor desbragado e a gana pelo dinheiro, e só pelo dinheiro, que ele nos pilhou em A Nova Califórnia; os quixotes da terra, como Policarpo Quaresma, que terminaram fuzilados ou mofando nas cadeias; a nossa furiosa especulação imobiliária, apressada e atamancada, destruindo oceanos, verdes, morros, tudo; o nosso pó de vaidade que se basta com títulos, fardões e medalhadas; os pobres e ingênuos artistas populares, usados, manipulados e que acabam chupando o dedo e sozinhos [...]; os eternos sonhos mirabolantes dos nosso faraônicos e corruptos homens públicos, como o Ministro Financeiro da Bruzundanga, o Doutor Felixmino Ben Karpitoso, que até do comércio de feitiçaria se valeu para mais depressa encher os bolsos...

[Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto. Organizada por João Antônio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. p. 15]


valor e cultura

[Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino | 2009]

XXIII

Neste país de proprietários rurais, militares e evangélicos a literatura é uma raridade, e não tem mérito o saber ler.


22.8.12

Erudicídio


São nestas escolas
de sucata
infestadas por traças
e parasitas
que as nossas crianças
se deseducam
e, muito cedo, aprendem
que em terra de rei iletrado
estudar é crime
hediondo

E o que resta é a resignação
do educador
com salário de fome
que tão logo aprende
que erudição
não enche barriga;
e também a desesperança
do estudante
cuja vida ensina
o quão difícil
é preencher a mente
de barriga vazia

E para as gerações vindouras
o que fica
é a consagração
da estupidez:
a tirania da mediocridade
onde as pessoas
são niveladas por baixo.
E o pior
não é a prepotência ingênua
do analfabeto funcional
mas o silêncio cínico
e (por que não?) criminoso
dos que sabem qualquer coisa
mas disseminam
impunemente
a ignorância.

E a farda
da escola pública
se transforma
para uma geração de futuro(s
excluídos)
um fardo.


Thomaz Ramalho
Maputo | setembro de 2008


17.8.12

a dor não nos matará & sobre ficção autobiográfica


Você não pode me desconstruir e tirar a minha roupa ao mesmo tempo. [...] Ler e escrever ficção é uma forma de engajamento social, de conversar e competir. É uma maneira de ser e de se tornar. [...] Quando estou trabalhando não quero ninguém mais na sala, inclusive eu mesmo. [...] Um personagem morre no papel se o autor não consegue ouvir sua voz.
[2012 | p. 14, 274-276]

16.8.12

pobre wong


Maninha, recorda-se daquele dia chuvoso, sem luz elétrica em casa, apanhamos um pacote de velas na gaveta e espalhamos ao redor da sala quando Wong apareceu estranhando a escuridão? Cê lembra? Nas mãos do chinês: uma caixinha de plástico. Ué, Wong, você perguntou, onde vai com isso? Wong sentou-se ao nosso lado. Silenciosamente pôs sobre as pernas a caixinha da qual pinçou duas fotos. Um casal, se não me falha a memória e um homem encapuzado. Quem seriam, você me interrogou com os olhos. A moça tinha talhos terríveis no corpo e seu companheiro amarrado numa cadeira, a boca fechada com uma bola de meia. O cenário não revelava muita coisa: o chão batido e o resto do enquadramento se assemelhavam a um quintal obscuro. A outra foto mantinha o refém dentro do armário de uma escada. Suas roupas molhadas encharcavam o chão, formando um semi-círculo imperfeito. O ar conspirava para que o líquido fosse inflamável. Perguntamos à Wong: mas que diabos?... porém, Wong não pronunciou sequer um gesto. Apenas calou-se. E respeitamos o seu silêncio, velando a noite.


15.8.12

espumante


- Cê gosta de smica, Lulu?
- O que é?
- Porra da minha pica.

[da cultura oral]


I

Num esporro: encheu a banheira com seu gozo e deu de banhar sua ninfetinha.


14.8.12

que bandeira drapeja sobre as máquinas?


A velha se inclinou e abanou o fogo com a mão. Assim, com o dorso torcido e o pescoço espichado e arado pelas rugas, parecia uma antiga tartaruga negra. Mas aquele pobre vestido, por certo, não a protegia como uma carapaça, e de resto ela era tão vagarosa só por causa da idade. Às suas costas, também torcido, seu casebre de madeira e lata, e além outros casebres semelhantes do mesmo subúrbio de São Paulo; à sua frente, numa chaleira cor de carvão, já fervia a água para o café. Levou uma latinha aos lábios; antes de beber, balançou a cabeça e fechou os olhos. "O Brasil é nosso", disse. No centro da mesma cidade e nesse mesmo momento, pensou exatamente a mesma coisa, mas em outro idioma, o diretor executivo da Union Carbide, enquanto levantava uma taça de cristal para celebrar a captura, por sua empresa, de mais uma fábrica brasileira de plásticos. Um dos dois estava errado. 

[GALEANO. Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM POCKET, 2010. p. 302]

13.8.12

de la musique


[Sunshine, De La Soul, 1996]


12.8.12

4:20


Me gusta marihuana, me gustas tu.

[Manu Chao, Clandestino]

[...]

Fumo desde 1968. Estou com 75 anos, fumando um enquanto escrevo este texto. Para mim é uma planta sagrada. Além do mais sou cardíaco, preciso de uma receita pois a maconha é vasodilatadora, como o vinho.
 
[Ze Celso - Folha de SP]

[...]

Nunca, em toda a minha vida, eu me senti suficientemente feliz pra entender que tipo de mente é capaz de curtir uma canção do Paul McCartney; [...] mesmo naqueles primeiros momentos, eu não pude deixar de pensar que qualquer lar, pra ser meu, teria que incluir uma privada. [...] não que eu me orgulhe, mas a evolução é uma rua de mão única e depois que aquele rabo cai da sua bunda, não tem cola no mundo que grude de volta. [...] Eu finalmente entendi por que as coisas demoram tanto para rolar na Jamaica: é para não perder as sutilezas.

[Chris Simunek - Paraíso na fumaça.
Editora Conrad]



9.8.12

atalho



Como eu não tinha mula pra picar, 
botei o pé na estrada. 

Os pés. 


8.8.12

complexo de vira-lata



... É considerado o cão mais revolucionário de que se tem notícias. Participou de diversos manifestos, assembleias, debates, passeatas, greves, acampamentos, barricadas, invasões, “sequestro” e até já foi cotado a candidato a Reitor. Bem, na cadeira do Reitor sei que ele já sentou… Sua presença era fidedigna nas recepções aos calouros, trotes, festas e até em rodinhas “fora da lei”. 

[Rogeria, julho/09-UFSC]

Barbado
c. 1962-70. Cachorro boêmio.

De um jeito ou de outro, os alcoólatras de Ipanema sempre se viraram, mas havia um que dependia dos outros para beber: Barbado, um vira-lata com uma barbicha que lhe valeu o nome. Ninguém era dono de Barbado, mas Barbado dominava Ipanema. Em meado dos anos 60, era famoso nos bares por não recusar serviço: aceitava todo o chope que lhe serviam num prato. Fazia ponto no Jangadeiro, debaixo das cadeiras de Hugo Bidet e Kabinha, seus principais fornecedores, para quem ele era um antigo bebum que morrera e reencarnara como cachorro. Para que Barbado não bebesse de estômago vazio, o dono do Jangadeiro servia-lhe antes um filé.

Com todos os porres que tomava, Barbado atravessava as ruas com superior indiferença e nunca foi atropelado. Muitas vezes tomava o ônibus “Camões” na praça General Osório, ia até a Central do Brasil e voltava (os motoristas o conheciam). Era também um cachorro responsável: foi mascote da banda de Ipanema em vários defiles e atuou na peça Ratos e homens, de John Steinbeck, no Teatro de Bolso, substituindo um cachorro amestrado que, este sim, fora atropelado. Vivia solto, mas sabia a hora certa de chegar ao teatro, inclusive nas matinês, e era mais pontual que muitos no elenco. Em sua crítica na Tribuna da Imprensa, Fausto Wolff desancou a peça, a produção e os atores, e só elogiou Barbado.

Barbado namorava uma cadelinha do Posto 6 e, às vezes, ficava alguns dias sumido. Por volta de 1970, desapareceu de verdade. Vavá, garçom do Jangadeiro, viu-o tempos depois num restaurante de caminhoneiros na estrada Rio-São Paulo. Chamou-o pelo nome e ele atendeu. Mas não quis voltar com Vavá. Subiu na boléia de um caminhão e foi embora. Como muitos drop-outs de Ipanema naquela época, Barbado também resolvera botar o pé na estrada.



[CASTRO, Ruy. Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 
p. 50]

6.8.12

quem bate o cartão põe o dedo aqui


Depois de lido a reportagem sobre a vinda do ministro da Educação à capital paranaense em reunião particular com os dirigentes do Grupo Positivo, pergunta-se: o que se pode esperar para a Educação Pública? Olimpíada de matemática? Soletrando? Que tal concurso de assovio, ninguém vê e ninguém viu.


4.8.12

farias


vou desligar o 
PC


3.8.12

garrulice


Enfia esse michê chinfrim no feofó, garoto, tá me confundindo com alguma biraia de randevu de beira de estrada, eu, hem, ontem mesmo saí cum figurão duma multinacional, eita, acordei hoje cedo dei de cara com 300 dólares em cima do travesseiro... ei, rufião mirim, grana aí é da tesudinha aqui... plaft, merda, fodeu de graça, levou as verdinhas, quebrou meu dentinho de ouro. 

[FERREIRA, Evandro Affonso. Grogotó. São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 31]


2.8.12

da contemporaneidade

[Caroline Palumbo]

[...]

Cara, me desculpe insistir nesse assunto, mas a pemba do homem era uma borduna bororô, uma autêntica encarnação antropomórfica do divino Zebuh da piroca master, nada menos.

[MORAES, Reinaldo. Pornopopéia]