30.9.15

robert moses: o mundo da via expressa


[An excerpt from New York: a documentary film by Ric Burns]

Que esfinge de cimento e alumínio abriu seus crânios e devorou
seus cérebros e imaginação? [...]
Moloch cujas construções são sentenças!

Allen Ginsberg | Uivo

Notas

[...] a cidade precisava de uma estrada - ou era o Estado que a necessitava?

[...] Na verdade [...] como mostra Caro, virtualmente todo o terreno de que Moses se apropriou consistia em pequenas casas e sítios familiares.

[...] por obra de uma dialética fatídica, como a cidade e a rodovia não se coadunam, a cidade deve sair.

[...] Em sua pior fase, ele [Moses] se tornaria não tanto um destruidor - embora tenha destruído bastante - mas um executor de ordens e imposições alheias. Conquistara poder e glória inaugurando novas formas e novos meios em que a modernidade podia ser experimentada como uma aventura: lançou mão desse poder e dessa glória para institucionalizar a modernidade num sistema de necessidades cruéis e inexoráveis e de rotinas esmagadoras. Ironicamente, transformou-se em um foco pessoal para a obsessão e o ódio das massas, inclusive o meu próprio, no preciso momento em que perdera a visão e a iniciativa pessoais para se tornar um homem de organização; nós viemos a conhecê-lo como o capitão Ahab de Nova Iorque justamente quando, embora ainda no leme, perdera por completo o controle do navio.

[...] Uivo era brilhante ao desmascarar o niilismo demoníaco no âmago de nossa sociedade estabelecida e ao revelar o que Dostoievski um século antes definira como "a desordem, que é na realidade o grau mais elevado da ordem burguesa".

[...] Durante vinte anos, as ruas foram por toda a parte, na melhor das hipóteses, passivamente abandonadas e com frequência (como no Bronx) ativamente destruídas. O dinheiro e a energia foram canalizados para as novas auto-estradas e para o vasto sistema de parques industriais, shopping-centers e cidades-dormitórios que as rodovias estavam inaugurando. Ironicamente, então, no curto espaço de uma geração, a rua, que sempre servira à expressão da modernidade dinâmica e progressista, passava agora a simbolizar tudo o que havia de encardido, desordenado, apático, estagnado, gasto e obsoleto - tudo aquilo que o dinamismo e o progresso da modernidade deviam deixar para trás.

[...] Procurávamos abrir as feridas internas de nossa sociedade, mostrar que elas ainda permaneciam aí, fechadas mas não sanadas, que estavam se disseminando e supurando, que, se não fossem enfrentadas rapidamente, ficariam piores. Sabíamos que as vidas rutilantes das pessoas no rápido percurso encontravam-se tão profundamente mutiladas quanto as exigências castigadas e esquecidas das pessoas que estavam no caminho. Sabíamos, porque nós próprios estávamos justamente aprendendo a viver naquela via e a gostar de seu ritmo. [...] Nós, que sabíamos tão bem como doía arrancar as raízes, atiravamo-nos contra um Estado e um sistema social que parecia estar arrancando, ou explodindo, as raízes do mundo inteiro.

[...] artistas, pensadores e ativistas que questionaram o mundo da via expressa admitiam como certos a sua inesgotável energia e seu impulso inexorável. Eles encaravam suas obras e ações como antíteses, envolvidas num duelo dialético com a tese que estava sufocando todos os gritos e que varria todas as ruas do mapa moderno. Esse embate de modernismos radicalmente opostos conferiu à vida dos anos 60 muito de sua coerência e excitamento.

O que ocorreu na década de 70 foi que, justamente quando os gigantescos motores do crescimento e da expansão estacaram e o tráfego quase parou, as sociedades modernas perderam abruptamente sua capacidade de banir para longe o passado.

[...] Ser moderno, eu dizia, é experimentar a existência pessoal e social como um torvelinho, ver o mundo e a si próprio em perpétua desintegração e renovação, agitação e angústia, ambiguidade e contradição: é ser parte de um universo em que tudo o que é sólido desmancha no ar. Ser modernista é sentir-se de alguma forma em casa em meio ao redemoinho, fazer seu ritmo dele, movimentar-se entre suas correntes em busca de novas formas de realidade, beleza, liberdade, justiça, permitidas pelo seu fluxo ardoroso e arriscado.

Marshall Berman | 1982
Trad.: Carlos F. Moisés


29.9.15

micropolítica do fascismo

[1930-1992]

Desterritorialização da produção
e molecularização do fascismo

O que assegura a passagem das grandes entidades fascistas clássicas à molecularização do fascismo a que assistimos hoje? O que acarreta a desterritorialização das relações humanas? O que as faz perder suas bases nos grupos territoriais, familiais, no corpo, nas faixas etárias, etc.? Qual é a natureza desta desterritorialização, que gera, por sua vez, a escalada de um microfascismo? Não se trata de uma mera questão de orientação ideológica ou estratégica por parte do capitalismo, mas de um processo material fundamental: é pelo fato de as sociedades industriais funcionarem a partir das máquinas semióticas que decodificam, cada vez mais, todas as realidades, todas as territorialidades anteriores; é pelo fato de as máquinas técnicas e sistemas econômicos serem cada vez mais desterritorializados, que estão em condições de liberar fluxos de desejo cada vez maiores; ou, mais exatamente, é pelo fato de seu modo de produção ser forçado a operar esta liberação, que as formas de repressão também são levadas a se molecularizarem. Uma simples repressão maciça, global, cega não é mais suficiente. O capitalismo é obrigado a construir e impor seus próprios modelos de desejo, e é essencial para sua sobrevivência que consiga fazer com que as massas que ele explora os interiorizem. Convém atribuir a cada um: uma infância, uma posição sexual, uma relação com o corpo, com o saber, uma representação do amor, da honestidade, da morte, etc. As relações de produção capitalista não se estabelecem só na escala dos grandes conjuntos sociais; é desde o berço que modelam um certo tipo de indivíduo produtor-consumidor. A molecularização dos processos de repressão e, por consequência, esta perspectiva de uma micropolítica do desejo não estão ligadas a uma evolução de ideias, mas a uma transformação dos processos materiais, a uma desterritorialização de todas as formas de produção, quer se trate da produção social ou da produção desejante.

Por não dispor de modelos comprovados, e considerando a desadaptação das antigas fórmulas fascistas, stalinistas e, talvez, também social-democratas, o capitalismo é levado a buscar, em seu próprio seio, fórmulas de totalitarismo melhor adaptadas. Enquanto não as tiver encontrado, será tomado, em contracorrente, por movimentos que se situarão em frentes, para ele, imprevisíveis (greves selvagens, movimentos de autogestão, lutas dos imigrados, de minorias raciais, subversão nas escolas, nas prisões, nos hospícios, lutas pela liberdade sexual, etc.). Esta nova situação, onde não se está mais lidando com conjuntos sociais homogêneos, cuja ação possa ser facilmente canalizada para objetivos unicamente econômicos, tem como contrapartida fazer proliferar e exacerbar respostas repressivas. Ao lado do fascismo dos campos de concentração - que continuam a existir em inúmeros países -, desenvolvem-se novas formas de fascismo molecular: um banho-maria no familialismo, na escola, no racismo, nos guetos de toda natureza, supre com vantagens os fornos crematórios. Por toda a parte, a máquina totalitária experimenta estruturas que melhor se adaptem à situação: isto é, mais adequadas para captar o desejo e colocá-lo a serviço da economia de lucro. Dever-se-ia, portanto, renunciar definitivamente a fórmulas demasiado simplistas do gênero: "o fascismo não passará". Ele não só já passou, como passa sem parar. Passa através da mais fina malha; ele está em constante evolução; parece vir de fora, mas encontra sua energia no coração do desejo de cada um de nós. Em situações aparentemente sem problemas, catástrofes podem aparecer de um dia para o outro. O fascismo, assim como o desejo, está espalhado por toda parte, em peças descartáveis, no conjunto do campo social; ele toma forma, num lugar ou noutro, em função das relações de força. Pode-se dizer dele, ao mesmo tempo, que é superpotente e de uma fraqueza irrisória.

Em última análise, tudo depende do talento dos grupos humanos em se tornarem sujeitos da História, isto é, em agenciar, em todos os níveis, as forças materiais e sociais que se abrem para um desejo de viver e mudar o mundo.

Guattari | 1977
Trad.: S. Rolnik


28.9.15

desejo


É preciso tomar a palavra
(mas sem ter de recorrer a instâncias representativas
para exprimir-se).

É preciso estar no assunto
mas é preciso
também
sair do assunto.


26.9.15

rádio alice

[The Clash | Munich | 1977]

Acabar com a chantagem da miséria, a disciplina do trabalho, a ordem hierárquica, o sacrifício, a pátria, os interesses gerais. Tudo isto calou a voz do corpo. Todo o nosso tempo sempre foi consagrado ao trabalho, 8 horas por dia, duas horas de transporte, e depois descanso, televisão, refeição em família. Tudo que não se encaixa no interior desta ordem é obsceno para a polícia e os magistrados.

1974


22.9.15

certo?


Meus queridinhos,
porque "Deus quis"
não é a resposta.

21.9.15

bronca, carajo!


[Jorge Lopez Ruiz | Bronca Buenos Aires | 1971]


20.9.15

pedagogia burocrática

[1929 - 1998]
[...]

No fundo, o problema educacional é político e econômico, e se reflete na educação. Ele é aparentemente só educacional. É isso um dado básico. Nos termos da pedagogia burocrática, nós conferimos o aluno. O que é o aluno? Uma nota. E até na universidade você ganha nota por um trabalho. Ora, a nota que o aluno recebe pelo trabalho é igual ao salário que o operário recebe pelo trabalho. É idêntico. É a mesma relação de submissão-dominação que o sistema cria. O capital oferece ao trabalhador um salário pelo seu trabalho. O sistema nos coloca em condições de oferecer notas ao trabalho do aluno. É o salário dele, mas é a mesma relação. Por que há essa pedagogia burocrática? Não é propriamente tanto para transmitir conteúdo porque a escola é mais um elemento de disciplinamento, uma prisão, um hospital psiquiátrico tradicional. Hospital psiquiátrico não cura ninguém. Simplesmente o paciente é sedado para não 'encher' o psiquiatra. Por isso é que são depósitos de pessoas. [...] Da mesma maneira que o hospital psiquiátrico é disciplinador, a escola é disciplinadora porque ela forma regras de submissão e dominação. A pedagogia burocrática é fundada para isso, porque ela cria aquele elemento submisso que vai ser um submisso na empresa privada. [...] A escola não educa para a autonomia, educa para a submissão. Para ela educar, ela pode educar para a autonomia. [...] Há uma educação para submissão e uma educação para a autonomia e para autogestão. Mas isso depende de um processo social fora da escola."


Maurício Tragtenberg | O papel social do professor
 1980


18.9.15

violência no trânsito


Mortes & "acidentes".


17.9.15

a aventura da modernidade

[1940-2013]

A década de 70:
trazer tudo de volta ao lar


[...]


Tempos atrás, numa tarde de outono, vi uma adorável jovem num vestido encantador cor de vinho, que visivelmente voltava da parte alta de Manhattan (de um espetáculo, uma premiação, um trabalho?), subindo os longos lances de escada que levavam à sua água-furtada. Com um braço, ela segurava uma vasta sacola de compras, de onde se projetava um pão francês; no outro, delicadamente equilibrado no ombro, um grande feixe de estiradores de um metro e meio de comprimento: uma expressão perfeita, me pareceu, da moderna sexualidade e espiritualidade de nosso tempo. Mas, logo ao dobrar da esquina, emboscara-se uma outra figura moderna arquetípica, o agente imobiliário, cujas frenéticas especulações da década de 70 fizeram muitos artistas os quais não tinham esperanças de poder suportar os preços que sua presença ajudara a criar. Aí, como em tantas cenas modernas, as ambiguidades do desenvolvimento estavam em ação.

Marshall Berman | 1982
Trad.: Carlos F. Moisés
Ana N. L. Ioriatti


16.9.15

caro motorista,


se a tua barbeiragem (em alta velocidade) põe em risco a vida do ciclista e do pedestre, não me interessa a sua patente na hora do julgamento, porque você não passou de um potencial assassino.

E não há argumento no mundo que justifique a sua defesa.

Compartilhar a rua não machuca ninguém. Tenha menos pressa com a sua própria existência, pois só há um corpo para ela. E não veja a bicicleta como um corpo estranho.

Ninguém pode ser dono do mundo. Muito menos da rua. E a rua fora feita para os automóveis, como a calçada para o pedestre. Mas nos últimos anos inverteram o costume, e as calçadas também passaram a ser dos automóveis. Para cada recorde de uma multinacional (ah!, as delícias da Revolução Industrial), menos espaços.

Calçadas destruídas.

Menos praças, mais estacionamentos. Mais carros e menos bici.

A imobilidade como planejamento do urbanismo projetado pelo capital destruidor e produtor de lixo virou cultura. Produtor e produto.

A inversão dos valores não para. Ela é longa e cheia de meandros. Tem história. Tem fundação. Em suma, essa inversão representa o que há de mais violento, porém oculto, porque banalizado.


14.9.15

hip hop & esqueleto cafeinado



[Projeto Nave Nas Base para Ana Tijoux | MANOS E MINAS]


10.9.15

Sous le pavé, la plage

[Mai 68]

Nós combatemos porque nos recusamos a nos tornarmos:

- professores a serviço da seleção no ensino, de que os filhos da classe operária são as vítimas,

- sociólogos fabricantes de slogans para as campanhas eleitorais governamentais,

- psicólogos encarregados de fazer "funcionar" as "equipes" de trabalhadores "segundo os melhores interesses dos patrões",

- cientistas cujo trabalho de pesquisa será utilizado segundo os interesses exclusivos da economia do lucro. Nós recusamos este futuro de "cães de guarda". Nós recusamos os cursos que nos ensinam a nos tornarmos isso. Recusamos os exames e os títulos que recompensam os que aceitam entrar no sistema. Nós nos recusamos a melhorar a universidade burguesa. Nós queremos transformá-la radicalmente a fim de que agora em diante ela forme intelectuais que lutem ao lado dos trabalhadores e não contra eles."

Olgaria Matos | Paris 1968:
As barricadas do desejo


3.9.15

dialética da escola-prisão


quatro

Carcereiro meter o nariz em pesquisa de educador é o cúmulo da violência invisível.


2.9.15

dialética da escola-prisão


três


O nível de sabotagem que enfrentei em oitos anos como educador raramente tem sido tão baixo a ponto de não me permitir o trabalho dialógico.


31.8.15

do mundo



- 1991 - 1994 - 
(fragmentos)

Sou eu, assimétrico, artesão, anterior
- na infância, no inferno.
Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.
A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos,
e entre eles desenvolvem-se
as matérias.
Trabalha um nome, o meu nome, a dor do sangue,
defronte
da massa inóspita ou da massa
mansa de outros nomes.
Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves
nomes,
escrevem-nos os dedos ferozes no papel
pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo
e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que,
gramaticalmente, carnalmente, me reparto.
Desequilibro-me para o lado onde trabalha a morte.
O lado em como isto se cala.



Herberto Helder


24.8.15

dialética da escola-prisão


dois

Na sala de aula tradicional, o professor e os alunos tentam manipular-se, um ao outro, ao mesmo tempo. O terreno em que se encontram é a luta pelo poder, para ver quem controlará o processo. É impossível transcender essa divisão antagônica, a menos que a pedagogia pratique a democracia.


20.8.15

dialética da escola-prisão


um

Por que nas escolas existe 

uma enorme ausência 
de liberdade e democracia
mas promove
contraditoriamente
o autoritarismo?



19.8.15

18.8.15

zente


é verdade verdadeira
verdadeiríssima

que vocês creem no diabo 

com d maiúsculo?


17.8.15

febre aftosa


Me chegam imagens da manifestação de ontem. É cada uma que olha, heim: a raiva e o delírio urbano saíram de mãos dadas?

Enquanto uma parcela politizada da sociedade pede a desmilitarização da polícia, para ficarmos apenas em uma das pautas + democráticas do mundo, uma outra parcela - intitulada de ursinhos carinhosos - pede a volta da ditadura militar? O que esta turma desengajada anda destilando como "argumentação" é justamente a falta de argumentação. São preposições que nem meninos de cinco anos formulam, porque, quando não os estragam antes, meninos de cinco anos compõem cada narrativa de dar inveja ao leitor profissional.

Embora eu tenha dado boas risadas com a manifestação dominical, muito me preocupa como os "cidadãos de bens" agem frente ao vermelho. Alguém notou que eles rosnavam feito cães? Eu não posso acreditar que uma simples cor possa deixá-los assim.

Mas pelas imagens eu pude constatar o que eles "defendem". E para isto, digo: eu tenho medo, mas é um medo patético. Um medo que representa o mais absurdo quando essa parcela da sociedade se refere à segurança pública. 

Manifestações assim me dão sono, mas me deixam triste. É como se houvesse um ramo de senhoras sendo despolitizado por um menino alienado de dezesseis anos. Convenhamos, desse jeito faltou tocar Mc Pedrinho como carro chefe. Aí, o pacote do entretenimento estaria completo. 

Mas... peraí, dizem que na Capital Mc Pedrinho esteve ao vivo. 


14.8.15

bolachão


[Berimbau]

regulação e sociedade democrática

Em seu artigo 54, a Lei Fundamental procura impedir que senadores e deputados mantenham contratos com empresas concessionárias de serviço público (e as emissoras são exatamente isso, concessionárias de serviço público). Essa medida está lá pelo mesmo motivo que levou a legislação eleitoral a proibir candidatos a postos eletivos de manter programas de rádio e televisão durante o período eleitoral: o objetivo é evitar que a radiodifusão deixe de ser serviço particular (para benefício de poucos), administrada com a finalidade escusa de promover interesses particulares (como os partidários).

Pois bem: e de que adianta esse dispositivo constitucional? De nada. Para que serve o artigo 54 da constituição? Para nada. Qualquer um é capaz de apontar dezenas de deputados e senadores que são, mais do que próximo, acionistas, donos ou dirigentes ocultos de emissoras - e pouco se pode fazer quanto a isso. O conflito de interesse é total -  e nada se faz para combatê-lo. Como parlamentares do Congresso Nacional, esses políticos são responsáveis por examinar as concessões de frequências de radiodifusão para empresas particulares. Ao mesmo tempo, como pessoas vinculadas às empresas de comunicação, são diretamente interessados em muitas dessas concessões.

Não é só. Um fenômeno mais recente - a entrada de igrejas e organizações e de rádio - vem tornando esse mundo sem lei ainda mais preocupante. O problema cresceu tanto que se tornou possível afirmar que a religião vem conduzindo parte dos negócios da radiodifusão. Estão hoje no ar emissoras - ou redes - católicas e evangélicas, de vários matizes, que são dirigidas, no todo ou em parte, por igrejas ou associações religiosas.

Isso contraria os fundamentos do Estado laico e da vida democrática, por motivos óbvios. Outra vez, citemos a Constituição, agora em seu artigo 19: "É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público". Ora, se o Estado não pode, sob nenhuma justificativa, deixar-se conduzir por interesses religiosos - exatamente para que todas as modalidades de fé recebam tratamento igual e tenham igualmente assegurados os seus direitos -, será que a radiodifusão, definida pela Constituição como "serviço público", poderia ser conduzida por esses mesmos interesses?

O que eles não deveriam fazer é comandar a radiodifusão. Para que seja efetivamente um serviço público, a radiodifusão precisa ser um serviço orientado por parâmetros laicos, exatamente como o Estado deve ser laico.

BUCCI, Eugênio. O Estado de Narciso: a comunicação pública a serviço da vaidade particular. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


12.8.15

psicologia das massas


No fundo, toda religião é uma religião de amor para aqueles que a abraçam, e tende à crueldade e à intolerância para com os não seguidores.


7.8.15

declaração


Os enfurecidos não escrevem manifestos.



3.8.15

sem fechaduras nem trancas


Na casa da Alameda Santo numero 8 não havia uma única chave. Os buracos das velhas e enferrujadas fechaduras viviam entupidos de papel amassado, vetando a eventuais olhos indiscretos a possibilidade de uma espiada no interior dos quartos de dormir. As portas de entrada eram fechadas por frágeis ferrolhos internos, mas na da cozinha não havia nem mesmo isso, e, durante a noite, uma cadeira a mantinha encostada. As duas portas do terraço lateral, que separavam as paisagens de tzi Ró, eram facilmente arrombáveis. Havia um ponto exato onde forçar com o ombro: bastava comprimi-lo de leve e a porta se abria na maciota, sem fazer o mínimo ruído. Todos os de casa usavam este método, prático e simples. O pesado portão de ferro trabalhado - única beleza da fachada - passava o dia inteiro aberto e, à noite, apenas encostado. Por ele entrava-se para a residência e para a oficina mecânica. O portão dos fundos, de madeira, que dava para a Consolação, servia apenas à garagem.

Nunca tivemos medo, nem mesmo pensamos, que um ladrão pudesse invadir nossa casa durante a noite. Não possuíamos nada de valor e os gatunos sabiam muito bem escolher suas vítimas. Os ladrões de antigamente eram inteligentes e conscienciosos, deixavam os pobres em paz. Dormíamos tranquilos.

Zélia Gattai | 1984



31.7.15

os gatos

[Tigrinho | 2015]


Os Gatos | T. S. Eliot
Trad.: Ivo Barroso

[...]

Com esses rudes heróis fumando em pé-de-guerra,
O tráfego parou, tremeu dentro da terra.
Os vizinhos com medo escondem-se e ligeiros
Põem-se a telefonar ao Corpo de Bombeiros.
Eis que então de um porão oculto surge um vulto,
De quem se não daquele - O GRANDE GATUMULTO.
Duas bolas de fogo, os seus olhos fuzilam.
E abrindo um largo esgar das fauces que horripilam,
Cruza as grades da escada e avança resoluto:
Nunca viste algo mais aterrador e hirsuto!
Ante o brilho do olhar e o escancarar da goela,
Os Peque e os Pólicos se encheram de cautela,
E saltou para os céus, a estirar as orelhas,
Dispersando-se os cães, como um bando de ovelhas.

And when the Police Dog returned to his beat,
There wasn't a single one left in the street.



29.7.15

crônica


Seu eu fosse o mundo
mudaria deus.


25.7.15

dialética da rua


Escrever é também tornar-se outra coisa 
que não escritor.

Deleuze


Se me encontro em um batalha, eu penso na honestidade, não somente no inimigo.



24.7.15

patrulhas ideológicas


Culto às "autoridades"
& abuso das otoridades.


22.7.15

aula


Aula : prática de leitura.
Aula : prática de escrita.
Aula : prática de oralidade.

Agora é preciso resumir
desenhar cozinhar e passar.



20.7.15

verdadeiras tolices


Certezas demais.

Certezas absolutas de tudo.


12.7.15

de profundis

[1854 - 1900]

... la vida carcelaria con sus infinitas restricciones y sus carencias nos hace rebeldes. Lo más terrible de ella no es que destroce nuestro corazón - los corazones fueron hechos para ser destrozados - sino que lo petrifique. Uno a veces siente que sólo protegido por una coraza de metal y un gesto de desprecio puede sobrevivir a la jornada, pero quien se encuentra en estado de rebelión no puede recebir la gracia, para emplear una frase predilecta de la Iglesia - justamente predilecta, diría yo - porque en la vida como en el Arte el ánimo rebelde obstruye los canales del alma y no deja penetrar en ellos los aires celestiais.

Oscar Wilde | 1897
Trad.: José E. Pacheco

21.6.15

chopin na cadeira elétrica


[The Exploited | 1982]

Troops of tomorrow


We're troops of tomorrow
We're hanging round today
We're playing tough music
Cos it's hard time money

We need a new solution
We want it quick
We're getting frustrated
It's making us sick

We ain't got bright future
We bought it on the never never
Don't want to be city prisoners
We ain't gonna live forever

We gotta stop that dreaming
We've gotta pick up that gun
We're troops of tomorrow
We've got a new vision


19.6.15

entrevista

[1922-1997]
Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome / com letras de macarrão. / No prato, a sopa esfria, cheia de escamas /e debruçados na mesa todos contemplam / esse romântico trabalho. // Desgraçadamente falta uma letra, / uma letra somente / para acabar teu nome. // - Está sonhando? Olhe que a sopa esfria! / Eu estava sonhando... / E há em todas as consciências um cartaz amarelo: / "Neste país é proibido sonhar."

Carlos Drummond de Andrade

"O papel que eu queria
era de revolucionário"

[...]

Em princípios de 1962, o Juscelino, que pensava reeleger-se em 1965, convidou-me para ser seu futuro ministro da Agricultura. Achava que para eleger-se tinha que dar um conteúdo social e humano à sua campanha. Para isto devia falar da reforma agrária, que era o grande tema colocado em pauta no Brasil e em todo o Terceiro Mundo. O que ele me pedia era que exercesse, então, junto dele, o papel desempenhado antes por Lucas Lopes, quando se formulou o Programa de Metas. E o que ele me oferecia no fim da linha na eleição de 1965 era aquele cargo de ministro. Assim se vê que, naquela conjuntura, o que Jango tentava fazer não tinha nada de muito ousado nem de radical. Ele dizia sempre que, se o número de proprietários rurais fosse elevado para 10 milhões, a propriedade seria muito melhor defendida, e simultaneamente possibilidades maiores seriam abertas a mais gente de comer mais, de educar-se melhor, de viver mais dignamente. Por isso é que Jango, latifundiário, queria fazer a reforma agrária para defender a propriedade e assegurar a fartura, evitando o desespero popular e a convulsão social. De fato, não se queria mais do que revogar a legislação de terras, que data do século passado, segundo a qual a forma de obter a propriedade da terra é a compra. Exatamente o contrário do que foi nos Estados Unidos, onde o colono, indo para o Oeste, como se vê nos filmes de faroeste, metia-se pelo sertão para fazer uma posse. E podia demarcar 116 acres para ali estabelecer-se com sua família, em seu próprio chão. Aqui, com a proibição da posse, promove-se é a expansão do latifúndio, tornando-se lícito deixar a terra improdutiva por força da propriedade. Apropriada a terra, obriga-se a força de trabalho a optar entre este ou aquele fazendeiro, uma vez que não encontra terra livre para ocupar em parte alguma, para tomar posse dela. O Brasil foi construído dentro da estreiteza desta trama agrária, tão dura, tão brutal, que onde quer que a rede monopolista seja ocasionalmente afetada correm logo multidões para fazer sua posse. Este foi o caso do Contestado, entre o Paraná e Santa Catarina, onde colonos estabeleceram aos milhares nas terras de ninguém, cujo domínio não estava ainda definido entre os dois estados. Coube aos soldados o triste papel de tirar de lá os que se haviam estabelecido, para que os latifundiários ali também se instalassem. O mesmo ocorreu na região contestada entre Minas e o Espírito Santo. O mesmo ocorre na Amazônia. São os caboclos maranhenses, piauienses, cearenses que vão chegando ao que é o nosso faroeste e marcam pedaços de terra, com a esperança de lá ter uma vida mais tranquila, como pequenos proprietários. Mas não adianta nada se arranchar, trabalhar a terra, pois o cartório governamental é que dirá de quem é a terra. O colono que chegou primeiro, que ali trabalhou anos e anos, é considerado invasor. O dono é a grande empresa milionária de impostos devolvidos pelo governo, que vai lá viver sua aventura amazônica. Se produzirá alguma coisa no futuro, não sabemos. Hoje o que produz é mais e mais bóias-frias.

Mas estávamos falando de 1962

Justamente, queríamos abolir a legislação responsável pelo atraso brasileiro, queríamos escrever na Constituição que a ninguém é lícito manter a terra improdutiva por força do direito de propriedade. Se os Estados Unidos puderam industrializar-se rapidamente, isso em grande parte se deveu ao fato de as pessoas não serem expulsas do campo. E a população rural tinha estímulos para permanecer no trabalho, em sua própria terra, com suas culturas e seu gado, enquanto surgiam empregos na cidade. Tinham a terra. Aqui, não. O povo foi sendo expulso dos campos pelo latifúndio. E continua sendo, para acumular desempregados nas áreas urbanas. 

[...]

Ter como critério fundamental da política econômica o incentivo do lucro empresarial, sem qualquer critério de responsabilidade social, além de ser crime é uma loucura. O Brasil sempre foi muito próspero para os ricos.

Darcy Ribeiro | 1979


18.6.15

chopin na cadeira elétrica


[Rage Against The Machine | 1999]

**
Nós sempre encontramos alguma coisa suficientemente diferente para fugir do pensamento operacional. Eis.


17.6.15

racismo científico


I

Os estudantes precisam ler Bakunin, independentemente de sua aceitação ou rejeição ao pensamento anarquista. O que não se pode negar é a existência de Bakunin, assim como negar a existência de Franz Fanon, Patrícia Galvão e dos escritores contemporâneos mais rebeldes.


16.6.15

manifesto contra o trabalho

[caulos]

O deus-trabalho está clinicamente morto, mas recebe respiração artificial através da expansão aparentemente autonomizada dos mercados financeiros.

O fim do trabalho torna-se o fim da política.

A luta de classes está no fim porque a sociedade do trabalho também está.

A democracia da sociedade do trabalho é o sistema de dominação mais pérfido da história - é um sistema de auto-opressão. Por isso, esta democracia nunca organiza a livre autodeterminação dos membros da sociedade sobre os recursos coletivos, mas sempre apenas a forma jurídica das mônadas de trabalho socialmente separadas entre si, que, na concorrência, arriscam sua pele no mercado de trabalho. Democracia é o oposto de liberdade. E assim, os seres humanos de trabalho democráticos dividem-se, necessariamente, em administradores e administrados, empresários e empreendidos, elites funcionais e material humano. Os partidos políticos, em particular os partidos dos trabalhadores, refletem fielmente essa relação na sua própria estrutura. Condutor e conduzidos, VIPs e o povão, militantes e simpatizantes apontam para uma relação que não tem mais nada a ver com um debate aberto e tomada de decisão. Faz parte desta lógica sistêmica que as próprias elites só possam ser funcionárias dependentes do deus-trabalho e de suas orientações cegas.

A Roda tem que girar de qualquer jeito, e ponto final. Para a invenção de sentido são responsáveis os departamentos de publicidade e exércitos inteiros de animadores e psicólogas de empresa, consultores de imagem [...].

A simulação estatal de trabalho é, por princípio, violenta e repressiva. Ela significa a manutenção da vontade de domínio incondicional do deus-trabalho, com todos os meios disponíveis, mesmo após sua morte. Este fanatismo burocrático de trabalho não deixa em paz nem os que caíram fora - os sem-trabalho e sem-chances - nem todos aqueles que com boas razões rejeitam o trabalho, nos seus já horrivelmente apertados nichos do demolido Estado social. Eles são arrastados para os holofotes do interrogatório estatal por assistentes sociais e agenciadores do trabalho e são obrigados a prestar uma reverência pública perante o trono do cadáver-rei.

Os novos "pobres que trabalham" têm o direito de engraxar o sapato dos businessmen da sociedade do trabalho ou de vender-lhes hambúrger contaminado, ou então, de vigiar o seu shopping center. Quem deixou seu cérebro na chapeleira da entrada até pode sonhar com uma ascensão ao posto de milionário prestador de serviços.

O incômodo do "lixo humano" fica sob a competência da polícia, das seitas religiosas de salvação, da máfia e dos sopões para pobres. Nos Estados Unidos e na maioria dos países da Europa Central, já existem mais pessoas na prisão do que na média das ditaduras militares. Na América Latina, são assassinados diariamente mais crianças de rua e outros pobres pelo esquadrão da morte da economia de mercado do que oposicionistas nos tempos da pior repressão política. Aos excluídos só resta uma função social: a de ser um exemplo aterrorizante.

genealogia

"Trabalho" é um conceito que mascara sua constituição na experiência burguesa, protestante e iluminista do mundo - o ethos de dominação da natureza (e do feminino, do de cor, do estrangeiro etc.) - do homem branco, viril, maníaco pela atividade, que tende a perder a capacidade da própria experiência da diferença e da qualidade.

Por trás do conceito de trabalho está um processo de homogeneização ou abstração real de todas as atividades concretas sob o ditado de um tempo social abstrato da concorrência, cuja finalidade já não é os homens, mas a imanência da própria atividade, do próprio meio: a produção de valor (e mais-valia), que passa por cima das necessidades e vontades de uma sociedade inteira, e a rigor, de toda a vida do planeta.


Grupo Krisis | 1999
Tradução: Heinz D. Heidemam e Claudio D.


15.6.15

chopin na cadeira elétrica


[Napalm Death | 1981]

Nazi punks fuck off

Punk ain't no religious cult
Punk means thinking for yourself
You ain't hardcore ‘coz you spike your hair
When a jock still lives inside your head

Nazi punks - Fuck Off!

If you've come to fight, get outta here
You ain't no better than the bouncers
We ain't trying to be police
When you ape the cops it ain't anarchy

Nazi punks

Ten guys jump one what a man
You fight each other the police state wins
Stab your backs when you trash our halls
Trash a bank if you've got real balls

You still think swastikas look cool
The real nazis run your schools
They're coaches businessmen and cops
In a real fourth reich you'll be the first to go

Nazi punks


You'll be the first to go
You'll be the first to go
You'll be the first to go
Unless you think


14.6.15

discografia ou bibliografia?


Cachorro atropelado

Eu vi um cachorro estirado na pista
Alguém disse que era turista
Outro falou que era artista
Obrigado a ser trapezista
Por isso fugiu do canil.
Ele queria era ser cantor
Quando chegou no Brasil.
Tinha pedrigree de pastor
Herança do seu bisavô
Um cão comunista.
Cachorro tem alma, não,
Rezou o padre cristão
Discordou o monge budista
Falando em reencarna-cão.
Ele estava na contrapata
Diagnóstico do ortopedista
Ou era legista?
Que ele era daltônico
Falou o oculista.
Desobedeceu a sinaliza-cão
Afirmou o bom motorista.
Caso de homicídio,
Suspeitou a polícia
Chamando a perícia.
Suspeita de suicídio,
Escreveu o jornalista.
Dando a notícia
Jornal sensacionalista.
Ele estava drogado,
Acusou o cara de fogo,
De fogo paulista,
Que vivia chapado.
Me desculpando, retruquei:
Escrevi de careta.
E no sinal, pra rimar
Me mandei de lambreta.


Maurício Marques. em: Literatura Marginal - talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.


13.6.15

o cotidiano do professor



Na escola os programas padronizados frequentemente são desenvolvidos no centro de decisão, por grupos ou comissões estaduais, que fixam os currículos oficiais. Os professores universitários herdam uma lista oficial de leituras, que é o modelo tradicional de suas disciplinas. Esses programas padronizados dão pouca autonomia para que professores e alunos reinventem o conhecimento existente.

As autoridades escolares e estaduais procuram elaborar um currículo básico que seja até "à prova de professosres". Imagine só isso - deixar legalmente o professor individual fora do processo de elaboração do conhecimento. Esses currículos mecânicos frequentemente dizem ao professor quantas páginas devem ser lidas por semana, quantas provas devem ser ministradas e a que intervalos de tempo, quantos experimentos de laboratório e quantos anos de História devem ser dados em cada período letivo, e assim por diante. Essa pedagogia se apresenta como um modelo profissional de ensino, muito bem construído, com a aprendizagem facilmente quantificada e medida, facilmente avaliada e convenientemente fiscalizada por supervisores. A contra-revolução de espírito empresarial na educação instaurou um currículo modelado para administradores e contadores. Eles encampam boa parte do dinheiro das escolas e consideram que as escolas poderiam ser perfeitamente administradas se os professores e estudantes não atrapalhassem.

Há uma verdadeira corrente aqui. Os interesses do capital predominam na sociedade e controlam a eleição de servidores públicos, através dos meios de comunicação de massa, dos grupos de pressão, das contribuições de campanha e do sistema bipartidário. Esses servidores planejam e administram o sistema escolar e universitário que, por sua vez, promove a socialização de cada geração favorável ao regime empresarial. O controle estatal do currículo requer o reinado dos administradores e contadores que, então, necessitam de uma pedagogia quantificável para controlar o que os professores e alunos fazem em cada sala de aula. Essa hierarquia considera que a abordagem da transferência de conhecimento é a mais adequada à manutenção da autoridade. Essa corrente de autoridade termina nas escolas e universidades passivas, dominadas pela pedagogia de transferência, no país inteiro.


11.6.15

hip hop & esqueleto cafeinado


[Calle 13 | 2010]

Aquí no hay armas, yo me la juego inteligente


Ao pesquisar sobre a cultura Hip-Hop via Estrela D'Alva, em sua belíssima dissertação que fala da poética do MC, percebo que o mundo tem muitas cenas. Tribos. Fenômenos territoriais. 

Documentários como Wild Style, Bomb it, Exit Through the Gift Shop e Pixo são registros-homenagens. 

As décadas de sessenta, setenta e oitenta, enraizadas na contracultura com suas festas explosivas, seus happenings - performances expressivas cheias de sons, cores e movimento -, geraram um novo elemento de rua: o grafite.

Como síntese deste universo artístico contra a submissão, eu me desemboco nesta preciosidade audiovisual. Oi, galera.


10.6.15

colônia de carrapatos


Hoje eu acordei com uma duas três pulgas

atrás da orelha:

I

quem são os inimigos íntimos 

da democracia?

II

por que pensar só 
em dinheiro?

III

que ideia é esta 
de justiceiro?


9.6.15

século 21


PELO FIM DAS CARETICES fUNDAMENTALISTAS

PELA LIBERAÇÃO
DAS ENERGIAS UTÓPICAS


8.6.15

mil platôs

[SP: ato contra a copa das corrupções]

[...]

Escrever é talvez trazer à luz esse agenciamento do inconsciente, selecionar as vozes sussurrantes, convocar as tribos e os idiomas secretos, de onde extraio algo que denomino Eu.

Deleuze | 1980
Trad.: Ana L. e Lúcia C.


2.6.15

tatu subiu no pau

[Vitor Teixeira]

... o livro didático ignora os sindicatos, os contratos sociais 
e o trabalhador como parte ativa.

Umberto Eco | 1980

[...]


O cenário pornopolítico foi dominado pelo massacre dos professores no Paraná. Depois do “prendo e arrebento”, temos Bato Racha, vulgo Beto 9.9 em violência na escala Richa. Bato Racha levou nove dias para se arrepender, e com a frase mais — desculpem, não há outra palavra — escrota que pode brotar da boca de um covarde: “Machucou mais a mim...” O perdigoto não agradou, Racha deu ré e agora aprova de novo a pancadaria sanguinolenta, balas na cara, bombas, pitbulls... Foi um tremendo rasgo na Cortina de Penas do bom-mocismo tucano. Eles são aquilo mesmo. Bato Racha mandou fitas para jornalistas comprovarem a ação de “elementos infiltrados” no protesto. Ninguém encontrou um único agente provocador. Bato Racha é também um deslavado mentiroso.


Aldir Blanc


1.6.15

por que se demoram as greves da educação?

[Alex Frechette]


Un país que destruye la Escuela Pública no lo hace nunca por dinero, porque faltan recursos o su costo sea excesivo. Un país que desmonta la Educación, las Artes o las Culturas, está ya gobernado por aquellos que sólo tienen algo que perder con la difusión del saber.

Italo Calvino | 1974

A semana que chega apresenta mais uma greve na educação. Em Florianópolis, estão parados os trabalhadores municipais - incluindo professores - os professores estaduais e, agora, o técnico-administrativos em educação da UFSC.  E, no geral, essas greves que envolvem trabalhadores da educação demoram demais. Algumas chegam a durar três meses. Nesse meio tempo não há aulas e se acontecem, são precárias. A pergunta então que não quer calar é justamente essa: por que são tão longas essas greves?

A resposta parece simples. Os governos estão se lixando para a educação.  Observem que quando há alguma paralisação no setor produtivo - fábricas, empresas etc... - ou em algum setor público mais visível - como é o caso dos garis, as negociações são rápidas. Para um empresário, uma fábrica parada implica em milhões de prejuízo, ou o lixo acumulado nas  ruas repercute mal e de maneira muito acelerada para um governante. Então, eles são céleres na resolução dos problemas. 

Mas, uma greve na educação provoca o quê? Que tipo de dano? Aparentemente, nenhum. No caso da educação municipal, há um certo desconforto para os pais que precisam encontrar outro lugar para deixar os filhos. Mas é só. Três meses sem aula, ao que parece, não prejudica ninguém. Nas primeiras semanas há uma certa gritaria, mas depois as coisas se acomodam e a vida segue. Para os governantes é até bom. Não precisam gastar com merenda, com luz ou água. É só ficar no vai em vem de reuniões infrutíferas, queimando o filme dos trabalhadores, pois, ao final, são eles os que aparecem como culpados do transtorno.

A educação é só um tema ritual no programa de governo dos prefeitos, governadores se presidentes.   Arrisco dizer que em casos muito singulares, como quando Paulo Freire foi secretário da educação, esse assunto realmente teve alguma relevância. As campanhas políticas sempre apresentam propostas mirabolantes para a educação, mas, no frigir dos ovos, tudo segue igual, entra governo, sai governo, seja de que partido for. Claro, há experiências legais, mas são apenas as exceções, o que confirma a regra. 

Educação mesmo é coisa séria, tem a ver com ensinar a ler o mundo, a ser crítico, autônomo, capaz de criar, inventar, subverter. Precisaria de um corpo de professores bem pagos, bem formados, cheios de entusiasmo pelo ensino, com tempo para ler, estudar e preparar boas aulas. Também precisaria de um corpo técnico bem qualificado, comprometido com o processo, engajado na tarefa do ensinar e aprender. Teria de ter uma estrutura material capaz de acolher com qualidade os alunos, laboratórios, espaços de lazer. E tudo isso é o que não há. Por isso são necessárias as lutas. E parece um paradoxo que um trabalhador da educação tenha que abandonar seu ofício para lutar por algo que deveria ser um direito de todos. Mas é assim que é.

O salário, cujo reajuste da inflação seria o mínimo a ser dado anualmente, nunca cresce. Por vezes, nem o índice de perda da inflação é reposto, ou se é, os governantes ainda querem fazer em vezes, achatando e corroendo ainda mais o vencimento. Os trabalhadores público sequer têm data-base, que é aquela data específica, no geral em maio, que os patrões são obrigados por lei a reajustar os salários. Pois bem, os governantes não estão obrigados a isso, e é por conta de não terem data-base, que os trabalhadores públicos precisam da greve para reivindicar reajustes ou melhorias nas condições de trabalho.

Na semana que passou, o novo ministro da educação, o filósofo Janine Ribeiro, declarou que os trabalhadores estão sendo intransigentes declarando greve  - professores e técnicos. Que eles deveriam dialogar mais. Ora, que declaração infeliz. O ministro, que chegou ontem ao cargo, mas é um professor de carreira, deveria saber muito bem que os trabalhadores vivem pendurados em mesas de negociação,  que mais são de enrolação, uma vez que não avançam em nada. E, no mais das vezes, ainda servem para desfazer os acordos feitos em greve. Diálogo é o que mais querem, nunca encontrando. O governo prefere pagar em dia os juros de uma dívida ilegal a remunerar bem seus professores e técnicos. Exige "paciência" dos trabalhadores, e permanece ajoelhado diante da dívida odiosa.

E é assim que ajudados pela mídia comercial, eles vão tornando vilões aqueles que são as vítimas do sistema. Os meios de comunicação são capazes de endeusar jovens sem causa que caminham contra uma abstrata "corrupção", e tornar demônios os trabalhadores que lutam por uma vida digna, não só para eles, mas também para todos os que utilizam o serviço público. Os que lutam são hoje xingados de "vermelhos, petistas, governistas" ou um sem mais de nomes ideologizados. E a massa desinformada compra o pacote, enxovalhando aqueles que realmente querem um mundo melhor. É a total inversão de valores. Fracasso total da própria educação, que não consegue formar seres perguntadores  e críticos.

É fazendo esse ciclo que chegamos a resposta da pergunta sobre por que se demoram as greves da educação. Interessa a quem manda manter as gentes na ignorância. Dizia Simón Rodríguez, o educador das Américas: "Ensinem, e terão quem saiba. Eduquem, e terão quem faça". Pois assim é. A política de educação  está voltada para ensinar apenas o necessário para que as pessoas possam se movimentar no mundo. Mas não há preocupação em educar, porque aí os véus podem cair: "que aprendam as crianças a serem perguntadoras, para que pedindo os porquês, se acostumem a obedecer a razão e não a autoridade, como os limitados, ou aos costumes, como os estúpidos".  

Assim, olhos abertos para a forma como os governantes tratam os trabalhadores da educação. Observem como César Souza, Raimundo Colombo e Dilma Roussef lidam com os professores e os técnico-administrativos em educação e perguntem-se: Porquê? A batalha dos professores e TAEs é legítima e necessária. No mundo capitalista, o trabalhador tem apenas o seu corpo - sua força de trabalho - para vender. E, no embate com o capital, precisa garantir o melhor para si. Por isso, a luta. 

Elaine Tavares | Palavras insurgentes