[Deleuze & Guattari | 1973]
[...]
Tudo é irracional no capitalismo, exceto o capital ou o capitalismo.
[...]
O
dinheiro, o capital-dinheiro, é um pouco de demência tal que só teria
em psiquiatria um equivalente: aquilo a que se chama o estado terminal. É
muito complicado, mas farei uma observação de detalhe. Há exploração
nas outras sociedades, há também escandá-los e segredos, mas isso faz
parte do código, há mesmo códigos explicitamente secretos. No
capitalismo, é muito diferente: não há nada secreto, pelo menos em
princípio e segundo o código (eis porque o capitalismo é “democrático” e
se reclama da “publicidade”, mesmo no sentido jurídico). E contudo nada
é confessável. É a própria legalidade que não é confessável. Por
oposição às outras sociedades, é ao mesmo tempo o regime do público e do
inconfessável. É próprio do regime do dinheiro um delírio muito
particular. Veja-se aquilo que atualmente se chamam “escândalos”: os
jornais falam muito deles, toda a gente faz questão de se defender ou de
atacar, mas é em vão que se procura o que têm de ilegal, tendo em conta
o regime capitalista. A folha de impostos de Chaban, as operações
imobiliárias, os grupos de pressão e em geral os mecanismos econômicos e
financeiros. Sem necessidade de publicar o privado, contenar-se-ia em
fazer confessar o que é público. Encontrar-nos-íamos numa demência sem
qualquer equivalente nos hospitais. Em vez disso, falam-nos “de
ideologia”. Mas a ideologia não tem importância alguma: o que conta não é
a ideologia, nem sequer a distinção ou a oposição
“econômico-ideológico”, é a organização de poder. Porque a organização
de poder é a maneira como o desejo já está no econômico, como a libido
investe no econômico, assedia o econômico e alimenta as formas políticas
de repressão.
[...]
Não há ideologia, há tão-somente
organização de poder, uma vez dito que a organização de poder é a
unidade do desejo e da infra-estrutura econômica. Observem-se dois
exemplos. O ensino: em Maio de 68, os esquerdistas perderam imenso tempo
por pretenderem que os
professores fizessem a sua auto-crítica
como agentes da ideologia burguesa. É estúpido e deleita as pulsões
masoquistas dos professores. A luta contra os concursos foi abandonada
em proveito da querela ou da grande confissão pública anti-ideológica.
Durante esse tempo, os professores reorganizaram sem dificuldade seu
poder. O problema do ensino não é um problema ideológico, mas um
problema de organização de poder: é a especificidade do poder docente
que aparece como uma ideologia, mas é uma pura ilusão. Dos anarquistas
aos maoístas, o leque é muito grande, tanto político como analítico. Sem
contar, fora da reduzida franja dos grupúsculos, com a masse de pessoas
que não sabem muito bem como se determinar entre o impulso esquerdista,
a atração da ação sindical, a revolta, a expectativa ou o
desinteresse... seria preciso descrever o papel dessas máquinas de
esmagar o desejo que os grupúsculos são, esse trabalho de mó e de crivo.
É um dilema: ser destruído pelo sistema social ou integrar-se no quadro
pré-estabelecido dessas igrejinhas. Nesse sentido, Maio de 68 foi uma
revelação surpreendente. A potência desejante atingiu uma tal aceleração
que fez explodir os grupúsculos. Estes restauraram-se em seguida e
participaram no restabelecimento da ordem com as outras forças
repressivas, CGT, PC, CRS (Polícia de choque francesa) ou Edgar Faure.
Não digo isto por provocação. Certamente, os militantes se bateram
corajosamente contra a polícia. Mas se deixarmos a esfera da luta de
interesse para considerar a função do desejo, é preciso reconhecer que o
enquadramento de certos grupúsculos abordava a juventude num espírito
de repressão: conter o desejo liberto para o canalizar.
[...]
Encontramos
sempre o velho esquema: o destaque de uma pseudo vanguarda apta a
operar as sínteses, a formar um partido como um embrião de aparelho de
Estado; extração de uma classe operária bem ensinada, bem educada; e o
resto é um resíduo, lumpenproletariado de que é sempre preciso
desconfiar (sempre a velha condenação de desejo). Mas mesmo estas
distinções são uma maneira de aprisionar o desejo em benefício de uma
casta burocrática. Foucault reage denunciando o terceiro, dizendo que,
se houver justiça popular, não passa por um tribunal. Mostra bem como a
distinção “vanguarda/proletariado/plebe não-proletarizada” é em primeiro
lugar uma distinção que a burguesia introduz nas massas, e de que se
serve para esmagar os fenômenos de desejo, para marginalizar o desejo. A
questão toda está no aparelho de Estado. Seria bizarro contar com um
partido ou com um aparelho de Estado para libertar os desejos. Reclamar
uma justiça melhor é como reclamar bons juízes, bons policiais, bons
patrões... etc. Aqui dizem-nos: como querem unificar as lutas pontuais
sem um partido? Como fazer a máquina funcionar sem um aparelho de
Estado? Que a revolução tenha necessidade de uma máquina de guerra é
evidente, mas isso não é um aparelho de Estado. Que tenha também
necessidade de uma instância de análise, análise dos desejos de massas,
está certo, mas isso não é um aparelho exterior de síntese. Desejo
liberto quer dizer que o desejo sai do impasse do fantasma individual
privado: não se trata de adaptar, de o socializar, de o disciplinar, mas
de o ligar de tal maneira que o seu processo não seja interrompido num
corpo social, e que produza enunciações coletivas. O que vale não é uma
unificação autoritária, mas antes uma espécie de enxameação ao infinito:
os desejos nas escolas, nas fábricas, nos quartéis, nas creches, nas
prisões etc. Não se trata de sobrepor-se, de totalizar, mas de se
ramificar num mesmo plano de báscula. Enquanto se permanecer numa
alternativa entre o espontaneísmo impotente de anarquia e a codificação
burocrática e hierárquica de uma organização de partido, não há
libertação de desejo.
[...]
... será que o capitalismo foi
revolucionário nos seus primórdios, será que a revolução industrial
coincidiu sempre com uma revolução social? – Não, não me parece. O
capitalismo, desde o seu nascimento, esteve ligado a uma repressão
selvagem, teve imediatamente a sua organização de poder e o seu aparelho
de Estado. Que o capitalismo tenha implicado a dissolução dos códigos e
dos poderes sociais precedentes é certo. Mas, nas fendas dos regimes
precedentes, ele tinha já estabelecido as engrenagens do seu poder,
inclusive do seu poder de Estado. É sempre assim: as coisas não são tão
progressivas; antes mesmo que uma formação social se estabeleça, os seus
instrumentos de exploração e repressão já lá estão, girando ainda no
vazio, mas prontos para trabalhar plenamente.
[...]
... A
burguesia impõe um novo código, econômico e político; pode-se pensar que
ela foi revolucionária. Nada disso. [...] A burguesia nunca se enganou
quanto ao seu verdadeiro inimigo. O seu verdadeiro inimigo não era o
sistema precedente, mas aquilo que escapava ao controle do sistema
precedente, e que ela tinha por objetivo dominar por sua vez. Ela
própria devia o seu poder à ruína do antigo sistema; mas só podia
exercer esse poder desde que tomasse como inimigo todos os
revolucionários do antigo sistema. A burguesia nunca foi revolucionária.
Ela mandou que fizessem a revolução. Ela manipulou, canalizou, reprimiu
uma enorme pulsão do desejo popular. As pessoas foram deixar-se matar
em Valmy.
[...]
... dilema muito simples: ou se chega a um
novo tipo de estruturas que conduzam finalmente à fusão do desejo
coletivo e da organização revolucionária; ou se continua no impulso
presente e, de repressões em repressões, caminharemos para um fascismo
ao pé do qual Hitler e Mussolini parecerão uma brincadeira.
[...]
...:
a organização revolucionária deve ser a de uma máquina de guerra e não a
de um aparelho de Estado, a de um analisador de desejo e não a de uma
síntese exterior.
[...]
Actuel. – Será possível estabelecer
um paralelo com os movimentos contemporâneos: as comunidades e os
caminhos para fugir à fábrica e ao escritório? E haverá um papa para os
enganar? Jesus-revolução?
Félix Guattari. – Não é inconcebível
uma recuperação por meio do cristianismo. É até certo ponto uma
realidade nos Estados Unidos, mas muito menos na Europa ou na França.
Mas há já vista uma nova fase latente sob a forma de tendência
naturista, a ideia de que seria possível retirar-se da produção e
reconstituir uma pequena sociedade à parte, como se não estivesse
marcado e fechado pelo sistema do capitalismo.
[...]
Há uma tecnocracia da Igreja.
[...]
A psicanálise: funciona ao ar livre, mas é ainda pior, muito mais perigosa como força repressiva.
[...]
A
resistência nada significa para o médico, mas renascimento entra no
esquema universal, arquétipo: “Você quer renascer”. O médico
reencontra-se aí: finalmente, o seu circuito. E força-a a falar do seu
pai e da sua mãe.
[...]
Delírio do campo social.
[...]
Está
no nível da tarefa repressiva do juiz de Ângela Davis que assegurava:
“O seu comportamento só se explica por ela estar apaixonada”. E se, ao
contrário, a libido de Ângela Davis fosse uma libido social
revolucionária? E se ela estivesse apaixonada por ser revolucionária?
[...]
Certa
geração começa a estar farta dos esquemas que servem pra tudo – Édipo e
castração, imaginário-simbólico –, que apagam sistematicamente o
conteúdo social, político e cultural de toda a perturbação psíquica.
Actuel.
– Vocês associam a esquizofrenia ao capitalismo, é mesmo este o
fundamento do vosso livro. Há casos de esquizofrenia em outras
sociedades?
Félix Guattarri. – A esquizofrenia é indissociável do
sistema capitalista, ele próprio concebido como uma primeira fuga: uma
doença exclusiva. Nas outras sociedades, a fuga e a marginalidade
assumem outros aspectos. O indivíduo a-social das chamadas sociedades
primitivas não é internado. A prisão e o asilo são noções recentes. Ele é
expulso, exila-se para o limite da aldeia e aí morre, a menos que vá se
integrar numa aldeia vizinha. Cada sistema tem, aliás, a sua doença
particular: o histérico das chamadas sociedades primitivas, as manias
depressivas-paranóicas no Grande Império... A economia capitalista
procede por descodificação e desterritorialização: tem os seus doentes
extremos, isto é, os esquizofrênicos, que, no limite, se descodificam e
desterritorializam, mas tem também as suas consequências extremas, os
revolucionários.
[DELEUZE, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006. p. 331-343]