8.4.13

... a palavra greve


[Greve, de Augusto de Campos | 1962]

[...]


Ao ser usada pelo dono da empresa ou pela autoridade governamental, adquire conotação diferente, especialmente disfórica, isto é negativa, daquela usada pelo funcionário ou pela população, que, neste caso, em geral, assume valor eufórico, ou seja, positivo. (Fiorin, 1988). Os meios de comunicação, especialmente a televisão, são a evidência desses significados: quem faz greve geralmente é visto como baderneiro, dificilmente como alguém que está reivindicando seus direitos, garantidos, inclusive, constitucionalmente.


[LUKIANCHUKI, Cláudia. Dialogismo: a linguagem verbal como exercício social. ECA-USP]

3.4.13

de la musique


[ABC, de Raimundo Fagner, 1976]


2.4.13

intervalo


[                            ]

poema in processo

28.3.13

descartes e o computador

 
Você pensa que existe,
ou sou eu quem logo
pensando que você pensa?
 

27.3.13

Bicicletai!

[André Dahmer]

Um dias desses, evidentemente, tudo há de dar certo, os automóveis se extinguirão e a superfície da terra será povoada apenas por bicicletas. Alguns carros, ônibus e caminhões serão expostos nos museus, feito mamutes, guilhotinas e outros monstros findos, para divertir a criançada e alertar os adultos: que o horror jamais se repita. Sobre selins acolchoados, seremos felizes para sempre.

É inegável a simpatia das bicicletas. Máquina desengonçada: se parada, destrambelha-se como um albatroz em terra, mas ao impulso dos pedais, projeta-se como uma flecha, esguia, impoluta e silenciosa. Bicicletas, ninguém pode negar, são irmãs dos guarda-chuvas, primas das girafas e parentes distantes dos abacaxis (não me peça para explicar, foi uma idéia que tive agora).

Durante todo o século XX, muitos artistas aproveitaram-se de seus encantos. É pedalando que vemos quase todo o tempo monsieur Hulot, personagem do filme Meu Tio, utopia lírica de Jacques Tati. Marceu Duchamp, depois haver exposto um mictório no museu, enfiou uma roda de bicicleta num banco de madeira e deixou as velhas noções sobre arte – literalmente – de pernas pro ar.

É impensável um facínora de bicicleta, inconcebível um ditador pedalando. As “máquinas da paz”, como as chamou Vinícius de Moraes, em sua Balada das meninas de bicicleta, são muito mais afeitas aos suaves cuidados das moças: “Bicicletai, meninada!/ Aos ventos do Arpoador/ Solta a flâmula agitada/Das cabeleiras em flor”.

As bicicletas são um indício de civilização. Recomendadas por ecologistas, urbanistas, cardiologistas e artistas, têm logo de entrar na agenda política. Ainda não vi nenhum candidato expor, no horário eleitoral, seu projeto nacional de bicicletização. Se aparecer algum, ganhará de imediato meu apoio.

Se Deus voltasse à Terra e dissesse, “Me mostrem aí o que vocês fizeram”, teríamos de levá-Lo imediatamente a Amsterdam, para um passeio ciclístico, em torno daqueles belíssimos canais. Ou então ao Rio de Janeiro. Pegaríamos Deus no Santos Dummont (vindo do céu, é de se supor que chegará de avião) e O colocaríamos na garupa. Cruzaríamos todo o aterro, pedalando sem pressa, sob o sol ameno das quatro e meia da tarde. Passaríamos pela estátua de Drummond em Copacabana, veríamos as garotas saírem do mar em Ipanema e terminaríamos o passeio no Leblon, com um mergulho no mar e um suco de melancia, no exato momento do sol se pôr. Se Deus tiver um pingo de sensibilidade, estaremos todos salvos.

[PRATA, Antonio. Meio intelectual, meio de esquerda. São Paulo: Ed. 34, 2010. p. 159-160]

24.3.13

Cris


Em abril de 1996 a imprensa internacional noticiou a morte aos 75 anos de idade de Christopher Robin Milne, eternizado no livro de seu pai, A. A. Milne, O Ursinho Puff, como Cris.

Eu, o Ursinho Puff, preciso de repente pensar em coisas muito difíceis pra minha pequena cabecinha. Nunca me importei com o que está lá fora do nosso jardim, onde morávamos eu, o porquinho Leitão, o coelho Abel e o burrinho Bisonho com nosso amigo Cris. Quer dizer, nós ainda moramos aqui e nada mudou e agorinha mesmo comi um pote de mel - o Cris só foi ali e já volta.

A Coruja diz que lá fora do nosso jardim começa o Tempo, e isso é um poço assim fundo pra caramba, e quando uma pessoa cai nele vai sumindo e sumindo lá pra baixo, até que ninguém sabe o que acontece com ela depois. Fiquei um pouco preocupado com o Cris, se não tinha caído lá dentro, mas ele voltou e aí eu perguntei sobre o tal poço. "Puff - ele disse - eu estava dentro dele e fui caindo, e caindo eu ia mudando, minhas pernas foram ficando compridas, fiquei grande, usava umas calças que iam até o chão e me cresceu barba, depois meus cabelos foram ficando brancos, fui me curvando, andei de bengala e aí eu morri. Com certeza foi tudo só um sonho, porque não parecia bem de verdade. De verdade pra mim sempre foi só você, Puff, e as nossas brincadeiras. Agora já não saio daqui pra lugar nenhum, mesmo se me chamarem pro lanche."



[MILOSZ, Czeslaw. Não mais. Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003. p. 109-111]

19.3.13

carros fora do centro


Espectadores.
O problema é que vocês não pensam nada.
Pedir-vos para pensar é como pedir a um pardal morto para cantar baixinho.
Perda de tempo.

[G M T | 2005]

18.3.13

cartografia


UM

Uma coisa é o mapa
outra: a cidade de carne e osso
com suas vias de sangue.



14.3.13

o turista infeliz


[...]

A homogeneização do mundo é o grande mal-estar de uma viagem – viajar sem sair de onde já se estava. A primeira etapa dessa homogeneização, trágica e espalhada em tudo, pois feita por baixo, começa pelo mundo físico: é tudo uma imundície. Andávamos por uma praia em Marajó. A maré estava baixa, linda, e ouvíamos sons assustadores vindos da mata. Caminhávamos sozinhos, sem guia. Temíamos vagamente pelas crianças (já enormes). Em suma: achávamos que desbravávamos algo, uma desajeitada família paulista abrindo sua picada particular em plena Amazônia. Por isso foi tão chocante, na curva seguinte, deparar com o mar de garrafas pet de 1 ou 2 litros e as milhares de latas de refrigerantes e os vasilhames de xampu e as carcaças dos eletrodomésticos mais diversos, numa quantidade digna das enchentes de São Paulo – como se fosse o pátio pantanoso de alguma Casas Bahia de pesadelo. Como chegaram lá? Pela maré? Um megashow escondido na mata? O lixo está em toda parte, verdadeiramente universal e democrático, unindo o país de alto a baixo. É dessa forma que o desastre urbano, sem descanso nem exceção, que assola o país há décadas e só piora e piora nas grandes cidades, parece repicar nas pequenas comunidades e nos rincões mais isolados, como que coado aos poucos. Se na década de 70 havia, em cada cidadezinha, um Banco do Brasil e uma Casas Pernambucanas, hoje há plástico (e, em menor quantidade, alumínio) boiando, misturado à areia, preso nas folhas, no alto de uma palmeira que já não há.

O lixo é exatamente isso: uma forma extrema do Mesmo. É a identidade pro-funda que une a metrópole de onde partimos ao ponto distante a que chegamos depois de horas e horas de viagem. A diferença é que nas grandes cidades, onde o ciclo da mercadoria é algo cotidiano, sua origem se mostra: nasceu ali mesmo. Nas localidades mais distantes, hipoteticamente poupadas do fluxo insano de tantos produtos, o lixo parece verdadeiramente caído do céu, como uma dádiva perversa. Entre raízes, caranguejos, lama sólida, à revelia de tudo e de todos, chegou ao fim de sua odisseia, naturalizando-se de vez. Foi quase com carinho que certa vez re-parei num fiapo de lata de Coca-Cola, fino como um pedaço de papel, preso à ponta do chifre de um búfalo. Parecia uma folha seca, mas com o logotipo fatal impresso.


 Nuno Ramos | Março de 2013


9.3.13

ao shopping center


 [Consumer Shopping Christ | Banksy]


Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.

De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.

Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus

nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liquidação.

[PAES, José Paulo. Os melhores poemas de José Paulo Paes / Seleção Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998. p. 197]


3.3.13

psicogeografia

[Maio de 68]

UM

De que vale uma cidade se a cada dez habitantes oito são LAMBE-BOTAS?


18.2.13

god loves rock and roll


[Ernest Pintoff, 1963]



[...]

AMÉRICA-1971. O cinema underground subindo abertamente à superfície. Porque o negócio pode dar dinheiro. Ideias hippies, em technicolor, para a classe média. "Easy Rider" provou isto e todo mundo embarcou na mesma jogada. E "Trash" está dando bilheteria de meses em N. York. No mais, foi lançado "Dynamite Chicken", um filme de sketches de Ernie Pintoff; um resumo da cultura pop, da última década. Alguns momentos excelentes, mas também muito lugar comum. "A Galinha Dinamite", uma nova definição para a América. E, aqui, uma conclusão: o verdadeiro cinema underground é o cinema do terceiro mundo. Realizado no peito e na raça.


[SANT'ANNA, Sérgio. América-América 1971. in: Palavras ao Sul - Seis escritores latino-americanos contemporâneos. Belo Horizonte: Autêntica; Faculdade de Letras da UFMG, 1999. p. 53-54]

14.2.13

indo bem, obbligatho


Difícil colher o sol na colher de chá.
Impossível agasalhar a lua com o cachecol.
Fritar uma nuvem na gordura vegetal,
nem pensar.

Bichx, a brasa morou,
e a geléia pasteurizaram.


12.2.13

improviso do amigo morto

[1893-1945]
[...]


Eu lhe confiava [carta a Mario de Andrade] as minhas dúvidas e preocupações literárias, com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte-pela-arte, e outros temas em moda na época. Com sua paciência apostolar, ele me respondia longa e minuciosamente, procurando me orientar no cipoal de minhas contradições:

Não se esqueça por favor que você é um ancião de quinhentos anos no vício de uma ideologia. Pra abrir caminho, pra se justificar diante de si mesmo, diante da vida e de Deus, você tem de abrir é estrada larga, franca. E no seu caso, o seu maior perigo é ser si mesmo. A tal de "sinceridade" que você invoca é o seu maior perigo. E que sinceridade se você não é você! A sua sinceridade por enquanto é sua espontaneidade. E a sua espontaneidade são dez milhões de anos de crimes humanos, dois mil anos de traição ao Cristo, duzentos anos de burguesia capitalista, vinte e um anos de aluno de escola e professores que ensinaram de acordo com tudo isso. Isso é a sua "sinceridade". Porque até agora escolheram por você. Agora é que você vai escolher.

[F. S. Gente I | 1975 p. 95-96]

9.2.13

UM GUIA DO MÊS DE JUNHO PARA JOVENS


Quando seu dia começa com a consciência nítida da própria morte
inspirada por um tema de televisão com o qual
acordou na cabeça

e quando no trabalho você só consegue produzir longas listas
de perguntas,
perguntas boas, perguntas inteligentes, páginas
de perguntas
irrespondíveis se alastrando como uma árvore genealógica

e quando no almoço você dirige pela cidade e desconhecidos
acenam de vitrines onde penduram bandeiras

e quando a noite é úmida demais para que apaixonados se deitem juntos
mas o fazem mesmo assim e depois se arrependem da excitação
nos lençóis grudentos

e quando, e especialmente quando, seu amor sai
e você fica acordado por uma hora coçando picadas de mosquito
nas coxas

e quando o bairro está tenso pelo que aconteceu com aquela
menininha, tão tenso que uma porta batendo dispara alarmes de carro e
atiça os animais

e quando num domingo senhores de idade são vistos chorando no boteco da esquina
porque perderam contato com os filhos ou porque seus filhos
batem nos filhos e é Dia dos Pais

e quando o calor é excessivo para certos passarinhos que simplesmente caem
do céu

tenha paciência.


[Matthew Rohrer]

4.2.13

atenção


tensão na cidade
veículos em alta velocidade



2.2.13

rastafari



uma cerveja antes do almoço
é muito bom pra ficar pensando melhor


[Chico Science & Nação Zumbi]



você está em casa. não faz nada. aparentemente nada. mas você escuta música. e aí, com a cachola na cachola, você se pergunta: 
"ouvir música seria uma forma de fazer não fazendo nada?"


1.2.13

poesias reunidas

[Carybé]

SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suava júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
- Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso.

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.

A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-as com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
- A profunda, a silenciosa alegria...



[Carnaval 
 Manuel Bandeira, 1924]

 

30.1.13

cut killer


[La haine, de Mathieu Kassovitz, 1995]

28.1.13

bartleby


II

Uma grande questão que me importuna é saber em qual quarto-escritório-biblioteca viver o resto dos anos. E transformar o inútil em útil, a vontade em ética, mesmo preferindo não fazê-los.



24.1.13

hein, hein?

[Justine Beckett, s/d]

**

Quem se lembra deste personagem: o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa?


23.1.13

10 doencinhas básicas da poesia brasileira

[Catarina Correia Marques, s/d]
  1. Livros de poesia são publicados antes dos poemas serem escritos;
  2. Os medíocres morrem de medo de plágio;
  3. Os palermas, epígonos & tietes são os primeiros que desistem de afundar navios;
  4. Os imbecis perderam a humildade;
  5. Apenas ouvir Caetano, Chico & Gil gera, num passe de mágica, poetas geniais;
  6. Ler não é um bom negócio;
  7. Por aqui não se entende nem o slogan dos grevistas da Lip: Produire autre chose, autrement; nem os versos de Ferlinghetti: Poets, come out of your closets, / Open your windows, open your doors, / You have been holed-up too long / in your closed worlds; nem a prosa de Roberto Bolaño: La vida hay que vivirla, en eso consiste todo. Me lo dijo un teporocho que me encontré el otro día al salir del bar La Mala Senda. La literatura no vale nada.;
  8. Continuam quase todos sentados na carteira da frente, de pau mole, treinando caligrafia com seus bonés bicolores com hélices amarelas & morrendo de medo de arruaça;
  9. Ninguém mais cultiva a própria vaia, é um país de “poetas” sérios;
  10.  Querem (& estão conseguindo) encarcerar a poesia nos calabouços da cultura hagiográfica & acreditam piamente que um poema precisa pagar um boquete para bibliografias.

*

p.s.: a poesia de verdade, sangrenta, caminha pelas ruas, ouvindo Raimundo Soldado no mp3 player, tostando um baurets, comendo um PF no centro da cidade enquanto o sol alarga os planos de fuga. A poesia dá uma fodidinha aqui & ali – e pensa: antes uma gonorreia que versinho sorridente. A poesia toca o terror! A poesia é um coquetel molotov! A poesia quer é mais, bróder!

[Fabiano Calixto]

22.1.13

bla bla bla eu ti amu


1

"as mulheres como os deuses: 
nunca se cansam do amor."



18.1.13

pickpocket

[Robert Bresson, 1959]

10.1.13

de la musique


[Head Hunters - Herbie Hancock, 1973]



[...]


Só se escreve lendo...: paradoxo cuja digna contrapartida reside no próprio ato da escritura, que parece ter sido inventado para dar um exemplo perfeito da noção de impossibilidade. Pois a escritura não conhece um "antes", ela não é a expressão de um pensamento prévio; mas então, que é que se escreve?

O "mistério nas letras" tem sido isto de atraente: tornar-se mais espesso à medida que se tenta dissipá-lo.


[T. T.]

7.1.13

bartleby

[bacon]
 
I

estive pensando na construção de um personagem pitoresco. passei horas sem contar carneirinho tentando defini-lo. estudando-o. a conclusão é de que cheguei a dois fatores: a) dormir é a chama de seu caráter; b) fisicamente falando, se assemelha a um odradek pé de pano e tem sangue de coca-cola, tá sabendo?


2.1.13

brincando de escrever



[...]

Sim: é preciso escrever um artigo sério sobre o livro [Tao Te Ching]. Mas não está dando pé, amizade, com o sol que brilha lá fora e a brisa que agita os cabelos da morena. Estou aqui (pois EU SOU), sentado diante da minha máquina de escrever, tentando me concentrar num assunto sério ou profundo ou novo ou de interesse geral etc. e minha imaginação teima em fugir para a praia, especulando sobre a cor do mar neste dia particular e irrepetível, a posição do sol sobre as montanhas e outras distrações sem importância. Um ônibus passa; Roberto Carlos canta no rádio do vizinho; a brisa balança as cortinas; há um cheiro fresco de poluição nova no ar; há uma árvore cujos galhos também dançam... Não dá pé: esse artigo sério vai ter de esperar.

 [MACIEL, Luis Carlos. Nova consciência: jornalismo contracultural - 1970/72. Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca Ltda, 1973. p. 233-34]

21.12.12

autorretrato

 
Considerad, muchachos,
Esta lengua roída por el câncer:
Soy profesor en un liceo obscuro,
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales.)
Qué os parece mi cara abofeteada?
Verdad que inspira lástima mirarme!
Y qué decís de esta nariz prodrida
Por la cal de la tiza degradante.

En materia de ojos, a tres metros
No reconozco ni a mi propia madre.
Qué me sucede? - Nada.
Me los he arruinado haciendo clases:
La mala luz, el sol,
La venenosa luna miserable.
Y todo para qué,
Para ganar un pan imperdonable
Duro como la cara del burgués
Y con sabor y con olor a sangre.
Para qué hemos nacido como hombres
Si nos dan una muerte de animales!

Por el exceso de trabajo, a veces
Veo formas extrañas en el aire,
Oigo carreras locas,
Risas, conversaciones criminales.
Observad estas manos
Y estas mejillas blancas de cadáver,
Estos escasos pelos que me quedan,
Estas negras arrugas infernales!

Sin embargo yo fui tal como ustedes,
Joven, lleno de bellos ideales,
Soñé fundiendo el cobre
Y limando las caras del diamante:
Aquí me tienen hoy
Detrás de este mesón inconfortable
Embrutecido por el sonsonete
De las quinientas horas semanales.



[PARRA, Nicanor. Poemas ilustrados. Santiago: Amanuta, 2012]

11.12.12

pensamento nômade


[...]

Eu digo a mim mesmo: quem é hoje em dia o jovem nietzscheano? Será aquele que prepara um trabalho sobre Niezstche? É possível. Ou então é aquele que, voluntária ou involuntariamente, pouco importa, produz enunciados particularmente nietzscheanos no decorrer de uma ação, de uma paixão, de uma experiência?

[...]

Conhecemos os grandes instrumentos de codificação. As sociedades não variam tanto, não dispõem de tantos meios de codificação. Conhecemos três principais: a lei, o contrato e a instituição. Nós os reencontramos muito bem, por exemplo, na relação que os homens mantêm ou mantiveram com os livros. Existem livros da lei, nos quais a relação leitor com o livro passa pela lei. Aliás, nós os denominamos mais particularmente códigos, ou livros sagrados. Em seguida há uma outra espécie de livros que passam pelo contrato, a relação contratual burguesa. É esta a base da literatura leiga e da relação de venda do livro: eu compro, você me dá o que ler - uma relação contratual na qual todos, autor, leitor, estão presos.

[Gilles Deleuze]

8.12.12

más companhias


mamãe dizia
meu filho
não ande
com más companhias

a anarquia a maconha

o ácido
eram más companhias


& aquele mar da bahia
(onde o mar maresia)


andar com joyce
debaixo do braço


& fazer
poesiaemgreveqorpoestranhomuda
alegria
dor
& fantasia


& naquele tempo
a democracia
era má companhia


(& hoje ainda
parece ambrosia)


rimas
são más companhias


climas e céus experimentados

 

estar vivo
era estar mal acompanhado


horas & horas
aéreo & avoado
motivo de escárnio
para os alinhados


a vida mesma
era má companhia
estar morto & só
era o que eu podia


a cibalenaspirina
o barbitúrico
diempax
que vicia
é má companhia


& o poder
(o rei passou
& com ele a companhia)


os mass media


& este mundo

da tecnologia


& a fantasia
poder pensar o dia
a dia?
& combater a preguiça & a entropia
da língua
quem paga o preço
& não xinga?

 

& certa verdade
é má companhia


& a princesa
beijou
o trovador que dormia
a corte se escandalizou
ela explicou
não beijei o homem
mas a boca
de onde sai tal poesia


& a rebeldia
fala plena da adolescência
fala vazia


múmias
ímãs
são más companhias


& a cara-metade
& uma lírica
de rostinho colado
à realidade


de pura autoria


com quem se convive
é má companhia



[BONVICINO, Régis. Más companhias. Poesia 1983-1986. São Paulo: Editora Olavobrás, 1987]

25.11.12

o bibliófago

[Adam McCaule]


[...]

"Ele pede desculpas pelo tempo que gasta dormindo, igual ao comum dos mortais."

[CANETTI, Elias. O todo-ouvidos: cinquenta caracteres. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. p. 83]

24.11.12

cultura e política, 1964-1969

[Fragmentos de dois escritores, de João Bethencourt]

[...]

Um caso interessante de adesão artística à ditadura é o Nelson Rodrigues, um dramaturgo de grande reputação. Desde meados de 68 este escritor escreve diariamente uma crônica em dois grandes jornais de São Paulo e Rio, em que ataca o
clero avançado, o movimento estudantil e a intelectualidade de esquerda. Vale a pena mencioná-lo, pois tendo recursos literários e uma certa audácia moral, paga integral e explicitamente - em abjeção - o preço que hoje o capital cobra de seus lacaios literários. Quando começou a série, é fato que produzia suspense na cidade: qual a canalhice que Nelson Rodrigues teria inventado para esta tarde? Seu recurso principal é a estilização da calúnia. Por exemplo, vai a meia-noite a um terreno baldio, ao encontro de uma cabra e de um padre de esquerda, o qual nesta oportunidade lhe revela as razões verdadeiras e inconfessáveis de sua participação política; e conta-lhe também que D. Helder suporta mal o inalcançável prestígio de Cristo. Noutra crônica, afirma de um desconhecido adversário católico da ditadura, que não pode tirar o sapato. Por quê? Porque apareceria o seu pé de cabra. Etc. A finalidade cafageste da fabulação não é escondida, pelo contrário, é nela que está a comicidade do recurso. Entretanto, se é transformada em método e voltada sempre contra os mesmos adversários - contra os quais a polícia também investe - a imaginação abertamente mentirosa e mal-intencionada deixa de ser uma blague, e opera a liquidação, o suicídio da literatura: como ninguém acredita nas razões da direita, mesmo estando com ela, é desnecessário argumentar e convencer. Há uma certa adequação formal, há verdade sociológica nesta malversação de recursos literários: ela registra, com vivacidade, o vale-tudo em que entrou a ordem burguesa no Brasil.

[SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. p. 91]


11.11.12

de la musique


Nação Zumbi
No Olimpo, 2007

**
Mangue - A cena

[...]


Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em: quadrinhos, tv interativa, anti-psiquiatra, Bezerra da Silva, Hip Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não-virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência.

por Zero Quatro

10.11.12

arqueologia do saber


[...]

Mais de um, como eu sem dúvida, escreveu para não ter fisionomia.
Não me pergunte quem sou eu e não me diga para permanecer o mesmo: é uma moral de estado civil; ela rege nossos papéis. Que ela nos deixe livres quando se trata de escrever.


[Michel Foucault]

7.11.12

questões existenciais


UM


Cê quer saber o jeito qu’eu como a minha mina? Não dá pra fazer uma abstração da coisa, maninho.
Melhor eu te perguntar: Cê estaria afim de saber como é transar com meu pau?


6.11.12

epígrafe

[the heads of state]

A literatura faz os homens mais sensíveis e estimula sua imaginação. E homens com sensibilidade e imaginação são difíceis de se explorar, de se reprimir. Essa é a grande função da literatura: criar gente inconformada com a realidade.

[Mário Vargas Llosa]

29.10.12

cabecita sin cerebro

[1900 - 1970]

Es una bici robada y sacudida por el viento
un niño está encima pedalea llorando
un buen hombre tras él lo persigue a los gritos
Y el guardabarrera agita su bandera
el niño pasa igual
el tren pasa sobre él
y el buen hombre llega recupera el aliento
contempla su chatarra
y no cree en sus ojos
Las dos ruedas están torcidas
el manubrio falseado
los hierros todos rotos
el farol hecho trizas
y la bujía hecha añicos
Y mi medalla de San Cristóbal
dónde fue a parar
verdaderamente ya no hay más niños
no se sabe ya a qué santo encomendarse
no se sabe qué decir
no se sabe cómo va a terminar todo esto
no se sabe dónde está uno
verdaderamente

Qué banda de ignorantes
dice el guardabarreras llorando.

[PRÉVERT, Jacques. La lluvia y el sol. Schapire Editor: Uruguay, 1974. p. 124-125]


28.10.12

da contemporaneidade

[...]

Dizem que o silêncio é uma prece. Quanto engano. O silêncio é só o começo do papo. O silêncio é, dependendo da situação, uma negativa ou uma aceitação"

[FERRÉZ. Os inimigos não mandam flores. São Paulo: Pixel, 2006. Textos em quadrinhos]