29.12.15

bolachão


[Fun People | 1996]

Queríamos tanto uma coisa tão diferente.

Deleuze e Parnet

Libre al fin

Te conoci en la escuela nacional / No comiamos mierda de nadie, y al final / El director firmo, la hoja de expulsion / Le dijimos "adios" // Y a la mierda! // Despues de un tiempo la cosa no fue mal / Los fines de semana saliamos, a bailar / Como me hacias reir / Toda la noche en cualquier bar / Jugando al noche al billar... // Y unos petas! // Yo ensayaba en mi habitacion / Y tu preparabas mientras tu proxima accion / En un momento dado, el tipo equivocado, cae empapelado // Y a la carcel!!! / Hice lo que pude pa' escribir / ¿Como la has pasado hoy? ¿Te dieron mucho ahi? / Cuando te vea venir, vamos a convertir / Toda esta ciudad. // En cenizas!!! // Aunque pasen los años y todo haya cambiado, yo me quiero ir de aqui. / Nunca olvidare lo que senti cuando saliste libre al fin. / Nunca olvidare lo que senti, por que sabia donde ibas a ir. / Y si estas hoy alli, echa un trago por mi, desde aqui lo hare por ti / tranquilo / Con cuidado / Libre al fin


27.12.15

bilhete premiado


Qual ser amado não envolve paisagens, continentes e populações mais ou menos conhecidos, mais ou menos imaginários?

Gilles Deleuze

La librería es un territorio con una psicogeografía propia, es un lugar de confluencias de vidas reales e imaginarias, y los libros tienen su propia historia aparte de la que cuentan

Manuel Rivas

**

Fui questionado, certo fim de tarde com relâmpagos e chuva, por simples escarnio ou ironia de Ana, o que eu faria se ganhasse na loteria. Eu não pude responder rapidamente. Ela me pegava entre um meio sono e a digestão de uma leitura. Pensei me virando em sua direção que brincadeira ela jogava como rede para cima de mim? Mas para entrar no jogo e não ser visto como um chato de plástico que não sabe conversar, eu respondi que abriria uma livraria em Buenos Aires. 

Surpresa, Annuska, como eu gostava de lhe chamar, indagou-me: 

- Mas você trabalharia?
- Sim. Também, para complementar e sustentar-se no "sonho", eu compraria o prédio em que habito.
- Cê diz este aqui?
- Claro. 
- Todo ele?
- Todo. E entregaria para cada família. Reformaria outros. E ficaria de boa. Creio que eu teria uma livraria aqui e uma em Buenos Aires. Mas moraria lá. 
- Por que?
- Para andar de bike. E terminar os meus romances.
- Cê ri por quê? 
- Não sei, me deu vontade. Da falsa ilusão sem o problema econômico aparecendo a mim a toda hora como um fantasma.
- Paranóico.
- Lembre-se que estou desempregado e literatura não se troca nem no mercado de tomates.
- Ai, começou. Cê sempre se irrita. Põem-se como vítima.
- Eu, vítima? Vou começar a chamá-la de mano. Tá me tirando?
- Acabou a cena? Cê não viajaria? Não tiraria férias? Sei lá, se mexer.
- Se fala como seu eu fosse uma lagarta. Claro que viajaria e, alem do mais, as viagens teriam como objetivo conhecer "todas" as livrarias e delas alimentar a Noturno Citadino.
- O que é Noturno Citadino?
- Como o que é? É o nome da livraria.
- Ah!

Ana sentada ao meu lado retira os sapatos, as meias e se aconchega. Toca seus pés gelados na minha perna.

- Como cê tá quentinho. 

Ana me abraça.


26.12.15

arte urbana

[Stencil | CWB]


25.12.15

valor e cultura



XXXI

A competição nada mais é do que uma sublimação da guerra.


22.12.15

deformação


eh pomba suja / urubuzinha de metrópole / ratazana / ávida por dejetos / bebedora de água preta / aí está você: / uma chapa / uma pasta / de pena e sangue / milhares de vezes / vai-se repetir sua morte / sob os pneus / eh pomba lerda / viu o que a cidade lhe fez? / bem feito pra você. / viu o que a cidade nos fez?


Donizete Galvão


21.12.15

chopin na cadeira elétrica


[Radio Friendly Unit Shifter | 1993]


Um grande romancista do nosso tempo se perguntou uma vez se a Terra não seria o inferno dos outros planetas.


20.12.15

...


Vai, mano.

Fala de mim,
fala em meu lugar,

sabe tudo!


19.12.15

valor e cultura


XXX

Mandar alguém calar a boca tem a mesma prepotência de cê sabe com quem está falando?


18.12.15

massa conservadora embrutecida pelos meios de comunicação de massa



Chegaram-me as imagens de manifestantes do último domingo – que já viraram piada pronta com o pato de tróia – soltando suas "opiniões", que não passaram de pesados preconceitos. 

"Tudo vagabundo", "vai trabalhar" e "pagar imposto" são exemplos do tipo de mentalidade da horda. Isso em um domingo em que uma senhora apontava a manifestação dos skatistas como se ela fosse um ato violentíssimo. Sanguinário. Infelizmente a pessoa que destilou o verbo trabalhar não sabe o quanto de exploração há por trás dele. E tem mais: são uma palavra e uma ideia que não passam de condicionamento. 

Mas vai falar para esta pessoa - uma cidadã de bem exemplar - sobre o trabalho intelectual e braçal. Vai explicar para esta "brasileira oficial" a etimologia da palavra trabalho. Nesta, quem paga o pato é o trabalhador.

Tentei, com muito esforço, ver mais registros do ridículo de atmosfera fascista. Não deu. Os manifestantes canarinhos reproduziram maneiras mecanicamente hostis. Entre outros clichês que se tornaram dogmas não sei como. Esquemas simplificadores dos quais devemos nos livrar. 

Ao fim, eu que estou mais de saco cheio deste joguinho de adultos folgados e mimados, invoco o direito à preguiça como um último ato de resistência.



16.12.15

o gato por dentro

[1914-1997]

O ambiente mágico está sendo intimidado a desaparecer. Não há mais rena verde no Forest Park. Os anjos estão deixando todas as alcovas no mundo inteiro, o ambiente no qual unicórnios, pés-grandes e renas verdes existem está cada vez mais ameaçado, como as florestas tropicais e as criaturas que nela vivem e respiram. Quando as florestas são derrubadas para dar lugar a motéis, Hiltons e MacDonald's, morre também toda a magia do universo.

William S. Burroughs
Trad.: Edmundo Barreiros


13.12.15

força


Eu preciso escrever
com uma simplicidade enxuta
despretensiosa ternura.


27.11.15

deslocamento


Já as asas enormes
do albatroz de Baudelaire
não têm nenhuma serventia
na grande cidade
que atropela a imaginação
do poeta.

26.11.15

sobre a natureza do homem

[Kurosawa | 1954]

"O garoto está com quatro anos, é esperto, diz que a mãe ficou doente por causa de uns homens do mal que a maltrataram e que quando crescer vai comprar uma espada bem grande e matar todos eles."

25.11.15

tempo


Poetas: este é o tempo de revolta / tempo de língua afiada / tempo de queimar as prisões / tempo de revolução.


18.11.15

civilização e dinheiro

[1890-1954]
[...]

A cidade atual vive sob o signo do que Nietzsche, já em 1870, chamava de "presente indecente". O burguês moderno faz a barba telefonando, fumando charuto e namorando a manicure, tendo aos pés o engraxate esquálido que, em vez de morder-lhe as pernas, com ele discute o futebol.

[...]

Lessing profetizava com otimismo que um breve minuto de consciência faria desaparecer, sem deixar traço, essa espécie problemática em si mesmo de macacos carniceiros, atacados de mania de grandeza, que são os usufruidores do capital.

Oswald de Andrade | 1949


17.11.15

bolachão


[The Adicts | 1981]

Picked up umbrella / Put on my bowler / Looked in mirror / Ready for the tango / I phoned a taxi / For me and Maxine / She looked fantastic / We danced the tango / We drank champagne / We danced again / We had laughter / And then after / Face to face we danced the tango / Cheek to cheek we danced the tango


13.11.15

epístola

[1920-1955]

Há quase vinte anos venho dando o melhor do meu esforço para ajudar a construir em São Paulo um núcleo de estudos universitários digno desse nome. Por grandes que sejam as minhas falhas e por pequena que tenha sido a minha contribuição individual, esse objetivo constitui o principal alvo de minha vida, dando sentido às minhas atividades como professor, como pesquisador e como cientista. Por isso, foi com indisfarçável desencanto e com indignação que vi as escolas e os institutos da Universidade de São Paulo serem incluídos na rede de investigação sumária, de caráter policial-militar, que visa a apurar os antros de corrupção e os centros de agitação subversiva no seio dos serviços públicos mantidos pelo Governo Federal.

Não somos um bando de malfeitores. Nem a ética universitária nos permitiria converter o ensino em fonte de pregação político-partidária. Os que exploram meios ilícitos do enriquecimento e de aumento do poder afastam-se cuidadosa e sabidamente da área de ensino [...]. Em nosso país, o ensino só fornece o ônus e pesados cargos, oferecendo escassos atrativos, mesmo para os honestos, quanto mais para os que manipulam a corrupção como um estilo de vida. De outro lado, quem pretendesse devotar-se à agitação político-partidária seria desavisado se cingisse às limitações insanáveis que as relações pedagógicas impõem ao intercâmbio das gerações.

Carta de Florestan Fernandes ao tenente-coronel que veio detê-lo, em setembro de 1964.


12.11.15

sobre a universidade


O professor não é um mistagogo, que assume tais decisões pelos estudantes. Não é portador de nenhuma "mensagem" ou "profecia" a não ser o empenho no aprofundamento da comunicação e no significado intrínseco do conhecimento, fiel à tradição racionalista e revolucionária, da pesquisa e interrogação ilimitada, da análise fria e clara da verdade, na renúncia à negar-se a si como "sujeito", da própria seriedade e do intrínseco significado do trabalho cotidiano.

Maurício Tragtenberg


10.11.15

no brasil


... é [...] mais complexo o significado da leitura para o brasileiro. Quando se constata que a porcentagem maior de venda de impressos concentra-se em publicações banais, a leitura pode ser tomada como ação que beneficia o leitor?

[...] 

A década de 60 marcou a expansão da TV, o meio de comunicação ao qual se atribui com alguma frequência o poder de desviar o público do livro. [...] Tanto o rádio como a televisão são meios que dispensam a habilidade da leitura. 

Milanesi | 1983


4.11.15

papo reto


II

Eu não gosto de brucutu fantasiado de gente civilizada.


3.11.15

educação brasileira: diagnóstico e perspectivas


[...]

Quanto menos os corpos docente e discente participam das decisões na universidade, mais o estamento burocrático ocupa lugar. Constitui-se numa figura sem rosto, serve a qualquer poder, a qualquer política, coberta pela ética da irresponsabilidade burocrática: "recebi ordens". Essa ética, levada ao limite, converte o próprio mal numa banalidade e origina os Eichmann da existência.

Tragtenberg | 1979


1.11.15

criança de domingo



[Chico Science & Nação Zumbi | 1996]


Não me atribua dotes, 
autoridades e gostos que eu esteja bem longe de ter. 

Não sou herói 
muito menos mártir.

Xô!


30.10.15

o fim do mundo

[1942-1945]

No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

João Cabral | O engenheiro


28.10.15

minifesto

[Meninos | V. Bogdanov | 1989]

Aos movimentos ditos revolucionários é preciso se opor:


A. Aos hábitos repressivos;
B. Ao burocratismo;
C. Ao maniqueísmo moralizante.

Passo a passo. Sem lograr os múltiplos desejos.



27.10.15

parece que sei lá

[Guido Pigni]

Tirar con indirectas eso no es de hombres
El que me tire a mi tiene que mencionar mi nombre

Vá cuidar da sua vida
Diz o dito popular
Quem cuida da vida alheia
Da sua não pode cuidar



22.10.15

...

[Kikuo]


21.10.15

l’atelier populaire


[1968]

EPÍLOGO

Finda a leitura, o livro está completo

em sua solidão mais-que-perfeita
de couro falso e íntimo papel.

Lá fora, o mundo segue, arquitetando
as mesmas contingências costumeiras
que nunca esbarram numa irrefutável

conclusão que se possa resumir
em três letras letais, inalienáveis.
Que paz será possível nessa selva

sem índices, prefácios, rodapés?
indaga, da estante mais excelsa,
o livro. Porém nada disso importa,

se todas as dúvidas se dissipam,
com tudo o mais, quando o bibliotecário
apaga as luzes, sai e tranca a porta.

Paulo Henriques Britto | Tarde
2007


20.10.15

enredo


E quando o menino ou a menina abrir o cofre do artista da fome e descobrir, para a sua decepção, apenas livros guardados?


19.10.15

de la musique


[B-Negão & Seletores de Frequência | Transmutação | 2015]


16.10.15

quem policia a polícia?


Foi tarde e sem ser julgado pelos crimes cometidos o major Carlos Alberto Brilhante Ustra. Na fase mais sanguinária das torturas e dos assassinatos, foi este elemento da escória fardada quem mobilizava o DOI-CODI. Suas atividades de "coice de mula" foram exercidas durante três anos. De 1970 – 1974. 

Este senhorzinho era daqueles que estava fazendo hora extra no mundo.


7.10.15

dialética da escola-prisão


seis

"Parte do desespero dos professores, agora, é que a educação está sendo um dos setores mais depreciados desta sociedade. Ela foi marginalizada depois dos anos 60, para diminuir a contestação igualitária que se desenvolvia nos campi. Assim, da noite para o dia, os dias de esperança se transformaram em cortes de orçamento, demissões, e programas repressivos de retorno ao básico. Os professores que trabalham pela transformação, nas escolas ou nas faculdades, quase sempre se sentem ali isolados, perguntando-se o que significa seu trabalho numa área tão depreciada da economia. A educação foi marginalizada pela reação conservadora aos anos 60, precisamente devido a seu potencial político."



6.10.15

dialética da escola-prisão


cinco

"A ação burocrática resume-se em alterações superficiais na organização da educação, de forma e de denominação, gerando novas evasões de alunos, humilhando professores, desviando-os de sua prática docente e colocando-os em competição de cunho empresarial."


1.10.15

coração veterano


No capitalismo a democracia é um mero fetiche e estão incrustados nela valores não de homens mas de canalhas.


30.9.15

robert moses: o mundo da via expressa


[An excerpt from New York: a documentary film by Ric Burns]

Que esfinge de cimento e alumínio abriu seus crânios e devorou
seus cérebros e imaginação? [...]
Moloch cujas construções são sentenças!

Allen Ginsberg | Uivo

Notas

[...] a cidade precisava de uma estrada - ou era o Estado que a necessitava?

[...] Na verdade [...] como mostra Caro, virtualmente todo o terreno de que Moses se apropriou consistia em pequenas casas e sítios familiares.

[...] por obra de uma dialética fatídica, como a cidade e a rodovia não se coadunam, a cidade deve sair.

[...] Em sua pior fase, ele [Moses] se tornaria não tanto um destruidor - embora tenha destruído bastante - mas um executor de ordens e imposições alheias. Conquistara poder e glória inaugurando novas formas e novos meios em que a modernidade podia ser experimentada como uma aventura: lançou mão desse poder e dessa glória para institucionalizar a modernidade num sistema de necessidades cruéis e inexoráveis e de rotinas esmagadoras. Ironicamente, transformou-se em um foco pessoal para a obsessão e o ódio das massas, inclusive o meu próprio, no preciso momento em que perdera a visão e a iniciativa pessoais para se tornar um homem de organização; nós viemos a conhecê-lo como o capitão Ahab de Nova Iorque justamente quando, embora ainda no leme, perdera por completo o controle do navio.

[...] Uivo era brilhante ao desmascarar o niilismo demoníaco no âmago de nossa sociedade estabelecida e ao revelar o que Dostoievski um século antes definira como "a desordem, que é na realidade o grau mais elevado da ordem burguesa".

[...] Durante vinte anos, as ruas foram por toda a parte, na melhor das hipóteses, passivamente abandonadas e com frequência (como no Bronx) ativamente destruídas. O dinheiro e a energia foram canalizados para as novas auto-estradas e para o vasto sistema de parques industriais, shopping-centers e cidades-dormitórios que as rodovias estavam inaugurando. Ironicamente, então, no curto espaço de uma geração, a rua, que sempre servira à expressão da modernidade dinâmica e progressista, passava agora a simbolizar tudo o que havia de encardido, desordenado, apático, estagnado, gasto e obsoleto - tudo aquilo que o dinamismo e o progresso da modernidade deviam deixar para trás.

[...] Procurávamos abrir as feridas internas de nossa sociedade, mostrar que elas ainda permaneciam aí, fechadas mas não sanadas, que estavam se disseminando e supurando, que, se não fossem enfrentadas rapidamente, ficariam piores. Sabíamos que as vidas rutilantes das pessoas no rápido percurso encontravam-se tão profundamente mutiladas quanto as exigências castigadas e esquecidas das pessoas que estavam no caminho. Sabíamos, porque nós próprios estávamos justamente aprendendo a viver naquela via e a gostar de seu ritmo. [...] Nós, que sabíamos tão bem como doía arrancar as raízes, atiravamo-nos contra um Estado e um sistema social que parecia estar arrancando, ou explodindo, as raízes do mundo inteiro.

[...] artistas, pensadores e ativistas que questionaram o mundo da via expressa admitiam como certos a sua inesgotável energia e seu impulso inexorável. Eles encaravam suas obras e ações como antíteses, envolvidas num duelo dialético com a tese que estava sufocando todos os gritos e que varria todas as ruas do mapa moderno. Esse embate de modernismos radicalmente opostos conferiu à vida dos anos 60 muito de sua coerência e excitamento.

O que ocorreu na década de 70 foi que, justamente quando os gigantescos motores do crescimento e da expansão estacaram e o tráfego quase parou, as sociedades modernas perderam abruptamente sua capacidade de banir para longe o passado.

[...] Ser moderno, eu dizia, é experimentar a existência pessoal e social como um torvelinho, ver o mundo e a si próprio em perpétua desintegração e renovação, agitação e angústia, ambiguidade e contradição: é ser parte de um universo em que tudo o que é sólido desmancha no ar. Ser modernista é sentir-se de alguma forma em casa em meio ao redemoinho, fazer seu ritmo dele, movimentar-se entre suas correntes em busca de novas formas de realidade, beleza, liberdade, justiça, permitidas pelo seu fluxo ardoroso e arriscado.

Marshall Berman | 1982
Trad.: Carlos F. Moisés


29.9.15

micropolítica do fascismo

[1930-1992]

Desterritorialização da produção
e molecularização do fascismo

O que assegura a passagem das grandes entidades fascistas clássicas à molecularização do fascismo a que assistimos hoje? O que acarreta a desterritorialização das relações humanas? O que as faz perder suas bases nos grupos territoriais, familiais, no corpo, nas faixas etárias, etc.? Qual é a natureza desta desterritorialização, que gera, por sua vez, a escalada de um microfascismo? Não se trata de uma mera questão de orientação ideológica ou estratégica por parte do capitalismo, mas de um processo material fundamental: é pelo fato de as sociedades industriais funcionarem a partir das máquinas semióticas que decodificam, cada vez mais, todas as realidades, todas as territorialidades anteriores; é pelo fato de as máquinas técnicas e sistemas econômicos serem cada vez mais desterritorializados, que estão em condições de liberar fluxos de desejo cada vez maiores; ou, mais exatamente, é pelo fato de seu modo de produção ser forçado a operar esta liberação, que as formas de repressão também são levadas a se molecularizarem. Uma simples repressão maciça, global, cega não é mais suficiente. O capitalismo é obrigado a construir e impor seus próprios modelos de desejo, e é essencial para sua sobrevivência que consiga fazer com que as massas que ele explora os interiorizem. Convém atribuir a cada um: uma infância, uma posição sexual, uma relação com o corpo, com o saber, uma representação do amor, da honestidade, da morte, etc. As relações de produção capitalista não se estabelecem só na escala dos grandes conjuntos sociais; é desde o berço que modelam um certo tipo de indivíduo produtor-consumidor. A molecularização dos processos de repressão e, por consequência, esta perspectiva de uma micropolítica do desejo não estão ligadas a uma evolução de ideias, mas a uma transformação dos processos materiais, a uma desterritorialização de todas as formas de produção, quer se trate da produção social ou da produção desejante.

Por não dispor de modelos comprovados, e considerando a desadaptação das antigas fórmulas fascistas, stalinistas e, talvez, também social-democratas, o capitalismo é levado a buscar, em seu próprio seio, fórmulas de totalitarismo melhor adaptadas. Enquanto não as tiver encontrado, será tomado, em contracorrente, por movimentos que se situarão em frentes, para ele, imprevisíveis (greves selvagens, movimentos de autogestão, lutas dos imigrados, de minorias raciais, subversão nas escolas, nas prisões, nos hospícios, lutas pela liberdade sexual, etc.). Esta nova situação, onde não se está mais lidando com conjuntos sociais homogêneos, cuja ação possa ser facilmente canalizada para objetivos unicamente econômicos, tem como contrapartida fazer proliferar e exacerbar respostas repressivas. Ao lado do fascismo dos campos de concentração - que continuam a existir em inúmeros países -, desenvolvem-se novas formas de fascismo molecular: um banho-maria no familialismo, na escola, no racismo, nos guetos de toda natureza, supre com vantagens os fornos crematórios. Por toda a parte, a máquina totalitária experimenta estruturas que melhor se adaptem à situação: isto é, mais adequadas para captar o desejo e colocá-lo a serviço da economia de lucro. Dever-se-ia, portanto, renunciar definitivamente a fórmulas demasiado simplistas do gênero: "o fascismo não passará". Ele não só já passou, como passa sem parar. Passa através da mais fina malha; ele está em constante evolução; parece vir de fora, mas encontra sua energia no coração do desejo de cada um de nós. Em situações aparentemente sem problemas, catástrofes podem aparecer de um dia para o outro. O fascismo, assim como o desejo, está espalhado por toda parte, em peças descartáveis, no conjunto do campo social; ele toma forma, num lugar ou noutro, em função das relações de força. Pode-se dizer dele, ao mesmo tempo, que é superpotente e de uma fraqueza irrisória.

Em última análise, tudo depende do talento dos grupos humanos em se tornarem sujeitos da História, isto é, em agenciar, em todos os níveis, as forças materiais e sociais que se abrem para um desejo de viver e mudar o mundo.

Guattari | 1977
Trad.: S. Rolnik


28.9.15

desejo


É preciso tomar a palavra
(mas sem ter de recorrer a instâncias representativas
para exprimir-se).

É preciso estar no assunto
mas é preciso
também
sair do assunto.


26.9.15

rádio alice

[The Clash | Munich | 1977]

Acabar com a chantagem da miséria, a disciplina do trabalho, a ordem hierárquica, o sacrifício, a pátria, os interesses gerais. Tudo isto calou a voz do corpo. Todo o nosso tempo sempre foi consagrado ao trabalho, 8 horas por dia, duas horas de transporte, e depois descanso, televisão, refeição em família. Tudo que não se encaixa no interior desta ordem é obsceno para a polícia e os magistrados.

1974


22.9.15

certo?


Meus queridinhos,
porque "Deus quis"
não é a resposta.

21.9.15

bronca, carajo!


[Jorge Lopez Ruiz | Bronca Buenos Aires | 1971]


20.9.15

pedagogia burocrática

[1929 - 1998]
[...]

No fundo, o problema educacional é político e econômico, e se reflete na educação. Ele é aparentemente só educacional. É isso um dado básico. Nos termos da pedagogia burocrática, nós conferimos o aluno. O que é o aluno? Uma nota. E até na universidade você ganha nota por um trabalho. Ora, a nota que o aluno recebe pelo trabalho é igual ao salário que o operário recebe pelo trabalho. É idêntico. É a mesma relação de submissão-dominação que o sistema cria. O capital oferece ao trabalhador um salário pelo seu trabalho. O sistema nos coloca em condições de oferecer notas ao trabalho do aluno. É o salário dele, mas é a mesma relação. Por que há essa pedagogia burocrática? Não é propriamente tanto para transmitir conteúdo porque a escola é mais um elemento de disciplinamento, uma prisão, um hospital psiquiátrico tradicional. Hospital psiquiátrico não cura ninguém. Simplesmente o paciente é sedado para não 'encher' o psiquiatra. Por isso é que são depósitos de pessoas. [...] Da mesma maneira que o hospital psiquiátrico é disciplinador, a escola é disciplinadora porque ela forma regras de submissão e dominação. A pedagogia burocrática é fundada para isso, porque ela cria aquele elemento submisso que vai ser um submisso na empresa privada. [...] A escola não educa para a autonomia, educa para a submissão. Para ela educar, ela pode educar para a autonomia. [...] Há uma educação para submissão e uma educação para a autonomia e para autogestão. Mas isso depende de um processo social fora da escola."


Maurício Tragtenberg | O papel social do professor
 1980


18.9.15

violência no trânsito


Mortes & "acidentes".


17.9.15

a aventura da modernidade

[1940-2013]

A década de 70:
trazer tudo de volta ao lar


[...]


Tempos atrás, numa tarde de outono, vi uma adorável jovem num vestido encantador cor de vinho, que visivelmente voltava da parte alta de Manhattan (de um espetáculo, uma premiação, um trabalho?), subindo os longos lances de escada que levavam à sua água-furtada. Com um braço, ela segurava uma vasta sacola de compras, de onde se projetava um pão francês; no outro, delicadamente equilibrado no ombro, um grande feixe de estiradores de um metro e meio de comprimento: uma expressão perfeita, me pareceu, da moderna sexualidade e espiritualidade de nosso tempo. Mas, logo ao dobrar da esquina, emboscara-se uma outra figura moderna arquetípica, o agente imobiliário, cujas frenéticas especulações da década de 70 fizeram muitos artistas os quais não tinham esperanças de poder suportar os preços que sua presença ajudara a criar. Aí, como em tantas cenas modernas, as ambiguidades do desenvolvimento estavam em ação.

Marshall Berman | 1982
Trad.: Carlos F. Moisés
Ana N. L. Ioriatti


16.9.15

caro motorista,


se a tua barbeiragem (em alta velocidade) põe em risco a vida do ciclista e do pedestre, não me interessa a sua patente na hora do julgamento, porque você não passou de um potencial assassino.

E não há argumento no mundo que justifique a sua defesa.

Compartilhar a rua não machuca ninguém. Tenha menos pressa com a sua própria existência, pois só há um corpo para ela. E não veja a bicicleta como um corpo estranho.

Ninguém pode ser dono do mundo. Muito menos da rua. E a rua fora feita para os automóveis, como a calçada para o pedestre. Mas nos últimos anos inverteram o costume, e as calçadas também passaram a ser dos automóveis. Para cada recorde de uma multinacional (ah!, as delícias da Revolução Industrial), menos espaços.

Calçadas destruídas.

Menos praças, mais estacionamentos. Mais carros e menos bici.

A imobilidade como planejamento do urbanismo projetado pelo capital destruidor e produtor de lixo virou cultura. Produtor e produto.

A inversão dos valores não para. Ela é longa e cheia de meandros. Tem história. Tem fundação. Em suma, essa inversão representa o que há de mais violento, porém oculto, porque banalizado.


14.9.15

hip hop & esqueleto cafeinado



[Projeto Nave Nas Base para Ana Tijoux | MANOS E MINAS]


10.9.15

Sous le pavé, la plage

[Mai 68]

Nós combatemos porque nos recusamos a nos tornarmos:

- professores a serviço da seleção no ensino, de que os filhos da classe operária são as vítimas,

- sociólogos fabricantes de slogans para as campanhas eleitorais governamentais,

- psicólogos encarregados de fazer "funcionar" as "equipes" de trabalhadores "segundo os melhores interesses dos patrões",

- cientistas cujo trabalho de pesquisa será utilizado segundo os interesses exclusivos da economia do lucro. Nós recusamos este futuro de "cães de guarda". Nós recusamos os cursos que nos ensinam a nos tornarmos isso. Recusamos os exames e os títulos que recompensam os que aceitam entrar no sistema. Nós nos recusamos a melhorar a universidade burguesa. Nós queremos transformá-la radicalmente a fim de que agora em diante ela forme intelectuais que lutem ao lado dos trabalhadores e não contra eles."

Olgaria Matos | Paris 1968:
As barricadas do desejo


3.9.15

dialética da escola-prisão


quatro

Carcereiro meter o nariz em pesquisa de educador é o cúmulo da violência invisível.


2.9.15

dialética da escola-prisão


três


O nível de sabotagem que enfrentei em oitos anos como educador raramente tem sido tão baixo a ponto de não me permitir o trabalho dialógico.


31.8.15

do mundo



- 1991 - 1994 - 
(fragmentos)

Sou eu, assimétrico, artesão, anterior
- na infância, no inferno.
Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.
A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos,
e entre eles desenvolvem-se
as matérias.
Trabalha um nome, o meu nome, a dor do sangue,
defronte
da massa inóspita ou da massa
mansa de outros nomes.
Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves
nomes,
escrevem-nos os dedos ferozes no papel
pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo
e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que,
gramaticalmente, carnalmente, me reparto.
Desequilibro-me para o lado onde trabalha a morte.
O lado em como isto se cala.



Herberto Helder


24.8.15

dialética da escola-prisão


dois

Na sala de aula tradicional, o professor e os alunos tentam manipular-se, um ao outro, ao mesmo tempo. O terreno em que se encontram é a luta pelo poder, para ver quem controlará o processo. É impossível transcender essa divisão antagônica, a menos que a pedagogia pratique a democracia.


20.8.15

dialética da escola-prisão


um

Por que nas escolas existe 

uma enorme ausência 
de liberdade e democracia
mas promove
contraditoriamente
o autoritarismo?



19.8.15

18.8.15

zente


é verdade verdadeira
verdadeiríssima

que vocês creem no diabo 

com d maiúsculo?


17.8.15

febre aftosa


Me chegam imagens da manifestação de ontem. É cada uma que olha, heim: a raiva e o delírio urbano saíram de mãos dadas?

Enquanto uma parcela politizada da sociedade pede a desmilitarização da polícia, para ficarmos apenas em uma das pautas + democráticas do mundo, uma outra parcela - intitulada de ursinhos carinhosos - pede a volta da ditadura militar? O que esta turma desengajada anda destilando como "argumentação" é justamente a falta de argumentação. São preposições que nem meninos de cinco anos formulam, porque, quando não os estragam antes, meninos de cinco anos compõem cada narrativa de dar inveja ao leitor profissional.

Embora eu tenha dado boas risadas com a manifestação dominical, muito me preocupa como os "cidadãos de bens" agem frente ao vermelho. Alguém notou que eles rosnavam feito cães? Eu não posso acreditar que uma simples cor possa deixá-los assim.

Mas pelas imagens eu pude constatar o que eles "defendem". E para isto, digo: eu tenho medo, mas é um medo patético. Um medo que representa o mais absurdo quando essa parcela da sociedade se refere à segurança pública. 

Manifestações assim me dão sono, mas me deixam triste. É como se houvesse um ramo de senhoras sendo despolitizado por um menino alienado de dezesseis anos. Convenhamos, desse jeito faltou tocar Mc Pedrinho como carro chefe. Aí, o pacote do entretenimento estaria completo. 

Mas... peraí, dizem que na Capital Mc Pedrinho esteve ao vivo. 


14.8.15

bolachão


[Berimbau]

regulação e sociedade democrática

Em seu artigo 54, a Lei Fundamental procura impedir que senadores e deputados mantenham contratos com empresas concessionárias de serviço público (e as emissoras são exatamente isso, concessionárias de serviço público). Essa medida está lá pelo mesmo motivo que levou a legislação eleitoral a proibir candidatos a postos eletivos de manter programas de rádio e televisão durante o período eleitoral: o objetivo é evitar que a radiodifusão deixe de ser serviço particular (para benefício de poucos), administrada com a finalidade escusa de promover interesses particulares (como os partidários).

Pois bem: e de que adianta esse dispositivo constitucional? De nada. Para que serve o artigo 54 da constituição? Para nada. Qualquer um é capaz de apontar dezenas de deputados e senadores que são, mais do que próximo, acionistas, donos ou dirigentes ocultos de emissoras - e pouco se pode fazer quanto a isso. O conflito de interesse é total -  e nada se faz para combatê-lo. Como parlamentares do Congresso Nacional, esses políticos são responsáveis por examinar as concessões de frequências de radiodifusão para empresas particulares. Ao mesmo tempo, como pessoas vinculadas às empresas de comunicação, são diretamente interessados em muitas dessas concessões.

Não é só. Um fenômeno mais recente - a entrada de igrejas e organizações e de rádio - vem tornando esse mundo sem lei ainda mais preocupante. O problema cresceu tanto que se tornou possível afirmar que a religião vem conduzindo parte dos negócios da radiodifusão. Estão hoje no ar emissoras - ou redes - católicas e evangélicas, de vários matizes, que são dirigidas, no todo ou em parte, por igrejas ou associações religiosas.

Isso contraria os fundamentos do Estado laico e da vida democrática, por motivos óbvios. Outra vez, citemos a Constituição, agora em seu artigo 19: "É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público". Ora, se o Estado não pode, sob nenhuma justificativa, deixar-se conduzir por interesses religiosos - exatamente para que todas as modalidades de fé recebam tratamento igual e tenham igualmente assegurados os seus direitos -, será que a radiodifusão, definida pela Constituição como "serviço público", poderia ser conduzida por esses mesmos interesses?

O que eles não deveriam fazer é comandar a radiodifusão. Para que seja efetivamente um serviço público, a radiodifusão precisa ser um serviço orientado por parâmetros laicos, exatamente como o Estado deve ser laico.

BUCCI, Eugênio. O Estado de Narciso: a comunicação pública a serviço da vaidade particular. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.


12.8.15

psicologia das massas


No fundo, toda religião é uma religião de amor para aqueles que a abraçam, e tende à crueldade e à intolerância para com os não seguidores.


7.8.15

declaração


Os enfurecidos não escrevem manifestos.



3.8.15

sem fechaduras nem trancas


Na casa da Alameda Santo numero 8 não havia uma única chave. Os buracos das velhas e enferrujadas fechaduras viviam entupidos de papel amassado, vetando a eventuais olhos indiscretos a possibilidade de uma espiada no interior dos quartos de dormir. As portas de entrada eram fechadas por frágeis ferrolhos internos, mas na da cozinha não havia nem mesmo isso, e, durante a noite, uma cadeira a mantinha encostada. As duas portas do terraço lateral, que separavam as paisagens de tzi Ró, eram facilmente arrombáveis. Havia um ponto exato onde forçar com o ombro: bastava comprimi-lo de leve e a porta se abria na maciota, sem fazer o mínimo ruído. Todos os de casa usavam este método, prático e simples. O pesado portão de ferro trabalhado - única beleza da fachada - passava o dia inteiro aberto e, à noite, apenas encostado. Por ele entrava-se para a residência e para a oficina mecânica. O portão dos fundos, de madeira, que dava para a Consolação, servia apenas à garagem.

Nunca tivemos medo, nem mesmo pensamos, que um ladrão pudesse invadir nossa casa durante a noite. Não possuíamos nada de valor e os gatunos sabiam muito bem escolher suas vítimas. Os ladrões de antigamente eram inteligentes e conscienciosos, deixavam os pobres em paz. Dormíamos tranquilos.

Zélia Gattai | 1984