19.11.13

os jornais, para que servem?

[Thoreau | La vida sublime]

Somos uma raça de acanhados homens-pássaros e em nossos vôos intelectuais, elevamo-nos pouco mais alto do que as colunas dos jornais diários.

[Henry David Thoreau]

Ler um jornal é como observar um aquário. Peixes, água, barquinho afundado, bolhas. A visão dos jornais restringe o mundo a um aquário! Um mundo reduzido, um conjunto ou círculo ideológico onde cabem apenas vedetes, uma covarde concessão às idéias dominantes e aos poderes governamentais.

Acompanhei as notícias dos jornais, revistas e TV no período da ditadura. Com raras exceções, não via utilidade melhor aos jornais impressos que dobrá-los, cortá-los, perfurá-los e dependurá-los em um prego perto da bacia da privada. Nem uma palavra pela democracia. O fato do regime ditatorial proibir jornais de falar a verdade não justifica proferir mentiras durante 21 anos. Se um soldado é obrigado pelo seu comandante a descumprir as leis, ferir, matar inocentes, se for pessoa de bem, nada mais lógico do que mudar de profissão. Porque os jornalistas naquele período não fizeram o mesmo?

Esses noticiários nos são vendidos como peixe velho retirado de uma geladeira. Em seus personagens principais, vedetes do mundo esportivo, político, artístico, científico, não se vê nada que lembre respeitáveis cidadãos de uma democracia. E quando retratam o homem comum, ele aparece como criminoso, estúpido, ridículo ou massa de manobra.

Lembro da ocasião em que contratei uma jornalista do Estadão para escrever uma matéria sobre Jaime Cuberos, que acabara de morrer de câncer. Sapateiro, jornalista, autodidata, respeitado no meio acadêmico, maior expressão do anarquismo brasileiro. A matéria seria publicada numa revista alternativa. “Jaime Cuberos? Quem é?” Disse ela, em tom de deboche. Respondemos que o Jornal do Brasil fizera no dia anterior uma resenha sobre sua vida, ao que ela retrucou: “o JB está à beira da falência, esse cara não merece nada além de uma nota paga na seção de efemérides”. Nesse dia eu compreendi a estreiteza da mentalidade da maior parte dos jornalistas.

Mas quem é este público que consome jornais? Quem é este público assim tão totalmente privado da liberdade e que tolera todo tipo de abuso? Seja lá qual for, ele merece menos que qualquer outro ser tratado gentilmente. Os manipuladores da propaganda, com o descaramento habitual daqueles que sabem que as pessoas tendem a justificar quaisquer afrontas não desforradas, calmamente declaram que “as pessoas informadas lêem jornais”. Mas essas informações e esses jornais são igualmente vis, pois dificilmente questionam quem, como, quando, porque certas matérias são escritas, e ignoram por quem e por qual razão uma versão do fato é defendida nos editoriais e outra não.

Os leitores de jornais, raramente proletários e nunca burgueses de verdade, são recrutados quase que completamente de um único estrato social, que, todavia, tem aumentado consideravelmente – o extrato dos empregados qualificados de baixo nível das várias ocupações do setor de “serviços”, tão necessários ao atual sistema de produção: administração, controle, manutenção, pesquisa, ensino, propaganda, entretenimento, pseudo crítica. Só para dar uma idéia de quem são eles. Este público que ainda lê jornais, inclui naturalmente o jovem da mesma classe que ainda está na fase de aprendizado de uma ou outra dessas funções.

Enganados sobre tudo, eles podem apenas repetir absurdos baseados em mentiras – não passam de pobres assalariados que se vêem como donos de propriedades, não passam de místicos ignorantes que se julgam educados, não passam de zumbis com a ilusão de que seus votos significam alguma coisa, e que acompanham diariamente os gráficos das intenções de voto estampados nas manchetes, que pautarão suas conversas nos bares, filas e local de trabalho.

Este público, que gosta de simular conhecimento, na verdade não faz outra coisa senão justificar tudo aquilo que é forçado a sofrer, aceitando passivamente a constante e crescente repugnância do alimento que ingere, do ar que respira, da casa onde mora – este público leitor grita por mudança somente quando afeta a mesmice com a qual se acostumou. Todos os jornalistas, até mesmo aqueles suficientemente atualizados para ecoar alguns poucos modismos criados pela imprensa, continuam presumindo a inocência deste público, continuam usando as mesmas velhas convenções jornalísticas para mostrar o mesmo tipo de aventura distante ordenada por celebridades – celebridades cuja intimidade pode ser vista em grande parte pelo buraco da fechadura da TV.

Os jornais a que me refiro é uma imitação desordenada de uma vida desordenada, uma produção habilmente projetada para nada comunicar. Não serve a nenhum propósito fora daquela hora de enfado que reflete o mesmo enfado. Esta imitação covarde é a enganação do presente e a falsa testemunha do futuro. Sua massa de ficções e grandes espetáculos não passa de uma acumulação inútil de reflexos varridos pelo tempo. Que respeito infantil pelas imagens e pensamentos de políticos profissionais, celebridades de BBB, Fazenda, vedetes de futebol! Esta feira das vaidades é bem adequada para espectadores plebeus, que constantemente oscilam entre o entusiasmo e a decepção, o bipolarismo epidêmico de nossos dias; falta-lhes gosto porque eles nunca tiveram nenhuma experiência feliz em coisa alguma, e recusam admitir suas experiências infelizes porque lhes falta além da coragem também o gosto. Isso explica porque nunca cessam de sofrer todo tipo de fraude, geral e particular, que apela para a auto influenciada credulidade.

O que os jornais de nossos dias escrevem, da mesma forma que durante o tempo da ditadura, é tão desprezível quanto a máxima de que o que não está no processo ou no aquário não está no mundo. Foi justamente a intimidação de testemunhas, a compra de falsos depoimentos, o sumiço de provas cabais, tudo isso promovido pelo governo dos Estados Unidos, que lançaram Sacco e Vanzeti na cadeira elétrica, e que fizeram o advogado deles jurar que nunca mais pisaria num tribunal.

Todo ano a mesma ladainha do mundo do aquário e do processo. Diariamente jornais estampam malditos gráficos de intenção de voto em candidatos de plantão. Como se não houvesse no mundo outra opção à democracia representativa, democracia que deixa de sê-la ao tornar-se representativa. Como se democracia do povo e democracia de representantes ou pseudo representantes do povo fossem a mesma coisa.

(*) boa parte desse texto constitui desvio de "In Girum" de autoria de Guy Debord

17.11.13

elegia che guevara


[Elegia al Che Guevara by Quilapayún]

Tribune Europeu, rosto de rapaz em foto olhiaberto,
garoto imberbe feminino radiante
recostado sorrindo olhando pra cima
Calmo como se lábios de mulheres beijassem partes invisíveis de seu corpo
Velho cadáver em repouso de menino angelical,
perceptivo Médico argentino, petulante Major cubano
cachimbo na boca; escrevendo sempre no Diário
entre mosquitos Amazonas
Dorme na serra, renunciou o tédio do Trono de Havana
Teu pescoço mais sexy que tristes pescoços envelhecidos de Johnson DeGaulle, Kossiguin,
ou o pescoço baleado de John Kennedy
Olhos mais vivazes erguidos para jornais de morte
Do que preocupadas Câmaras do Congresso vívidas passando
telas pontilhadas pra sombreado de TV, MacNamara
de olhos vidrados, Dulles na velhice...

Mulheres de chapéus-oco sentadas na lama do subúrbio a 4.000 metros de altitude no Céu
com dor de cabeça em La Paz
vendendo batatas pretas trazidas de cabanas de sapé
no Puno orlado das montanhas
teriam adorado teu desejo e beijado teu Semblante
no Cristo
Vão levantar máscara de olhos-lâmpadas vermelhas
e presas brancas pra assustar os soldados-fantasmas
que balearam teus pulmões

Incrível! um rapaz abandonou a sala de operações
ou cura da hepatite nos Pampas
pra enfrentar os armazéns da ALCOA, Multiassassina
Diretoria da United Fruit
Conselho Diretor da Universidade de Chicago Produtora de Poluição
Fantasmas Advogados alinhados com a morte
Os advogados Dillon & Reed de John Foster Dulles
Bigode de Acheson, chapéu duro de Truman
Enlouquecer e se esconder na selva numa mula & apontar rifle pra OEA
pras Cortesias egocêntricas de Rusk, tropas metálicas do
Pentágono
intrépidos Anunciantes e intelectuais burrificados
da Time à CIA
Um rapaz contra a Bolsa de Valores toda a Wall Street berrando
desde que Norris escreveu The Pit
temeroso de dólares gratuitos caindo da Galeria dos Observadores
jogados por irmãos mais moços entre gargalhadas,
Contra a Companhia do Estanho, contra os Serviços Telegráficos,
contra os cientistas enlouquecidos pela grana
do Capitalismo Telepata sensor infravermelho
contra Universitários milhões assistindo Família de Wichita
Sala da TV

Um rosto radiante enlouquecido com um rifle
Enfrentando as redes elétricas.


novembro de 1967 - Veneza, Itália

[GINSBERG, Allen. A queda da América: poemas destes estados 1965-1971. Tradução: Paulo Henriques Britto. Porto Alegre: L&PM, 1987]


13.11.13

a disciplina do amor

[Quino]


[...]

O homem de grandes negócios fecha a pasta de zíper e toma o avião da tarde. O homem de negócios miúdos enche o bolso de miudezas e toma o ônibus da madrugada. A mulher elegante faz Cooper e sauna na quinta-feira. A mulher não elegante faz feira no sábado. A freira faz orações diariamente em horas certas. A prostituta faz o trottoir todos os dias em certas horas. O patriarca joga bridge e faz amor segundo o calendário. O operário joga bilhar e faz amor nos feriados. Homens, mulheres e crianças - todos com seus dias previstos e organizados: amanhã tem missa de sétimo dia, depois de amanhã tem casamento. Batizado na terça e na quarta, macarronada, que a feiojada fica para sábado, comemoração prévia de futebol de domingo, vitória certa, ora se!... As obedientes engrenagens da máquina funcionando com suas rodinhas ensinadas, umas de ouro, outras de aço, estas mais simples, mais complexas aquelas lá radiante, azeitadas para o movimento que é uma fatalidade, taque-taque, taque-taque... Apáticos e não apáticos, convulsos e apaziguados, atentos e delirantes em pleno funcionamento num ritmo implacável.
- Lygia F. Telles -

11.11.13

eterna colônia

[Cesar da Silveira | s/d]

9.11.13

brincando de escrever


[...]

Se aguenta as pontas, vira sábio. Vai cuidar de seu quintal. E não engano ninguém: é legal.

[Luis Carlos Maciel]
 

7.11.13

como tornar-se invisível em Curitiba


[...]

Cada conquista, cada livro publicado, cada poema, escultura ou canção, cada tela, espetáculo, disco, filme ou fotografia, cada intervenção bem sucedida no esporte, no direito ou na medicina, cada vez que alguém, lá fora, reconhecer com isenção de ânimo que você está produzindo obra ou feito significativo - o seu grau de invisibilidade aumenta em Curitiba. E é muito fácil perceber isso. Primeiro, não faltarão pessoas tentando dissuadi-lo de seu próprio talento. Tudo farão para reconduzi-lo de volta à mediania, ou melhor, à mediocracia, que é o sistema vigente nesse vago estrato a que denominamos cultura. Se você resistir, tentarão cooptá-lo com promessas de nomeações ou ofertas de emprego em atividades sucedâneas. Se você é um belo projeto de escritor, alguém tentará convencê-lo de que é melhor, mais lucrativo, ser um redator de propaganda.

- Jamil Snege | 2005 -


6.11.13

editar

[miko yu]

cortar
as linhas
das palavras

desvencilhar qualquer tentativa de discurso pesado

poetizar a água o café
a cozinha

no máximo 

(para não sobrecarregar
ou encher a cabeça de linguiça)
transformar a informação em conhecimento.


3.11.13

num país da américa latíndia, amanhã


O POÇO DA SOLIDÃO

José foi intimado a depor. O dono da pensão se atirara ao poço, alegando miséria. Tinha convidado a mulher, mas ela não quis, disse: Vai sozinho. A polícia suspeitava. Numa só semana, três pessoas tinham se atirado em poços, alegando miséria. Um psicólogo declarou: "Psicose. Normal. Não deve haver crime, afinal os que morreram eram miseráveis mesmo."

Loyola - Zero, p. 15

31.10.13

Annuska,



seu telegrama chegou ontem. Estou triste. Encharcadamente triste com os rumos da humanidade.

Amada Annuska, amada & sereia armada do meu submarino de contracultura, ainda me custa acreditar o fechamento do bar do Evori. Lembra quando eu te contei que tinha um sonho parecido com a foto? Ao lado do bareco, lá ond'stá a vaca preta, abriria um sebo e colaboraria com a cena local datilografando zines. Agora dei dessa, voltar às coisas primitivas: do artesanato.

Vê se cuida
minha pequena Annuska,

ps: mande-me mantimentos. Manteiga, papel e fósforo. Se tiver damasco, envia. Amo.


30.10.13

povo e cultura


[New York Dolls - Stranded in the jungle
live at Musik Laden, 1973]

Os colonialistas diziam que somente eles tinham cultura. Diziam que antes da sua chegada à África nós não tínhamos História. Que a nossa História começou com a sua vinda. Estas afirmações são falsas, são mentirosas. Eram afirmações necessárias à prática espoliadora que exerciam sobre nós. Para prolongar ao máximo nossa exploração econômica, eles precisavam tentar a destruição da nossa identidade cultural, negando a nossa cultura, a nossa História.
Todos os povos têm cultura, porque trabalham, porque transformam o mundo e, ao transformá-lo, se transformam.
A dança do Povo é cultura.
A música do Povo é cultura, como cultura é também a forma como o Povo cultiva a terra. Cultura é também a maneira que o Povo tem de andar, de sorrir, de falar, de cantar, enquanto trabalha.
O calulu é cultura como a maneira de fazer o calulu é cultura, como cultural é o gosto das comidas.
Cultura são os instrumentos que o Povo usa para produzir. Cultura é a forma como o Povo entende e expressa o seu mundo e como o Povo se compreende nas suas relações com o seu mundo. Cultura é o tambor. Cultura é o gingar dos corpos do Povo ao ritmo dos tambores.

[FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se complementam. 34 ed. São Paulo: Cortez, 1997]

29.10.13

alienação


n. 1

Não tenho educação mas tenho carro.


27.10.13

demagogia


I


Me perguntaram o que eu achava do governo. Ora: o que penso eu? O que pode um cego pensar? Nada tenho para pensar diante de governos nada revolucionários. O que se tem são patotinhas de amigos e famílias com o mesmo interesse: parasitar a sociedade. Ganhar dinheiro. Ninguém age revolucionariamente se as relações humanas são mediadas por essa coisa fedida, como deixou escrito Mcluhan.

23.10.13

fumaça fluindo rua abaixo


[Ballad of the Skeletons with music by Philip Glass 
and Paul McCartney playing guitar]

**

Sarna Vermelha na Pele
Carros de Polícia dobram Esquina do Lixo -
Isso foi tiro? Tiro pela Culatra ou Cabeça-de-Negro?
Ah, deixa pra lá, tira a boca,
tá morto.

O Homem Evoluiu muito,
da Canoa até o Carro de Bombeiro,
Central Elétrica fumacenta nas Cidades
Executivos com Casas de Campo -
Goteiras nos Barracos na Favela -
Deixa pra lá, tira a boca
tá morto - 


23 de junho de 1968,
Nova Iorque

[GINSBERG. A queda da América. Tradução de Paulo Henriques Britto. Porto Alegre: L&PM, 1987. p. 96]


22.10.13

smog


I


O senhor G. engarrafou uma mulher. Vai deixá-la curtir um bocado de tempo: maturando entre a cortina de fumaça e a cachaça.


19.10.13

aline

viciada em sexo

17.10.13

o carro da miséria


XI

Enquanto isso os sabichões discutem
se doce de abobra dá chumbo pra canhão.

   
Mário de Andrade

14.10.13

garapau


e o santu qui ñ acreditava in deus
comu'é qui'xplica?


11.10.13

jogo das verdades


ou segura o bicho
porque se pegar


Eu tenho um desejo. Destripar um felino: um tigre pequeno. Primeiro abro com a ponta da faca seu pescoço mole e desço a lâmina peito abaixo. Paro no sexo. Por último retiro as miudezas de dentro do animal e aproveito o couro para o tamborim do próximo carnaval. Seu pequenino coração espetarei num pedaço de pau. Farei dele um espetinho no pão. Tão delicioso quanto a consciência de um crime.



9.10.13

estórias do senhor G.


diário
quarto dia

O senhor G. na semana passada esteve indisposto para o trabalho. Sentia como clima uma melancolia de lesma e pôs-se a trabalhar sua escritura de forma rigorosa. Na cadernetinha que lhe serve de anotações, podemos encontrar pérolas originárias de sua cabeça.

A existência nada mais é senão um fenômeno absurdo; a realidade me aborrece. Nem mais nem menos. Eis tudo.


2.10.13

cocteau:


Le crocodile croque Odile.


23.9.13

estórias do senhor G.


diário
terceiro dia

Eu juro, sob este céu de chumbo, que vi um professor, na hora do intervalo das aulas, mergulhar seu cigarro na caneca de café e comê-lo como se fosse uma bolacha maria. Acreditem.


21.9.13

uma revolta visceral


O anarquismo é o que se poderia chamar de revolta visceral. Augustin Hamon, a partir de uma sondagem de opinião dos meios libertários, no fim do século passado, concluiu que o anarquista é, antes de mais nada, um revoltado. Recusa a sociedade na sua totalidade, com a sua "chusma de policiais". Liberta-se, conforme Max Stirner, de "tudo quanto é sagrado". Realiza uma imensa paganização. Estes "vagabundos da inteligência", estes "tresloucados", "em lugar de considerarem como verdades intocáveis o que dá a milhares de homens a consolação e o repouso, saltam por cima das barreiras do tradicionalismo e abandonam-se, desenfreados, às fantasias da sua crítica impudica."
Proudhon rejeita completamente a "gente oficial", os filósofos, os padres, os magistrados, os acadêmicos, os jornalistas, os parlamentares, etc., para quem "o povo é sempre o monstro que se combate, amordaça e agrilhoa; que se conduz com habilidade, como o rinoceronte e o elefante; que se domina pela fome; que se sangra pela colonização e a guerra". Élisée Reclus explica por que a sociedade aparece aos seus guardiães tão fácil de controlar: "Depois que há ricos e pobres, poderosos e submetidos, senhores e servos, imperadores que ordenam o combate e gladiadores que se matam, as pessoas avisadas têm apenas que se colocar do lado dos ricos e dos senhores e fazer-se cortesãs dos imperadores."
O estado permanente de revolta leva o anarquista a sentir simpatia por todo o irregular, e a abraçar a causa do réprobo ou do foragido. É muito injustamente, acreditava Bacúnine, que Marx e Engels falavam com profundo desprezo do Lumpenprolerariat ("proletariado esfarrapado"), "pois é nele e só nele, e não na camada burguesa da massa operária, que residem o espírito e a força da futura revolução social."

- Freire | Viva eu viva tu viva o rabo do tatu -

19.9.13

tres notas sobre uma revolução impossível


1.

Ao longo da história contemporânea, vimos o capitalismo avançar os territórios subjetivos, desfazendorefazendo suas bordas, ocupando-se, cada vez mais, da produção de relações e modos-de-vida. É como se, depois de expropriar a terra e o corpo, fosse hora do capitalismo empreender o sequestro do inconsciente. No entanto, o inconsciente é como uma usina de derivas, e à mesma medida que é capturado, transborda por todos os lados, desinventainventa, está dentrofora. Se o trabalho é imaterial como querem pensar alguns filósofos políticos, as chaves e cadeados da fábrica também o são, estão na ordem da força-invenção, das ficções somatopolíticas. É chegada hora de repovoar o imaginário, mas com o quê? Que forças atravessarão a cidade vazia, e para onde rumaremos, que ventos, que tempestades de sutilezas! Resta aventurar-se, experimentar as intensidades dos incontáveis percursos em aberto, com prudência cartografar o que há além-baldo, mas para isso é preciso, antes, fazer soar a canção inexprimível da gulag e estar aquém e além do humano, até irromper na manhã um ser-errático, inconcluso qual o mundo que habita ao mesmo tempo em que deserta.

2.

É, no mínimo, curioso que eu esteja aqui, com uma renitente fisgada aguda na cabeça, escrevendo sobre como a apatia social que se abate sobre a massa de eleitorxs, se levada a suas consequências extremas, pode realizar um rompimento radical com o sistema que a produz; que essa passividade típica da relação entre representadxs e representantes, desde que seja radicalizada, pode de tal modo esvaziar o corpo político a ponto de fazer passar por ele fluxos transversais, suscitando o êxodo do estado – e das demais formas cansadas de estruturação da existência. Embora a manutenção do sistema dependa da produção de sujeitos políticos apáticos, as apatias, elas mesmas, não dependem do sistema, e nisso consiste sua força. O sujeito político apático é de tal modo levado a descolar-se das coisas da política, que precisa aprender a viver de maneira independente delas. Essa relativa independência funda um tipo de produção social em que a balança que equilibra governantes e governados pende e transforma a soberania do Estado num peso morto às costas da sociedade. Assim é que as apatias, na realidade, designam um tipo de produção social que de apática nada tem, porque se funda na possibilidade de viver apesar dos governos. De certa maneira, a experiência do lumpen (sobreviventes de uma guerra invisível) nos mostra que aqueles que lutam para subsistir, conquanto sofram sozinhos com a terrível miséria de um mundo que transformou em saúde a sua doença, ignoram as coisas da política, porque, no limite de sua sobrevivência, não precisam delas. Ao invés de um Ensaio sobre a Lucidez, estou prestes a escrever um Ensaio sobre a Catatonia, para contar a história de uma cidade que simplesmente desistiu e respondeu ao chamado do dever, como Bartlebys num coral desajeitado, “eu preferiria não”; e recusou-se a votar, a escolher. No dia da eleição, não houve eleitorxs, nem mesárixs, cabxs eleitorais, partidárixs, e mesmo xs candidatxs, tomados de um profundo cansaço, recolheram-se em suas casas e dormiram relaxadamente como se simplesmente ignorassem tudo o que ficava para trás. Vazia, a cidade pôde, pela primeira vez, respirar ventos estrangeiros, viu atravessar as avenidas nômades de todas as estirpes, tapuias, bárbarxs, ciganxs, lobxs erráticxs, urubus-águia, as baratas remanescentes de hiroshima, a comunidade dxs sem comunidade.

3.

a thic quang duc

A dança é uma arte de guerra porque exige “prontidão”, estar atento aos fluxos e contatos, como uma disponibilidade para ser-com. Eu sempre disse que quando a polícia viesse me bater, eu dançaria. Porque se eu não posso dançar não é minha revolução. Há que se diferenciar a ideologia pacifista-legalista de um outro pacifismo, este não-inerte, que ao invés de interditar o movimento como uma polícia, faz da sua não-violência uma arma. Enquanto a ideologia pacifista-legalista nada mais é que obediência à ordem, o pacifismo não inerte é aquele cuja base da ação é a própria desobediência. Quando o corpo percebe que suas rotas já não precisam ser aquelas previamente editadas, o complexo da ordem se põe a perder porque, afinal, a soberania do uno depende inteiramente da tácita submissão da multiplicidade aprisionada que se deixa governar por ela. O pacifismo não inerte e desobediente é aquele que realiza o êxodo abissal, a fuga desabalada pelas noites geracionais de novos mundos; aquele que se desgarra. Mas esse desgarrar, ele próprio não é inteiramente pacífico, pelo contrário: o governo do uno não vai deixar que as crianças abandonem o playground; o rei, que era nosso amigo, na nossa fuga de pasárgada, vai mirar seus canhões contra nós. Dancem, dancem ou estamos perdidos. Porque quando a guerra nos ameaça, precisamos nós também nos armar. Mas que armas usar contra um pelotão de cães de guarda munido de gás de pimenta, bombas de efeito moral, tiros para o alto, balas de borracha e escudos? Pedras e poemas! Penso ser possível, através de uma crítica das armas, recuperar a violência e reimaginá-la – fazer brotar de chernobyl a possibilidade de armas criativas, que redirecionem a violência, recuperem-na de seu potencial exclusivamente negativo. Do mesmo modo, há que se recuperar o pacifismo – resgatá-lo das sobrecodificações que dele se apossam a fim de reconhecer que a não violência como atitude para com a vida se vê diante de uma crise inevitável: como pretender a oposta simetria a uma violência ordenadora já sem precedentes? Como ser pacífico para além da passividade e do inativismo?

- Jota Mombaça -


18.9.13

sim sim

[funny nun]


quando Deus fez amor Ele não ajudou muito
quando Deus fez os cachorros Ele não ajudou os cachorros
quando Deus fez as plantas isso foi medíocre
quando Deus fez o ódio nós tivemos uma utilidade em comum
quando Deus me fez Ele me fez
quando Deus fez o macaco Ele estava dormindo
quando Ele fez os narcóticos Ele estava deprimido

quando Ele fez você deitada na cama
Ele sabia o que Ele estava fazendo
Ele estava bêbado e Ele estava entorpecido
e Ele fez as montanhas e o mar e fogo
na mesma hora

Ele cometeu alguns erros
mas quando Ele fez você deitada na cama
Ele gozou por todo Seu Santo Universo.

 
[BUKOWISKI, Charles. Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Tradução Fernando Koproski. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005]

16.9.13

impresso

[Tom Gauld]

[...]


Nas sociedades orais, as mensagens discursivas são sempre recebidas no mesmo contexto em que são produzidas. Mas, após o surgimento da escrita, os textos se separam do contexto vivo em que foram produzidos.


- LÉVY, P. Cibercultura | trad. Carlos I. da Costa - 



15.9.13

message from beat street


[Pete Rock - Lost & Found:
Hip Hop Underground Soul Classics  | 1995]


suavidade

A teoria do não fazer nada calha bem para estes momentos. O meio do domingo convida para o andar de bici. Para bem longe: pedalamos.


13.9.13

farofada


Eu tive um professor humilde e inteligente até as tripas. Me contou certa manhã, de forma tímida, que ao chegar em casa horas depois de lecionar, escondia-se no recanto de sua biblioteca (feito um fantasma), retirava da pasta de textos alguns trabalhos e, conscientemente, os comia. O mestre, sob os efeitos do tema da assertiva do colegiado, terminava seu apólogo de boca cheia:


- tudo cópia, tudo!


12.9.13

chopin na cadeira elétrica


[B-Negão | 2003]


cwb


Über Alles
por Tigrinho

A polícia realizou mais uma operação enxuga gelo.
Levou para as grades meia dúzia de pés de chinelo, intimidou três ou quatro laranjas miúdas e encheu de água o aquário do peixe grande. Em nota de rodapé, o jornal Boca Oficial noticiou, em poucas linhas, que o mundo tem o tamanho de uma pera. 


10.9.13

escritos políticos

[1891-1937]


[...]

É preciso perder o hábito e deixar de conceber a cultura como saber enciclopédico, no qual o homem é visto apenas sob a forma de um recipiente a encher e entupir de dados empíricos, de fatos brutos e desconexos, que ele depois deverá classificar em seu cérebro como nas colunas de um dicionário, para poder em seguida, em cada ocasião concreta, responder aos vários estímulos do mundo exterior. Essa forma de cultura é realmente prejudicial, sobretudo para o proletariado. Serve apenas para criar marginais, pessoas que acreditam ser superiores ao resto da humanidade porque acumularam na memória um certo número de dados e de datas que vomitam em cada ocasião, criando assim quase que uma barreira entre elas e as demais pessoas. Serve para criar aquele tipo de intelectualismo balofo e incolor, tão bem fustigado duramente por Romain Rolland, intelectualismo que gerou toda uma caterva de presunçosos e sabichões, mais deletérios para a vida social do que os micróbios da tuberculose e da sífilis o são para a beleza e a saúde física dos corpos. O estudantezinho que sabe um pouco de latim e de história, o rábula que conseguiu obter um diploma graças à irresponsabilidade e à desatenção dos professores acreditam ser diferentes, superiores até mesmo ao melhor operário qualificado, que cumpre na vida uma tarefa bem precisa e indispensável e que vale cem vezes mais em sua atividade do que os outros valem na deles. Mas isso não é cultura, é pedantismo; não é inteligência, mas intelectualismo - e é com toda razão que se reage contra isso.

- Antonio Gramsci | trad.: Carlos N. Coutinho -

9.9.13

abaixo o carro...



VIVA A BICICLETA!
por Caroline G.


O CARRO NÃO É SIMPLESMENTE um meio de locomoção, como certas pessoas particularmente ingênuas poderiam pensar. A invenção do carro não foi também um passo gigantesco no caminho do progresso, como os publicitários querem nos fazer crer.

Não, o carro é um instrumento de poder e destruição. Ele é inimigo dos seres humanos: não somente porque ele os mata (pedestres imprudentes, transeuntes distraídos, vítimas de assassinos comuns, os motoristas), mas também porque ele os deforma, os desfigura, os nega – uma pessoa ao volante não é mais um ser humano.

Pegue uma pessoa comum, pacífica, reservada e habitualmente calma. Meta-lhe entre as mãos um volante e sob os seus pés um acelerador. Lance-a em um engarrafamento, por exemplo, numa rua movimentada às 6 horas da tarde. Olhe para ela... Você não a reconhece mais? Mas, está ali, um bruto desumano, pálido, interpelando os outros automobilistas a golpe de insultos obscenos e rabugentos... Ela amedrontou você? Acrescente-lhe um celular e terá triplicado seu poder de matar. É como se você desse um revólver a alguém... Raros são aqueles que irão recusar a servir-se dele.

Réjean Ducharme, um escritor nascido em Quebec, analisou particularmente bem esse processo que transforma o humano em automobilista. Aliás, ele propõe não chamar mais automobilista, mas automóvel, uma vez que o condutor forma um corpo com seu veículo:

Quando digo automóveis, quero dizer automobilistas. O automóvel e o automobilista fazem parte de uma só e mesma coisa: o automóvel.
Não se tem um automóvel; se é um automóvel.
Não se pode nascer automóvel; torna-se automóvel, de repente.

Para finalizar, segue um poema composto pelo narrador do romance de Ducharme:

Os automóveis
Sobre o caminho de concreto,
Passam os homens e as mulheres
Enxertados nos veículos
Que apagam o sangue e a alma.
Passam no automóvel,
Esses homens loucos, essas mulheres loucas.
E se crêem, ai de mim, aptos
A viver apenas de petróleo.
Eles não falam, buzinam.
E não andam: rolam.
Visto que com duas pernas eu funciono,
Eles riem; me chamam de galinha.
São amarelos, ou verdes, ou negros.
Entre eles, nada de segregação:
Mexem-se entre as calçadas
Lado a lado e a uníssono.

Estejamos atentos!

Mas o que fazer, você me pergunta, se não quisermos nos tornar “automóveis”? A resposta é simples: sejamos ciclistas! O ciclista é o oposto do “automóvel”: mesmo em cima de sua bicicleta, ele conserva todo seu livre-arbítrio, pode ir aonde quiser, estacionar onde achar melhor... Ele não ameaça constantemente a vida de seus vizinhos. Está à escuta do exterior: em vez de se blindar medrosamente se rodeando de aço, ele imerge corajosamente em seu meio ambiente – que evita, além disso, poluir. Raramente perde o controle de si, e se deixa guiar por dois princípios: a liberdade e o respeito ao outro.

Pode-se ver então que a escolha de um meio de transporte é, acima de tudo, uma escolha de vida: um estado de espírito. Recusar o carro é recusar um modo de vida que nos torna perigosos (para nós mesmos, para os outros e para o meio ambiente), é querer uma vida diferente daquela proposta pelos publicitários que nos impõem a sociedade moderna.

Não somente com palavras se muda a sociedade...

A todos aqueles que enaltecem o individualismo, o comunismo, o “ecologismo” etc., eu respondo: o CICLISMO!

6.9.13

professores fudidos do mundo e a ditadura do temporário


[Roland Topor]

[...]

Nós não somos pessoas vocacionadas. Para o inferno com a vocação, os santos, a visão missionária que nos diz que escolhemos uma “missão” e que temos de aceitar os percalços da escolha. Parceiro, eu não escolhi merda nenhuma. Foi esse sistema que me escolheu. Foi ele que escolheu fuder os/as professores/as, os camelôs, os sem-teto, os sem-terra e todo/a aquele que se revolta. E eu, nesses treze anos entre empregos fudidos, desempregos fudidos e militância fudida, participando de reuniões de fudidos/as esperando tudo melhorar, mas os canalhas trabalham em ritmo industrial e nós, as desgraçadas e desgraçados do mundo somos obrigados a fazer a vida e a luta em ritmo artesanal.

 - Rafael Vendetta -