15.8.13

o que é...

 

[...]

a lei é injusta quando discrimina um grupo minoritário, embora possa até ter sido votada pela maioria. Tal fato não elimina a discriminação por qualquer motivo: raça, religião, cultura, idade, sexo, etc. A lei é injusta quando se impõe a pessoas sem direito a voto. Estas pessoas devem obedecê-la, mas não participaram da elaboração da lei e, muito menos, tiveram condições de votá-la, conforme acontece com os analfabetos, etc. A lei é injusta quando uma minoria a torna obrigatória para a maioria, que não foi consultada, nem lhe deu pelo voto autorização para existir. [...] A lei é injusta quando votada por falsa maioria, que só aparenta representar a maior parte dos indivíduos, devido a jogadas feitas durante as eleições. A lei é injusta quando submete uma infinidade de pessoas a viverem miseravelmente. A lei é injusta quando permite que um país pressione de qualquer modo ou ataque militarmente, ou apenas ocupe outro país, outra região, sem consentimento de seus próprios habitantes.

- Evaldo Vieira -

14.8.13

12.8.13

vinagre: uma antologia de poetas neobarracos


Só quando os homens se reúnem em praça pública há política, que é um acontecimento. Negociação de engravatados em gabinete é polícia (administração, gerência). Política é outra coisa, é gente OCUPANDO a rua. Toda a política é ocupação. Ocupação que não leva a uma estabilidade. A posse contra a propriedade.

Alexandre Nodari

Por uma poética de trincheiras & quebradas: nós, Os Vândalos, apresentamos a coletânea Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos. Feita por todos. Este trabalho é um trabalho coletivo. A ideia inicial nasceu como gesto público de solidariedade a todos os movimentos de contestação que acontecem simultaneamente no Brasil (& também no mundo). Chamados de vândalos pela imprensa vendida, presos pela polícia por causa do vinagre que portávamos, estamos todos na batalha, na rua. Ação direta. Solidariedade & apoio mútuo.
Esta antologia é dedicada a todas as pessoas que participam de alguma maneira desse movimento de mudança. Até a vitória!


- Os Vândalos -


11.8.13

chopin na cadeira elétrica


[Bad Brains - Live at CBGB | 1982]


10.8.13

inss


Sonhou tanto, 
mas tanto que, 
ao acordar, 
viu-se aposentado.


9.8.13

do diário do senhor G.


Têm uns sujeitos teimosos cheios de ideias fixas que por mãe. O difícil é se ver livre dos diabos e suas malas de objetivos.


8.8.13

buba


[...]

Rapaz, se você não tiver nada melhor que fazer e os problemas estiverem te matando, consulte as putas.

- Bolaño -


7.8.13

sobre o capitalismo e o desejo

[Deleuze & Guattari | 1973]

[...] 

Tudo é irracional no capitalismo, exceto o capital ou o capitalismo.
 
[...] 

O dinheiro, o capital-dinheiro, é um pouco de demência tal que só teria em psiquiatria um equivalente: aquilo a que se chama o estado terminal. É muito complicado, mas farei uma observação de detalhe. Há exploração nas outras sociedades, há também escandá-los e segredos, mas isso faz parte do código, há mesmo códigos explicitamente secretos. No capitalismo, é muito diferente: não há nada secreto, pelo menos em princípio e segundo o código (eis porque o capitalismo é “democrático” e se reclama da “publicidade”, mesmo no sentido jurídico). E contudo nada é confessável. É a própria legalidade que não é confessável. Por oposição às outras sociedades, é ao mesmo tempo o regime do público e do inconfessável. É próprio do regime do dinheiro um delírio muito particular. Veja-se aquilo que atualmente se chamam “escândalos”: os jornais falam muito deles, toda a gente faz questão de se defender ou de atacar, mas é em vão que se procura o que têm de ilegal, tendo em conta o regime capitalista. A folha de impostos de Chaban, as operações imobiliárias, os grupos de pressão e em geral os mecanismos econômicos e financeiros. Sem necessidade de publicar o privado, contenar-se-ia em fazer confessar o que é público. Encontrar-nos-íamos numa demência sem qualquer equivalente nos hospitais. Em vez disso, falam-nos “de ideologia”. Mas a ideologia não tem importância alguma: o que conta não é a ideologia, nem sequer a distinção ou a oposição “econômico-ideológico”, é a organização de poder. Porque a organização de poder é a maneira como o desejo já está no econômico, como a libido investe no econômico, assedia o econômico e alimenta as formas políticas de repressão.
 
[...] 

Não há ideologia, há tão-somente organização de poder, uma vez dito que a organização de poder é a unidade do desejo e da infra-estrutura econômica. Observem-se dois exemplos. O ensino: em Maio de 68, os esquerdistas perderam imenso tempo por pretenderem que os
professores fizessem a sua auto-crítica como agentes da ideologia burguesa. É estúpido e deleita as pulsões masoquistas dos professores. A luta contra os concursos foi abandonada em proveito da querela ou da grande confissão pública anti-ideológica. Durante esse tempo, os professores reorganizaram sem dificuldade seu poder. O problema do ensino não é um problema ideológico, mas um problema de organização de poder: é a especificidade do poder docente que aparece como uma ideologia, mas é uma pura ilusão. Dos anarquistas aos maoístas, o leque é muito grande, tanto político como analítico. Sem contar, fora da reduzida franja dos grupúsculos, com a masse de pessoas que não sabem muito bem como se determinar entre o impulso esquerdista, a atração da ação sindical, a revolta, a expectativa ou o desinteresse... seria preciso descrever o papel dessas máquinas de esmagar o desejo que os grupúsculos são, esse trabalho de mó e de crivo. É um dilema: ser destruído pelo sistema social ou integrar-se no quadro pré-estabelecido dessas igrejinhas. Nesse sentido, Maio de 68 foi uma revelação surpreendente. A potência desejante atingiu uma tal aceleração que fez explodir os grupúsculos. Estes restauraram-se em seguida e participaram no restabelecimento da ordem com as outras forças repressivas, CGT, PC, CRS (Polícia de choque francesa) ou Edgar Faure. Não digo isto por provocação. Certamente, os militantes se bateram corajosamente contra a polícia. Mas se deixarmos a esfera da luta de interesse para considerar a função do desejo, é preciso reconhecer que o enquadramento de certos grupúsculos abordava a juventude num espírito de repressão: conter o desejo liberto para o canalizar.
 
[...] 

Encontramos sempre o velho esquema: o destaque de uma pseudo vanguarda apta a operar as sínteses, a formar um partido como um embrião de aparelho de Estado; extração de uma classe operária bem ensinada, bem educada; e o resto é um resíduo, lumpenproletariado de que é sempre preciso desconfiar (sempre a velha condenação de desejo). Mas mesmo estas distinções são uma maneira de aprisionar o desejo em benefício de uma casta burocrática. Foucault reage denunciando o terceiro, dizendo que, se houver justiça popular, não passa por um tribunal. Mostra bem como a distinção “vanguarda/proletariado/plebe não-proletarizada” é em primeiro lugar uma distinção que a burguesia introduz nas massas, e de que se serve para esmagar os fenômenos de desejo, para marginalizar o desejo. A questão toda está no aparelho de Estado. Seria bizarro contar com um partido ou com um aparelho de Estado para libertar os desejos. Reclamar uma justiça melhor é como reclamar bons juízes, bons policiais, bons patrões... etc. Aqui dizem-nos: como querem unificar as lutas pontuais sem um partido? Como fazer a máquina funcionar sem um aparelho de Estado? Que a revolução tenha necessidade de uma máquina de guerra é evidente, mas isso não é um aparelho de Estado. Que tenha também necessidade de uma instância de análise, análise dos desejos de massas, está certo, mas isso não é um aparelho exterior de síntese. Desejo liberto quer dizer que o desejo sai do impasse do fantasma individual privado: não se trata de adaptar, de o socializar, de o disciplinar, mas de o ligar de tal maneira que o seu processo não seja interrompido num corpo social, e que produza enunciações coletivas. O que vale não é uma unificação autoritária, mas antes uma espécie de enxameação ao infinito: os desejos nas escolas, nas fábricas, nos quartéis, nas creches, nas prisões etc. Não se trata de sobrepor-se, de totalizar, mas de se ramificar num mesmo plano de báscula. Enquanto se permanecer numa alternativa entre o espontaneísmo impotente de anarquia e a codificação burocrática e hierárquica de uma organização de partido, não há libertação de desejo.
 
[...] 

... será que o capitalismo foi revolucionário nos seus primórdios, será que a revolução industrial coincidiu sempre com uma revolução social? – Não, não me parece. O capitalismo, desde o seu nascimento, esteve ligado a uma repressão selvagem, teve imediatamente a sua organização de poder e o seu aparelho de Estado. Que o capitalismo tenha implicado a dissolução dos códigos e dos poderes sociais precedentes é certo. Mas, nas fendas dos regimes precedentes, ele tinha já estabelecido as engrenagens do seu poder, inclusive do seu poder de Estado. É sempre assim: as coisas não são tão progressivas; antes mesmo que uma formação social se estabeleça, os seus instrumentos de exploração e repressão já lá estão, girando ainda no vazio, mas prontos para trabalhar plenamente.
 
[...]

... A burguesia impõe um novo código, econômico e político; pode-se pensar que ela foi revolucionária. Nada disso. [...] A burguesia nunca se enganou quanto ao seu verdadeiro inimigo. O seu verdadeiro inimigo não era o sistema precedente, mas aquilo que escapava ao controle do sistema precedente, e que ela tinha por objetivo dominar por sua vez. Ela própria devia o seu poder à ruína do antigo sistema; mas só podia exercer esse poder desde que tomasse como inimigo todos os revolucionários do antigo sistema. A burguesia nunca foi revolucionária. Ela mandou que fizessem a revolução. Ela manipulou, canalizou, reprimiu uma enorme pulsão do desejo popular. As pessoas foram deixar-se matar em Valmy.
 

[...] 

... dilema muito simples: ou se chega a um novo tipo de estruturas que conduzam finalmente à fusão do desejo coletivo e da organização revolucionária; ou se continua no impulso presente e, de repressões em repressões, caminharemos para um fascismo ao pé do qual Hitler e Mussolini parecerão uma brincadeira.
 
[...] 

...: a organização revolucionária deve ser a de uma máquina de guerra e não a de um aparelho de Estado, a de um analisador de desejo e não a de uma síntese exterior.
 
[...] 

Actuel. – Será possível estabelecer um paralelo com os movimentos contemporâneos: as comunidades e os caminhos para fugir à fábrica e ao escritório? E haverá um papa para os enganar? Jesus-revolução?
Félix Guattari. – Não é inconcebível uma recuperação por meio do cristianismo. É até certo ponto uma realidade nos Estados Unidos, mas muito menos na Europa ou na França. Mas há já vista uma nova fase latente sob a forma de tendência naturista, a ideia de que seria possível retirar-se da produção e reconstituir uma pequena sociedade à parte, como se não estivesse marcado e fechado pelo sistema do capitalismo.
 
[...] 

Há uma tecnocracia da Igreja.
 
[...] 

A psicanálise: funciona ao ar livre, mas é ainda pior, muito mais perigosa como força repressiva.
 
[...] 

A resistência nada significa para o médico, mas renascimento entra no esquema universal, arquétipo: “Você quer renascer”. O médico reencontra-se aí: finalmente, o seu circuito. E força-a a falar do seu pai e da sua mãe.
 
[...] 

Delírio do campo social.
 
[...] 

Está no nível da tarefa repressiva do juiz de Ângela Davis que assegurava: “O seu comportamento só se explica por ela estar apaixonada”. E se, ao contrário, a libido de Ângela Davis fosse uma libido social revolucionária? E se ela estivesse apaixonada por ser revolucionária?
 
[...] 

Certa geração começa a estar farta dos esquemas que servem pra tudo – Édipo e castração, imaginário-simbólico –, que apagam sistematicamente o conteúdo social, político e cultural de toda a perturbação psíquica.
Actuel. – Vocês associam a esquizofrenia ao capitalismo, é mesmo este o fundamento do vosso livro. Há casos de esquizofrenia em outras sociedades?
Félix Guattarri. – A esquizofrenia é indissociável do sistema capitalista, ele próprio concebido como uma primeira fuga: uma doença exclusiva. Nas outras sociedades, a fuga e a marginalidade assumem outros aspectos. O indivíduo a-social das chamadas sociedades primitivas não é internado. A prisão e o asilo são noções recentes. Ele é expulso, exila-se para o limite da aldeia e aí morre, a menos que vá se integrar numa aldeia vizinha. Cada sistema tem, aliás, a sua doença particular: o histérico das chamadas sociedades primitivas, as manias depressivas-paranóicas no Grande Império... A economia capitalista procede por descodificação e desterritorialização: tem os seus doentes extremos, isto é, os esquizofrênicos, que, no limite, se descodificam e desterritorializam, mas tem também as suas consequências extremas, os revolucionários. 


[DELEUZE, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006. p. 331-343]

ao modo de outros países


5.8.13

das irrazões

[roland topor]

parte
II

Quando os reaças discursam
pensando que não são reaças.


4.8.13

mafalda

[Tiras de Quino]


1.8.13

papéis amassados


[...]

Efetivamente, ao fixar as cenas de leitura, a literatura individualiza e designa aquele que lê, faz com que ele seja visto num contexto preciso, nomeia-o. E o nome próprio é um acontecimento, porque o leitor tende a ser anônimo e invisível. De repente o nome associado à leitura remete à citação, à tradução, à cópia, às diferentes maneiras de escrever uma leitura, de tornar visível que se leu (o crítico seria, nesse sentido, a figuração oficial desse tipo de leitor, mas evidentemente não o único nem o mais interessante). Trata-se de um tráfico paralelo ao das citações: uma figura é nomeada, ou melhor, é citada. Faz-se ver uma situação de leitura, com suas relações de propriedade e seus modos de apropriação.

[...]

A literatura faz isso: dá ao leitor um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica.
A pergunta "o que é um leitor?" é, sem sombra de dúvida, a pergunta da literatura.


- Ricardo Piglia | O último leitor -


25.7.13

civilización


[Léon Ferrari | 1920 - 2013]

**

Sinopsis: En 1965, León Ferrari presentó una figura de Cristo crucificado sobre las alas de un avión de guerra estadounidense bajo el título "La Civilización Occidental y Cristiana", y fue un punto de inflexión en el arte argentino, además de que la personalidad y la obra del artista argentino quedarían fuertemente asociadas a la crítica radical de ciertas ideologías.


24.7.13

porque ler os clássicos

[...]

Meu amor.
Hoje, acordei encapetado. E me ganiu, profunda, alta, uma vontade de brigar contigo, te chutar a barriga, sua marafona engalicada! Vontade, não: gana. Urrar e vomitar sobre você. Você e tu. Mijar na tua cabeça, tronco e membros, te socar contra a parede, te fazer sangue. Ao te beijar ficou perdido de amor é o cacete. Pelas manhãs tu és a vida a cantar é uma pinoia, uma ova, uma bosta. A tua cara decadentosa parece o mapa do Chile, estrepe velho, tralha, cadela arrombada, esmerdeada, meu horror.
Mas é para ser entendida só por aqueles que não tiveram dinheiro nem para comer um prato feito. E, isto sim, é a pior das sacanagens.
E eu te bato porque te amo.
 

20.7.13

experiência do pico


[...]

No começo dos anos 1960, era óbvio que a maior parte dos nossos problemas era causada pelo tédio e pela frustração, e que o alcoolismo, o abuso de drogas, a violência no futebol, o vandalismo e os crimes sexuais não passavam de uma busca desajeitada por essas experiências de pico.

[...]

Pensar e falar sobre a felicidade cria um estado de espírito otimista. Você tem a sensação de que o homem foi feito para ser feliz. O filósofo Epicteto fez uma observação interessante: O homem não se preocupa tanto com os problemas reais quanto se preocupa com a ansiedade imaginária a respeito de problemas reais. Quer dizer, temos a tendência de encalhar em um estado mental negativo. É por isso que as pessoas felizes têm mais experiências de pico: elas não passam o tempo todo se preocupando com coisas que nunca vão acontecer.

- c. w. -

18.7.13

obituário


ou da pixologia

Tenho dois canivetes
+ um spray na mochila
Não costumo ser solene pros muros e pneus.



15.7.13

a eskritura


O calendário do tempo;
a geografia da floresta.


6.7.13

la película



[Mafalda | Basada en los argumentos y personajes de Quino | Libro Cinematográfico Alberto Cabado | Director de animación Catú | 1982]


3.7.13

reticências


dos instantes nos quais,
sem estar drogado,
nem bêbado,
nem em extâse,
não se sente nada.


28.6.13

bosque do papa



Meu amor, vamos ao parque
ver a ronda pulicial
entre flores e algodão doce.



26.6.13

ônibus sem catracas


o louco dos livros


[...]


Uma fotografia tirada em 1940, durante o bombardeio de Londres na Segunda Guerra Mundial, mostra os restos de uma biblioteca desmoronada. Pelo teto destruído veem-se prédios fantasmagóricos do lado de fora, e, no centro da peça, há uma pilha de vigas e móveis em pedaços. Mas as estantes na parede ficaram firmes e os livros parecem inteiros. Três homens encontram-se no meio dos destroços: um, como se hesitasse sobre qual livro escolher, está aparentemente lendo os títulos nas lombadas; outro, de óculos, está pegando um volume; o terceiro está lendo, segurando um livro aberto nas mãos. Eles não estão dando as costas para a guerra, nem ignorando a destruição. Não estão escolhendo os livros em vez da vida lá fora. Estão tentando persistir contra as adversidades óbvias; estão afirmando um direito comum de perguntar; estão tentando encontrar uma vez mais - entre as ruínas, no reconhecimento surpreendente que a leitura às vezes concede - uma compreensão.

[MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura; Tradução Pedro M. Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997]


25.6.13

como tudo pode não levar a nada


O mais perigoso no capitalismo, conforme o filósofo esloveno Slavoy Zizek, é que sustenta uma constelação ideológica, privando a maior parte do povo de qualquer mapeamento cognitivo significativo. O capitalismo é a primeira ordem socioeconômica que destotaliza o significado.

Estamos assistindo in loco a exata constatação disso, como uma manifestação social, articulada e legítima, tornou-se um mero passeio cívico – o caráter de ameaça foi isolado e em seu lugar foi posto o da participação. A mídia oficial provou que a melhor maneira de boicotar não é proibir, mas impor. Todo e qualquer cidadão preocupado em melhorar o Brasil que levasse sua indignação para a rua em uma cartolina (compondo assim esta constelação ideológica). Não à toa esta “coqueluche” tem sido vinculada ao movimento “cara pintada”, arquitetado coreograficamente para desempenhar um dos paradoxos da liberdade na democracia burguesa: travestir de iniciativa própria o que é previamente roteirizado.

Para tanto, a polícia até auxilia, formando um cercado tranquilo e aconchegante para que as pessoas se emocionem e rebolem com os versos do hino nacional. Na verdade, o que está em jogo, como acontece nas eleições (cinicamente chamada de “festa da democracia”), é uma renovação de votos com a sociedade liberal burguesa.

Em muitos momentos parecia até mesmo que a maior preocupação dos manifestantes era identificar os “vândalos” e “baderneiros”, combinando inclusive pelas redes sociais em “facilitar a ação da polícia”. Cabe então a pergunta: estas manifestações são pacíficas ou passivas?

P. J.

pedagogia do oprimido


[...]

Como poderiam os oprimidos dar início à violência, se eles são o resultado de uma violência?

Como poderiam ser os promotores de algo que, ao instaurar-se objetivamente, os constitui?

Não haveria oprimidos, se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados, numa situação objetiva de opressão.

Inauguram a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros; não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos pelos que os oprimem como outro.

Inauguram o desamor, não os desamados, mas os que não amam, porque apenas se amam.

Os que inauguram o terror não são os débeis, que a ele são submetidos, mas os violentos que, com seu poder, criam a situação concreta em que se geram os "demitidos da vida", os esfarrapados do mundo.

Quem inaugura a tirania não são os tiranizados, mas os tiranos.

Quem inaugura o ódio não são os odiados, mas os que primeiro odiaram.

Quem inaugura a negação dos homens não são os que tiveram a sua humanidade negada, mas os que a negaram, negando também a sua.

Quem inaugura a força não são os que se tornaram fracos sob a robustez dos fortes, mas os fortes que os debilitaram.

Para os opressores, porém, na hipocrisia de sua "generosidade", são sempre os oprimidos, que eles jamais obviamente chamam de oprimidos, mas, conforme se situem, interna ou externamente, de "essa gente" ou de "essa gente cega e invejosa", ou de "selvagens", ou de "nativos", ou de "subversivos", são sempre os oprimidos os que desamam. São sempre eles os "violentos", os "bárbaros", os "malvados", os "ferozes", quando reagem à violência dos opressores.

Na verdade, porém, por paradoxal que possa parecer, na resposta dos oprimidos à violência dos opressores é que vamos encontrar o gesto de amor. Consciente ou inconscientemente, o ato de rebelião dos oprimidos, que é sempre tão ou quase tão violento quanto a violência que os cria, este ato dos oprimidos, sim, pode inaugurar o amor.

Enquanto violência dos opressores faz dos oprimidos homens proibidos de ser, a resposta destes à violência daqueles se encontra infundidade do anseio de busca do direito de ser.

Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão.

Por isto é que, somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores. Estes, enquanto classe que oprime, nem libertam, nem se libertam.
 
 - Paulo Freire | Pedagogia do oprimido -


16.6.13

casa grande & senzala


Coronel em entrevista exclusiva ao Jornal Neoliberal diz ter medo de perder a "liberdade" de opressão.

15.6.13

há duas maneiras de escrever:



a) aquela para os processos seletivos, cujos temas não variam o conteúdo de revista ou a pauta televisiva;

b) a outra, conhecida como escrita interior: vivendo entre a subjetividade e o social. Complexa, reflexiva, portanto, de delicada expressão e construção verbal.


11.6.13

pico na veia


A simbologia na minha pele não é uma questão política. É uma questão subjetiva. Ela não tem objetivo prático como colocar crase no artigo certo. Não tem um porquê.
 

Como exemplo para as futuras gerações, eu vou tatuar na chapeleta do meu membro. E quando ele ficar grande, o desenho se revelará: duro como uma luvinha de box.


5.6.13

Não vês que estou verde?


PARTE UM


Peguei um resfriado. E estou uma semana e meia de molho à base de chá e limão e muita água. E ontem, antes de pegar no batente, resolvi limpar o salão. Cara, parecia um cronópio o molusco que saiu da minha napa.
 

R-existência


Existo, logo penso.
Por incrível que pareça.


3.6.13

discutiamo, discutiamo


[Direção: Marco Bellocchio, 1969]


2.6.13

estação de chuvas


Exílio - volúpia - palavra - destino - esperança - noite - aguaceiro - primavera - espanto - outono - manhãs - verão - angústia - domingo.
 
 

1.6.13

a minha américa



U.S.A.


Estados Unidos da América do Norte:
New Jersey,
Detroit,
Buffalo,
Chicago,
Ritmo de fábricas gigantes que desovam
automóveis e locomotivas. 


U.S.A.

Negros linchados pelos brancos,
réus eletrocutados em Sing-Sing,
delinquentes castrados nas prisões,
arquimilionários condenados,
e milhões de mãos construindo
sky-scraper da Felicidade.


U.S.A.


O álcool interdito,
a peste interdita,
a "Chinese Exclusion Act" proscrevendo os amarelos,
e o homem rindo nos filmes,
Roosevelt rindo para a morte,
a Bíblia rindo para o mundo,
Tio Sam rindo para tudo!

 

U.S.A.

Indústrias gigantescas,
trustes colossais,
Massachussetts
New Hampshire,
Rhode Island,
Connecticut,
Pensylvania,
Estados Unidos da América!

Todos os ritos alegres e assombrosamente numerosos:
Cultos, conferências, o congresso eucarístico
de Chicago distribuindo hóstias a 2 milhões de bocas:
O maior record de distribuição do Corpo do Senhor!
Mas acima de tudo a suprema alegria marca U.S.A.:
- O amor divorciado 20 vezes e 20 vezes glorificado,
sempre jovial e sempre novo como a própria
alma alegre dos Estados Unidos
da América do Norte.

 

Whitman!
Alfred Kreymborg!
Os vossos olhos cor-de-rosa,
os vossos olhos risonhos demais, 


os vossos olhos que vêm em canudos de oiro
e o reclamo luminoso da vossa América de rios explorados
e cachoeiras montecárlicas,
vós que inventastes o novo mundo,
não vistes a outra América furar
na escuridão que limita as fronteiras da raça,
furar com as unhas longas e sem brilho,
o canal do Panamá entre o México e vós outros.
Os brasis, os méxicos, as patagônias desta América
não cantam os cantos bons que Marsden Hartley
e Grace Hazard Conkling entoaram.
Aqui os mulatos
substituíram os negros gigantes de Vachel Lindsay.
Aqui não há os selvagens felizes de Mary Austin. 

 Negros,
Selvagens,
Amarelos,

- o arco-íris de todas as raças canta pela boca
de minha nova América do Sul,
uma escala diferente da vossa escala, 


Alfred Kreymborg,
Whitman!

[LIMA, Jorge de. Antologia Poética; seleção de Paulo Mendes Campos. 3 ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978]

22.5.13

falta de aura


Modernidade - Indústria Cultural - Midcult
Conceito - Dialética do patrimônio - Poder
Publicidade - Imagem - Consumo
Signos - Papéis - Em off


20.5.13

o fantasma de henry ford



Nós, habitantes de uma sociedade capitalista, não queremos nos organizar politicamente; queremos nos acotovelar, competir, colocar certas cousas nos cus dos outros.

8.5.13

educação e mudança





[...]

O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso, ninguém educa ninguém.

A educação não é um processo de adaptação do indivíduo à sociedade.

Quanto mais o homem é rebelde e indócil, tanto mais é criador, apesar de em nossa sociedade se dizer que o rebelde é um ser inadaptado.


- Paulo Freire | Educação e mudança -


7.5.13

os intelectuais e a luta de classes

[1917-2012]

[...]

Por que homens e mulheres se tornam revolucionários? Em primeiro lugar, sobretudo porque acreditam que o que desejam subjetivamente da vida não pode ser alcançado sem uma mudança fundamental na sociedade. Há, é evidente, aquele substrato permanente de idealismo, ou se preferirmos, utopismo, que forma parte de toda vida humana e pode converter-se, em determinados momentos, em motivação dominante para os indivíduos, como durante a adolescência ou um amor romântico, e para as coletividades nos momentos históricos ocasionais que correspondem a enamorar-se, isto é, os grande momentos de libertação e revolução. Todo ser humano, por mais pessimista que seja, pode imaginar uma vida pessoal ou uma sociedade que não seja imperfeita. Todos concordam que isto seria maravilhoso. A maioria das pessoas, em um ou outro momento de suas vidas, pensa que uma vida ou sociedade deste tipo são possíveis e muitas delas pensam que devemos convertê-las em realidade.

[...]

É quando as expectativas relativamente modestas do cotidiano parecem irrealizáveis sem revolução, que os indivíduos se tornam revolucionários. [...] As modestas expectativas da vida cotidiano não são, evidentemente, puramente materiais. Incluem todas as reinvindicações que fazemos para nós mesmos ou para as comunidades das quais nos consideramos membros: respeito e autoconsideração, determinados direitos, tratamento justo, etc.

[...]

O comprometimento com a revolução depende, portanto, de uma mistura de motivações: os desejos de uma melhora na vida cotidiana, atrás dos quais, esperando para emergir, está o sonho de uma vida realmente boa; a sensação de que todas as portas estão se fechando a nós, mas, ao mesmo tempo, a sensação de que é possível arrombá-las; o sentimento de urgência, sem o qual os apelos à paciência e a prática reformista não perdem sua força. 



[HOBSBAWM, E.J. Revolucionários. 3 ed. Tradução de João Carlos Victor Garcia e Adelângela Saggioro Garcia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003. p. 247-248]

3.5.13

[Fernando Gonsales]

1.5.13

1 de maio



Leitura histórica que resgata o sentido original do 
Dia dos Trabalhadores

24.4.13

poesia e microfone


[...]

é mais difícil obter cinco minutos no ar para transmitir um poema do que doze horas para disseminar propaganda mentirosa, música enlatada, piadas velhas, "discussões" fingidas ou o que mais você quiser saber.

[ORWELL, George. Como morrem os pobres e outros ensaios. Tradução Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 131]

19.4.13

senso-comum

 
ou porque dos comportamentos
na sociedade capitalista


A falta de respeito, o preconceito, os adultos folgados, isso sim são doenças as quais necessitam passar por uma investigação. Remediá-los com laudos, prescrições ou desarranjos florais é tarefa de jurisconsulto.

10.4.13

grafite

 
Sou o lápis de um escritor:
vê-se pelo toco do meu rabo
que muito me chupa o meu senhor.


8.4.13

... a palavra greve


[Greve, de Augusto de Campos | 1962]

[...]


Ao ser usada pelo dono da empresa ou pela autoridade governamental, adquire conotação diferente, especialmente disfórica, isto é negativa, daquela usada pelo funcionário ou pela população, que, neste caso, em geral, assume valor eufórico, ou seja, positivo. (Fiorin, 1988). Os meios de comunicação, especialmente a televisão, são a evidência desses significados: quem faz greve geralmente é visto como baderneiro, dificilmente como alguém que está reivindicando seus direitos, garantidos, inclusive, constitucionalmente.


[LUKIANCHUKI, Cláudia. Dialogismo: a linguagem verbal como exercício social. ECA-USP]

3.4.13

de la musique


[ABC, de Raimundo Fagner, 1976]


2.4.13

intervalo


[                            ]

poema in processo

28.3.13

descartes e o computador

 
Você pensa que existe,
ou sou eu quem logo
pensando que você pensa?
 

27.3.13

Bicicletai!

[André Dahmer]

Um dias desses, evidentemente, tudo há de dar certo, os automóveis se extinguirão e a superfície da terra será povoada apenas por bicicletas. Alguns carros, ônibus e caminhões serão expostos nos museus, feito mamutes, guilhotinas e outros monstros findos, para divertir a criançada e alertar os adultos: que o horror jamais se repita. Sobre selins acolchoados, seremos felizes para sempre.

É inegável a simpatia das bicicletas. Máquina desengonçada: se parada, destrambelha-se como um albatroz em terra, mas ao impulso dos pedais, projeta-se como uma flecha, esguia, impoluta e silenciosa. Bicicletas, ninguém pode negar, são irmãs dos guarda-chuvas, primas das girafas e parentes distantes dos abacaxis (não me peça para explicar, foi uma idéia que tive agora).

Durante todo o século XX, muitos artistas aproveitaram-se de seus encantos. É pedalando que vemos quase todo o tempo monsieur Hulot, personagem do filme Meu Tio, utopia lírica de Jacques Tati. Marceu Duchamp, depois haver exposto um mictório no museu, enfiou uma roda de bicicleta num banco de madeira e deixou as velhas noções sobre arte – literalmente – de pernas pro ar.

É impensável um facínora de bicicleta, inconcebível um ditador pedalando. As “máquinas da paz”, como as chamou Vinícius de Moraes, em sua Balada das meninas de bicicleta, são muito mais afeitas aos suaves cuidados das moças: “Bicicletai, meninada!/ Aos ventos do Arpoador/ Solta a flâmula agitada/Das cabeleiras em flor”.

As bicicletas são um indício de civilização. Recomendadas por ecologistas, urbanistas, cardiologistas e artistas, têm logo de entrar na agenda política. Ainda não vi nenhum candidato expor, no horário eleitoral, seu projeto nacional de bicicletização. Se aparecer algum, ganhará de imediato meu apoio.

Se Deus voltasse à Terra e dissesse, “Me mostrem aí o que vocês fizeram”, teríamos de levá-Lo imediatamente a Amsterdam, para um passeio ciclístico, em torno daqueles belíssimos canais. Ou então ao Rio de Janeiro. Pegaríamos Deus no Santos Dummont (vindo do céu, é de se supor que chegará de avião) e O colocaríamos na garupa. Cruzaríamos todo o aterro, pedalando sem pressa, sob o sol ameno das quatro e meia da tarde. Passaríamos pela estátua de Drummond em Copacabana, veríamos as garotas saírem do mar em Ipanema e terminaríamos o passeio no Leblon, com um mergulho no mar e um suco de melancia, no exato momento do sol se pôr. Se Deus tiver um pingo de sensibilidade, estaremos todos salvos.

[PRATA, Antonio. Meio intelectual, meio de esquerda. São Paulo: Ed. 34, 2010. p. 159-160]

24.3.13

Cris


Em abril de 1996 a imprensa internacional noticiou a morte aos 75 anos de idade de Christopher Robin Milne, eternizado no livro de seu pai, A. A. Milne, O Ursinho Puff, como Cris.

Eu, o Ursinho Puff, preciso de repente pensar em coisas muito difíceis pra minha pequena cabecinha. Nunca me importei com o que está lá fora do nosso jardim, onde morávamos eu, o porquinho Leitão, o coelho Abel e o burrinho Bisonho com nosso amigo Cris. Quer dizer, nós ainda moramos aqui e nada mudou e agorinha mesmo comi um pote de mel - o Cris só foi ali e já volta.

A Coruja diz que lá fora do nosso jardim começa o Tempo, e isso é um poço assim fundo pra caramba, e quando uma pessoa cai nele vai sumindo e sumindo lá pra baixo, até que ninguém sabe o que acontece com ela depois. Fiquei um pouco preocupado com o Cris, se não tinha caído lá dentro, mas ele voltou e aí eu perguntei sobre o tal poço. "Puff - ele disse - eu estava dentro dele e fui caindo, e caindo eu ia mudando, minhas pernas foram ficando compridas, fiquei grande, usava umas calças que iam até o chão e me cresceu barba, depois meus cabelos foram ficando brancos, fui me curvando, andei de bengala e aí eu morri. Com certeza foi tudo só um sonho, porque não parecia bem de verdade. De verdade pra mim sempre foi só você, Puff, e as nossas brincadeiras. Agora já não saio daqui pra lugar nenhum, mesmo se me chamarem pro lanche."



[MILOSZ, Czeslaw. Não mais. Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003. p. 109-111]

19.3.13

carros fora do centro


Espectadores.
O problema é que vocês não pensam nada.
Pedir-vos para pensar é como pedir a um pardal morto para cantar baixinho.
Perda de tempo.

[G M T | 2005]

18.3.13

cartografia


UM

Uma coisa é o mapa
outra: a cidade de carne e osso
com suas vias de sangue.



14.3.13

o turista infeliz


[...]

A homogeneização do mundo é o grande mal-estar de uma viagem – viajar sem sair de onde já se estava. A primeira etapa dessa homogeneização, trágica e espalhada em tudo, pois feita por baixo, começa pelo mundo físico: é tudo uma imundície. Andávamos por uma praia em Marajó. A maré estava baixa, linda, e ouvíamos sons assustadores vindos da mata. Caminhávamos sozinhos, sem guia. Temíamos vagamente pelas crianças (já enormes). Em suma: achávamos que desbravávamos algo, uma desajeitada família paulista abrindo sua picada particular em plena Amazônia. Por isso foi tão chocante, na curva seguinte, deparar com o mar de garrafas pet de 1 ou 2 litros e as milhares de latas de refrigerantes e os vasilhames de xampu e as carcaças dos eletrodomésticos mais diversos, numa quantidade digna das enchentes de São Paulo – como se fosse o pátio pantanoso de alguma Casas Bahia de pesadelo. Como chegaram lá? Pela maré? Um megashow escondido na mata? O lixo está em toda parte, verdadeiramente universal e democrático, unindo o país de alto a baixo. É dessa forma que o desastre urbano, sem descanso nem exceção, que assola o país há décadas e só piora e piora nas grandes cidades, parece repicar nas pequenas comunidades e nos rincões mais isolados, como que coado aos poucos. Se na década de 70 havia, em cada cidadezinha, um Banco do Brasil e uma Casas Pernambucanas, hoje há plástico (e, em menor quantidade, alumínio) boiando, misturado à areia, preso nas folhas, no alto de uma palmeira que já não há.

O lixo é exatamente isso: uma forma extrema do Mesmo. É a identidade pro-funda que une a metrópole de onde partimos ao ponto distante a que chegamos depois de horas e horas de viagem. A diferença é que nas grandes cidades, onde o ciclo da mercadoria é algo cotidiano, sua origem se mostra: nasceu ali mesmo. Nas localidades mais distantes, hipoteticamente poupadas do fluxo insano de tantos produtos, o lixo parece verdadeiramente caído do céu, como uma dádiva perversa. Entre raízes, caranguejos, lama sólida, à revelia de tudo e de todos, chegou ao fim de sua odisseia, naturalizando-se de vez. Foi quase com carinho que certa vez re-parei num fiapo de lata de Coca-Cola, fino como um pedaço de papel, preso à ponta do chifre de um búfalo. Parecia uma folha seca, mas com o logotipo fatal impresso.


 Nuno Ramos | Março de 2013