19.9.13

tres notas sobre uma revolução impossível


1.

Ao longo da história contemporânea, vimos o capitalismo avançar os territórios subjetivos, desfazendorefazendo suas bordas, ocupando-se, cada vez mais, da produção de relações e modos-de-vida. É como se, depois de expropriar a terra e o corpo, fosse hora do capitalismo empreender o sequestro do inconsciente. No entanto, o inconsciente é como uma usina de derivas, e à mesma medida que é capturado, transborda por todos os lados, desinventainventa, está dentrofora. Se o trabalho é imaterial como querem pensar alguns filósofos políticos, as chaves e cadeados da fábrica também o são, estão na ordem da força-invenção, das ficções somatopolíticas. É chegada hora de repovoar o imaginário, mas com o quê? Que forças atravessarão a cidade vazia, e para onde rumaremos, que ventos, que tempestades de sutilezas! Resta aventurar-se, experimentar as intensidades dos incontáveis percursos em aberto, com prudência cartografar o que há além-baldo, mas para isso é preciso, antes, fazer soar a canção inexprimível da gulag e estar aquém e além do humano, até irromper na manhã um ser-errático, inconcluso qual o mundo que habita ao mesmo tempo em que deserta.

2.

É, no mínimo, curioso que eu esteja aqui, com uma renitente fisgada aguda na cabeça, escrevendo sobre como a apatia social que se abate sobre a massa de eleitorxs, se levada a suas consequências extremas, pode realizar um rompimento radical com o sistema que a produz; que essa passividade típica da relação entre representadxs e representantes, desde que seja radicalizada, pode de tal modo esvaziar o corpo político a ponto de fazer passar por ele fluxos transversais, suscitando o êxodo do estado – e das demais formas cansadas de estruturação da existência. Embora a manutenção do sistema dependa da produção de sujeitos políticos apáticos, as apatias, elas mesmas, não dependem do sistema, e nisso consiste sua força. O sujeito político apático é de tal modo levado a descolar-se das coisas da política, que precisa aprender a viver de maneira independente delas. Essa relativa independência funda um tipo de produção social em que a balança que equilibra governantes e governados pende e transforma a soberania do Estado num peso morto às costas da sociedade. Assim é que as apatias, na realidade, designam um tipo de produção social que de apática nada tem, porque se funda na possibilidade de viver apesar dos governos. De certa maneira, a experiência do lumpen (sobreviventes de uma guerra invisível) nos mostra que aqueles que lutam para subsistir, conquanto sofram sozinhos com a terrível miséria de um mundo que transformou em saúde a sua doença, ignoram as coisas da política, porque, no limite de sua sobrevivência, não precisam delas. Ao invés de um Ensaio sobre a Lucidez, estou prestes a escrever um Ensaio sobre a Catatonia, para contar a história de uma cidade que simplesmente desistiu e respondeu ao chamado do dever, como Bartlebys num coral desajeitado, “eu preferiria não”; e recusou-se a votar, a escolher. No dia da eleição, não houve eleitorxs, nem mesárixs, cabxs eleitorais, partidárixs, e mesmo xs candidatxs, tomados de um profundo cansaço, recolheram-se em suas casas e dormiram relaxadamente como se simplesmente ignorassem tudo o que ficava para trás. Vazia, a cidade pôde, pela primeira vez, respirar ventos estrangeiros, viu atravessar as avenidas nômades de todas as estirpes, tapuias, bárbarxs, ciganxs, lobxs erráticxs, urubus-águia, as baratas remanescentes de hiroshima, a comunidade dxs sem comunidade.

3.

a thic quang duc

A dança é uma arte de guerra porque exige “prontidão”, estar atento aos fluxos e contatos, como uma disponibilidade para ser-com. Eu sempre disse que quando a polícia viesse me bater, eu dançaria. Porque se eu não posso dançar não é minha revolução. Há que se diferenciar a ideologia pacifista-legalista de um outro pacifismo, este não-inerte, que ao invés de interditar o movimento como uma polícia, faz da sua não-violência uma arma. Enquanto a ideologia pacifista-legalista nada mais é que obediência à ordem, o pacifismo não inerte é aquele cuja base da ação é a própria desobediência. Quando o corpo percebe que suas rotas já não precisam ser aquelas previamente editadas, o complexo da ordem se põe a perder porque, afinal, a soberania do uno depende inteiramente da tácita submissão da multiplicidade aprisionada que se deixa governar por ela. O pacifismo não inerte e desobediente é aquele que realiza o êxodo abissal, a fuga desabalada pelas noites geracionais de novos mundos; aquele que se desgarra. Mas esse desgarrar, ele próprio não é inteiramente pacífico, pelo contrário: o governo do uno não vai deixar que as crianças abandonem o playground; o rei, que era nosso amigo, na nossa fuga de pasárgada, vai mirar seus canhões contra nós. Dancem, dancem ou estamos perdidos. Porque quando a guerra nos ameaça, precisamos nós também nos armar. Mas que armas usar contra um pelotão de cães de guarda munido de gás de pimenta, bombas de efeito moral, tiros para o alto, balas de borracha e escudos? Pedras e poemas! Penso ser possível, através de uma crítica das armas, recuperar a violência e reimaginá-la – fazer brotar de chernobyl a possibilidade de armas criativas, que redirecionem a violência, recuperem-na de seu potencial exclusivamente negativo. Do mesmo modo, há que se recuperar o pacifismo – resgatá-lo das sobrecodificações que dele se apossam a fim de reconhecer que a não violência como atitude para com a vida se vê diante de uma crise inevitável: como pretender a oposta simetria a uma violência ordenadora já sem precedentes? Como ser pacífico para além da passividade e do inativismo?

- Jota Mombaça -


18.9.13

sim sim

[funny nun]


quando Deus fez amor Ele não ajudou muito
quando Deus fez os cachorros Ele não ajudou os cachorros
quando Deus fez as plantas isso foi medíocre
quando Deus fez o ódio nós tivemos uma utilidade em comum
quando Deus me fez Ele me fez
quando Deus fez o macaco Ele estava dormindo
quando Ele fez os narcóticos Ele estava deprimido

quando Ele fez você deitada na cama
Ele sabia o que Ele estava fazendo
Ele estava bêbado e Ele estava entorpecido
e Ele fez as montanhas e o mar e fogo
na mesma hora

Ele cometeu alguns erros
mas quando Ele fez você deitada na cama
Ele gozou por todo Seu Santo Universo.

 
[BUKOWISKI, Charles. Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Tradução Fernando Koproski. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005]

16.9.13

impresso

[Tom Gauld]

[...]


Nas sociedades orais, as mensagens discursivas são sempre recebidas no mesmo contexto em que são produzidas. Mas, após o surgimento da escrita, os textos se separam do contexto vivo em que foram produzidos.


- LÉVY, P. Cibercultura | trad. Carlos I. da Costa - 



15.9.13

message from beat street


[Pete Rock - Lost & Found:
Hip Hop Underground Soul Classics  | 1995]


suavidade

A teoria do não fazer nada calha bem para estes momentos. O meio do domingo convida para o andar de bici. Para bem longe: pedalamos.


13.9.13

farofada


Eu tive um professor humilde e inteligente até as tripas. Me contou certa manhã, de forma tímida, que ao chegar em casa horas depois de lecionar, escondia-se no recanto de sua biblioteca (feito um fantasma), retirava da pasta de textos alguns trabalhos e, conscientemente, os comia. O mestre, sob os efeitos do tema da assertiva do colegiado, terminava seu apólogo de boca cheia:


- tudo cópia, tudo!


12.9.13

chopin na cadeira elétrica


[B-Negão | 2003]


cwb


Über Alles
por Tigrinho

A polícia realizou mais uma operação enxuga gelo.
Levou para as grades meia dúzia de pés de chinelo, intimidou três ou quatro laranjas miúdas e encheu de água o aquário do peixe grande. Em nota de rodapé, o jornal Boca Oficial noticiou, em poucas linhas, que o mundo tem o tamanho de uma pera. 


10.9.13

escritos políticos

[1891-1937]


[...]

É preciso perder o hábito e deixar de conceber a cultura como saber enciclopédico, no qual o homem é visto apenas sob a forma de um recipiente a encher e entupir de dados empíricos, de fatos brutos e desconexos, que ele depois deverá classificar em seu cérebro como nas colunas de um dicionário, para poder em seguida, em cada ocasião concreta, responder aos vários estímulos do mundo exterior. Essa forma de cultura é realmente prejudicial, sobretudo para o proletariado. Serve apenas para criar marginais, pessoas que acreditam ser superiores ao resto da humanidade porque acumularam na memória um certo número de dados e de datas que vomitam em cada ocasião, criando assim quase que uma barreira entre elas e as demais pessoas. Serve para criar aquele tipo de intelectualismo balofo e incolor, tão bem fustigado duramente por Romain Rolland, intelectualismo que gerou toda uma caterva de presunçosos e sabichões, mais deletérios para a vida social do que os micróbios da tuberculose e da sífilis o são para a beleza e a saúde física dos corpos. O estudantezinho que sabe um pouco de latim e de história, o rábula que conseguiu obter um diploma graças à irresponsabilidade e à desatenção dos professores acreditam ser diferentes, superiores até mesmo ao melhor operário qualificado, que cumpre na vida uma tarefa bem precisa e indispensável e que vale cem vezes mais em sua atividade do que os outros valem na deles. Mas isso não é cultura, é pedantismo; não é inteligência, mas intelectualismo - e é com toda razão que se reage contra isso.

- Antonio Gramsci | trad.: Carlos N. Coutinho -

9.9.13

abaixo o carro...



VIVA A BICICLETA!
por Caroline G.


O CARRO NÃO É SIMPLESMENTE um meio de locomoção, como certas pessoas particularmente ingênuas poderiam pensar. A invenção do carro não foi também um passo gigantesco no caminho do progresso, como os publicitários querem nos fazer crer.

Não, o carro é um instrumento de poder e destruição. Ele é inimigo dos seres humanos: não somente porque ele os mata (pedestres imprudentes, transeuntes distraídos, vítimas de assassinos comuns, os motoristas), mas também porque ele os deforma, os desfigura, os nega – uma pessoa ao volante não é mais um ser humano.

Pegue uma pessoa comum, pacífica, reservada e habitualmente calma. Meta-lhe entre as mãos um volante e sob os seus pés um acelerador. Lance-a em um engarrafamento, por exemplo, numa rua movimentada às 6 horas da tarde. Olhe para ela... Você não a reconhece mais? Mas, está ali, um bruto desumano, pálido, interpelando os outros automobilistas a golpe de insultos obscenos e rabugentos... Ela amedrontou você? Acrescente-lhe um celular e terá triplicado seu poder de matar. É como se você desse um revólver a alguém... Raros são aqueles que irão recusar a servir-se dele.

Réjean Ducharme, um escritor nascido em Quebec, analisou particularmente bem esse processo que transforma o humano em automobilista. Aliás, ele propõe não chamar mais automobilista, mas automóvel, uma vez que o condutor forma um corpo com seu veículo:

Quando digo automóveis, quero dizer automobilistas. O automóvel e o automobilista fazem parte de uma só e mesma coisa: o automóvel.
Não se tem um automóvel; se é um automóvel.
Não se pode nascer automóvel; torna-se automóvel, de repente.

Para finalizar, segue um poema composto pelo narrador do romance de Ducharme:

Os automóveis
Sobre o caminho de concreto,
Passam os homens e as mulheres
Enxertados nos veículos
Que apagam o sangue e a alma.
Passam no automóvel,
Esses homens loucos, essas mulheres loucas.
E se crêem, ai de mim, aptos
A viver apenas de petróleo.
Eles não falam, buzinam.
E não andam: rolam.
Visto que com duas pernas eu funciono,
Eles riem; me chamam de galinha.
São amarelos, ou verdes, ou negros.
Entre eles, nada de segregação:
Mexem-se entre as calçadas
Lado a lado e a uníssono.

Estejamos atentos!

Mas o que fazer, você me pergunta, se não quisermos nos tornar “automóveis”? A resposta é simples: sejamos ciclistas! O ciclista é o oposto do “automóvel”: mesmo em cima de sua bicicleta, ele conserva todo seu livre-arbítrio, pode ir aonde quiser, estacionar onde achar melhor... Ele não ameaça constantemente a vida de seus vizinhos. Está à escuta do exterior: em vez de se blindar medrosamente se rodeando de aço, ele imerge corajosamente em seu meio ambiente – que evita, além disso, poluir. Raramente perde o controle de si, e se deixa guiar por dois princípios: a liberdade e o respeito ao outro.

Pode-se ver então que a escolha de um meio de transporte é, acima de tudo, uma escolha de vida: um estado de espírito. Recusar o carro é recusar um modo de vida que nos torna perigosos (para nós mesmos, para os outros e para o meio ambiente), é querer uma vida diferente daquela proposta pelos publicitários que nos impõem a sociedade moderna.

Não somente com palavras se muda a sociedade...

A todos aqueles que enaltecem o individualismo, o comunismo, o “ecologismo” etc., eu respondo: o CICLISMO!

6.9.13

professores fudidos do mundo e a ditadura do temporário


[Roland Topor]

[...]

Nós não somos pessoas vocacionadas. Para o inferno com a vocação, os santos, a visão missionária que nos diz que escolhemos uma “missão” e que temos de aceitar os percalços da escolha. Parceiro, eu não escolhi merda nenhuma. Foi esse sistema que me escolheu. Foi ele que escolheu fuder os/as professores/as, os camelôs, os sem-teto, os sem-terra e todo/a aquele que se revolta. E eu, nesses treze anos entre empregos fudidos, desempregos fudidos e militância fudida, participando de reuniões de fudidos/as esperando tudo melhorar, mas os canalhas trabalham em ritmo industrial e nós, as desgraçadas e desgraçados do mundo somos obrigados a fazer a vida e a luta em ritmo artesanal.

 - Rafael Vendetta -

4.9.13

bife com batatas fritas

[julio de 1973]

**

Eu sou um cara de poucas palavras.
Ponto.

A partir de hoje, vou me comunicar por meio de signos-chaves, mapas-conceituais, abstraciones, pantomima. Levando em consideração a disciplina do pensamento, isto é, da leitura e da escrita, rearranjo o corpus do autor francês da seguinte maneira:

a) Literatura: problemática;
b) Escritura: sem o compromisso oficial da eleição;
c) Linguagem: sua consistência, sua profundidade, sua ameaça;
d) Ideologia: desvendando a consciência burguesa;
e) O escritor: corpo, passado, gesto de sociabilidade.


2.9.13

estórias do senhor G.


[Dead Kennedys | 1984]

diário
segundo dia

A fêçora sempre caçoa das minhas camisetas de bandas. Ela fica me perseguindo e cerceando meu gosto musical, dizendo que isso é coisa do diabo. 


29.8.13

(o) cup (e)

[Hommo Luddens]


Não começou em Salvador, 
não vai terminar em São Paulo

[...]

O acesso do trabalhador à riqueza do espaço urbano, que é produto de seu próprio trabalho, está invariavelmente condicionado ao uso do transporte coletivo. As catracas do transporte são uma barreira física que discrimina, segundo o critério da concentração de renda, aqueles que podem circular pela cidade daqueles condenados à exclusão urbana. Para a maior parte da população explorada nos ônibus, o dinheiro para a condução não é suficiente para pagar mais do que as viagens entre a casa, na periferia, e o trabalho, no centro: a circulação do trabalhador é limitada, portanto, à sua condição de mercadoria, de força de trabalho.

[...]

A cidade é usada como arma para sua própria retomada: sabendo que o bloqueio de um mero cruzamento compromete toda a circulação, a população lança contra si mesma o sistema de transporte caótico das metrópoles, que prioriza o transporte individual e as deixa à beira de um colapso. [...] Na ação direta da população sobre sua vida - e não a portas fechadas, nos conselhos municipais engenhosamente instituídos pelas prefeituras ou em qualquer uma das outras artimanhas institucionais -, que se dá a verdadeira gestão popular. 

[...] 

É essa tomada de poder que assusta os gestores estatais e privados, que tentam agora reocupar o espaço que perderam para os trabalhadores urbanos.

[...]

A organização descentralizada da luta é um ensaio para uma outra organização de transporte, da cidade e de toda a sociedade. Vivenciou-se, nos mais variados cantos do país, a prática concreta da gestão popular.

- MPL - São Paulo | 2013 -

28.8.13

a liberdade da cidade


[...]

A liberdade da cidade é [...] muito mais que um direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo de nossos corações.

[...]

Se descobrirmos que nossa vida se tornou muito estressante, alienante, simplesmente desconfortável ou sem motivação, então temos o direito de mudar de rumo e buscar refazê-la segundo outra imagem e através da construção de um tipo de cidade qualitativamente diferente. A questão do tipo de cidade que desejamos é inseparável da questão do tipo de pessoa que desejamos nos tornar. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmos e a nossas cidades dessa maneira é, sustento, um dos mais preciosos de todos os direitos humanos.

[...]

Na história urbana, calma e civilidade são exceções, e não a regra.

[...]

o neoliberalismo transformou as regras do jogo político. A governança substituiu o governo; os direitos e as liberdades têm prioridade sobre a democracia; a lei e as parcerias públicos-privadas, feitas sem transparência, substituíram as instituições democráticas; a anarquia do mercado e do empreendedorismo competitivo substituíram as capacidades deliberativas baseadas em solidariedades sociais.

[...]

A tarefa, como sugeriu Polanyi, é expandir as esferas da liberdade dos direitos além do confinamento estreito ao qual o neoliberalismo o reduz. O direito à cidade, como comecei a dizer, não é apenas um direito condicional de acesso àquilo que já existe, mas sim um direito ativo de fazer a cidade diferente, de formá-la mais de acordo com nossas necessidades coletivas...
 
- David Harvey -
 
 

27.8.13

o verde violentou o muro

[Roland Topor]

Peep-Show


Só para adultos, gritam os letreiros. As mulheres mais belas do mundo à sua disposição. Submundo é comigo. Bas-fond, marginalidade, tudo que é brecha na sociedade normal me atrai.


- Ignácio de Loyola Brandão | 1984 -


chopin na cadeira elétrica


[Cólera | 1986]


26.8.13

ação cultural para a liberdade

 
[1921-1997]

[...]

as classes sociais dominadas nem são vazias de consciência nem sua consciência, por outro lado, é um depósito vazio. Manipuladas pelas classes dominantes, em suas relações com elas, por elas perfiladas, introjetando seus mitos, as classes dominadas refletem às vezes uma consciência que não lhes é própria. [...] Atravessadas pela ideologia das classes dominantes, suas aspirações, em grande parte, não correspondem a seu ser autêntico. São impostas a elas por aquelas através dos mais variados meios de manipulação social. Tudo isto desafia o partido revolucionário a encarnar o seu indiscutível papel pedagógico.

[...]

Os partidos reacionários, necessariamente têm de evitar, por todos os meios, a constituição da consciência de classe entre os oprimidos.

[...]

o partido revolucionário que se recusa a aprender com as massas populares, rompendo assim a unidade dialética entre ensinar e aprender, já não é revolucionário, mas elitista.

- Paulo Freire | 1982 -

23.8.13

mafalda

[tiras de Quino]


22.8.13

estórias do senhor G.


diário
primeiro dia

Visto que o dinheiro anda enxuto, me restou, como eminenente cientista em destripar soneto, escrever a Pharmacopéia da Imundície: da escatologia à excretoterapia.


21.8.13

primeira paráfrase


A máfia dos livreiros curitibanos não deixa nada a dever à máfia dos literatos curitibanos.


20.8.13

enfim, vozes sensatas


[Leminski palestrando na reitoria | Ctba]

Pichações

Toda vez que vejo algum traço ou assinatura pichada no canto mais improvável de um edifício, lembro-me das pinturas rupestres produzidas há milhares de anos. Muitas vezes, no espaço mais sombrio e inacessível de uma caverna, algum ser humano imprimia na pedra, com sangue, barro e carvão, a marca da sua existência. Fosse com fins místicos ou com interesses de registro histórico, os traços grafados nas paredes das cavernas pretendiam dizer, comunicar. Não me parece diferente com os pichadores dos tempos atuais. Os sinais que grafam, e que para muitos de nós soam tão somente como vandalismo, indicam uma identidade e uma estética das margens, e denunciam uma ordem urbana esquizofrênica e suicida.

O sociólogo Sérgio Faraco escreveu certa vez, na edição brasileira do Le Monde Diplomatique, que “a pichação é uma organização social complexa”, capaz de “revelar a falibilidade dos sistemas de segurança e controle que incidem no meio urbano.” Concordo com ele. Por mais que tentemos criminalizar e anular o pichador, suas assinaturas e grafismos espalhados pela cidade precisam ser compreendidos enquanto linguagem e tecnologia de subversão dos poderes instituídos, enquanto contestação da ordem. É na ocupação das paredes e monumentos da cidade que o pichador diz existir, como bem apontou o historiador Martin Kreuz no artigo “Sobre a arte urbana”. Ou seja, habitante das margens, o pichador é personagem em territórios que promovem a exclusão, seja ela social, econômica ou estética. Em Blumenau não é diferente.

Consigo entender a indignação de um proprietário que vê as paredes da sua residência ou estabelecimento comercial ocupadas pelos traços dos pichadores, mas entendo também a ineficácia da criminalização dos seus atos. O pichador engajado não teme a vigilância e a repressão do Estado, porque é seu papel enfrentá-las, questioná-las e denunciá-las. Se, conforme o advogado César Wolff (Santa, 8 de agosto), a pichação é uma demonstração popular de insatisfação, então podemos entendê-la como linguagem legítima, ainda que ilegal. E me arrisco a dizer que uma sociedade que aceita a poluição visual dos anúncios publicitários no espaço urbano, não me parece moralmente apta a julgar os pichadores.

- Viegas F. da Costa, professor e historiador - 


19.8.13

o leitor e a poesia



Poesia
          não é o que o autor nomeia,
          é o que o leitor incendeia.

          Não é o que o autor pavoneia
          é o que o leitor colhe à colmeia.

          Não é o ouro na veia,
          é o que vem na bateia.

Poesia
          não é o que o autor dá na ceia,
          mas o que o leitor banqueteia.


[SANT'ANNA, Affonso R. A catedral de colônia e outros poemas. Rio de Janeiro: Rocco, 1985. p. 108]


18.8.13

chopin na cadeira elétrica


[Slayer | Live '85]

Gott ist tot

Um amigo das antigas, das quebradas periféricas, foi quem me apresentou esta porrada. Eu tinha então 15 anos. Moleque com fumos de homem, o som raivoso, os riffs cheios de fúria o vocal de ópera me fizeram transgredir - para o bem - o garoto cristão e obediente que'u era. 


15.8.13

o que é...

 

[...]

a lei é injusta quando discrimina um grupo minoritário, embora possa até ter sido votada pela maioria. Tal fato não elimina a discriminação por qualquer motivo: raça, religião, cultura, idade, sexo, etc. A lei é injusta quando se impõe a pessoas sem direito a voto. Estas pessoas devem obedecê-la, mas não participaram da elaboração da lei e, muito menos, tiveram condições de votá-la, conforme acontece com os analfabetos, etc. A lei é injusta quando uma minoria a torna obrigatória para a maioria, que não foi consultada, nem lhe deu pelo voto autorização para existir. [...] A lei é injusta quando votada por falsa maioria, que só aparenta representar a maior parte dos indivíduos, devido a jogadas feitas durante as eleições. A lei é injusta quando submete uma infinidade de pessoas a viverem miseravelmente. A lei é injusta quando permite que um país pressione de qualquer modo ou ataque militarmente, ou apenas ocupe outro país, outra região, sem consentimento de seus próprios habitantes.

- Evaldo Vieira -

14.8.13

12.8.13

vinagre: uma antologia de poetas neobarracos


Só quando os homens se reúnem em praça pública há política, que é um acontecimento. Negociação de engravatados em gabinete é polícia (administração, gerência). Política é outra coisa, é gente OCUPANDO a rua. Toda a política é ocupação. Ocupação que não leva a uma estabilidade. A posse contra a propriedade.

Alexandre Nodari

Por uma poética de trincheiras & quebradas: nós, Os Vândalos, apresentamos a coletânea Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos. Feita por todos. Este trabalho é um trabalho coletivo. A ideia inicial nasceu como gesto público de solidariedade a todos os movimentos de contestação que acontecem simultaneamente no Brasil (& também no mundo). Chamados de vândalos pela imprensa vendida, presos pela polícia por causa do vinagre que portávamos, estamos todos na batalha, na rua. Ação direta. Solidariedade & apoio mútuo.
Esta antologia é dedicada a todas as pessoas que participam de alguma maneira desse movimento de mudança. Até a vitória!


- Os Vândalos -


11.8.13

chopin na cadeira elétrica


[Bad Brains - Live at CBGB | 1982]


10.8.13

inss


Sonhou tanto, 
mas tanto que, 
ao acordar, 
viu-se aposentado.


9.8.13

do diário do senhor G.


Têm uns sujeitos teimosos cheios de ideias fixas que por mãe. O difícil é se ver livre dos diabos e suas malas de objetivos.


8.8.13

buba


[...]

Rapaz, se você não tiver nada melhor que fazer e os problemas estiverem te matando, consulte as putas.

- Bolaño -


7.8.13

sobre o capitalismo e o desejo

[Deleuze & Guattari | 1973]

[...] 

Tudo é irracional no capitalismo, exceto o capital ou o capitalismo.
 
[...] 

O dinheiro, o capital-dinheiro, é um pouco de demência tal que só teria em psiquiatria um equivalente: aquilo a que se chama o estado terminal. É muito complicado, mas farei uma observação de detalhe. Há exploração nas outras sociedades, há também escandá-los e segredos, mas isso faz parte do código, há mesmo códigos explicitamente secretos. No capitalismo, é muito diferente: não há nada secreto, pelo menos em princípio e segundo o código (eis porque o capitalismo é “democrático” e se reclama da “publicidade”, mesmo no sentido jurídico). E contudo nada é confessável. É a própria legalidade que não é confessável. Por oposição às outras sociedades, é ao mesmo tempo o regime do público e do inconfessável. É próprio do regime do dinheiro um delírio muito particular. Veja-se aquilo que atualmente se chamam “escândalos”: os jornais falam muito deles, toda a gente faz questão de se defender ou de atacar, mas é em vão que se procura o que têm de ilegal, tendo em conta o regime capitalista. A folha de impostos de Chaban, as operações imobiliárias, os grupos de pressão e em geral os mecanismos econômicos e financeiros. Sem necessidade de publicar o privado, contenar-se-ia em fazer confessar o que é público. Encontrar-nos-íamos numa demência sem qualquer equivalente nos hospitais. Em vez disso, falam-nos “de ideologia”. Mas a ideologia não tem importância alguma: o que conta não é a ideologia, nem sequer a distinção ou a oposição “econômico-ideológico”, é a organização de poder. Porque a organização de poder é a maneira como o desejo já está no econômico, como a libido investe no econômico, assedia o econômico e alimenta as formas políticas de repressão.
 
[...] 

Não há ideologia, há tão-somente organização de poder, uma vez dito que a organização de poder é a unidade do desejo e da infra-estrutura econômica. Observem-se dois exemplos. O ensino: em Maio de 68, os esquerdistas perderam imenso tempo por pretenderem que os
professores fizessem a sua auto-crítica como agentes da ideologia burguesa. É estúpido e deleita as pulsões masoquistas dos professores. A luta contra os concursos foi abandonada em proveito da querela ou da grande confissão pública anti-ideológica. Durante esse tempo, os professores reorganizaram sem dificuldade seu poder. O problema do ensino não é um problema ideológico, mas um problema de organização de poder: é a especificidade do poder docente que aparece como uma ideologia, mas é uma pura ilusão. Dos anarquistas aos maoístas, o leque é muito grande, tanto político como analítico. Sem contar, fora da reduzida franja dos grupúsculos, com a masse de pessoas que não sabem muito bem como se determinar entre o impulso esquerdista, a atração da ação sindical, a revolta, a expectativa ou o desinteresse... seria preciso descrever o papel dessas máquinas de esmagar o desejo que os grupúsculos são, esse trabalho de mó e de crivo. É um dilema: ser destruído pelo sistema social ou integrar-se no quadro pré-estabelecido dessas igrejinhas. Nesse sentido, Maio de 68 foi uma revelação surpreendente. A potência desejante atingiu uma tal aceleração que fez explodir os grupúsculos. Estes restauraram-se em seguida e participaram no restabelecimento da ordem com as outras forças repressivas, CGT, PC, CRS (Polícia de choque francesa) ou Edgar Faure. Não digo isto por provocação. Certamente, os militantes se bateram corajosamente contra a polícia. Mas se deixarmos a esfera da luta de interesse para considerar a função do desejo, é preciso reconhecer que o enquadramento de certos grupúsculos abordava a juventude num espírito de repressão: conter o desejo liberto para o canalizar.
 
[...] 

Encontramos sempre o velho esquema: o destaque de uma pseudo vanguarda apta a operar as sínteses, a formar um partido como um embrião de aparelho de Estado; extração de uma classe operária bem ensinada, bem educada; e o resto é um resíduo, lumpenproletariado de que é sempre preciso desconfiar (sempre a velha condenação de desejo). Mas mesmo estas distinções são uma maneira de aprisionar o desejo em benefício de uma casta burocrática. Foucault reage denunciando o terceiro, dizendo que, se houver justiça popular, não passa por um tribunal. Mostra bem como a distinção “vanguarda/proletariado/plebe não-proletarizada” é em primeiro lugar uma distinção que a burguesia introduz nas massas, e de que se serve para esmagar os fenômenos de desejo, para marginalizar o desejo. A questão toda está no aparelho de Estado. Seria bizarro contar com um partido ou com um aparelho de Estado para libertar os desejos. Reclamar uma justiça melhor é como reclamar bons juízes, bons policiais, bons patrões... etc. Aqui dizem-nos: como querem unificar as lutas pontuais sem um partido? Como fazer a máquina funcionar sem um aparelho de Estado? Que a revolução tenha necessidade de uma máquina de guerra é evidente, mas isso não é um aparelho de Estado. Que tenha também necessidade de uma instância de análise, análise dos desejos de massas, está certo, mas isso não é um aparelho exterior de síntese. Desejo liberto quer dizer que o desejo sai do impasse do fantasma individual privado: não se trata de adaptar, de o socializar, de o disciplinar, mas de o ligar de tal maneira que o seu processo não seja interrompido num corpo social, e que produza enunciações coletivas. O que vale não é uma unificação autoritária, mas antes uma espécie de enxameação ao infinito: os desejos nas escolas, nas fábricas, nos quartéis, nas creches, nas prisões etc. Não se trata de sobrepor-se, de totalizar, mas de se ramificar num mesmo plano de báscula. Enquanto se permanecer numa alternativa entre o espontaneísmo impotente de anarquia e a codificação burocrática e hierárquica de uma organização de partido, não há libertação de desejo.
 
[...] 

... será que o capitalismo foi revolucionário nos seus primórdios, será que a revolução industrial coincidiu sempre com uma revolução social? – Não, não me parece. O capitalismo, desde o seu nascimento, esteve ligado a uma repressão selvagem, teve imediatamente a sua organização de poder e o seu aparelho de Estado. Que o capitalismo tenha implicado a dissolução dos códigos e dos poderes sociais precedentes é certo. Mas, nas fendas dos regimes precedentes, ele tinha já estabelecido as engrenagens do seu poder, inclusive do seu poder de Estado. É sempre assim: as coisas não são tão progressivas; antes mesmo que uma formação social se estabeleça, os seus instrumentos de exploração e repressão já lá estão, girando ainda no vazio, mas prontos para trabalhar plenamente.
 
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... A burguesia impõe um novo código, econômico e político; pode-se pensar que ela foi revolucionária. Nada disso. [...] A burguesia nunca se enganou quanto ao seu verdadeiro inimigo. O seu verdadeiro inimigo não era o sistema precedente, mas aquilo que escapava ao controle do sistema precedente, e que ela tinha por objetivo dominar por sua vez. Ela própria devia o seu poder à ruína do antigo sistema; mas só podia exercer esse poder desde que tomasse como inimigo todos os revolucionários do antigo sistema. A burguesia nunca foi revolucionária. Ela mandou que fizessem a revolução. Ela manipulou, canalizou, reprimiu uma enorme pulsão do desejo popular. As pessoas foram deixar-se matar em Valmy.
 

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... dilema muito simples: ou se chega a um novo tipo de estruturas que conduzam finalmente à fusão do desejo coletivo e da organização revolucionária; ou se continua no impulso presente e, de repressões em repressões, caminharemos para um fascismo ao pé do qual Hitler e Mussolini parecerão uma brincadeira.
 
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...: a organização revolucionária deve ser a de uma máquina de guerra e não a de um aparelho de Estado, a de um analisador de desejo e não a de uma síntese exterior.
 
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Actuel. – Será possível estabelecer um paralelo com os movimentos contemporâneos: as comunidades e os caminhos para fugir à fábrica e ao escritório? E haverá um papa para os enganar? Jesus-revolução?
Félix Guattari. – Não é inconcebível uma recuperação por meio do cristianismo. É até certo ponto uma realidade nos Estados Unidos, mas muito menos na Europa ou na França. Mas há já vista uma nova fase latente sob a forma de tendência naturista, a ideia de que seria possível retirar-se da produção e reconstituir uma pequena sociedade à parte, como se não estivesse marcado e fechado pelo sistema do capitalismo.
 
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Há uma tecnocracia da Igreja.
 
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A psicanálise: funciona ao ar livre, mas é ainda pior, muito mais perigosa como força repressiva.
 
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A resistência nada significa para o médico, mas renascimento entra no esquema universal, arquétipo: “Você quer renascer”. O médico reencontra-se aí: finalmente, o seu circuito. E força-a a falar do seu pai e da sua mãe.
 
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Delírio do campo social.
 
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Está no nível da tarefa repressiva do juiz de Ângela Davis que assegurava: “O seu comportamento só se explica por ela estar apaixonada”. E se, ao contrário, a libido de Ângela Davis fosse uma libido social revolucionária? E se ela estivesse apaixonada por ser revolucionária?
 
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Certa geração começa a estar farta dos esquemas que servem pra tudo – Édipo e castração, imaginário-simbólico –, que apagam sistematicamente o conteúdo social, político e cultural de toda a perturbação psíquica.
Actuel. – Vocês associam a esquizofrenia ao capitalismo, é mesmo este o fundamento do vosso livro. Há casos de esquizofrenia em outras sociedades?
Félix Guattarri. – A esquizofrenia é indissociável do sistema capitalista, ele próprio concebido como uma primeira fuga: uma doença exclusiva. Nas outras sociedades, a fuga e a marginalidade assumem outros aspectos. O indivíduo a-social das chamadas sociedades primitivas não é internado. A prisão e o asilo são noções recentes. Ele é expulso, exila-se para o limite da aldeia e aí morre, a menos que vá se integrar numa aldeia vizinha. Cada sistema tem, aliás, a sua doença particular: o histérico das chamadas sociedades primitivas, as manias depressivas-paranóicas no Grande Império... A economia capitalista procede por descodificação e desterritorialização: tem os seus doentes extremos, isto é, os esquizofrênicos, que, no limite, se descodificam e desterritorializam, mas tem também as suas consequências extremas, os revolucionários. 


[DELEUZE, Gilles. A ilha deserta: e outros textos. São Paulo: Iluminuras, 2006. p. 331-343]

ao modo de outros países


5.8.13

das irrazões

[roland topor]

parte
II

Quando os reaças discursam
pensando que não são reaças.


4.8.13

mafalda

[Tiras de Quino]


1.8.13

papéis amassados


[...]

Efetivamente, ao fixar as cenas de leitura, a literatura individualiza e designa aquele que lê, faz com que ele seja visto num contexto preciso, nomeia-o. E o nome próprio é um acontecimento, porque o leitor tende a ser anônimo e invisível. De repente o nome associado à leitura remete à citação, à tradução, à cópia, às diferentes maneiras de escrever uma leitura, de tornar visível que se leu (o crítico seria, nesse sentido, a figuração oficial desse tipo de leitor, mas evidentemente não o único nem o mais interessante). Trata-se de um tráfico paralelo ao das citações: uma figura é nomeada, ou melhor, é citada. Faz-se ver uma situação de leitura, com suas relações de propriedade e seus modos de apropriação.

[...]

A literatura faz isso: dá ao leitor um nome e uma história, retira-o da prática múltipla e anônima, torna-o visível num contexto preciso, faz com que passe a ser parte integrante de uma narração específica.
A pergunta "o que é um leitor?" é, sem sombra de dúvida, a pergunta da literatura.


- Ricardo Piglia | O último leitor -


25.7.13

civilización


[Léon Ferrari | 1920 - 2013]

**

Sinopsis: En 1965, León Ferrari presentó una figura de Cristo crucificado sobre las alas de un avión de guerra estadounidense bajo el título "La Civilización Occidental y Cristiana", y fue un punto de inflexión en el arte argentino, además de que la personalidad y la obra del artista argentino quedarían fuertemente asociadas a la crítica radical de ciertas ideologías.


24.7.13

porque ler os clássicos

[...]

Meu amor.
Hoje, acordei encapetado. E me ganiu, profunda, alta, uma vontade de brigar contigo, te chutar a barriga, sua marafona engalicada! Vontade, não: gana. Urrar e vomitar sobre você. Você e tu. Mijar na tua cabeça, tronco e membros, te socar contra a parede, te fazer sangue. Ao te beijar ficou perdido de amor é o cacete. Pelas manhãs tu és a vida a cantar é uma pinoia, uma ova, uma bosta. A tua cara decadentosa parece o mapa do Chile, estrepe velho, tralha, cadela arrombada, esmerdeada, meu horror.
Mas é para ser entendida só por aqueles que não tiveram dinheiro nem para comer um prato feito. E, isto sim, é a pior das sacanagens.
E eu te bato porque te amo.