[...]
A homogeneização do mundo é o grande mal-estar de uma viagem – viajar sem sair de onde já se estava. A primeira etapa dessa homogeneização, trágica e espalhada em tudo, pois feita por baixo, começa pelo mundo físico: é tudo uma imundície. Andávamos por uma praia em Marajó. A maré estava baixa, linda, e ouvíamos sons assustadores vindos da mata. Caminhávamos sozinhos, sem guia. Temíamos vagamente pelas crianças (já enormes). Em suma: achávamos que desbravávamos algo, uma desajeitada família paulista abrindo sua picada particular em plena Amazônia. Por isso foi tão chocante, na curva seguinte, deparar com o mar de garrafas pet de 1 ou 2 litros e as milhares de latas de refrigerantes e os vasilhames de xampu e as carcaças dos eletrodomésticos mais diversos, numa quantidade digna das enchentes de São Paulo – como se fosse o pátio pantanoso de alguma Casas Bahia de pesadelo. Como chegaram lá? Pela maré? Um megashow escondido na mata? O lixo está em toda parte, verdadeiramente universal e democrático, unindo o país de alto a baixo. É dessa forma que o desastre urbano, sem descanso nem exceção, que assola o país há décadas e só piora e piora nas grandes cidades, parece repicar nas pequenas comunidades e nos rincões mais isolados, como que coado aos poucos. Se na década de 70 havia, em cada cidadezinha, um Banco do Brasil e uma Casas Pernambucanas, hoje há plástico (e, em menor quantidade, alumínio) boiando, misturado à areia, preso nas folhas, no alto de uma palmeira que já não há.
O lixo é exatamente isso: uma forma extrema do Mesmo. É a identidade pro-funda que une a metrópole de onde partimos ao ponto distante a que chegamos depois de horas e horas de viagem. A diferença é que nas grandes cidades, onde o ciclo da mercadoria é algo cotidiano, sua origem se mostra: nasceu ali mesmo. Nas localidades mais distantes, hipoteticamente poupadas do fluxo insano de tantos produtos, o lixo parece verdadeiramente caído do céu, como uma dádiva perversa. Entre raízes, caranguejos, lama sólida, à revelia de tudo e de todos, chegou ao fim de sua odisseia, naturalizando-se de vez. Foi quase com carinho que certa vez re-parei num fiapo de lata de Coca-Cola, fino como um pedaço de papel, preso à ponta do chifre de um búfalo. Parecia uma folha seca, mas com o logotipo fatal impresso.
Nuno Ramos | Março de 2013













