Ao ser usada pelo dono da empresa ou pela autoridade governamental, adquire conotação diferente, especialmente disfórica, isto é negativa, daquela usada pelo funcionário ou pela população, que, neste caso, em geral, assume valor eufórico, ou seja, positivo. (Fiorin, 1988). Os meios de comunicação, especialmente a televisão, são a evidência desses significados: quem faz greve geralmente é visto como baderneiro, dificilmente como alguém que está reivindicando seus direitos, garantidos, inclusive, constitucionalmente.
[LUKIANCHUKI, Cláudia. Dialogismo: a linguagem verbal como exercício social. ECA-USP]
Um dias desses, evidentemente, tudo há de dar certo, os automóveis se extinguirão e a superfície da terra será povoada apenas por bicicletas. Alguns carros, ônibus e caminhões serão expostos nos museus, feito mamutes, guilhotinas e outros monstros findos, para divertir a criançada e alertar os adultos: que o horror jamais se repita. Sobre selins acolchoados, seremos felizes para sempre. É inegável a simpatia das bicicletas. Máquina desengonçada: se parada, destrambelha-se como um albatroz em terra, mas ao impulso dos pedais, projeta-se como uma flecha, esguia, impoluta e silenciosa. Bicicletas, ninguém pode negar, são irmãs dos guarda-chuvas, primas das girafas e parentes distantes dos abacaxis (não me peça para explicar, foi uma idéia que tive agora). Durante todo o século XX, muitos artistas aproveitaram-se de seus encantos. É pedalando que vemos quase todo o tempo monsieur Hulot, personagem do filme Meu Tio, utopia lírica de Jacques Tati. Marceu Duchamp, depois haver exposto um mictório no museu, enfiou uma roda de bicicleta num banco de madeira e deixou as velhas noções sobre arte – literalmente – de pernas pro ar. É impensável um facínora de bicicleta, inconcebível um ditador pedalando. As “máquinas da paz”, como as chamou Vinícius de Moraes, em sua Balada das meninas de bicicleta, são muito mais afeitas aos suaves cuidados das moças: “Bicicletai, meninada!/ Aos ventos do Arpoador/ Solta a flâmula agitada/Das cabeleiras em flor”. As bicicletas são um indício de civilização. Recomendadas por ecologistas, urbanistas, cardiologistas e artistas, têm logo de entrar na agenda política. Ainda não vi nenhum candidato expor, no horário eleitoral, seu projeto nacional de bicicletização. Se aparecer algum, ganhará de imediato meu apoio. Se Deus voltasse à Terra e dissesse, “Me mostrem aí o que vocês fizeram”, teríamos de levá-Lo imediatamente a Amsterdam, para um passeio ciclístico, em torno daqueles belíssimos canais. Ou então ao Rio de Janeiro. Pegaríamos Deus no Santos Dummont (vindo do céu, é de se supor que chegará de avião) e O colocaríamos na garupa. Cruzaríamos todo o aterro, pedalando sem pressa, sob o sol ameno das quatro e meia da tarde. Passaríamos pela estátua de Drummond em Copacabana, veríamos as garotas saírem do mar em Ipanema e terminaríamos o passeio no Leblon, com um mergulho no mar e um suco de melancia, no exato momento do sol se pôr. Se Deus tiver um pingo de sensibilidade, estaremos todos salvos.
[PRATA, Antonio. Meio intelectual, meio de esquerda. São Paulo: Ed. 34, 2010. p. 159-160]
Em abril de 1996 a imprensa internacional noticiou a morte aos 75 anos de idade de Christopher Robin Milne, eternizado no livro de seu pai, A. A. Milne, O Ursinho Puff, como Cris.
Eu, o Ursinho Puff, preciso de repente pensar em coisas muito difíceis pra minha pequena cabecinha. Nunca me importei com o que está lá fora do nosso jardim, onde morávamos eu, o porquinho Leitão, o coelho Abel e o burrinho Bisonho com nosso amigo Cris. Quer dizer, nós ainda moramos aqui e nada mudou e agorinha mesmo comi um pote de mel - o Cris só foi ali e já volta.
A Coruja diz que lá fora do nosso jardim começa o Tempo, e isso é um poço assim fundo pra caramba, e quando uma pessoa cai nele vai sumindo e sumindo lá pra baixo, até que ninguém sabe o que acontece com ela depois. Fiquei um pouco preocupado com o Cris, se não tinha caído lá dentro, mas ele voltou e aí eu perguntei sobre o tal poço. "Puff - ele disse - eu estava dentro dele e fui caindo, e caindo eu ia mudando, minhas pernas foram ficando compridas, fiquei grande, usava umas calças que iam até o chão e me cresceu barba, depois meus cabelos foram ficando brancos, fui me curvando, andei de bengala e aí eu morri. Com certeza foi tudo só um sonho, porque não parecia bem de verdade. De verdade pra mim sempre foi só você, Puff, e as nossas brincadeiras. Agora já não saio daqui pra lugar nenhum, mesmo se me chamarem pro lanche."
[MILOSZ, Czeslaw. Não mais. Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003. p. 109-111]
A homogeneização do mundo é o grande mal-estar de uma viagem – viajar
sem sair de onde já se estava. A primeira etapa dessa homogeneização,
trágica e espalhada em tudo, pois feita por baixo, começa
pelo mundo físico: é tudo uma imundície. Andávamos por uma praia em
Marajó. A maré estava baixa, linda, e ouvíamos sons assustadores vindos
da mata. Caminhávamos sozinhos, sem guia. Temíamos vagamente pelas
crianças (já enormes). Em suma: achávamos que desbravávamos algo, uma
desajeitada família paulista abrindo sua picada particular em plena
Amazônia. Por isso foi tão chocante, na curva seguinte, deparar com o
mar de garrafas pet de 1 ou 2 litros e as milhares de latas de
refrigerantes e os vasilhames de xampu e as carcaças dos
eletrodomésticos mais diversos, numa quantidade digna das enchentes de
São Paulo – como se fosse o pátio pantanoso de alguma Casas Bahia de
pesadelo. Como chegaram lá? Pela maré? Um megashow escondido na mata? O
lixo está em toda parte, verdadeiramente universal e democrático, unindo
o país de alto a baixo. É dessa forma que o desastre urbano, sem
descanso nem exceção, que assola o país há décadas e só piora e piora
nas grandes cidades, parece repicar nas pequenas comunidades e nos
rincões mais isolados, como que coado aos poucos. Se na década de 70
havia, em cada cidadezinha, um Banco do Brasil e uma Casas
Pernambucanas, hoje há plástico (e, em menor quantidade, alumínio)
boiando, misturado à areia, preso nas folhas, no alto de uma palmeira
que já não há.
O lixo é exatamente isso: uma forma extrema do
Mesmo. É a identidade pro-funda que une a metrópole de onde partimos ao
ponto distante a que chegamos depois de horas e horas de viagem. A
diferença é que nas grandes cidades, onde o ciclo da mercadoria é algo
cotidiano, sua origem se mostra: nasceu ali mesmo. Nas localidades mais
distantes, hipoteticamente poupadas do fluxo insano de tantos produtos, o
lixo parece verdadeiramente caído do céu, como uma dádiva perversa.
Entre raízes, caranguejos, lama sólida, à revelia de tudo e de todos,
chegou ao fim de sua odisseia, naturalizando-se de vez. Foi quase com
carinho que certa vez re-parei num fiapo de lata de Coca-Cola, fino como
um pedaço de papel, preso à ponta do chifre de um búfalo. Parecia uma
folha seca, mas com o logotipo fatal impresso.
Pelos teus círculos vagamos sem rumo nós almas penadas do mundo do consumo. De elevador ao céu pela escada ao inferno: os extremos se tocam no castigo eterno.
Cada loja é um novo prego em nossa cruz. Por mais que compremos estamos sempre nus
nós que por teus círculos vagamos sem perdão à espera (até quando?) da Grande Liquidação.
[PAES, José Paulo. Os melhores poemas de José Paulo Paes / Seleção Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998. p. 197]
AMÉRICA-1971. O cinema underground subindo abertamente à superfície. Porque o negócio pode dar dinheiro. Ideias hippies, em technicolor, para a classe média. "Easy Rider" provou isto e todo mundo embarcou na mesma jogada. E "Trash" está dando bilheteria de meses em N. York. No mais, foi lançado "Dynamite Chicken", um filme de sketches de Ernie Pintoff; um resumo da cultura pop, da última década. Alguns momentos excelentes, mas também muito lugar comum. "A Galinha Dinamite", uma nova definição para a América. E, aqui, uma conclusão: o verdadeiro cinema underground é o cinema do terceiro mundo. Realizado no peito e na raça.
[SANT'ANNA, Sérgio. América-América 1971. in: Palavras ao Sul - Seis escritores latino-americanos contemporâneos. Belo Horizonte: Autêntica; Faculdade de Letras da UFMG, 1999. p. 53-54]
Eu lhe confiava [carta a Mario de Andrade] as minhas dúvidas e preocupações literárias, com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte-pela-arte, e outros temas em moda na época. Com sua paciência apostolar, ele me respondia longa e minuciosamente, procurando me orientar no cipoal de minhas contradições:
Não se esqueça por favor que você é um ancião de quinhentos anos no vício de uma ideologia. Pra abrir caminho, pra se justificar diante de si mesmo, diante da vida e de Deus, você tem de abrir é estrada larga, franca. E no seu caso, o seu maior perigo é ser si mesmo. A tal de "sinceridade" que você invoca é o seu maior perigo. E que sinceridade se você não é você! A sua sinceridade por enquanto é sua espontaneidade. E a sua espontaneidade são dez milhões de anos de crimes humanos, dois mil anos de traição ao Cristo, duzentos anos de burguesia capitalista, vinte e um anos de aluno de escola e professores que ensinaram de acordo com tudo isso. Isso é a sua "sinceridade". Porque até agora escolheram por você. Agora é que você vai escolher.
Quando seu dia começa com a consciência nítida da própria morte inspirada por um tema de televisão com o qual acordou na cabeça
e quando no trabalho você só consegue produzir longas listas de perguntas, perguntas boas, perguntas inteligentes, páginas de perguntas irrespondíveis se alastrando como uma árvore genealógica
e quando no almoço você dirige pela cidade e desconhecidos acenam de vitrines onde penduram bandeiras
e quando a noite é úmida demais para que apaixonados se deitem juntos mas o fazem mesmo assim e depois se arrependem da excitação nos lençóis grudentos
e quando, e especialmente quando, seu amor sai e você fica acordado por uma hora coçando picadas de mosquito nas coxas
e quando o bairro está tenso pelo que aconteceu com aquela menininha, tão tenso que uma porta batendo dispara alarmes de carro e atiça os animais
e quando num domingo senhores de idade são vistos chorando no boteco da esquina porque perderam contato com os filhos ou porque seus filhos batem nos filhos e é Dia dos Pais
e quando o calor é excessivo para certos passarinhos que simplesmente caem do céu
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras. Íamos, por entre a turba, com solenidade, Bem conscientes do nosso ar lúgubre Tão contrastado pelo sentimento de felicidade Que nos penetrava. Um lento, suava júbilo Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo... Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.
E a impressão em meu sonho era que se estávamos Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro, - Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso.
Era terça-feira gorda. A multidão inumerável Burburinhava. Entre clangores de fanfarra Passavam préstitos apoteóticos. Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas. Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida, De peitos enormes - Vênus para caixeiros. Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade, Acotovelava-as com algazarra, Aclamava-as com alarido. E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.
Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade, O ar lúgubre, negros, negros... Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso. Nem a alegria estava ali, fora de nós. A alegria estava em nós. Era dentro de nós que estava a alegria, - A profunda, a silenciosa alegria...
Uma grande questão que me importuna é saber em qual quarto-escritório-biblioteca viver o resto dos anos. E transformar o inútil em útil, a vontade em ética, mesmo preferindo não fazê-los.
Quem se lembra deste personagem: o
arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta,
o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa?
Livros de poesia são publicados antes dos poemas serem escritos;
Os medíocres morrem de medo de plágio;
Os palermas, epígonos & tietes são os primeiros que desistem de afundar navios;
Os imbecis perderam a humildade;
Apenas ouvir Caetano, Chico & Gil gera, num passe de mágica, poetas geniais;
Ler não é um bom negócio;
Por aqui não se entende nem o slogan dos grevistas da Lip: Produire autre chose, autrement; nem os versos de Ferlinghetti: Poets, come out of your closets, / Open your windows, open your doors, / You have been holed-up too long / in your closed worlds; nem a prosa de Roberto Bolaño: La vida hay que vivirla, en eso consiste todo. Me lo dijo un teporocho que me encontré el otro día al salir del bar La Mala Senda. La literatura no vale nada.;
Continuam quase todos sentados na
carteira da frente, de pau mole, treinando caligrafia com seus bonés
bicolores com hélices amarelas & morrendo de medo de arruaça;
Ninguém mais cultiva a própria vaia, é um país de “poetas” sérios;
Querem (& estão conseguindo)
encarcerar a poesia nos calabouços da cultura hagiográfica &
acreditam piamente que um poema precisa pagar um boquete para
bibliografias.
*
p.s.: a poesia de verdade, sangrenta, caminha pelas ruas, ouvindo Raimundo Soldado no mp3 player, tostando um baurets,
comendo um PF no centro da cidade enquanto o sol alarga os planos de
fuga. A poesia dá uma fodidinha aqui & ali – e pensa: antes uma gonorreia que versinho sorridente. A poesia toca o terror! A poesia é um coquetel molotov! A poesia quer é mais, bróder!
Só se escreve lendo...: paradoxo cuja digna contrapartida reside no próprio ato da escritura, que parece ter sido inventado para dar um exemplo perfeito da noção de impossibilidade. Pois a escritura não conhece um "antes", ela não é a expressão de um pensamento prévio; mas então, que é que se escreve?
O "mistério nas letras" tem sido isto de atraente: tornar-se mais espesso à medida que se tenta dissipá-lo.
estive pensando na construção de um personagem pitoresco. passei horas sem contar carneirinho tentando defini-lo. estudando-o. a conclusãoé de que cheguei a dois fatores: a) dormir é a chama de seu caráter; b) fisicamente falando, se assemelha a um odradek pé de pano e tem sangue de coca-cola, tá sabendo?
Sim: é preciso escrever um artigo sério sobre o livro [Tao Te Ching]. Mas não está dando pé, amizade, com o sol que brilha lá fora e a brisa que agita os cabelos da morena. Estou aqui (pois EU SOU), sentado diante da minha máquina de escrever, tentando me concentrar num assunto sério ou profundo ou novo ou de interesse geral etc. e minha imaginação teima em fugir para a praia, especulando sobre a cor do mar neste dia particular e irrepetível, a posição do sol sobre as montanhas e outras distrações sem importância. Um ônibus passa; Roberto Carlos canta no rádio do vizinho; a brisa balança as cortinas; há um cheiro fresco de poluição nova no ar; há uma árvore cujos galhos também dançam... Não dá pé: esse artigo sério vai ter de esperar.
[MACIEL, Luis Carlos.Nova consciência: jornalismo contracultural - 1970/72. Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca Ltda, 1973. p. 233-34]
Considerad, muchachos, Esta lengua roída por el câncer: Soy profesor en un liceo obscuro, He perdido la voz haciendo clases. (Después de todo o nada Hago cuarenta horas semanales.) Qué os parece mi cara abofeteada? Verdad que inspira lástima mirarme! Y qué decís de esta nariz prodrida Por la cal de la tiza degradante.
En materia de ojos, a tres metros No reconozco ni a mi propia madre. Qué me sucede? - Nada. Me los he arruinado haciendo clases: La mala luz, el sol, La venenosa luna miserable. Y todo para qué, Para ganar un pan imperdonable Duro como la cara del burgués Y con sabor y con olor a sangre. Para qué hemos nacido como hombres Si nos dan una muerte de animales!
Por el exceso de trabajo, a veces Veo formas extrañas en el aire, Oigo carreras locas, Risas, conversaciones criminales. Observad estas manos Y estas mejillas blancas de cadáver, Estos escasos pelos que me quedan, Estas negras arrugas infernales!
Sin embargo yo fui tal como ustedes, Joven, lleno de bellos ideales, Soñé fundiendo el cobre Y limando las caras del diamante: Aquí me tienen hoy Detrás de este mesón inconfortable Embrutecido por el sonsonete De las quinientas horas semanales.
[...] Eu digo a mim mesmo: quem é hoje em dia o jovem nietzscheano? Será aquele que prepara um trabalho sobre Niezstche? É possível. Ou então é aquele que, voluntária ou involuntariamente, pouco importa, produz enunciados particularmente nietzscheanos no decorrer de uma ação, de uma paixão, de uma experiência? [...] Conhecemos os grandes instrumentos de codificação. As sociedades não variam tanto, não dispõem de tantos meios de codificação. Conhecemos três principais: a lei, o contrato e a instituição. Nós os reencontramos muito bem, por exemplo, na relação que os homens mantêm ou mantiveram com os livros. Existem livros da lei, nos quais a relação leitor com o livro passa pela lei. Aliás, nós os denominamos mais particularmente códigos, ou livros sagrados. Em seguida há uma outra espécie de livros que passam pelo contrato, a relação contratual burguesa. É esta a base da literatura leiga e da relação de venda do livro: eu compro, você me dá o que ler - uma relação contratual na qual todos, autor, leitor, estão presos.
& aquele mar da bahia (onde o mar maresia) andar com joyce debaixo do braço & fazer poesiaemgreveqorpoestranhomuda alegria dor & fantasia & naquele tempo a democracia era má companhia (& hoje ainda parece ambrosia) rimas são más companhias climas e céus experimentados
estar vivo era estar mal acompanhado horas & horas aéreo & avoado motivo de escárnio para os alinhados a vida mesma era má companhia estar morto & só era o que eu podia a cibalenaspirina o barbitúrico diempax que vicia é má companhia & o poder (o rei passou & com ele a companhia) os mass media & este mundo só da tecnologia & a fantasia poder pensar o dia a dia? & combater a preguiça & a entropia da língua quem paga o preço & não xinga?
& certa verdade é má companhia & a princesa beijou o trovador que dormia a corte se escandalizou ela explicou não beijei o homem mas a boca de onde sai tal poesia & a rebeldia fala plena da adolescência fala vazia múmias ímãs são más companhias & a cara-metade & uma lírica de rostinho colado à realidade de pura autoria com quem se convive é má companhia
[BONVICINO, Régis. Más companhias. Poesia 1983-1986. São Paulo: Editora Olavobrás, 1987]
[Fragmentos de dois escritores, de João Bethencourt]
[...]
Um caso interessante de adesão
artística à ditadura é o Nelson Rodrigues, um dramaturgo de grande
reputação. Desde meados de 68 este escritor escreve diariamente uma
crônica em dois grandes jornais de São Paulo e Rio, em que ataca oclero
avançado, o movimento estudantil e a intelectualidade de esquerda. Vale
a pena mencioná-lo, pois tendo recursos literários e uma certa audácia
moral, paga integral e explicitamente - em abjeção - o preço que hoje o
capital cobra de seus lacaios literários. Quando começou a série, é fato
que produzia suspense na cidade: qual a canalhice que Nelson Rodrigues
teria inventado para esta tarde? Seu recurso principal é a estilização
da calúnia. Por exemplo, vai a meia-noite a um terreno baldio, ao
encontro de uma cabra e de um padre de esquerda, o qual nesta
oportunidade lhe revela as razões verdadeiras e inconfessáveis de sua
participação política; e conta-lhe também que D. Helder suporta mal o
inalcançável prestígio de Cristo. Noutra crônica, afirma de um
desconhecido adversário católico da ditadura, que não pode tirar o
sapato. Por quê? Porque apareceria o seu pé de cabra. Etc. A finalidade
cafageste da fabulação não é escondida, pelo contrário, é nela que está a
comicidade do recurso. Entretanto, se é transformada em método e
voltada sempre contra os mesmos adversários - contra os quais a polícia
também investe - a imaginação abertamente mentirosa e mal-intencionada
deixa de ser uma blague, e opera a liquidação, o suicídio da literatura:
como ninguém acredita nas razões da direita, mesmo estando com ela, é
desnecessário argumentar e convencer. Há uma certa adequação formal, há
verdade sociológica nesta malversação de recursos literários: ela
registra, com vivacidade, o vale-tudo em que entrou a ordem burguesa no
Brasil.
[SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 91]
Os
mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em: quadrinhos, tv
interativa, anti-psiquiatra, Bezerra da Silva, Hip Hop, midiotia,
artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não-virtual,
conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência.
Mais de um, como eu sem dúvida, escreveu para não ter fisionomia. Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever.
A literatura faz os homens mais sensíveis e
estimula sua imaginação. E homens com sensibilidade e imaginação são
difíceis de se explorar, de se reprimir. Essa é a grande função da
literatura: criar gente inconformada com a realidade.
Es una bici robada y sacudida por el viento un niño está encima pedalea llorando un buen hombre tras él lo persigue a los gritos Y el guardabarrera agita su bandera el niño pasa igual el tren pasa sobre él y el buen hombre llega recupera el aliento contempla su chatarra y no cree en sus ojos Las dos ruedas están torcidas el manubrio falseado los hierros todos rotos el farol hecho trizas y la bujía hecha añicos Y mi medalla de San Cristóbal dónde fue a parar verdaderamente ya no hay más niños no se sabe ya a qué santo encomendarse no se sabe qué decir no se sabe cómo va a terminar todo esto no se sabe dónde está uno verdaderamente
Qué banda de ignorantes dice el guardabarreras llorando.
[PRÉVERT, Jacques. La lluvia y el sol. Schapire Editor: Uruguay, 1974. p. 124-125]
Dizem que o silêncio é uma prece. Quanto
engano. O silêncio é só o começo do papo. O silêncio é, dependendo da
situação, uma negativa ou uma aceitação"
[FERRÉZ. Os inimigos não mandam flores. São Paulo: Pixel, 2006. Textos em quadrinhos]
Burn lots of books so they can feed you their lies
Lixo e purpurina
Escuta aqui, cara, tua dor não me importa. Estou cagando montes pras tuas memórias, pras tuas culpas, pras tuas saudades. As pessoas estão enlouquecendo, sendo presas, indo para o exílio, morrendo de overdose e você fica aí pelos cantos choramingando o seu amor perdido. Foda-se o seu amor perdido. Foda-se esse rei-ego absoluto. Foda-se a sua dor pessoal, esse seu ovo mesquinho e fechado.
I, etcetera
Uma paisagem não exige sua "compreensão", suas imputações de significado, suas angústias e suas simpatias; ao contrário, requer sua ausência, solicita que ele não acrescente nada a isso.
Cavaquinho & Saxofone
O literato nunca chamava a coisa pelo nome. Nunca. Arranjava sempre um meio de se exprimir indiretamente. Com circunlóquios, imagens poéticas, figuras de retórica, metalepses, metáforas e outras bobagens complicadíssimas. Abusando. Ninguém morria: partia para os páramos ignotos. Mulher não era mulher. Qual o quê. Era flor, passarinho, anjo da guarda, doçura desta vida, bálsamo de bondade, fada, o diabo. Mulher é que não. Depois a mania do sinônimo difícil. A própria coisa não se reconhecia nele. Nem mesmo a palavra. Palavra. Tudo fora da vida, do momento, do ambiente. A preocupação de embelezar, de esconder, de colorir. Nada de pão pão, queijo queijo. Não senhor. Escrever assim não é vantagem. Mas pão epílogo tostado dos trigais dourados, queijo acompanhamento vacum da goiabada dulcífica, sim. É bonito. Disfarça bem a vulgaridade das coisas. Canta nos ouvidos. E é anástico, absolutamente anástico. Tem sobretudo essa qualidade. O literato não se contentava em exclamar: Como cheiram as magnólias! Não. As magnólias eram capazes de se ofender com tanta secura. E ele então acrescentava poeticamente: Flores de carne, seios de virgem. Pronto. As magnólias já não tinham direito de se queixar.
Do bom uso da liberdade
Em suma, gostaria que um livro não se atribuísse a si mesmo essa condição de texto ao qual a pedagogia ou a crítica saberão reduzi-lo, mas que tivesse a desenvoltura de apresentar-se como discurso: simultaneamente batalha e arma, conjunturas e vestígios, encontro irregular e cena repetível.
A náusea
Não sou uma virgem nem padre para brincar de alma interior.
Prévert
Diante da porta da fábrica/ O trabalhador súbito pára/ O dia lindo o puxa pela roupa/ E como ele se volta/ E olha o sol/ Tão rubro tão redondo/ Sorrindo no seu céu de chumbo/ Dá uma piscada/ Familiar/ Diz então camarada Sol/ Não achas que é/ Uma grande idiotice/ Dar um dia como este/ A um patrão?
O nome do bispo
Este homem maduro, próximo dos cinquenta, sofre de um mal ridículo, uma pequena infâmia que se desenvolveu sorrateiramente à margem de sua consciência, nos cômodos inferiores do seu corpo e que até então merecera dele, Heládio, não mais que uma meia atenção, ociosa e ocasional. Isso até perto de um mês quando subitamente ela, então plenamente desenvolvida, instalou-se no centro de seus pensamentos, afastando, por meio de sucessivas contrações de dor, cada vez mais frequentes, o imenso e espraiado universo daquilo que a linguagem cotidiana convencionou chamar "vida interior" mas que nada mais é senão o próprio mundo debruçado sobre o homem, estreitado nos limites pulsantes do tecido vivo. Em Heládio este estreitamento do mundo (ele mesmo, afinal), adquiriu - por meio da sensibilidade ganha na doença - uma consciência muito aguda de sua natureza duplicada. Se por meio do ânus (um outro conduto) e de tudo que a ele sempre se ligou, tinha ocorrido até então, sem maiores problemas, uma forma partcular de interiorização-exteriorização de caráter muito local que, sendo o próprio Heládio, ainda assim a ele se acrescentava - isto só agora se fazia perceptível. Como Heládio está padecendo de uma fissura anal, a pequena estúpida ferida aberta, o nítido corte, tumultua e trunca, não apenas esta como todas as outras formas de acordo que até então vem ele mantendo com o mundo.
Merda Dream
você gastou tempo e perícia/ pra que eu ficasse apaixonado/ mas tropeçou em tanta astúcia/ e seu charme piscou o olho errado// depois fumou todo o meu cigarro/ roubou meu isqueiro roubado/ bateu a porta e o carro/ e eu continuei ali sentado// outro dia chegou pelo correio/ sua orelha e um pulso cortado/ meu bem, te reconheci pelo cheiro/ mas não fiquei preocupado// só saí e comprei um revólver –/ baby, eu não queria andar armado/ mas sua estupidez não lhe deixa ver/ que eu não quero ser seu namorado
Mandrix
Como você anda louca,/ tem cada ideia, essa não!/ Afasta de mim esta boca,/ não me corta a curtição./ Começou já se ralou,/ quem mandrica se futrica./ Te avisei, se recomponha,/ veja se não atrapalha./ Ixprimenta esta maconha,/ leva te volta esta tralha./ A espingarda de caça,/ a tal navalha sem jaça,/ o revólver, o facão,/ o cianeto, o raticida,/ as bolinha colorida,/ isso já é gozação,/ como você anda louca! O meu signo diz vida,/ e muita vida, não pouca./ Vai. Me mixou o desejo/ esta de o último beijo.
um sorvetinho?
... só posteriormente, refletindo sobre o que é raiva e observando que ela encerra uma certa avalição (negativa) do outro, que concluo: afinal, a raiva é um pensamento, estar com raiva é pensar que o outro é detestável e esse pensamento, como todos os outros, não podem residir em nenhum fragmento de matéria. Ela é, portanto, espírito. Posso perfeitamente refletir assim, mas a partir do momento em que me volto para a experiência propriamente dita da raiva que motiva minha reflexão devo confessar que ela não estava fora do meu corpo, não era animada de fora, mas estava inexplicavelmente nele.
ininstantes
a morte nos fez uma falseta/ mas não pensem que isto é um poema/ só porque estou cortando as linhas/ como faziam os poetas/ isto é apenas uma conversa no deserto
O queijo e os vermes
Na Inquisição católica, na evangelização protestante, está presente o intuito de eliminar o Outro (lembremos que em português esse é um dos termos para designar... o diabo).
Unamuno
O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros. (...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo, mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.
Sobre a leitura
Se o gosto pelos livros cresce com a inteligência, seus perigos, como vimos, diminuem com ela. Um espírito original sabe subordinar a leitura à sua atividade pessoal. Ela não é para ele senão a mais nobre das distrações, sobretudo a mais enobrecedora, pois, somente a leitura e o saber dão as "belas maneiras" do espírito. O poder de nossa sensibilidade e de nossa inteligência, não podemos desenvolvê-lo senão em nós mesmos, nas profundezas de nossa vida espiritual. Mas é nesse contato com os outros espíritos, contanto a leitura, que se faz a educação das "maneiras" do espírito.
O menino e o passarinho
Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Trópico de capricórnio
Tudo quanto acontece, quando é significativo, tem a natureza de uma contradição. Até quando chegou aquela para quem isto é escrito, eu imaginava que em algum lugar fora de mim, na vida, como dizem, estava a solução para todas as coisas. Eu pensava, quando a encontrei, que estivesse agarrando a vida, agarrando algo que pudesse morder. Ao invés disso, desprendi-me completamente da vida. Procurei algo a que me apegar - e nada encontrei. Mas ao procurar, no esforço para agarrar, para apegar-me, perdido como fiquei, encontrei uma coisa que não buscava - eu próprio. Descobri que aquilo que eu desejara toda a minha vida não era viver - se o que os outros fazem chamar viver -, mas expressar-me.
Como eu se fiz por si mesmo
A vida é muito estranha. Já gastei a minha cota de mulheres, já amei e desamei, fui amado e desamado, mas de repente um arroubo juvenil brota lá de dentro e eu me sinto tolo, núbil e apaixonado. Por nenhuma mulher em particular, mas por qualquer mulher - contanto que me olhe com uns olhos redondos de ternura, me fale com uma voz macia, pergunte se dormi bem, se me alimentei, se senti a falta dela. Arroubos. Sou um sujeito totalmente à margem do mercado amoroso. Uma carreira profissional estagnada, uma aparência física que não é das melhores, o desencanto da idade, a indiferença do mundo. Cultivo hábitos anti-sociais e saberes inúteis. Sou capaz de discorrer sobre um monte de bobagens, identifico árvores, pássaros, minérios. Cozinho razoavelmente. Consigo discutir durante cinco minutos com especialistas de qualquer área. No minuto seguinte constato que não me especializei em nenhuma delas. Li os clássicos, ouvi os clássicos, cito em mau latim, nada sei de grego. De tanto ouvir sobre viagens internacionais, viajei o mundo todo sem nunca ter ido a parte alguma, E as vezes que fui, acabei não indo: não encontrei o túmulo do herói, o café dos impressionistas, a casa onde morreu Balzac, a nascente do Nilo. Peguei o trem que não devia, o avião antecipado, o hotel do lado oposto, fui ao bar que já havia fechado. A mulher que eu amaria já havia partido, o irmão prometido morreu na guerra da Criméia, o amigo desejado ficou retido em Istambul, um furacão, uma avalanche, uma súbita queda de temperatura, uma mudança do fuso horário, um porre, um malestar passageiro, uma indiferença de caixa, a falta de um terno novo, o medo de se arriscar, não ouvir um conselho, ouvir um conselho, descartar um par de nove, insistir num casamento, alegar inidsposição, simular um orgasmo - e aqui vou eu nesta estrada às três da tarde, como poderia estar numa estrada de Cintra ou do Arizona, eu e minha circunstância imutável: existo - não sou.
Cemitério dos vivos
Eu sou dado ao maravilhoso, ao fantástico, ao hipersensível; nunca, por mais que quisesse, pude ter uma concepção mecânica, rígida, do Universo e de nós mesmos. No último, no fim do homem e do mundo, há mistérios e eu creio neles. Todas as prosápias sabichonas, todas as sentenças formais dos materialistas, e mesmo dos que não são, sobre as certezas da ciência, me fazem sorrir e creio que este meu sorriso não é falso, nem precipitado, ele vem de longas meditações e de alanceantes dúvidas.
Tutaméia
Para que referir tudo no narrar, por menos e menor? Aquêle encontro nosso se deu sem o razoável comum, sobrefalseado, como do que só em jornal e livro é que se lê. Mesmo o que estou contando, depois é que eu pude reunir relembrado e verdadeiramente entendido – porque, enquantoi coisa assim se ata, a gente sente mais é o que o corpo a próprio coração é: coração bem batendo. Do que o que: o real roda e põe diante. – “Essas são as horas da gente. As outras, de todo tempo, são as horas de todos” – me explicou o compadre meu Quelemém. Que fôsse como sendo o trivial do viver feito uma água, dentro dela se esteja, e que tudo ajunta e amortece – só rara vez se consegue subir com a cabeça fora dela, feito um milagre: peixinho pediu. Por quê? diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surprêsas. Amor dêsse, cresce primeiro; brota é depois. Muito falo, sei, caceteio. Mas porém é preciso. Pois então. Então, o senhor me responda: o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe? Mas o senhor calado convenha. Peço não ter resposta; que, senão, minha confusão aumenta. Sabe, uma vez: no Tamanduá-tão, no barulho da guera, eu vencendo, aí estremeci num relance claro de medo – mêdo só de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que eu mesmo; e, de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. Que eu de repende me perguntei, para não me responder: – “Você é o rei-dos-homens?...” Falei e ri. Rinchei, feito um cavalão bravo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam só o alto tremer da poeira. E mais não digo; chus! Nem o senhor, nem eu, ninguém sabe.
Cultura e valor
Nadas podes escrever sobre ti que seja mais verdadeiro do que tu próprio és: eis a diferença entre escrever sobre ti próprio e escrever sobre objectos externos. Cada um escreve sobre si próprio de acordo com a altura a que se encontra. Não te encontras sobre umas andas ou numa escada, mas sobre os teus pés descalços.
Experiência e pobreza
Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?
Montaigne
O que escrevo resulta de minhas faculdades naturais e não do que se adquire pelo estudo. E quem apontar algum erro atribuível à minha ignorância não fará grande descoberta, pois não posso dar a outrem garantias acerca do que escrevo, não estando sequer satisfeito comigo mesmo. Quem busque sabedoria, que a busque onde se aloja; não viso explicar ou elucidar as coisas que comento, mas tão-somente mostrar-me como sou
Do sentimento de não estar totalmente
Sempre serei criança para muitas coisas, mas dessas crianças que trazem em si o adulto desde o princípio, de maneira quando o monstrinho vira realmente adulto acontece que este por sua vez traz em si a criança, e nel mezzo del camin se dá uma coexistência poucas vezes pacífica de ao menos duas aberturas para o mundo. Muito do que escrevi se classifica sob o signo da excentricidade, porque nunca admiti uma clara diferença entre viver e escrever; se ao viver consigo disfarçar uma participação parcial das minhas circunstâncias, não posso porém negá-la no que escrevo porque escrevo precisamente por não estar ou por só estar pela metade. Escrevo por incapacidade, por descolocação; e como escrevo num interstício, estou sempre propondo que outros procurem os seus e por eles olhem o jardim onde as árvores têm frutos que são, naturalmente, pedras preciosas. O monstrinho continua firme.
Giovanni Rossi
Assim como do pensamento dos outros retiro os elementos que, somados às minhas observações, acabam por constituir minhas idéias, da consciência dos demais retiro boa parte daquilo que constitui meus sentimentos. Mas para os meus sentimentos e para minhas idéias, não temo a censura e nem desejo o louvor dos outros. Quando consigo constatar em mim mesmo que sentimentos e idéias se correspondem perfeitamente, a minha consciência vive modestamente convicta, mesmo que esteja em confronto com a consciência de toda a humanidade. Com esta convicção, não me importo que a chamem de ingênua, confio ao público beato e carola minhas confissões
Sobre um livro intitulado "Lolita"
Os professores de literatura têm o hábito de fazer perguntas do tipo: "Qual era o propósito do autor?", ou ainda pior: "O que é que esse sujeito está tentando dizer?". Ora, acontece que sou um desses autores que, ao iniciar um livro, não têm outro propósito senão o de livrar-se dele o mais rápido possível e que, ao serem chamados a explicar-lhe a origem e desenvolvimento, se vêem obrigados a recorrer a fórmulas cediças do gênero "interação entre a inspiração e a combinação" - o que, admito, é o mesmo que um mágico explicar um truque executando outro.
Vampiro de Curitiba
Basta seguir a mensagem universal dos três sinais: do olho esbugalhado para a linguinha pululante de lagartixa para a nota dobrada entre o indicador e o polegar
Catatau
abrindo um antigo caderno/ foi que eu descobri/ antigamente eu era eterno
Fantasma de caligem
Viver é uma cilada de enredos
O aprendiz de feiticeiro
Um cartaz luminoso ri no ar./ Ó noite, ó minha nega/ toda acesa/ de letreiros!... Pena/ é que a gente saiba ler... Senão/ tu serias de uma beleza única/ inteiramente feita/ para o amor dos nossos olhos
Poeta
Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu/ Espécie de um vazadouro para contradições/ Sabiá com trevas/ Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto
Lunático
Colheriam o olho imagens desnorteadas/ e lhe dariam um alucinar quase lúcido./ Falo como um cristal e suas faces./ Beber e beber luas internas// e a água-mãe alucinando os cálices
A meu esmo
mais nada/ a dizer: só o vício/ de roer os ossos/ do ofício// já nenhum estandarte/ à mão/ enfim a tripa feita/ coração// silêncio/ por dentro sol de graça/ o resto literatura/ às traças!
Novelha cozinha poética
Pegue uma fatia de Theodor Adorno/ Adicione uma posta de Paul Celan/ Limpe antes os laivos de forno crematório/ Até torná-la magra-enigmática/ Cozinhe em banho-maria/ Fogo bem baixo/ E depois leve ao Departamento de Letras/ Para o douto Professor dourar
Cacaso
Cartesiana: daquele amor que nunca tive tenho/ saudade ou esperança?
Poesia com brócoli
Lábios de Cereja organizava as sessões de orgasmo coletivo & crueldades cristalinas...
Um pé de milho
Como passam anos! Ultimamente têm passado muitos anos. Mas não falemos nisso
Abraçado ao meu rancor
Costumo dizer, em silêncio, para a minha cachorra Tatiana, companheira das minhas voltas à praia, que a coisa mais fina e bonita deste mundo é o vôo das gaivotas
Felicidade clandestina
Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo
Copacabana lua cheia
Que emoção espiritual resta para os habitantes de um super-gueto capitalista cujos olhos estão magnetizados pela excessiva presença de gigantescos televisores? A última emoção espiritual é a fascinação...
Salve! Grande Noel
É na esquina da vida/ que eu faço o confronto/ do malandro e do otário/ que nasceu para milionário
Reserva de alegria
Tenho muito respeito pela sua cultura/ Mas esta postura, meu rei, não é popular/ O conhecimento que provém da leitura/ Precisa da vida para se revelar...
oito e meio
"Temível não é a altura, mas o declive. O declive de onde o olhar se precipita para baixo e a mão se estende para cima. Ali o coração é tomado de vertigem ante a sua dupla vontade." Assim falou Zarathustra
HÂ
alguém que suporto - "um mestre de indignação... feito por um soldado convertido às letras", que poderia atirar um homem pela janela mas ser "terno como as plantas", dizer, "Meu Deus, as violetas!" (abaixo)."Realizado em todo estilo e matiz" - enquanto isso, considerando a infinidade e a eternidade, ele dizia apenas "falarei sobre elas quando compreendê-las" "a absorvente geometria da fantasia" paixão chinesa pelo particular.