9.11.13

brincando de escrever


[...]

Se aguenta as pontas, vira sábio. Vai cuidar de seu quintal. E não engano ninguém: é legal.

[Luis Carlos Maciel]
 

7.11.13

como tornar-se invisível em Curitiba


[...]

Cada conquista, cada livro publicado, cada poema, escultura ou canção, cada tela, espetáculo, disco, filme ou fotografia, cada intervenção bem sucedida no esporte, no direito ou na medicina, cada vez que alguém, lá fora, reconhecer com isenção de ânimo que você está produzindo obra ou feito significativo - o seu grau de invisibilidade aumenta em Curitiba. E é muito fácil perceber isso. Primeiro, não faltarão pessoas tentando dissuadi-lo de seu próprio talento. Tudo farão para reconduzi-lo de volta à mediania, ou melhor, à mediocracia, que é o sistema vigente nesse vago estrato a que denominamos cultura. Se você resistir, tentarão cooptá-lo com promessas de nomeações ou ofertas de emprego em atividades sucedâneas. Se você é um belo projeto de escritor, alguém tentará convencê-lo de que é melhor, mais lucrativo, ser um redator de propaganda.

- Jamil Snege | 2005 -


6.11.13

editar

[miko yu]

cortar
as linhas
das palavras

desvencilhar qualquer tentativa de discurso pesado

poetizar a água o café
a cozinha

no máximo 

(para não sobrecarregar
ou encher a cabeça de linguiça)
transformar a informação em conhecimento.


3.11.13

num país da américa latíndia, amanhã


O POÇO DA SOLIDÃO

José foi intimado a depor. O dono da pensão se atirara ao poço, alegando miséria. Tinha convidado a mulher, mas ela não quis, disse: Vai sozinho. A polícia suspeitava. Numa só semana, três pessoas tinham se atirado em poços, alegando miséria. Um psicólogo declarou: "Psicose. Normal. Não deve haver crime, afinal os que morreram eram miseráveis mesmo."

Loyola - Zero, p. 15

31.10.13

Annuska,



seu telegrama chegou ontem. Estou triste. Encharcadamente triste com os rumos da humanidade.

Amada Annuska, amada & sereia armada do meu submarino de contracultura, ainda me custa acreditar o fechamento do bar do Evori. Lembra quando eu te contei que tinha um sonho parecido com a foto? Ao lado do bareco, lá ond'stá a vaca preta, abriria um sebo e colaboraria com a cena local datilografando zines. Agora dei dessa, voltar às coisas primitivas: do artesanato.

Vê se cuida
minha pequena Annuska,

ps: mande-me mantimentos. Manteiga, papel e fósforo. Se tiver damasco, envia. Amo.


30.10.13

povo e cultura


[New York Dolls - Stranded in the jungle
live at Musik Laden, 1973]

Os colonialistas diziam que somente eles tinham cultura. Diziam que antes da sua chegada à África nós não tínhamos História. Que a nossa História começou com a sua vinda. Estas afirmações são falsas, são mentirosas. Eram afirmações necessárias à prática espoliadora que exerciam sobre nós. Para prolongar ao máximo nossa exploração econômica, eles precisavam tentar a destruição da nossa identidade cultural, negando a nossa cultura, a nossa História.
Todos os povos têm cultura, porque trabalham, porque transformam o mundo e, ao transformá-lo, se transformam.
A dança do Povo é cultura.
A música do Povo é cultura, como cultura é também a forma como o Povo cultiva a terra. Cultura é também a maneira que o Povo tem de andar, de sorrir, de falar, de cantar, enquanto trabalha.
O calulu é cultura como a maneira de fazer o calulu é cultura, como cultural é o gosto das comidas.
Cultura são os instrumentos que o Povo usa para produzir. Cultura é a forma como o Povo entende e expressa o seu mundo e como o Povo se compreende nas suas relações com o seu mundo. Cultura é o tambor. Cultura é o gingar dos corpos do Povo ao ritmo dos tambores.

[FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se complementam. 34 ed. São Paulo: Cortez, 1997]

29.10.13

alienação


n. 1

Não tenho educação mas tenho carro.


27.10.13

demagogia


I


Me perguntaram o que eu achava do governo. Ora: o que penso eu? O que pode um cego pensar? Nada tenho para pensar diante de governos nada revolucionários. O que se tem são patotinhas de amigos e famílias com o mesmo interesse: parasitar a sociedade. Ganhar dinheiro. Ninguém age revolucionariamente se as relações humanas são mediadas por essa coisa fedida, como deixou escrito Mcluhan.

23.10.13

fumaça fluindo rua abaixo


[Ballad of the Skeletons with music by Philip Glass 
and Paul McCartney playing guitar]

**

Sarna Vermelha na Pele
Carros de Polícia dobram Esquina do Lixo -
Isso foi tiro? Tiro pela Culatra ou Cabeça-de-Negro?
Ah, deixa pra lá, tira a boca,
tá morto.

O Homem Evoluiu muito,
da Canoa até o Carro de Bombeiro,
Central Elétrica fumacenta nas Cidades
Executivos com Casas de Campo -
Goteiras nos Barracos na Favela -
Deixa pra lá, tira a boca
tá morto - 


23 de junho de 1968,
Nova Iorque

[GINSBERG. A queda da América. Tradução de Paulo Henriques Britto. Porto Alegre: L&PM, 1987. p. 96]


22.10.13

smog


I


O senhor G. engarrafou uma mulher. Vai deixá-la curtir um bocado de tempo: maturando entre a cortina de fumaça e a cachaça.


19.10.13

aline

viciada em sexo

17.10.13

o carro da miséria


XI

Enquanto isso os sabichões discutem
se doce de abobra dá chumbo pra canhão.

   
Mário de Andrade

14.10.13

garapau


e o santu qui ñ acreditava in deus
comu'é qui'xplica?


11.10.13

jogo das verdades


ou segura o bicho
porque se pegar


Eu tenho um desejo. Destripar um felino: um tigre pequeno. Primeiro abro com a ponta da faca seu pescoço mole e desço a lâmina peito abaixo. Paro no sexo. Por último retiro as miudezas de dentro do animal e aproveito o couro para o tamborim do próximo carnaval. Seu pequenino coração espetarei num pedaço de pau. Farei dele um espetinho no pão. Tão delicioso quanto a consciência de um crime.



9.10.13

estórias do senhor G.


diário
quarto dia

O senhor G. na semana passada esteve indisposto para o trabalho. Sentia como clima uma melancolia de lesma e pôs-se a trabalhar sua escritura de forma rigorosa. Na cadernetinha que lhe serve de anotações, podemos encontrar pérolas originárias de sua cabeça.

A existência nada mais é senão um fenômeno absurdo; a realidade me aborrece. Nem mais nem menos. Eis tudo.


2.10.13

cocteau:


Le crocodile croque Odile.


23.9.13

estórias do senhor G.


diário
terceiro dia

Eu juro, sob este céu de chumbo, que vi um professor, na hora do intervalo das aulas, mergulhar seu cigarro na caneca de café e comê-lo como se fosse uma bolacha maria. Acreditem.


21.9.13

uma revolta visceral


O anarquismo é o que se poderia chamar de revolta visceral. Augustin Hamon, a partir de uma sondagem de opinião dos meios libertários, no fim do século passado, concluiu que o anarquista é, antes de mais nada, um revoltado. Recusa a sociedade na sua totalidade, com a sua "chusma de policiais". Liberta-se, conforme Max Stirner, de "tudo quanto é sagrado". Realiza uma imensa paganização. Estes "vagabundos da inteligência", estes "tresloucados", "em lugar de considerarem como verdades intocáveis o que dá a milhares de homens a consolação e o repouso, saltam por cima das barreiras do tradicionalismo e abandonam-se, desenfreados, às fantasias da sua crítica impudica."
Proudhon rejeita completamente a "gente oficial", os filósofos, os padres, os magistrados, os acadêmicos, os jornalistas, os parlamentares, etc., para quem "o povo é sempre o monstro que se combate, amordaça e agrilhoa; que se conduz com habilidade, como o rinoceronte e o elefante; que se domina pela fome; que se sangra pela colonização e a guerra". Élisée Reclus explica por que a sociedade aparece aos seus guardiães tão fácil de controlar: "Depois que há ricos e pobres, poderosos e submetidos, senhores e servos, imperadores que ordenam o combate e gladiadores que se matam, as pessoas avisadas têm apenas que se colocar do lado dos ricos e dos senhores e fazer-se cortesãs dos imperadores."
O estado permanente de revolta leva o anarquista a sentir simpatia por todo o irregular, e a abraçar a causa do réprobo ou do foragido. É muito injustamente, acreditava Bacúnine, que Marx e Engels falavam com profundo desprezo do Lumpenprolerariat ("proletariado esfarrapado"), "pois é nele e só nele, e não na camada burguesa da massa operária, que residem o espírito e a força da futura revolução social."

- Freire | Viva eu viva tu viva o rabo do tatu -

19.9.13

tres notas sobre uma revolução impossível


1.

Ao longo da história contemporânea, vimos o capitalismo avançar os territórios subjetivos, desfazendorefazendo suas bordas, ocupando-se, cada vez mais, da produção de relações e modos-de-vida. É como se, depois de expropriar a terra e o corpo, fosse hora do capitalismo empreender o sequestro do inconsciente. No entanto, o inconsciente é como uma usina de derivas, e à mesma medida que é capturado, transborda por todos os lados, desinventainventa, está dentrofora. Se o trabalho é imaterial como querem pensar alguns filósofos políticos, as chaves e cadeados da fábrica também o são, estão na ordem da força-invenção, das ficções somatopolíticas. É chegada hora de repovoar o imaginário, mas com o quê? Que forças atravessarão a cidade vazia, e para onde rumaremos, que ventos, que tempestades de sutilezas! Resta aventurar-se, experimentar as intensidades dos incontáveis percursos em aberto, com prudência cartografar o que há além-baldo, mas para isso é preciso, antes, fazer soar a canção inexprimível da gulag e estar aquém e além do humano, até irromper na manhã um ser-errático, inconcluso qual o mundo que habita ao mesmo tempo em que deserta.

2.

É, no mínimo, curioso que eu esteja aqui, com uma renitente fisgada aguda na cabeça, escrevendo sobre como a apatia social que se abate sobre a massa de eleitorxs, se levada a suas consequências extremas, pode realizar um rompimento radical com o sistema que a produz; que essa passividade típica da relação entre representadxs e representantes, desde que seja radicalizada, pode de tal modo esvaziar o corpo político a ponto de fazer passar por ele fluxos transversais, suscitando o êxodo do estado – e das demais formas cansadas de estruturação da existência. Embora a manutenção do sistema dependa da produção de sujeitos políticos apáticos, as apatias, elas mesmas, não dependem do sistema, e nisso consiste sua força. O sujeito político apático é de tal modo levado a descolar-se das coisas da política, que precisa aprender a viver de maneira independente delas. Essa relativa independência funda um tipo de produção social em que a balança que equilibra governantes e governados pende e transforma a soberania do Estado num peso morto às costas da sociedade. Assim é que as apatias, na realidade, designam um tipo de produção social que de apática nada tem, porque se funda na possibilidade de viver apesar dos governos. De certa maneira, a experiência do lumpen (sobreviventes de uma guerra invisível) nos mostra que aqueles que lutam para subsistir, conquanto sofram sozinhos com a terrível miséria de um mundo que transformou em saúde a sua doença, ignoram as coisas da política, porque, no limite de sua sobrevivência, não precisam delas. Ao invés de um Ensaio sobre a Lucidez, estou prestes a escrever um Ensaio sobre a Catatonia, para contar a história de uma cidade que simplesmente desistiu e respondeu ao chamado do dever, como Bartlebys num coral desajeitado, “eu preferiria não”; e recusou-se a votar, a escolher. No dia da eleição, não houve eleitorxs, nem mesárixs, cabxs eleitorais, partidárixs, e mesmo xs candidatxs, tomados de um profundo cansaço, recolheram-se em suas casas e dormiram relaxadamente como se simplesmente ignorassem tudo o que ficava para trás. Vazia, a cidade pôde, pela primeira vez, respirar ventos estrangeiros, viu atravessar as avenidas nômades de todas as estirpes, tapuias, bárbarxs, ciganxs, lobxs erráticxs, urubus-águia, as baratas remanescentes de hiroshima, a comunidade dxs sem comunidade.

3.

a thic quang duc

A dança é uma arte de guerra porque exige “prontidão”, estar atento aos fluxos e contatos, como uma disponibilidade para ser-com. Eu sempre disse que quando a polícia viesse me bater, eu dançaria. Porque se eu não posso dançar não é minha revolução. Há que se diferenciar a ideologia pacifista-legalista de um outro pacifismo, este não-inerte, que ao invés de interditar o movimento como uma polícia, faz da sua não-violência uma arma. Enquanto a ideologia pacifista-legalista nada mais é que obediência à ordem, o pacifismo não inerte é aquele cuja base da ação é a própria desobediência. Quando o corpo percebe que suas rotas já não precisam ser aquelas previamente editadas, o complexo da ordem se põe a perder porque, afinal, a soberania do uno depende inteiramente da tácita submissão da multiplicidade aprisionada que se deixa governar por ela. O pacifismo não inerte e desobediente é aquele que realiza o êxodo abissal, a fuga desabalada pelas noites geracionais de novos mundos; aquele que se desgarra. Mas esse desgarrar, ele próprio não é inteiramente pacífico, pelo contrário: o governo do uno não vai deixar que as crianças abandonem o playground; o rei, que era nosso amigo, na nossa fuga de pasárgada, vai mirar seus canhões contra nós. Dancem, dancem ou estamos perdidos. Porque quando a guerra nos ameaça, precisamos nós também nos armar. Mas que armas usar contra um pelotão de cães de guarda munido de gás de pimenta, bombas de efeito moral, tiros para o alto, balas de borracha e escudos? Pedras e poemas! Penso ser possível, através de uma crítica das armas, recuperar a violência e reimaginá-la – fazer brotar de chernobyl a possibilidade de armas criativas, que redirecionem a violência, recuperem-na de seu potencial exclusivamente negativo. Do mesmo modo, há que se recuperar o pacifismo – resgatá-lo das sobrecodificações que dele se apossam a fim de reconhecer que a não violência como atitude para com a vida se vê diante de uma crise inevitável: como pretender a oposta simetria a uma violência ordenadora já sem precedentes? Como ser pacífico para além da passividade e do inativismo?

- Jota Mombaça -


18.9.13

sim sim

[funny nun]


quando Deus fez amor Ele não ajudou muito
quando Deus fez os cachorros Ele não ajudou os cachorros
quando Deus fez as plantas isso foi medíocre
quando Deus fez o ódio nós tivemos uma utilidade em comum
quando Deus me fez Ele me fez
quando Deus fez o macaco Ele estava dormindo
quando Ele fez os narcóticos Ele estava deprimido

quando Ele fez você deitada na cama
Ele sabia o que Ele estava fazendo
Ele estava bêbado e Ele estava entorpecido
e Ele fez as montanhas e o mar e fogo
na mesma hora

Ele cometeu alguns erros
mas quando Ele fez você deitada na cama
Ele gozou por todo Seu Santo Universo.

 
[BUKOWISKI, Charles. Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Tradução Fernando Koproski. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005]

16.9.13

impresso

[Tom Gauld]

[...]


Nas sociedades orais, as mensagens discursivas são sempre recebidas no mesmo contexto em que são produzidas. Mas, após o surgimento da escrita, os textos se separam do contexto vivo em que foram produzidos.


- LÉVY, P. Cibercultura | trad. Carlos I. da Costa - 



15.9.13

message from beat street


[Pete Rock - Lost & Found:
Hip Hop Underground Soul Classics  | 1995]


suavidade

A teoria do não fazer nada calha bem para estes momentos. O meio do domingo convida para o andar de bici. Para bem longe: pedalamos.


13.9.13

farofada


Eu tive um professor humilde e inteligente até as tripas. Me contou certa manhã, de forma tímida, que ao chegar em casa horas depois de lecionar, escondia-se no recanto de sua biblioteca (feito um fantasma), retirava da pasta de textos alguns trabalhos e, conscientemente, os comia. O mestre, sob os efeitos do tema da assertiva do colegiado, terminava seu apólogo de boca cheia:


- tudo cópia, tudo!


12.9.13

chopin na cadeira elétrica


[B-Negão | 2003]


cwb


Über Alles
por Tigrinho

A polícia realizou mais uma operação enxuga gelo.
Levou para as grades meia dúzia de pés de chinelo, intimidou três ou quatro laranjas miúdas e encheu de água o aquário do peixe grande. Em nota de rodapé, o jornal Boca Oficial noticiou, em poucas linhas, que o mundo tem o tamanho de uma pera. 


10.9.13

escritos políticos

[1891-1937]


[...]

É preciso perder o hábito e deixar de conceber a cultura como saber enciclopédico, no qual o homem é visto apenas sob a forma de um recipiente a encher e entupir de dados empíricos, de fatos brutos e desconexos, que ele depois deverá classificar em seu cérebro como nas colunas de um dicionário, para poder em seguida, em cada ocasião concreta, responder aos vários estímulos do mundo exterior. Essa forma de cultura é realmente prejudicial, sobretudo para o proletariado. Serve apenas para criar marginais, pessoas que acreditam ser superiores ao resto da humanidade porque acumularam na memória um certo número de dados e de datas que vomitam em cada ocasião, criando assim quase que uma barreira entre elas e as demais pessoas. Serve para criar aquele tipo de intelectualismo balofo e incolor, tão bem fustigado duramente por Romain Rolland, intelectualismo que gerou toda uma caterva de presunçosos e sabichões, mais deletérios para a vida social do que os micróbios da tuberculose e da sífilis o são para a beleza e a saúde física dos corpos. O estudantezinho que sabe um pouco de latim e de história, o rábula que conseguiu obter um diploma graças à irresponsabilidade e à desatenção dos professores acreditam ser diferentes, superiores até mesmo ao melhor operário qualificado, que cumpre na vida uma tarefa bem precisa e indispensável e que vale cem vezes mais em sua atividade do que os outros valem na deles. Mas isso não é cultura, é pedantismo; não é inteligência, mas intelectualismo - e é com toda razão que se reage contra isso.

- Antonio Gramsci | trad.: Carlos N. Coutinho -

9.9.13

abaixo o carro...



VIVA A BICICLETA!
por Caroline G.


O CARRO NÃO É SIMPLESMENTE um meio de locomoção, como certas pessoas particularmente ingênuas poderiam pensar. A invenção do carro não foi também um passo gigantesco no caminho do progresso, como os publicitários querem nos fazer crer.

Não, o carro é um instrumento de poder e destruição. Ele é inimigo dos seres humanos: não somente porque ele os mata (pedestres imprudentes, transeuntes distraídos, vítimas de assassinos comuns, os motoristas), mas também porque ele os deforma, os desfigura, os nega – uma pessoa ao volante não é mais um ser humano.

Pegue uma pessoa comum, pacífica, reservada e habitualmente calma. Meta-lhe entre as mãos um volante e sob os seus pés um acelerador. Lance-a em um engarrafamento, por exemplo, numa rua movimentada às 6 horas da tarde. Olhe para ela... Você não a reconhece mais? Mas, está ali, um bruto desumano, pálido, interpelando os outros automobilistas a golpe de insultos obscenos e rabugentos... Ela amedrontou você? Acrescente-lhe um celular e terá triplicado seu poder de matar. É como se você desse um revólver a alguém... Raros são aqueles que irão recusar a servir-se dele.

Réjean Ducharme, um escritor nascido em Quebec, analisou particularmente bem esse processo que transforma o humano em automobilista. Aliás, ele propõe não chamar mais automobilista, mas automóvel, uma vez que o condutor forma um corpo com seu veículo:

Quando digo automóveis, quero dizer automobilistas. O automóvel e o automobilista fazem parte de uma só e mesma coisa: o automóvel.
Não se tem um automóvel; se é um automóvel.
Não se pode nascer automóvel; torna-se automóvel, de repente.

Para finalizar, segue um poema composto pelo narrador do romance de Ducharme:

Os automóveis
Sobre o caminho de concreto,
Passam os homens e as mulheres
Enxertados nos veículos
Que apagam o sangue e a alma.
Passam no automóvel,
Esses homens loucos, essas mulheres loucas.
E se crêem, ai de mim, aptos
A viver apenas de petróleo.
Eles não falam, buzinam.
E não andam: rolam.
Visto que com duas pernas eu funciono,
Eles riem; me chamam de galinha.
São amarelos, ou verdes, ou negros.
Entre eles, nada de segregação:
Mexem-se entre as calçadas
Lado a lado e a uníssono.

Estejamos atentos!

Mas o que fazer, você me pergunta, se não quisermos nos tornar “automóveis”? A resposta é simples: sejamos ciclistas! O ciclista é o oposto do “automóvel”: mesmo em cima de sua bicicleta, ele conserva todo seu livre-arbítrio, pode ir aonde quiser, estacionar onde achar melhor... Ele não ameaça constantemente a vida de seus vizinhos. Está à escuta do exterior: em vez de se blindar medrosamente se rodeando de aço, ele imerge corajosamente em seu meio ambiente – que evita, além disso, poluir. Raramente perde o controle de si, e se deixa guiar por dois princípios: a liberdade e o respeito ao outro.

Pode-se ver então que a escolha de um meio de transporte é, acima de tudo, uma escolha de vida: um estado de espírito. Recusar o carro é recusar um modo de vida que nos torna perigosos (para nós mesmos, para os outros e para o meio ambiente), é querer uma vida diferente daquela proposta pelos publicitários que nos impõem a sociedade moderna.

Não somente com palavras se muda a sociedade...

A todos aqueles que enaltecem o individualismo, o comunismo, o “ecologismo” etc., eu respondo: o CICLISMO!

6.9.13

professores fudidos do mundo e a ditadura do temporário


[Roland Topor]

[...]

Nós não somos pessoas vocacionadas. Para o inferno com a vocação, os santos, a visão missionária que nos diz que escolhemos uma “missão” e que temos de aceitar os percalços da escolha. Parceiro, eu não escolhi merda nenhuma. Foi esse sistema que me escolheu. Foi ele que escolheu fuder os/as professores/as, os camelôs, os sem-teto, os sem-terra e todo/a aquele que se revolta. E eu, nesses treze anos entre empregos fudidos, desempregos fudidos e militância fudida, participando de reuniões de fudidos/as esperando tudo melhorar, mas os canalhas trabalham em ritmo industrial e nós, as desgraçadas e desgraçados do mundo somos obrigados a fazer a vida e a luta em ritmo artesanal.

 - Rafael Vendetta -

4.9.13

bife com batatas fritas

[julio de 1973]

**

Eu sou um cara de poucas palavras.
Ponto.

A partir de hoje, vou me comunicar por meio de signos-chaves, mapas-conceituais, abstraciones, pantomima. Levando em consideração a disciplina do pensamento, isto é, da leitura e da escrita, rearranjo o corpus do autor francês da seguinte maneira:

a) Literatura: problemática;
b) Escritura: sem o compromisso oficial da eleição;
c) Linguagem: sua consistência, sua profundidade, sua ameaça;
d) Ideologia: desvendando a consciência burguesa;
e) O escritor: corpo, passado, gesto de sociabilidade.


2.9.13

estórias do senhor G.


[Dead Kennedys | 1984]

diário
segundo dia

A fêçora sempre caçoa das minhas camisetas de bandas. Ela fica me perseguindo e cerceando meu gosto musical, dizendo que isso é coisa do diabo. 


29.8.13

(o) cup (e)

[Hommo Luddens]


Não começou em Salvador, 
não vai terminar em São Paulo

[...]

O acesso do trabalhador à riqueza do espaço urbano, que é produto de seu próprio trabalho, está invariavelmente condicionado ao uso do transporte coletivo. As catracas do transporte são uma barreira física que discrimina, segundo o critério da concentração de renda, aqueles que podem circular pela cidade daqueles condenados à exclusão urbana. Para a maior parte da população explorada nos ônibus, o dinheiro para a condução não é suficiente para pagar mais do que as viagens entre a casa, na periferia, e o trabalho, no centro: a circulação do trabalhador é limitada, portanto, à sua condição de mercadoria, de força de trabalho.

[...]

A cidade é usada como arma para sua própria retomada: sabendo que o bloqueio de um mero cruzamento compromete toda a circulação, a população lança contra si mesma o sistema de transporte caótico das metrópoles, que prioriza o transporte individual e as deixa à beira de um colapso. [...] Na ação direta da população sobre sua vida - e não a portas fechadas, nos conselhos municipais engenhosamente instituídos pelas prefeituras ou em qualquer uma das outras artimanhas institucionais -, que se dá a verdadeira gestão popular. 

[...] 

É essa tomada de poder que assusta os gestores estatais e privados, que tentam agora reocupar o espaço que perderam para os trabalhadores urbanos.

[...]

A organização descentralizada da luta é um ensaio para uma outra organização de transporte, da cidade e de toda a sociedade. Vivenciou-se, nos mais variados cantos do país, a prática concreta da gestão popular.

- MPL - São Paulo | 2013 -