8.12.12

más companhias


mamãe dizia
meu filho
não ande
com más companhias

a anarquia a maconha

o ácido
eram más companhias


& aquele mar da bahia
(onde o mar maresia)


andar com joyce
debaixo do braço


& fazer
poesiaemgreveqorpoestranhomuda
alegria
dor
& fantasia


& naquele tempo
a democracia
era má companhia


(& hoje ainda
parece ambrosia)


rimas
são más companhias


climas e céus experimentados

 

estar vivo
era estar mal acompanhado


horas & horas
aéreo & avoado
motivo de escárnio
para os alinhados


a vida mesma
era má companhia
estar morto & só
era o que eu podia


a cibalenaspirina
o barbitúrico
diempax
que vicia
é má companhia


& o poder
(o rei passou
& com ele a companhia)


os mass media


& este mundo

da tecnologia


& a fantasia
poder pensar o dia
a dia?
& combater a preguiça & a entropia
da língua
quem paga o preço
& não xinga?

 

& certa verdade
é má companhia


& a princesa
beijou
o trovador que dormia
a corte se escandalizou
ela explicou
não beijei o homem
mas a boca
de onde sai tal poesia


& a rebeldia
fala plena da adolescência
fala vazia


múmias
ímãs
são más companhias


& a cara-metade
& uma lírica
de rostinho colado
à realidade


de pura autoria


com quem se convive
é má companhia



[BONVICINO, Régis. Más companhias. Poesia 1983-1986. São Paulo: Editora Olavobrás, 1987]

25.11.12

o bibliófago

[Adam McCaule]


[...]

"Ele pede desculpas pelo tempo que gasta dormindo, igual ao comum dos mortais."

[CANETTI, Elias. O todo-ouvidos: cinquenta caracteres. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. p. 83]

24.11.12

cultura e política, 1964-1969

[Fragmentos de dois escritores, de João Bethencourt]

[...]

Um caso interessante de adesão artística à ditadura é o Nelson Rodrigues, um dramaturgo de grande reputação. Desde meados de 68 este escritor escreve diariamente uma crônica em dois grandes jornais de São Paulo e Rio, em que ataca o
clero avançado, o movimento estudantil e a intelectualidade de esquerda. Vale a pena mencioná-lo, pois tendo recursos literários e uma certa audácia moral, paga integral e explicitamente - em abjeção - o preço que hoje o capital cobra de seus lacaios literários. Quando começou a série, é fato que produzia suspense na cidade: qual a canalhice que Nelson Rodrigues teria inventado para esta tarde? Seu recurso principal é a estilização da calúnia. Por exemplo, vai a meia-noite a um terreno baldio, ao encontro de uma cabra e de um padre de esquerda, o qual nesta oportunidade lhe revela as razões verdadeiras e inconfessáveis de sua participação política; e conta-lhe também que D. Helder suporta mal o inalcançável prestígio de Cristo. Noutra crônica, afirma de um desconhecido adversário católico da ditadura, que não pode tirar o sapato. Por quê? Porque apareceria o seu pé de cabra. Etc. A finalidade cafageste da fabulação não é escondida, pelo contrário, é nela que está a comicidade do recurso. Entretanto, se é transformada em método e voltada sempre contra os mesmos adversários - contra os quais a polícia também investe - a imaginação abertamente mentirosa e mal-intencionada deixa de ser uma blague, e opera a liquidação, o suicídio da literatura: como ninguém acredita nas razões da direita, mesmo estando com ela, é desnecessário argumentar e convencer. Há uma certa adequação formal, há verdade sociológica nesta malversação de recursos literários: ela registra, com vivacidade, o vale-tudo em que entrou a ordem burguesa no Brasil.

[SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 91]


11.11.12

de la musique


Nação Zumbi
No Olimpo, 2007

**
Mangue - A cena

[...]


Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em: quadrinhos, tv interativa, anti-psiquiatra, Bezerra da Silva, Hip Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não-virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência.

por Zero Quatro

10.11.12

arqueologia do saber


[...]

Mais de um, como eu sem dúvida, escreveu para não ter fisionomia.
Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever.


[Michel Foucault]

7.11.12

questões existenciais


UM


Cê quer saber o jeito qu’eu como a minha mina? Não dá pra fazer uma abstração da coisa, maninho.
Melhor eu te perguntar: Cê estaria afim de saber como é transar com meu pau?


6.11.12

epígrafe

[the heads of state]

A literatura faz os homens mais sensíveis e estimula sua imaginação. E homens com sensibilidade e imaginação são difíceis de se explorar, de se reprimir. Essa é a grande função da literatura: criar gente inconformada com a realidade.

[Mário Vargas Llosa]

29.10.12

cabecita sin cerebro

[1900 - 1970]

Es una bici robada y sacudida por el viento
un niño está encima pedalea llorando
un buen hombre tras él lo persigue a los gritos
Y el guardabarrera agita su bandera
el niño pasa igual
el tren pasa sobre él
y el buen hombre llega recupera el aliento
contempla su chatarra
y no cree en sus ojos
Las dos ruedas están torcidas
el manubrio falseado
los hierros todos rotos
el farol hecho trizas
y la bujía hecha añicos
Y mi medalla de San Cristóbal
dónde fue a parar
verdaderamente ya no hay más niños
no se sabe ya a qué santo encomendarse
no se sabe qué decir
no se sabe cómo va a terminar todo esto
no se sabe dónde está uno
verdaderamente

Qué banda de ignorantes
dice el guardabarreras llorando.

[PRÉVERT, Jacques. La lluvia y el sol. Schapire Editor: Uruguay, 1974. p. 124-125]


28.10.12

da contemporaneidade

[...]

Dizem que o silêncio é uma prece. Quanto engano. O silêncio é só o começo do papo. O silêncio é, dependendo da situação, uma negativa ou uma aceitação"

[FERRÉZ. Os inimigos não mandam flores. São Paulo: Pixel, 2006. Textos em quadrinhos]

27.10.12

de la musique



[Street Hassle - Lou Reed]

**

"Não sou decerto literato - muito menos literato voluptuosamente acadêmico e voluptuoso da arte de construir convencionalmente bem as suas frases. Que me perdoem, porém, a insistência ingênua e afinal inócua em me considerar escritor, admitindo a distinção entre escritor e literato."

[Gilberto Freyre - in: Recortes, de Antonio Cândido]


17.10.12

câmara de ecos


[...]

a rua é rua ou realidade virtual interativa?

SCREENS SIGNALS

Use the information at the top of the screen
to plan your fighting strategies and
keep track of your progress...

- Indique-me sua direção, onde você se encontra agora?
- Estou exatamente na esquina da Rua Walk com a Rua Don't Walk.

[SALOMÃO, Wally. Algaravias. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996]

18.9.12

dialétika do esklarecimento



SOCIEDADE DE MASSAS

O culto dos astros do cinema tem como complemento da celebridade o mecanismo social que nivela tudo o que chama a atenção. Os astros são apenas os moldes para uma indústria de confecção de dimensões mundiais e para a tesoura da justiça legal e econômica, com a qual se eliminam as últimas pontas dos fios de linha.

ISOLAMENTO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

A afirmação que o meio de comunicação isola não vale apenas no domínio cultural. Não apenas a linguagem mentirosa do locutor de rádio se sedimenta no cérebro das pessoas como a imagem da linguagem e impede-as de falar umas com as outras, não apenas o louvor da Pepsi-Cola abafa o ruído do desmoronamento dos continentes, não apenas o modelo espectral dos heróis do cinema projeta sobre o abraço dos adolescentes e mesmo sobre o adultério. O progresso separa literalmente as pessoas. O pequeno guichê da estação ou do banco possibilitava ao caixa cochichar com o colega e partilhar com ele seus pequenos segredos. As janelas de vidro dos escritórios modernos, os salões gigantescos onde inúmeros empregados trabalham em comum, podendo ser facilmente vigiados pelo poder público e pelos chefes, não permitem mais nem conversas particulares, nem idílios. Mesmo nas repartições, o contribuinte está protegido do desperdício de tempo dos servidores. A ferrovia foi substituída pelos automóveis. O carro próprio reduz os contatos de viagem a hitchhikers algo inquietantes. As pessoas viajam sobre pneus de borracha, rigorosamente isoladas uma das outras. Em compensação, só se regulada pelos interesses práticos. Assim como toda família com uma renda determinada gasta a mesma percentagem com alojamento, cinema, cigarros, exatamente como a estatística prescreve, assim também os temas são esquematizados segundo as classes de automóveis. Quando se encontram, aos domingos ou viajando, em hotéis onde as acomodações e os cardápios são idênticos em cada faixa de preços, os hóspedes descobrem que se tornaram, com o isolamento, cada vez mais semelhantes. A comunicação cuida da assimilação dos homens isolando-os.

[T. W. A. e M. H]

17.9.12

preço e monocultura


I


João foi nomeado presidente da nova empresa. Logo nos primeiros trinta dias subsequentes o consumo subiu-lhe à medula, e a transferência de alguns zeros chupou-lhe os neurônios.

12.9.12

valor e cultura



Fama, ó fama, eterna ladra de energias, farol negro de tanto mau passo. Para ver o nome no jornal você atropela uma doce velhinha e some com o picolé da criança.

[D. T.]

XXV

Um escritor não se faz com prêmios. Um prêmio só transforma o autor num personagem. Vira notícia e, não muito tempo depois, o esquecemos.

O prêmio pode ser bem aceito, pois, conforme aquela autora de quem muita gente morre de medo, o teto não pode ter goteira. Se quer escrever, acomode-se. Ponha a bunda na cadeira e narre: geniozinho!

Coroa-se novos autores. Estes, acabam virando marqueteiros de sua própria obra. Compre o livro, não era'ssim que cantava um na sua capela racional?




11.9.12

valor e cultura


XXIV

Ler não está vinculado à produção, não dá lucro, por isso a atitude da policia em São Paulo. É o festival de besteiras que assola o país, pra pegar o gancho com outro leitor.

6.9.12

szenarium



... Ah, o escuro
 sangue urbano
movido a juros.

F. G. - A vida bate



Num simpósio de letras recente o professor Chico Hardman, que estudou o anarquismo operário nos anos 10 em Sampa, mencionou la película Notícias da Antiguidade Ideológica, de Alexander Kluge.

A ideia do diretor alemão: cinemalizar, baseando-se nas anotações de Eisenstein, O Capital de Carlos Marcus.

Pergunto (tomando como mote a própria anotação do diretor russo): filmar a obra marxista seria a única saída formal das coisas?


5.9.12

na noite enxovalhada

[...]

"Uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de dar voz, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada."

[Antonio Candido - O albatroz e o chinês]

3.9.12

A cigarret, please


Os estudos de proposições a que muitas vezes se limitam os estudantes de filosofia se tornaram, na concepção contemporânea, um fetiche. A verdade de uma teoria não é a mesma coisa que sua fecundidade.

Gramaticalizar um pensamento a respeito de um ser abstrato, como por exemplo, Deus existe, não pode ser considerado um texto coerente para toda e qualquer pessoa.

Um pedaço de frase foge contextualmente. Pois temos o leitor e a pessoa que pronunciou a frase inseridos numa sociedade. Duas palavras não encerram a realidade. Não podemos catequizar o mundo; tal disparate é caduquice.

É como se discutissemos a grande questão da origem. O que veio primeiro: o ovo ou a galinha?

 

31.8.12

iskola


Pergunta de um adolescente presente:

“Nunca nos perguntam sobre o que queremos aprender. 
Pelo contrário, sempre dizem o que a gente deve estudar.”

[Sobre Educação: diálogos]


A desconstrução da sociedade é necessária, visto a divisão do trabalho que afeta o cérebro, que endurece a criança e que classifica as pessoas. Como disse um satírico latino: mens sana in corpore sano. E se o corpo estiver triturado?
Partindo da ideia  de que a criança deve estar em contato direto com a Natureza do princípio ao fim - sem fazer disso um estatuto, mas que não me permite investigar, supor - vou escrever uma Pedagogia da Natureza.
Para dar fundamentação ao corpo do texto, partirei primeiramente dos anti-filósofos e poetas como Rousseau, Nietzsche, Adorno e Horkheimer, Foucault e Leminski chegando à escritura contemporânea de um John Zerzan, por exemplo. Sem esquecer de Paulo Freire e seu ensino no qual a leitura do mundo precede a leitura da palavra. 

Adendozinho

(Essa ideia, parafraseando dois frankfurtianos, não carrego como verdade, pois a distância da teoria e sua fecundidade muitas vezes é um erro.)
Como inicio, pra aquecer o gesto textual, mand'uma letra de baixo pra cima:


Às vezes eu acho,
Que todo preto como eu,
Só quer um terreno no mato,
Só seu.
Sem luxo, descalço, nadar num riacho,
Sem fome,
Pegando as fruta no cacho.
Aí, truta, é o que eu acho,
Quero também,
Mas em São Paulo,
Deus é uma nota de 100.

[Racionais MC's]


30.8.12

dias & dias


Être un homme utile m'a paru toujours
 quelque chose de bien hideux.

[C. B.]

fatia de pão

O que me encanta nalgumas cidades, fora o verde que não virou bosque ou parque, são as esquinas de fim de tarde. As esquinas escurecem ajudadas pelas árvores, nas mais variadas espécies e porque também (da licença, meu) é a vez da lua, ora bolas. Sai o Sol, vem a Lua vestida de estrelas.

Lá por sete horas, eu paro as minhas atividades e saio prum rolê. Escolho uma esquina, acendo um cigarrinho e puxo lero cum tempo. Volta e meia, neste raro prazer dos dias, pinta um passarinho querendo uma ideia. Passarinho xô! que não sou de voar. Passarinho vai.

Longe, invejo o seu voo. Inveja boa, porque eu queria viver simplesmente como um passarinho. Comer sementes: ser leve, i.e. dormi com a noite, acordar com o dia. Sem programações para tardar. Caio em contradição, bem sei.

Passarinho canta na minha janela, antes das seis da manhã. Passarinho madrugador. Passarinho camarada.

Na hora do café, antes do rolê, pousa no pé de lichia um casal ressabiado de sabiá. Árvore copada esconde os passarinhos. Mas vejo por um buraco, entre um galho e outro, o casalzinho mínimo se brimbicando.

A lichia é uma árvore alta: em torno dos seus três a quatro metros de altura. Se um palmo tem vinte e cinco centímetros, vai lá. Não é a toa que as folhas dessa árvore chamam prum mergulho de utopia.

29.8.12

das irrazões

[Intervenção]

I

O sujeito raciocinar como um capitalista sem um puto no bolso.


27.8.12

pequeno apontamento


Em nome da segurança do Estado
calam-se todas as vozes dissidentes.

[Regina] 

Queiramos ou não, há classes.
Não cultivar o próprio umbigo
como se fosse um repolho
de estimação.

[Carrera Guerra]

UM

Pois vejam como é interessante e simples. Na Holanda, as igrejas viraram bibliotecas. Em Curitiba, os bosques se transformam em shoppings. Será tamanha metafísica? No máximo, as áreas nativas da capital são parques para as famílias, doutrinadas pela Família Folha, irem passear no final de semana, e onde não se pode nem andar de skate.

DOIS

Em cidades fascistas: a portaria é uma lei; o shopping: uma ratoeira; as fábricas: pequenos guetos; e as greves – simbólicas – são feitas para o patrão ter mais orgulho do seu poder.

[tigrinho & quase] 


26.8.12

groupuscule


[...]

A luta de classes não passa mais simplesmente por um front delimitado entre os proletários e os burgueses, facilmente detectável nas cidades e nos vilarejos; ela está igualmente inscrita através de numerosos estigmas na pele e na vida dos explorado: autoridade, de posição, de nível de vida; é preciso decifrá-la a partir do vocabulário de uns e de outros, seu jeito de falar, a marca de seus carros, a moda de suas roupas, etc. Não tem fim! A luta de classe contaminou, como um vírus, a atitude do professor com seus alunos, a dos pais com suas crianças, a do médico com seus doentes; ela ganhou o interior de cada um de nós com seu eu, com o ideal de status que acreditamos ter de adotar para nós mesmos. Já está mais do que na hora de se organizar em todos os níveis para encarar esta luta de classe generalizada. Já é hora de elaborar uma estratégia para cada um destes níveis, pois eles se condicionam mutuamente. De que serviria, por exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização antiautoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superativos, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas?

[Somos todos grupelhos in: GUATTARI, Félix. Revolução Molecular. Tradução de Suely Rolnik. São Paulo: Brasiliense, 1987, pp. 13-19.]


23.8.12

sobre um pingente


[...]

O homem era desconcertante, um desses instantes raros. Entendam. Já pelos primeiros vinte anos deste século, Lima escrevia sobre coisas como: a necessidade de se levantar uma verdadeira história da Escravidão Negra no Brasil; os entalados estados de sítio brasileiros; a falta de grandeza, de solenidade e de misticismo (tão nossa paisagem brasileira) da nossa arquitetura urbana; os nosso gurus e sabichões, a quem dava o nome de joões das regras; os nosso grandes impostores e picaretas que em sua obra chegaram a Secretários de Estado a até Ministros; o absurdo da nossa cultura à francesa, a nossa chinoiserie que se basta com um fraseado importado e golpes de estilo; a nossa exploração cínica e demagógica dos mais fracos, que lá vivem naquilo que ele chamou de “refúgio dos infelizes”, o eterno subúrbio carioca; a nossa gula, o nosso amor desbragado e a gana pelo dinheiro, e só pelo dinheiro, que ele nos pilhou em A Nova Califórnia; os quixotes da terra, como Policarpo Quaresma, que terminaram fuzilados ou mofando nas cadeias; a nossa furiosa especulação imobiliária, apressada e atamancada, destruindo oceanos, verdes, morros, tudo; o nosso pó de vaidade que se basta com títulos, fardões e medalhadas; os pobres e ingênuos artistas populares, usados, manipulados e que acabam chupando o dedo e sozinhos [...]; os eternos sonhos mirabolantes dos nosso faraônicos e corruptos homens públicos, como o Ministro Financeiro da Bruzundanga, o Doutor Felixmino Ben Karpitoso, que até do comércio de feitiçaria se valeu para mais depressa encher os bolsos...

[Calvário e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto. Organizada por João Antônio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. p. 15]


valor e cultura

[Inglourious Basterds, de Quentin Tarantino | 2009]

XXIII

Neste país de proprietários rurais, militares e evangélicos a literatura é uma raridade, e não tem mérito o saber ler.