14.3.13

o turista infeliz


[...]

A homogeneização do mundo é o grande mal-estar de uma viagem – viajar sem sair de onde já se estava. A primeira etapa dessa homogeneização, trágica e espalhada em tudo, pois feita por baixo, começa pelo mundo físico: é tudo uma imundície. Andávamos por uma praia em Marajó. A maré estava baixa, linda, e ouvíamos sons assustadores vindos da mata. Caminhávamos sozinhos, sem guia. Temíamos vagamente pelas crianças (já enormes). Em suma: achávamos que desbravávamos algo, uma desajeitada família paulista abrindo sua picada particular em plena Amazônia. Por isso foi tão chocante, na curva seguinte, deparar com o mar de garrafas pet de 1 ou 2 litros e as milhares de latas de refrigerantes e os vasilhames de xampu e as carcaças dos eletrodomésticos mais diversos, numa quantidade digna das enchentes de São Paulo – como se fosse o pátio pantanoso de alguma Casas Bahia de pesadelo. Como chegaram lá? Pela maré? Um megashow escondido na mata? O lixo está em toda parte, verdadeiramente universal e democrático, unindo o país de alto a baixo. É dessa forma que o desastre urbano, sem descanso nem exceção, que assola o país há décadas e só piora e piora nas grandes cidades, parece repicar nas pequenas comunidades e nos rincões mais isolados, como que coado aos poucos. Se na década de 70 havia, em cada cidadezinha, um Banco do Brasil e uma Casas Pernambucanas, hoje há plástico (e, em menor quantidade, alumínio) boiando, misturado à areia, preso nas folhas, no alto de uma palmeira que já não há.

O lixo é exatamente isso: uma forma extrema do Mesmo. É a identidade pro-funda que une a metrópole de onde partimos ao ponto distante a que chegamos depois de horas e horas de viagem. A diferença é que nas grandes cidades, onde o ciclo da mercadoria é algo cotidiano, sua origem se mostra: nasceu ali mesmo. Nas localidades mais distantes, hipoteticamente poupadas do fluxo insano de tantos produtos, o lixo parece verdadeiramente caído do céu, como uma dádiva perversa. Entre raízes, caranguejos, lama sólida, à revelia de tudo e de todos, chegou ao fim de sua odisseia, naturalizando-se de vez. Foi quase com carinho que certa vez re-parei num fiapo de lata de Coca-Cola, fino como um pedaço de papel, preso à ponta do chifre de um búfalo. Parecia uma folha seca, mas com o logotipo fatal impresso.


 Nuno Ramos | Março de 2013


9.3.13

ao shopping center


 [Consumer Shopping Christ | Banksy]


Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.

De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.

Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus

nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.

[PAES, José Paulo. Os melhores poemas de José Paulo Paes / Seleção Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998. p. 197]


3.3.13

psicogeografia

[Maio de 68]

UM

De que vale uma cidade se a cada dez habitantes oito são LAMBE-BOTAS?


18.2.13

god loves rock and roll


[Ernest Pintoff, 1963]



[...]

AMÉRICA-1971. O cinema underground subindo abertamente à superfície. Porque o negócio pode dar dinheiro. Ideias hippies, em technicolor, para a classe média. "Easy Rider" provou isto e todo mundo embarcou na mesma jogada. E "Trash" está dando bilheteria de meses em N. York. No mais, foi lançado "Dynamite Chicken", um filme de sketches de Ernie Pintoff; um resumo da cultura pop, da última década. Alguns momentos excelentes, mas também muito lugar comum. "A Galinha Dinamite", uma nova definição para a América. E, aqui, uma conclusão: o verdadeiro cinema underground é o cinema do terceiro mundo. Realizado no peito e na raça.


[SANT'ANNA, Sérgio. América-América 1971. in: Palavras ao Sul - Seis escritores latino-americanos contemporâneos. Belo Horizonte: Autêntica; Faculdade de Letras da UFMG, 1999. p. 53-54]

14.2.13

indo bem, obbligatho


Difícil colher o sol na colher de chá.
Impossível agasalhar a lua com o cachecol.
Fritar uma nuvem na gordura vegetal,
nem pensar.

Bichx, a brasa morou,
e a geléia pasteurizaram.


12.2.13

improviso do amigo morto

[1893-1945]
[...]


Eu lhe confiava [carta a Mario de Andrade] as minhas dúvidas e preocupações literárias, com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte-pela-arte, e outros temas em moda na época. Com sua paciência apostolar, ele me respondia longa e minuciosamente, procurando me orientar no cipoal de minhas contradições:

Não se esqueça por favor que você é um ancião de quinhentos anos no vício de uma ideologia. Pra abrir caminho, pra se justificar diante de si mesmo, diante da vida e de Deus, você tem de abrir é estrada larga, franca. E no seu caso, o seu maior perigo é ser si mesmo. A tal de "sinceridade" que você invoca é o seu maior perigo. E que sinceridade se você não é você! A sua sinceridade por enquanto é sua espontaneidade. E a sua espontaneidade são dez milhões de anos de crimes humanos, dois mil anos de traição ao Cristo, duzentos anos de burguesia capitalista, vinte e um anos de aluno de escola e professores que ensinaram de acordo com tudo isso. Isso é a sua "sinceridade". Porque até agora escolheram por você. Agora é que você vai escolher.

[F. S. Gente I | 1975 p. 95-96]

9.2.13

UM GUIA DO MÊS DE JUNHO PARA JOVENS


Quando seu dia começa com a consciência nítida da própria morte
inspirada por um tema de televisão com o qual
acordou na cabeça

e quando no trabalho você só consegue produzir longas listas
de perguntas,
perguntas boas, perguntas inteligentes, páginas
de perguntas
irrespondíveis se alastrando como uma árvore genealógica

e quando no almoço você dirige pela cidade e desconhecidos
acenam de vitrines onde penduram bandeiras

e quando a noite é úmida demais para que apaixonados se deitem juntos
mas o fazem mesmo assim e depois se arrependem da excitação
nos lençóis grudentos

e quando, e especialmente quando, seu amor sai
e você fica acordado por uma hora coçando picadas de mosquito
nas coxas

e quando o bairro está tenso pelo que aconteceu com aquela
menininha, tão tenso que uma porta batendo dispara alarmes de carro e
atiça os animais

e quando num domingo senhores de idade são vistos chorando no boteco da esquina
porque perderam contato com os filhos ou porque seus filhos
batem nos filhos e é Dia dos Pais

e quando o calor é excessivo para certos passarinhos que simplesmente caem
do céu

tenha paciência.


[Matthew Rohrer]

4.2.13

atenção


tensão na cidade
veículos em alta velocidade



2.2.13

rastafari



uma cerveja antes do almoço
é muito bom pra ficar pensando melhor


[Chico Science & Nação Zumbi]



você está em casa. não faz nada. aparentemente nada. mas você escuta música. e aí, com a cachola na cachola, você se pergunta: 
"ouvir música seria uma forma de fazer não fazendo nada?"


1.2.13

poesias reunidas

[Carybé]

SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suava júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
- Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso.

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.

A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-as com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
- A profunda, a silenciosa alegria...



[Carnaval 
 Manuel Bandeira, 1924]

 

30.1.13

cut killer


[La haine, de Mathieu Kassovitz, 1995]

28.1.13

bartleby


II

Uma grande questão que me importuna é saber em qual quarto-escritório-biblioteca viver o resto dos anos. E transformar o inútil em útil, a vontade em ética, mesmo preferindo não fazê-los.



24.1.13

hein, hein?

[Justine Beckett, s/d]

**

Quem se lembra deste personagem: o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa?


23.1.13

10 doencinhas básicas da poesia brasileira

[Catarina Correia Marques, s/d]
  1. Livros de poesia são publicados antes dos poemas serem escritos;
  2. Os medíocres morrem de medo de plágio;
  3. Os palermas, epígonos & tietes são os primeiros que desistem de afundar navios;
  4. Os imbecis perderam a humildade;
  5. Apenas ouvir Caetano, Chico & Gil gera, num passe de mágica, poetas geniais;
  6. Ler não é um bom negócio;
  7. Por aqui não se entende nem o slogan dos grevistas da Lip: Produire autre chose, autrement; nem os versos de Ferlinghetti: Poets, come out of your closets, / Open your windows, open your doors, / You have been holed-up too long / in your closed worlds; nem a prosa de Roberto Bolaño: La vida hay que vivirla, en eso consiste todo. Me lo dijo un teporocho que me encontré el otro día al salir del bar La Mala Senda. La literatura no vale nada.;
  8. Continuam quase todos sentados na carteira da frente, de pau mole, treinando caligrafia com seus bonés bicolores com hélices amarelas & morrendo de medo de arruaça;
  9. Ninguém mais cultiva a própria vaia, é um país de “poetas” sérios;
  10.  Querem (& estão conseguindo) encarcerar a poesia nos calabouços da cultura hagiográfica & acreditam piamente que um poema precisa pagar um boquete para bibliografias.

*

p.s.: a poesia de verdade, sangrenta, caminha pelas ruas, ouvindo Raimundo Soldado no mp3 player, tostando um baurets, comendo um PF no centro da cidade enquanto o sol alarga os planos de fuga. A poesia dá uma fodidinha aqui & ali – e pensa: antes uma gonorreia que versinho sorridente. A poesia toca o terror! A poesia é um coquetel molotov! A poesia quer é mais, bróder!

[Fabiano Calixto]

22.1.13

bla bla bla eu ti amu


1

"as mulheres como os deuses: 
nunca se cansam do amor."



18.1.13

pickpocket

[Robert Bresson, 1959]

10.1.13

de la musique


[Head Hunters - Herbie Hancock, 1973]



[...]


Só se escreve lendo...: paradoxo cuja digna contrapartida reside no próprio ato da escritura, que parece ter sido inventado para dar um exemplo perfeito da noção de impossibilidade. Pois a escritura não conhece um "antes", ela não é a expressão de um pensamento prévio; mas então, que é que se escreve?

O "mistério nas letras" tem sido isto de atraente: tornar-se mais espesso à medida que se tenta dissipá-lo.


[T. T.]

7.1.13

bartleby

[bacon]
 
I

estive pensando na construção de um personagem pitoresco. passei horas sem contar carneirinho tentando defini-lo. estudando-o. a conclusão é de que cheguei a dois fatores: a) dormir é a chama de seu caráter; b) fisicamente falando, se assemelha a um odradek pé de pano e tem sangue de coca-cola, tá sabendo?


2.1.13

brincando de escrever



[...]

Sim: é preciso escrever um artigo sério sobre o livro [Tao Te Ching]. Mas não está dando pé, amizade, com o sol que brilha lá fora e a brisa que agita os cabelos da morena. Estou aqui (pois EU SOU), sentado diante da minha máquina de escrever, tentando me concentrar num assunto sério ou profundo ou novo ou de interesse geral etc. e minha imaginação teima em fugir para a praia, especulando sobre a cor do mar neste dia particular e irrepetível, a posição do sol sobre as montanhas e outras distrações sem importância. Um ônibus passa; Roberto Carlos canta no rádio do vizinho; a brisa balança as cortinas; há um cheiro fresco de poluição nova no ar; há uma árvore cujos galhos também dançam... Não dá pé: esse artigo sério vai ter de esperar.

 [MACIEL, Luis Carlos. Nova consciência: jornalismo contracultural - 1970/72. Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca Ltda, 1973. p. 233-34]

21.12.12

autorretrato

 
Considerad, muchachos,
Esta lengua roída por el câncer:
Soy profesor en un liceo obscuro,
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales.)
Qué os parece mi cara abofeteada?
Verdad que inspira lástima mirarme!
Y qué decís de esta nariz prodrida
Por la cal de la tiza degradante.

En materia de ojos, a tres metros
No reconozco ni a mi propia madre.
Qué me sucede? - Nada.
Me los he arruinado haciendo clases:
La mala luz, el sol,
La venenosa luna miserable.
Y todo para qué,
Para ganar un pan imperdonable
Duro como la cara del burgués
Y con sabor y con olor a sangre.
Para qué hemos nacido como hombres
Si nos dan una muerte de animales!

Por el exceso de trabajo, a veces
Veo formas extrañas en el aire,
Oigo carreras locas,
Risas, conversaciones criminales.
Observad estas manos
Y estas mejillas blancas de cadáver,
Estos escasos pelos que me quedan,
Estas negras arrugas infernales!

Sin embargo yo fui tal como ustedes,
Joven, lleno de bellos ideales,
Soñé fundiendo el cobre
Y limando las caras del diamante:
Aquí me tienen hoy
Detrás de este mesón inconfortable
Embrutecido por el sonsonete
De las quinientas horas semanales.



[PARRA, Nicanor. Poemas ilustrados. Santiago: Amanuta, 2012]

11.12.12

pensamento nômade


[...]

Eu digo a mim mesmo: quem é hoje em dia o jovem nietzscheano? Será aquele que prepara um trabalho sobre Niezstche? É possível. Ou então é aquele que, voluntária ou involuntariamente, pouco importa, produz enunciados particularmente nietzscheanos no decorrer de uma ação, de uma paixão, de uma experiência?

[...]

Conhecemos os grandes instrumentos de codificação. As sociedades não variam tanto, não dispõem de tantos meios de codificação. Conhecemos três principais: a lei, o contrato e a instituição. Nós os reencontramos muito bem, por exemplo, na relação que os homens mantêm ou mantiveram com os livros. Existem livros da lei, nos quais a relação leitor com o livro passa pela lei. Aliás, nós os denominamos mais particularmente códigos, ou livros sagrados. Em seguida há uma outra espécie de livros que passam pelo contrato, a relação contratual burguesa. É esta a base da literatura leiga e da relação de venda do livro: eu compro, você me dá o que ler - uma relação contratual na qual todos, autor, leitor, estão presos.

[Gilles Deleuze]

8.12.12

más companhias


mamãe dizia
meu filho
não ande
com más companhias

a anarquia a maconha

o ácido
eram más companhias


& aquele mar da bahia
(onde o mar maresia)


andar com joyce
debaixo do braço


& fazer
poesiaemgreveqorpoestranhomuda
alegria
dor
& fantasia


& naquele tempo
a democracia
era má companhia


(& hoje ainda
parece ambrosia)


rimas
são más companhias


climas e céus experimentados

 

estar vivo
era estar mal acompanhado


horas & horas
aéreo & avoado
motivo de escárnio
para os alinhados


a vida mesma
era má companhia
estar morto & só
era o que eu podia


a cibalenaspirina
o barbitúrico
diempax
que vicia
é má companhia


& o poder
(o rei passou
& com ele a companhia)


os mass media


& este mundo

da tecnologia


& a fantasia
poder pensar o dia
a dia?
& combater a preguiça & a entropia
da língua
quem paga o preço
& não xinga?

 

& certa verdade
é má companhia


& a princesa
beijou
o trovador que dormia
a corte se escandalizou
ela explicou
não beijei o homem
mas a boca
de onde sai tal poesia


& a rebeldia
fala plena da adolescência
fala vazia


múmias
ímãs
são más companhias


& a cara-metade
& uma lírica
de rostinho colado
à realidade


de pura autoria


com quem se convive
é má companhia



[BONVICINO, Régis. Más companhias. Poesia 1983-1986. São Paulo: Editora Olavobrás, 1987]

25.11.12

o bibliófago

[Adam McCaule]


[...]

"Ele pede desculpas pelo tempo que gasta dormindo, igual ao comum dos mortais."

[CANETTI, Elias. O todo-ouvidos: cinquenta caracteres. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. p. 83]

24.11.12

cultura e política, 1964-1969

[Fragmentos de dois escritores, de João Bethencourt]

[...]

Um caso interessante de adesão artística à ditadura é o Nelson Rodrigues, um dramaturgo de grande reputação. Desde meados de 68 este escritor escreve diariamente uma crônica em dois grandes jornais de São Paulo e Rio, em que ataca o
clero avançado, o movimento estudantil e a intelectualidade de esquerda. Vale a pena mencioná-lo, pois tendo recursos literários e uma certa audácia moral, paga integral e explicitamente - em abjeção - o preço que hoje o capital cobra de seus lacaios literários. Quando começou a série, é fato que produzia suspense na cidade: qual a canalhice que Nelson Rodrigues teria inventado para esta tarde? Seu recurso principal é a estilização da calúnia. Por exemplo, vai a meia-noite a um terreno baldio, ao encontro de uma cabra e de um padre de esquerda, o qual nesta oportunidade lhe revela as razões verdadeiras e inconfessáveis de sua participação política; e conta-lhe também que D. Helder suporta mal o inalcançável prestígio de Cristo. Noutra crônica, afirma de um desconhecido adversário católico da ditadura, que não pode tirar o sapato. Por quê? Porque apareceria o seu pé de cabra. Etc. A finalidade cafageste da fabulação não é escondida, pelo contrário, é nela que está a comicidade do recurso. Entretanto, se é transformada em método e voltada sempre contra os mesmos adversários - contra os quais a polícia também investe - a imaginação abertamente mentirosa e mal-intencionada deixa de ser uma blague, e opera a liquidação, o suicídio da literatura: como ninguém acredita nas razões da direita, mesmo estando com ela, é desnecessário argumentar e convencer. Há uma certa adequação formal, há verdade sociológica nesta malversação de recursos literários: ela registra, com vivacidade, o vale-tudo em que entrou a ordem burguesa no Brasil.

[SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 91]


11.11.12

de la musique


Nação Zumbi
No Olimpo, 2007

**
Mangue - A cena

[...]


Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em: quadrinhos, tv interativa, anti-psiquiatra, Bezerra da Silva, Hip Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não-virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência.

por Zero Quatro

10.11.12

arqueologia do saber


[...]

Mais de um, como eu sem dúvida, escreveu para não ter fisionomia.
Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever.


[Michel Foucault]

7.11.12

questões existenciais


UM


Cê quer saber o jeito qu’eu como a minha mina? Não dá pra fazer uma abstração da coisa, maninho.
Melhor eu te perguntar: Cê estaria afim de saber como é transar com meu pau?


6.11.12

epígrafe

[the heads of state]

A literatura faz os homens mais sensíveis e estimula sua imaginação. E homens com sensibilidade e imaginação são difíceis de se explorar, de se reprimir. Essa é a grande função da literatura: criar gente inconformada com a realidade.

[Mário Vargas Llosa]

29.10.12

cabecita sin cerebro

[1900 - 1970]

Es una bici robada y sacudida por el viento
un niño está encima pedalea llorando
un buen hombre tras él lo persigue a los gritos
Y el guardabarrera agita su bandera
el niño pasa igual
el tren pasa sobre él
y el buen hombre llega recupera el aliento
contempla su chatarra
y no cree en sus ojos
Las dos ruedas están torcidas
el manubrio falseado
los hierros todos rotos
el farol hecho trizas
y la bujía hecha añicos
Y mi medalla de San Cristóbal
dónde fue a parar
verdaderamente ya no hay más niños
no se sabe ya a qué santo encomendarse
no se sabe qué decir
no se sabe cómo va a terminar todo esto
no se sabe dónde está uno
verdaderamente

Qué banda de ignorantes
dice el guardabarreras llorando.

[PRÉVERT, Jacques. La lluvia y el sol. Schapire Editor: Uruguay, 1974. p. 124-125]


28.10.12

da contemporaneidade

[...]

Dizem que o silêncio é uma prece. Quanto engano. O silêncio é só o começo do papo. O silêncio é, dependendo da situação, uma negativa ou uma aceitação"

[FERRÉZ. Os inimigos não mandam flores. São Paulo: Pixel, 2006. Textos em quadrinhos]

27.10.12

de la musique



[Street Hassle - Lou Reed]

**

"Não sou decerto literato - muito menos literato voluptuosamente acadêmico e voluptuoso da arte de construir convencionalmente bem as suas frases. Que me perdoem, porém, a insistência ingênua e afinal inócua em me considerar escritor, admitindo a distinção entre escritor e literato."

[Gilberto Freyre - in: Recortes, de Antonio Cândido]


17.10.12

câmara de ecos


[...]

a rua é rua ou realidade virtual interativa?

SCREENS SIGNALS

Use the information at the top of the screen
to plan your fighting strategies and
keep track of your progress...

- Indique-me sua direção, onde você se encontra agora?
- Estou exatamente na esquina da Rua Walk com a Rua Don't Walk.

[SALOMÃO, Wally. Algaravias. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996]

18.9.12

dialétika do esklarecimento



SOCIEDADE DE MASSAS

O culto dos astros do cinema tem como complemento da celebridade o mecanismo social que nivela tudo o que chama a atenção. Os astros são apenas os moldes para uma indústria de confecção de dimensões mundiais e para a tesoura da justiça legal e econômica, com a qual se eliminam as últimas pontas dos fios de linha.

ISOLAMENTO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

A afirmação que o meio de comunicação isola não vale apenas no domínio cultural. Não apenas a linguagem mentirosa do locutor de rádio se sedimenta no cérebro das pessoas como a imagem da linguagem e impede-as de falar umas com as outras, não apenas o louvor da Pepsi-Cola abafa o ruído do desmoronamento dos continentes, não apenas o modelo espectral dos heróis do cinema projeta sobre o abraço dos adolescentes e mesmo sobre o adultério. O progresso separa literalmente as pessoas. O pequeno guichê da estação ou do banco possibilitava ao caixa cochichar com o colega e partilhar com ele seus pequenos segredos. As janelas de vidro dos escritórios modernos, os salões gigantescos onde inúmeros empregados trabalham em comum, podendo ser facilmente vigiados pelo poder público e pelos chefes, não permitem mais nem conversas particulares, nem idílios. Mesmo nas repartições, o contribuinte está protegido do desperdício de tempo dos servidores. A ferrovia foi substituída pelos automóveis. O carro próprio reduz os contatos de viagem a hitchhikers algo inquietantes. As pessoas viajam sobre pneus de borracha, rigorosamente isoladas uma das outras. Em compensação, só se regulada pelos interesses práticos. Assim como toda família com uma renda determinada gasta a mesma percentagem com alojamento, cinema, cigarros, exatamente como a estatística prescreve, assim também os temas são esquematizados segundo as classes de automóveis. Quando se encontram, aos domingos ou viajando, em hotéis onde as acomodações e os cardápios são idênticos em cada faixa de preços, os hóspedes descobrem que se tornaram, com o isolamento, cada vez mais semelhantes. A comunicação cuida da assimilação dos homens isolando-os.

[T. W. A. e M. H]

17.9.12

preço e monocultura


I


João foi nomeado presidente da nova empresa. Logo nos primeiros trinta dias subsequentes o consumo subiu-lhe à medula, e a transferência de alguns zeros chupou-lhe os neurônios.

12.9.12

valor e cultura



Fama, ó fama, eterna ladra de energias, farol negro de tanto mau passo. Para ver o nome no jornal você atropela uma doce velhinha e some com o picolé da criança.

[D. T.]

XXV

Um escritor não se faz com prêmios. Um prêmio só transforma o autor num personagem. Vira notícia e, não muito tempo depois, o esquecemos.

O prêmio pode ser bem aceito, pois, conforme aquela autora de quem muita gente morre de medo, o teto não pode ter goteira. Se quer escrever, acomode-se. Ponha a bunda na cadeira e narre: geniozinho!

Coroa-se novos autores. Estes, acabam virando marqueteiros de sua própria obra. Compre o livro, não era'ssim que cantava um na sua capela racional?




11.9.12

valor e cultura


XXIV

Ler não está vinculado à produção, não dá lucro, por isso a atitude da policia em São Paulo. É o festival de besteiras que assola o país, pra pegar o gancho com outro leitor.

6.9.12

szenarium



... Ah, o escuro
 sangue urbano
movido a juros.

F. G. - A vida bate



Num simpósio de letras recente o professor Chico Hardman, que estudou o anarquismo operário nos anos 10 em Sampa, mencionou la película Notícias da Antiguidade Ideológica, de Alexander Kluge.

A ideia do diretor alemão: cinemalizar, baseando-se nas anotações de Eisenstein, O Capital de Carlos Marcus.

Pergunto (tomando como mote a própria anotação do diretor russo): filmar a obra marxista seria a única saída formal das coisas?