27.8.12

pequeno apontamento


Em nome da segurança do Estado
calam-se todas as vozes dissidentes.

[Regina] 

Queiramos ou não, há classes.
Não cultivar o próprio umbigo
como se fosse um repolho
de estimação.

[Carrera Guerra]

UM

Pois vejam como é interessante e simples. Na Holanda, as igrejas viraram bibliotecas. Em Curitiba, os bosques se transformam em shoppings. Será tamanha metafísica? No máximo, as áreas nativas da capital são parques para as famílias, doutrinadas pela Família Folha, irem passear no final de semana, e onde não se pode nem andar de skate.

DOIS

Em cidades fascistas: a portaria é uma lei; o shopping: uma ratoeira; as fábricas: pequenos guetos; e as greves – simbólicas – são feitas para o patrão ter mais orgulho do seu poder.

[tigrinho & quase] 


26.8.12

groupuscule


[...]

A luta de classes não passa mais simplesmente por um front delimitado entre os proletários e os burgueses, facilmente detectável nas cidades e nos vilarejos; ela está igualmente inscrita através de numerosos estigmas na pele e na vida dos explorado: autoridade, de posição, de nível de vida; é preciso decifrá-la a partir do vocabulário de uns e de outros, seu jeito de falar, a marca de seus carros, a moda de suas roupas, etc. Não tem fim! A luta de classe contaminou, como um vírus, a atitude do professor com seus alunos, a dos pais com suas crianças, a do médico com seus doentes; ela ganhou o interior de cada um de nós com seu eu, com o ideal de status que acreditamos ter de adotar para nós mesmos. Já está mais do que na hora de se organizar em todos os níveis para encarar esta luta de classe generalizada. Já é hora de elaborar uma estratégia para cada um destes níveis, pois eles se condicionam mutuamente. De que serviria, por exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização antiautoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superativos, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas?

[Somos todos grupelhos in: GUATTARI, Félix. Revolução Molecular. Tradução de Suely Rolnik. São Paulo: Brasiliense, 1987, pp. 13-19.]


23.8.12

sobre um pingente


[...]

O homem era desconcertante, um desses instantes raros. Entendam. Já pelos primeiros vinte anos deste século, Lima escrevia sobre coisas como: a necessidade de se levantar uma verdadeira história da Escravidão Negra no Brasil; os entalados estados de sítio brasileiros; a falta de grandeza, de solenidade e de misticismo (tão nossa paisagem brasileira) da nossa arquitetura urbana; os nosso gurus e sabichões, a quem dava o nome de joões das regras; os nosso grandes impostores e picaretas que em sua obra chegaram a Secretários de Estado a até Ministros; o absurdo da nossa cultura à francesa, a nossa chinoiserie que se basta com um fraseado importado e golpes de estilo; a nossa exploração cínica e demagógica dos mais fracos, que lá vivem naquilo que ele chamou de “refúgio dos infelizes”, o eterno subúrbio carioca; a nossa gula, o nosso amor desbragado e a gana pelo dinheiro, e só pelo dinheiro, que ele nos pilhou em A Nova Califórnia; os quixotes da terra, como Policarpo Quaresma, que terminaram fuzilados ou mofando nas cadeias; a nossa furiosa especulação imobiliária, apressada e atamancada, destruindo oceanos, verdes, morros, tudo; o nosso pó de vaidade que se basta com títulos, fardões e medalhadas; os pobres e ingênuos artistas populares, usados, manipulados e que acabam chupando o dedo e sozinhos [...]; os eternos sonhos mirabolantes dos nosso faraônicos e corruptos homens públicos, como o Ministro Financeiro da Bruzundanga, o Doutor Felixmino Ben Karpitoso, que até do comércio de feitiçaria se valeu para mais depressa encher os bolsos...

[Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto. Organizada por João Antônio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. p. 15]


valor e cultura

[Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino | 2009]

XXIII

Neste país de proprietários rurais, militares e evangélicos a literatura é uma raridade, e não tem mérito o saber ler.


22.8.12

Erudicídio


São nestas escolas
de sucata
infestadas por traças
e parasitas
que as nossas crianças
se deseducam
e, muito cedo, aprendem
que em terra de rei iletrado
estudar é crime
hediondo

E o que resta é a resignação
do educador
com salário de fome
que tão logo aprende
que erudição
não enche barriga;
e também a desesperança
do estudante
cuja vida ensina
o quão difícil
é preencher a mente
de barriga vazia

E para as gerações vindouras
o que fica
é a consagração
da estupidez:
a tirania da mediocridade
onde as pessoas
são niveladas por baixo.
E o pior
não é a prepotência ingênua
do analfabeto funcional
mas o silêncio cínico
e (por que não?) criminoso
dos que sabem qualquer coisa
mas disseminam
impunemente
a ignorância.

E a farda
da escola pública
se transforma
para uma geração de futuro(s
excluídos)
um fardo.


Thomaz Ramalho
Maputo | setembro de 2008


17.8.12

a dor não nos matará & sobre ficção autobiográfica


Você não pode me desconstruir e tirar a minha roupa ao mesmo tempo. [...] Ler e escrever ficção é uma forma de engajamento social, de conversar e competir. É uma maneira de ser e de se tornar. [...] Quando estou trabalhando não quero ninguém mais na sala, inclusive eu mesmo. [...] Um personagem morre no papel se o autor não consegue ouvir sua voz.
[2012 | p. 14, 274-276]

16.8.12

pobre wong


Maninha, recorda-se daquele dia chuvoso, sem luz elétrica em casa, apanhamos um pacote de velas na gaveta e espalhamos ao redor da sala quando Wong apareceu estranhando a escuridão? Cê lembra? Nas mãos do chinês: uma caixinha de plástico. Ué, Wong, você perguntou, onde vai com isso? Wong sentou-se ao nosso lado. Silenciosamente pôs sobre as pernas a caixinha da qual pinçou duas fotos. Um casal, se não me falha a memória e um homem encapuzado. Quem seriam, você me interrogou com os olhos. A moça tinha talhos terríveis no corpo e seu companheiro amarrado numa cadeira, a boca fechada com uma bola de meia. O cenário não revelava muita coisa: o chão batido e o resto do enquadramento se assemelhavam a um quintal obscuro. A outra foto mantinha o refém dentro do armário de uma escada. Suas roupas molhadas encharcavam o chão, formando um semi-círculo imperfeito. O ar conspirava para que o líquido fosse inflamável. Perguntamos à Wong: mas que diabos?... porém, Wong não pronunciou sequer um gesto. Apenas calou-se. E respeitamos o seu silêncio, velando a noite.


15.8.12

espumante


- Cê gosta de smica, Lulu?
- O que é?
- Porra da minha pica.

[da cultura oral]


I

Num esporro: encheu a banheira com seu gozo e deu de banhar sua ninfetinha.


14.8.12

que bandeira drapeja sobre as máquinas?


A velha se inclinou e abanou o fogo com a mão. Assim, com o dorso torcido e o pescoço espichado e arado pelas rugas, parecia uma antiga tartaruga negra. Mas aquele pobre vestido, por certo, não a protegia como uma carapaça, e de resto ela era tão vagarosa só por causa da idade. Às suas costas, também torcido, seu casebre de madeira e lata, e além outros casebres semelhantes do mesmo subúrbio de São Paulo; à sua frente, numa chaleira cor de carvão, já fervia a água para o café. Levou uma latinha aos lábios; antes de beber, balançou a cabeça e fechou os olhos. "O Brasil é nosso", disse. No centro da mesma cidade e nesse mesmo momento, pensou exatamente a mesma coisa, mas em outro idioma, o diretor executivo da Union Carbide, enquanto levantava uma taça de cristal para celebrar a captura, por sua empresa, de mais uma fábrica brasileira de plásticos. Um dos dois estava errado. 

[GALEANO. Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM POCKET, 2010. p. 302]

13.8.12

de la musique


[Sunshine, De La Soul, 1996]


12.8.12

4:20


Me gusta marihuana, me gustas tu.

[Manu Chao, Clandestino]

[...]

Fumo desde 1968. Estou com 75 anos, fumando um enquanto escrevo este texto. Para mim é uma planta sagrada. Além do mais sou cardíaco, preciso de uma receita pois a maconha é vasodilatadora, como o vinho.
 
[Ze Celso - Folha de SP]

[...]

Nunca, em toda a minha vida, eu me senti suficientemente feliz pra entender que tipo de mente é capaz de curtir uma canção do Paul McCartney; [...] mesmo naqueles primeiros momentos, eu não pude deixar de pensar que qualquer lar, pra ser meu, teria que incluir uma privada. [...] não que eu me orgulhe, mas a evolução é uma rua de mão única e depois que aquele rabo cai da sua bunda, não tem cola no mundo que grude de volta. [...] Eu finalmente entendi por que as coisas demoram tanto para rolar na Jamaica: é para não perder as sutilezas.

[Chris Simunek - Paraíso na fumaça.
Editora Conrad]



9.8.12

atalho



Como eu não tinha mula pra picar, 
botei o pé na estrada. 

Os pés. 


8.8.12

complexo de vira-lata



... É considerado o cão mais revolucionário de que se tem notícias. Participou de diversos manifestos, assembleias, debates, passeatas, greves, acampamentos, barricadas, invasões, “sequestro” e até já foi cotado a candidato a Reitor. Bem, na cadeira do Reitor sei que ele já sentou… Sua presença era fidedigna nas recepções aos calouros, trotes, festas e até em rodinhas “fora da lei”. 

[Rogeria, julho/09-UFSC]

Barbado
c. 1962-70. Cachorro boêmio.

De um jeito ou de outro, os alcoólatras de Ipanema sempre se viraram, mas havia um que dependia dos outros para beber: Barbado, um vira-lata com uma barbicha que lhe valeu o nome. Ninguém era dono de Barbado, mas Barbado dominava Ipanema. Em meado dos anos 60, era famoso nos bares por não recusar serviço: aceitava todo o chope que lhe serviam num prato. Fazia ponto no Jangadeiro, debaixo das cadeiras de Hugo Bidet e Kabinha, seus principais fornecedores, para quem ele era um antigo bebum que morrera e reencarnara como cachorro. Para que Barbado não bebesse de estômago vazio, o dono do Jangadeiro servia-lhe antes um filé.

Com todos os porres que tomava, Barbado atravessava as ruas com superior indiferença e nunca foi atropelado. Muitas vezes tomava o ônibus “Camões” na praça General Osório, ia até a Central do Brasil e voltava (os motoristas o conheciam). Era também um cachorro responsável: foi mascote da banda de Ipanema em vários defiles e atuou na peça Ratos e homens, de John Steinbeck, no Teatro de Bolso, substituindo um cachorro amestrado que, este sim, fora atropelado. Vivia solto, mas sabia a hora certa de chegar ao teatro, inclusive nas matinês, e era mais pontual que muitos no elenco. Em sua crítica na Tribuna da Imprensa, Fausto Wolff desancou a peça, a produção e os atores, e só elogiou Barbado.

Barbado namorava uma cadelinha do Posto 6 e, às vezes, ficava alguns dias sumido. Por volta de 1970, desapareceu de verdade. Vavá, garçom do Jangadeiro, viu-o tempos depois num restaurante de caminhoneiros na estrada Rio-São Paulo. Chamou-o pelo nome e ele atendeu. Mas não quis voltar com Vavá. Subiu na boléia de um caminhão e foi embora. Como muitos drop-outs de Ipanema naquela época, Barbado também resolvera botar o pé na estrada.



[CASTRO, Ruy. Ela é carioca: uma enciclopédia de Ipanema. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 
p. 50]

6.8.12

quem bate o cartão põe o dedo aqui


Depois de lido a reportagem sobre a vinda do ministro da Educação à capital paranaense em reunião particular com os dirigentes do Grupo Positivo, pergunta-se: o que se pode esperar para a Educação Pública? Olimpíada de matemática? Soletrando? Que tal concurso de assovio, ninguém vê e ninguém viu.


4.8.12

farias


vou desligar o 
PC


3.8.12

garrulice


Enfia esse michê chinfrim no feofó, garoto, tá me confundindo com alguma biraia de randevu de beira de estrada, eu, hem, ontem mesmo saí cum figurão duma multinacional, eita, acordei hoje cedo dei de cara com 300 dólares em cima do travesseiro... ei, rufião mirim, grana aí é da tesudinha aqui... plaft, merda, fodeu de graça, levou as verdinhas, quebrou meu dentinho de ouro. 

[FERREIRA, Evandro Affonso. Grogotó. São Paulo: Ed. 34, 2007. p. 31]


2.8.12

da contemporaneidade

[Caroline Palumbo]

[...]

Cara, me desculpe insistir nesse assunto, mas a pemba do homem era uma borduna bororô, uma autêntica encarnação antropomórfica do divino Zebuh da piroca master, nada menos.

[MORAES, Reinaldo. Pornopopéia]

31.7.12

ABCdário


E - de esquentadinho

Sou pavio curto, aviso o leitor. A transgressão em que me concentrei visa ir além do bem e do mal. Esclareço. É uma rebeldia que veio junto do pacote: denominado ser. Esse pedaço de carne ligado a um sistema nervoso cujo membro entre as pernas se assemelha a um cotó. Embora o rabo seja outro.

E você, com esta cara de bunda? Em vez de ficar sentado, porque não enfia o dedo no cu, depois na boca pra sentir a direção do vento, o clima úmido? 

Tou sendo grosso? Mas só enfiei a cabecinha.

Só pra você saber, vestir às avessas o cotidiano é do meu feitio; travestir o tempo e foder a morte, minha filosofia. Antes eu pensava: ler e dar uma boa trepada. Depois da boa trepada, fazer um rango. Sou convencionalmente conhecido como intelecto estômago e partes baixas. Antes eu pensava e ainda penso a mesma coisa. Mas entre pensar e fazer, o tesão está no fazer.

Às vezes ocorre algo comigo que não sei explicar. É uma timidez que. Ouça só: quando fico afinzão duma mina, começo a tropeçar em tudo: palavras, jeito. Visto a calça no lugar da blusa, calço o chapéu, uma meia fica na orelha e fumo como um desgracido. Até aí, tudo errado.

Penso - por minuto - se ela vai pegar no meu pinto. Daí eu trombo comigo no banheiro e pra tirar aquela aflição que deixa o corpo suadinho cinco contra um não é covardia.

I-ó

a parada não fica suspendida, porque se pintar um carinho, sangro a bucetinha da mina com meu punhal.

26.7.12

sem ser, exatamente, beletrista

[...]

Ser alguém escritor é desenvolver uma atividade que nada tem de burocrática. É uma atividade mais de aventura que de rotina. 
[...]

Sabe-se das companhias de seguros que têm segurado por altas somas mãos de pianistas. Mas não mãos de escritor.

[Que é ser escritor? in: Seleta para jovens de Gilberto Freyre; organizada pelo autor com a colaboração de Maria Elisa Dias Collier. 3 ed. Recife: José Olympio, 1980. p. 27]


25.7.12

educare



Já passou pela cabeça da leitora o homem ser um bicho? Nunca? Um cachorro por exemplo. Também, não? Tente visualizar comigo, não é difícil. Veja quando o animal apanha um osso. Não existe nego com manha de tirar o alimento da boca do bichano. Não é fato? Agora imagine um cachorro dirigindo uma escola. Um animal que ocupa um cargo. Imaginou? Agora vai que este mesmo cão trabalhador, favorecido por outros cães, consegue um degrau na Prefeitura. Aí, em dois pulos, o rabinho abanando, o cão pode governar o Palácio. E latir, segundo o direito constitucional, para os seus subordinados.

Percebeu como se cria um cachorro amestrado?
Ainda, não?


24.7.12

cinco vezes favela


[Couro de gato, de Joaquim Pedro, 1961]

"Quando o Carnaval se aproxima, os tamborins não têm preço. Na impossibilidade de um melhor material, os tamborins são feitos com couro de gato."

23.7.12

apartheid soneto

[Avelino de Araújo, 1988]


19.7.12

30 anos esta tarde


[...]

A minha geração (dos moleques que tinham por volta dos 10 anos em 1982) cresceu assombrada pelos vultos da pátria & pelos gols do Paolo Rossi. Fazer o quê? Nada, não há nada a fazer. Dali em diante que cada um escolheu o prozac que melhor lhe convinha. Uns foram pro Senai, outros pra igreja. Muitos montaram bandas de rock & foram se bacharelar nos botequins do centro da cidade. Sou dessa última estirpe de sujeitos, a dos brucutus apaixonados, a dos rain dogs. Antes bêbado que mal-assombrado.

[Fabiano Calixto in: Meu pé de Laranja Mecânica. Cinco de Julho de Dois Mil e Doze]


18.7.12

doc


[Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, 2009]

[...]

autoritarismo militar, repressão, censura, tortura não são produtos de uma determinada e específica realidade histórica brasileira, quando muito são produtos de uma dada realidade econômica [...] aquele que tem interesse em "financiar" o autoritarismo, a repressão etc., em países como o Brasil.

[SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 189]

15.7.12

trópico canabis-canibal

[Intervenção: "... usque consumatio doloris legendi"
Titri Tilag - G.q.]

[...]

Cartesius smokes a miraculous herb (marijuana) and finds himself dissolving into a tropical delirium

[...]



fetiche


Minha adorable girlfriend se materializou numa Muiraquitã. E vou avisando - pra deixar claríssimo - que se aparecer algum gigante chamado Pietro Pietra no meio do nosso caminho, querendo o monstro irracional raptar meu amuletozinho, saco, com muito orgulho e determinação, a faquinha que carrego na cintura e corto, sem muitas delongas, a cabeça do malfeitor. Para assim, resgatar meu talismã das garras do vilão capitalista.


2.7.12

descida antropofagica

[meu tio Iauaretê]


Porque Como

[...]

O índio não tinha polícia, não tinha recalcamentos, nem moléstias nervosas, nem delegacia de ordem social, nem vergonha de ficar pelado, nem luta de classes, nem tráficos de brancas, nem Ruy Barbosa, nem voto secreto, nem se ufanava do Brasil, nem era aristocrata, nem burguês, nem classe baixa.
Por que será?

[Marxillar]


1.7.12

jaburu malandro

[Eleanor Davis]
[...]

O mal não é a gente amar... O mal é a gente vestir a pessoa amada com um despropósito de atributos divinos, que chegam a triplicar às vezes o volume do amor, o que se dá? Uma pessoa natural é fácil da gente substituir por outra natural também, questão de sair uma e entrar outra... Porém a que sai do nosso peito é amor que sofre de gigantismo idealista, e não se acha outra de tanta gordura pra botar logo no lugar. Por isso fica um vazio doendo, doendo... Então a gente anda cada estirão a pé... Aquilo dura bastante tempo, até que o vazio, graças aos ventinhos da boca da noite, encha de pó. Se encha de pó.

[ANDRADE, Mario de. Os contos de Belazarte. 6 ed. São Paulo: Martins, 1973. p. 42-43]

29.6.12

de la musique


[Quem roubou a sopeira de porcelana chinesa 
que a vovó ganhou da Baronesa
Jorge Ben, 1969]


27.6.12

valor e cultura


XXIII

O dinheiro vem pra confundir o amor

[Criolo - linha da frente]


Aposto e pagaria pra ver, mesmo contraditório fosse pelo seu fim, que uma boa parte da população do planeta morreria se o dinheiro deixasse de existir. Ou melhor, se o dinheiro não tivesse o valor que tem na feira das vaidades.


23.6.12

sambandido


[Onde a coruja dorme,
documentário sobre os compositores das músicas do Bezerra da Silva,
Direção Simplício Neto, Márcia Derraik, 2001]


22.6.12

leitor e cidadania

[La lectora, de Miháy Bodó, 2005]

[...]

... os melhores escritores brasileiros têm reagido, insistindo numa estética que desconcerta mais o desconcertado leitor nosso contemporâneo. Tipo formicida tatu com guaraná. Vocação suicida da boa literatura em tempos neoliberais? Ou: incortonável preguiça intelectual do leitor em tempos de economia de mercado? Neoliberalismo político e economia de mercado acentuam a competividade no dia a dia da labuta pela sobrevivência e, por conseguinte, traz o cansaço do ser humano nas horas de lazer. Tudo indica que a combinação de política e economia dominante no Brasil de Fernando Henrique Cardoso acaba por exigir que a obra literária perca seu caráter instigante de objeto de conhecimento para ser apenas objeto de entretenimento para o seu leitor.

[SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 174]


20.6.12

valor e cultura


XXII

Se um velhinho como Rubem Alves pinta a escola igual a uma fábrica de salsichas, então podemos deduzir de que é do seu chiqueiro que vem a carne dos porcos servida de merenda escolar para os herdeiros do seu ovo.



17.6.12

interview

[Oliver Stone]
[...]

O cineasta é [...] uma prova viva de que a relação entre o consumo de maconha e o fracasso na vida profissional não passa de um falacioso mantra proibicionista.



14.6.12

de la musique


[Peter Tosch and Mick Jagger cantam Don't look back]


12.6.12

estórias do senhor G.


O senhor G. gosta, mas gosta mesmo de uma anotação; um verdadeiro comedor de papel, diria quem convive ao lado dele diariamente. Tomado por este vício (comer papel, o qual transcende o bem e o mal, segundo a teoria desse humilde e servo senhor) quis felicitar sua noiva com um bilhetinho afixado na porta da geladeira. E compartilha com vosotros o trecho do romance fatiado:

[...]

O apartamento deles raramente estaria em ordem, mas a própria desordem seria seu maior charme. Mal se ocupariam da casa: viveriam ali. O conforto do ambiente lhes parecia uma obviedade, um dado inicial, um estado da natureza. A atenção de ambos estaria em outra coisa: no livro que abririam, no texto que escreveriam, no disco que ouviriam, no seu diálogo reiniciado a cada dia. Trabalhariam muito tempo. Depois jantariam ou sairiam para jantar; encontrariam os amigos; dariam uma volta juntos.


O senhor G. Este.


10.6.12

por que ler os clássicos


[...]

Um país onde há séculos se deita a falação. Desde a carta de Pero Vaz de Caminha. A falação foi uma característica que os Esquemas souberam capitalizar, introduzindo na psicologia popular. Fizeram com que a falação se transformasse numa cortina de fumaça, encobrindo tudo que fosse possível.
Um processo de falação obedece a uma sequência invariável. Um primeiro momento, a chamada denúncia. Alguém levanta o problema. Em seguida, uma fase delicada. A das vozes indignadas, governamentais ou não, que se erguem exigindo providências. O terceiro requer habilidade.
É a fase das promessas. Garante-se a formação de comissões de inquérito, promovem-se passeatas controladas, editorias consentidos na imprensa, entrevistas categóricas. Este período é essencial, exige uma avalanche de falação contínua, exacerbada, exasperante. Falar até o total sufoco.
Não deixar ninguém raciocinar. Repisar indefinidamente o assunto, até o ponto de completa saturação. Falar, falar até o esgotamento. E então, de repente, ninguém mais pode ouvir sequer comentar as tais denúncias. Elas se esvaziam. Os que tentam são classificados como Intolerantemente Aborrecidos.
Os sistemas de governo sucederam, as noções políticas se modificaram, menos a falação. Esta prosseguiu como tara hereditária. Constantemente aperfeiçoada. Em tempos mais remotos, nos famosos Abertos Oitenta, houve certa preocupação, receios, na elite dominante. Ela ficou de sobreaviso.
Naquela época, o Povo e os Intelectuais, duas classes, distintas, separadas, se uniram à Classe Média Possuidora de Automóvel.

[BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum (memorial descritivo). 4 ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1982. p. 322]